CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

31 de outubro de 2010

Memorial Amazonense XXXVII

Em 31 de outubro de 1954, na Catedral de Manaus, Dom Alberto Ramos ordenou o padre Luiz Augusto de Lima Ruas.

Jornal Em Tempo. Manaus, 12 nov. 2004


Padre Ruas iniciou a função sacerdotal no bairro de São Jorge, que se implantava na cidade. Sem local próprio para a celebração, o novo vigário celebrava missas e outras atividades religiosas em residências de paroquianos. É considerado o primeiro pároco de São Jorge. Também exerceu o ministério sacerdotal nas paróquias de Educandos, Colônia Oliveira Machado, dos Remédios, onde se despediu da atividade religiosa, Sagrado Coração de Jesus, na rua Ferreira Pena, e Nossa Senhora das Dores, na Redenção.


L. Ruas, como assinava, se destacou em várias atividades, em especial nas artes da prosa e do verso. Para melhor lembrá-lo, transcrevo um poema publicado em O Jornal, 26 nov. 1961.
Morreu em 1º de abril de 2000.


l. ruas

a picasso de 1935 a 1946

esta face é irreal
esta face real.
impossível ver as coisas
com olhar horizontal

as linhas se prostituem
muito aquém do objetivo.
e os olhos mal redescobrem
o real tão irreal.

é preciso refazer
esta face ambiguidade
e revelar sem cautela
a nova face total.

olho-fronte
olho-lábio
olho-mão
e coração.

é vão supor ver além
deste ângulo visual
e gerar na tinta o signo
do teu querer paralítico.

cem olhos seriam poucos:
apenas tangenciariam
a carapaça do ser
apenas confundiriam
inda mais a dança frouxa
e alucinada das linhas
que ocultam rosas e crimes.

quanto mais o olhar deslocas
para o queixo
para a testa
para o ventre
mais se envolve o ser-largata
em seu casulo – em ti mesmo
e se conspurca nas cores.

e é parvo teu dom. apenas:
angústia-de-ver cativa
do cárcere-superfície
das linhas limitativas.

Resultado das "minhas" eleições

Encerradas as eleições, apurados os votos e conhecido o resultado, estou de ressaca diante do tamanho da surra (estadual e federal) que levei, por isso, entrei de férias. Não pensei em trocar de domicílio eleitoral, porque já penso no pleito de daqui a dois anos.
Sigo falando de fatos passados, porque eles possuem  o dom da  lembrança distante e, portanto, indolor. No máximo, acarreta um pouco de paixão, que se acaba na primeira esquina.

O autor com o
Conselheiro
Um dia em Canudos (BA), descobri um local onde se come literatura: Os Sertões - Restaurante & Pizzaria. Preferi a pizza de carne de bode. Delícia.


Faz entrega - experimenta
Aproveitei para "conversar" com o Conselheiro, que me relembrou o final da campanha de Canudos em 5 de outubro. Há 113 anos passados. Lembrou-me ainda o prêmio que levou o "canudista" Vargas Llosa, atual Nobel de Literatura. Então, vou continuar me esforçando com o tema, amigo Zemaria Pinto. Apesar dos entraves, quem sabe não ultrapasse a próxima etapa?
A propósito, a Polícia Militar do Amazonas prepara-se para relembrar o retorno de sua tropa enviada contra Canudos, em 1897. 


30 de outubro de 2010

Baile de Formatura

Na noite de hoje, ocorre o baile que encerra a programação de formatura dos bacharéis em Serviço Social da Faculdade FACEB-Projeção, em Brasília.

A colação de grau foi realizada a 20 de agosto, ocasião em que o diretor da instituição, Marcelo Araújo, lembrou a importância histórica desta colação. Trata-se da primeira turma de Serviço Social, por isso, considerados os “pioneiros”.

Valeria Souza, ao receber o diploma

Entre os formandos, a amazonense Valeria Souza Pereira de Oliveira, residente na capital federal. Meu entusiasmo se deve a uma singular condição: a bacharela é minha filha.
E, conhecendo a disposição dela para a luta em vários campos, sei que ela saberá cumprir com garra e determinação sua nova missão. A propósito, já vem aplicando seus conhecimentos em órgão federal.

Sucesso e mais sucesso, Doutora Valeria!

Livraria Acadêmica II

Rogel Samuel escrevendo sobre Benjamin Sanches, passou pela Livraria Acadêmica, tendo me enviado o comentário seguinte:

Leio no excelente Blog do coronel que a Livraria Acadêmica de Manaus fechou as portas em 2009. Eu saberia se tivesse ido a Manaus, pois era um dos lugares aonde sempre ia, desde a adolescência. 
“Fundada em 1912, este estabelecimento fechou as portas ano passado. Agora, o edifício passa por reformas e, certamente, ali não mais haverá livros nem papéis. Nem o acolhimento fidalgo do seu Barata. Restará apenas saudades pelo fim do mais antigo templo ocupado pelos leitores da cidade” escreveu Roberto Mendonça.
“O Estado, por iniciativa da Secretaria de Cultura, já transferiu o que restou do acervo da Acadêmica para o Centro Cultural Palácio Rio Branco. Merece ser visitado, aproveitando o visitante para estender os olhos pelos outros seletos ambientes”, acrescentou.
Numa de minhas idas à Acadêmica, comprei um raríssimo exemplar de “Argila”, de Benjamin Sanches, com a bela capa de Moacir Andrade.
O livro estava tão escondido no fundo da sala, que o Sr. Barata não queria vender-me, pois não sabia o preço.

Onde andarão aquelas gigantescas estantes de madeira? E o passado, ali recolhido?
Aquela livraria teve muito a ver comigo: Foi uma das poucas livrarias de Manaus que comprou o meu “O amante das amazonas” diretamente da Editora Itatiaia.

Termino reproduzindo um poema de “Argila”, chamado “”:

Ver
sem
bem
crer.
Crer
sem
bem
ver.
Crer
é
fé.
Ver
não
é.
Argila, Manaus, Sérgio Cardoso, 1957


Rogel:

Suas angústias são pertinentes, afinal tem-se notícias de tantos acervos bem construídos que passaram às prateleiras de “sebos”. Tranquilize-se, o material da Livraria Acadêmica, em sua maior parte, agora compõe uma sala do Centro Cultural Palácio Rio Branco, ali onde serviu de sede para a Assembleia Legislativa do Amazonas.
Outra iniciativa benfazeja foi a produção de um CD-vídeo – Memória da Livraria Acadêmica (1912-2009), material produzido pelo filho do seu Antonio, o Humberto (Beto) Barata, distribuído apenas para os saudosistas, pois se trata ainda de trabalho artesanal.


A Tarde. Manaus,
16 maio 1960
 Para encerrar, reproduzo a Fé, de Sanches, e a Fé, de Aureo Mello, encontradas em jornais de Manaus.

O Jornal, Manaus, 20 agosto 1944






28 de outubro de 2010

BOMBEIROS DO AMAZONAS (XV)

Em dezembro de 1972, o governador João Walter (1971-75) baixou o decreto nº 2425 (Organização básica da Polícia Militar), para reestruturar a força militar do Estado. Entre as mudanças inseridas, destaque para a criação da Rádio Patrulha, instalada na avenida Duque de Caxias; da Companhia de Trânsito, alojada no flanco esquerdo do quartel do Comando Geral, onde estivera na década de 1940 o serviço de Bombeiros; da Polícia Rodoviária, com sede no entroncamento das avenidas Recife e Constantino Nery, hoje ocupado por unidade dos Bombeiros; e o Corpo de Bombeiros, em incorporação.

Zuavo no quartel da
PMAM

Concluído o processo administrativo, em 23 de janeiro, o serviço de extinção de incêndios passou à esfera estadual, abrigado na Polícia Militar do Amazonas. Transcorrera, desde a separação de 1951, pouco mais de duas décadas de muitos acidentes e dilatadas misérias. Chegara o momento de crescer, de prosperar, por isso, rejubilavam-se os municipais.


Ao Estado, representado pela Polícia Militar, cabia contratualmente o direito de selecionar os oficiais e os praças do extinto Corpo de Bombeiros de Manaus. E, de acordo com suas especializações, distribuí-los em quadros especiais. O selecionamento esteve a cargo do major Pedro Câmara, nomeado comandante do Corpo, o primeiro nesta nova fase. A seleção, que adiante será apreciada, produziu graves e profundos desacertos.
Osias Lopes
Secundavam-no, o capitão Roberto Mendonça, autor deste espaço, e meia dúzia de jovens e vibrantes oficiais da milícia estadual. Pela ordem: capitão Odorico Alfaia Filho, tenentes Osias Lopes da Silva; Carlos Alberto de Sales; José Cabral Jafra; José Menezes Pinheiro; Nestor Arnaud Barbosa. Acrescido do tenente Nicanor Gomes da Silva, do extinto corpo municipal.

Os bens móveis de domínio do município, utilizados pelo Corpo de Bombeiros, passaram à gerência do Estado. Outras medidas impostas pela convenção: a dotação de Cr$ 700.000,00 (setecentos mil cruzeiros), por parte da Prefeitura de Manaus, para a construção do quartel do Corpo; para a manutenção da nova organização, 100.000,00 (cem mil cruzeiros) mensal, com reajuste anual, de acordo com a disponibilidade da Prefeitura.


Para a regularização do terreno onde hoje se encontra o Quartel do Corpo de Bombeiros, no bairro de Petrópolis, a Prefeitura realizaria o pagamento de cento e cinquenta mil cruzeiros ao Hospital Adriano Jorge, pertencente ao Governo Federal.

Quartel dos Bombeiros, em Petrópolis. A Crítica, 4 set 1974
Em caso de desistência do Governo Estadual, hipótese em que o serviço retornaria à responsabilidade do Município, a área da rua Codajás, em Petrópolis, destinada a construção do aquartelamento, e o terreno localizado à rua Recife (ao lado da extinta boate Acapulco), hoje em disputa judicial, passaram à administração do Estado.

Terreno dos Bombeiros na rua Recife, em litígio
O Estado, em cumprimento de suas obrigações, importou da Mercedes Benz na Alemanha, aproveitando os incentivos da Zona Franca de Manaus (ZFM), uma dezena de viaturas especializadas e adequadas ao serviço. Algumas, pelo ineditismo na região, turbinaram o sucesso do “novo” Corpo.
O sucesso deslumbrou tanto aos técnicos quanto aos beneficiados, a população, dessa maneira restaurava o respeito e a crença na entidade que sobreviveu arrostando incontáveis e inacreditáveis sacrifícios.
A incorporação estava concretizada, reunindo duas instituições após mais de duas décadas de afastamento. Os esforços governamentais carreados iam ao sentido de oferecer serviço compatível com o desenvolvimento da metrópole.
Inauguração do equipamento importado. A Crítica, 4 set 1974

Saliento que, de parte da Polícia Militar, as diligências foram múltiplas, porém pautadas pela Inspetoria Geral das Polícias Militares. A seleção do pessoal incorporado foi realizada debaixo de normas rígidas e com tal sisudez que os oficiais submetidos à seleção, alguns deles ex-comandantes, não receberam o respeito nem a dignidade do posto. Por isso, vi rolar lágrimas e ouvi lamentos pesados de familiares desses falecidos oficiais, atingidos pela Revolução e, sabe Deus, passíveis de indenização, como tantas que abarrotam bolsos pelo País.

27 de outubro de 2010

Eleições no Amazonas II


As eleições do próximo domingo pedem reflexão, para isso, reproduzo o texto de um escritor fantástico, ao mesmo tempo político, conhecedor bem das entranhas dessa atividade. Ramayana de Chevalier notabilizou-se na defesa e no ataque a políticos, tanto em Manaus quanto no Rio de Janeiro. Possuía a pena afiada e bem paga. Deixou lições. Uma delas publicada em Jornal do Commercio, em 25 set. 1958.

No Amazonas, em 1958, quando foi candidato a deputado estadual, estabeleceu seu comitê no Hotel Amazonas. E, talvez no Mandy´s bar (anexo ao hotel), produziu uma série de crônicas para divulgar sua campanha. Foi, entretanto, reprovado.


ALEGRIA


Quando Frederico Nietzsche, do fundo de sua caverna lôbrega, afirmava que Jesus só pregava o amor ao próximo, porque não conhecia a democracia, estava em transe de iluminação. A democracia é irmã gêmea da demagogia e esta, filha dileta do diabo.

O político profissional tudo promete, certo de que irá se manter com um milésimo do prometido. Sorri, como as figuras torvas do submundo parisiense: de esgar. Aperta mãos com a solicitude dos carteiros. Tira o chapéu quando o usa, como um mágico do palco, para que surja dele uma surpresa. E, nos comícios, alteia a voz com ênfase, numa coleção abjeta de lugares comuns que todas as bocas mentirosas já repetiram; inflama os olhos; suspende o dedo em riste como se agitasse um látego; submete-se a uma falsa atitude humilde, como se fora um servente obscuro da grande massa eleitoral.

Quando ele defende uma tese social, quando está do lado do povo, aconselhando-o, pregando, doutrinando, então é feliz. Pode ser sincero. O seu entusiasmo é contagiante, é quase puro, é vivo e ardente. Sem o povo, ele falseia e mente, intriga e infama, apedreja e gargalha, cospe nas tradições e rasga os cânones mais nobres da espécie.

O político profissional é uma pobre criatura que tem que se defender do seu maior inimigo: o eleitor inconsciente. Este é o verdugo e a vítima. Sente-se enorme às vésperas do pleito, como sabe que é um verme, no resto do tempo. E quando não possui a consciência cívica, gloriosa e alta, que lhe empresta o poder seletivo, o condão de escolher, então rasteja e sacode-se como um chacal. Pretende escravizar moralmente o político, como este o maneja socialmente. O eleitor inconsciente só vê uma coisa às vésperas do pleito: o seu interesse. Insinua, difama, toma dinheiro, ou empavona-se em chefete, procura dirigir o candidato, absorver-lhe a atenção, empolgar-lhe a atividade, arrastá-lo para si como um joguete sem vontade e sem critério. E engendra despesas imaginárias como um Einstein, inventa contas como um botequineiro.

Disse-me o meu amigo Ruy Araujo, brilhante candidato a deputado federal, que, se fossem verdadeiros os livros de fichas eleitorais que apresentam esses forjadores de fantasmas, o eleitorado amazonense seria maior que o de São Paulo. Se o político profissional é algo de sórdido, o eleitor profissional é muito mais sujo. E chato.

No fundo, ele vota num interesse, não vota num homem. E alicia a opinião do povo humilde, com a esperteza de uma víbora. Tenho alergias por estes sacripantas. O seu contato me é nefasto. Creio no povo, modesto e bom, que enche este mundo.

Se os peitos eleitorais se passassem com elevação, sem arreganhos, sem cachaça e sem demagogia, então valia a pena tentar-se a defesa de uma tese social, de uma doutrina política sadia.

Quando vejo um desses eleitores profissionais aproximando-se de mim, arrogante ou de sorriso número cinco a tiracolo, tenho vontade de mandá-lo para o lugar aonde Pilatos mandou o inventor do sabonete.

Tenho uma invencível vontade de trabalhar pela minha gente, de dar de mim pelos humildes do nosso Estado. Mas o processo me constrange. Gostaria que tudo se passasse entre pessoas conscientes, entre almas compreensíveis, entre vocações patrióticas definitivas. Se, para ser político, é preciso abdicar de tudo isso, então já não contem comigo. Sou alérgico ao cinismo.

25 de outubro de 2010

Espaço Cultural V

A Livraria Saraiva Megastore e a Editora Valer têm a satisfação de convidá-lo para a palestra “A Poesia Parnaso-Simbolista” e o lançamento do livro Poesia e poetas do Parnasianismo, Simbolismo, Pré-Modernismo, organizado pelos professores Marcos Frederico Krüger e Tenório Telles, que acontecerá a 29 de outubro, às 17h, na Livraria Saraiva Megastore, do Manauara Shopping.
Poesia e poetas do Parnasianismo, Simbolismo e Pré-Modernismo apresenta uma reunião de poemas de autores de três importantes momentos da Literatura Brasileira, em que cada um é explicado por estudos introdutórios, onde são apresentados: o contexto histórico em que surgiram, as principais características, os autores e as obras mais expressivas, além de uma pequena reunião de poemas dos escritores selecionados.


O livro foi concebido com o objetivo de despertar, nos leitores, o interesse e o prazer da descoberta de alguns dos mais destacados poetas da nossa literatura. Estudá-lo é uma oportunidade de conhecimento das nossas letras. A leitura da poesia de Olavo Bilac, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira, Cruz e Souza, Augusto dos Anjos, entre outros, será uma experiência enriquecedora e transformadora, em especial pela beleza e conteúdo humano da obra desses poetas.
O que se pretende é que, a partir do contato com estes textos, o leitor sinta-se estimulado a aprofundar seus conhecimentos e buscar outras obras desses poetas e de outros das diversas escolas da literatura nacional.
Percorrer as páginas desta antologia é uma oportunidade de encontrar com a palavra encantada de alguns dos mais expressivos poetas de nossas letras. Poesia e poetas do Parnasianismo, Simbolismo e Pré-Modernismo é a terceira antologia organizada por Marcos Frederico Krüger e Tenório Telles. As primeiras foram Poesia e Poetas do Amazonas (2006) e Antologia do Conto do Amazonas (2009).

24 de outubro de 2010

Manáos versus Manaus V

1669 - A cidade de Manaus relembra hoje os 341 anos de sua fundação. Os jornais capricharam na homenagem, com diversas iniciativas. Algumas dessas, porém, pecaram gravemente contra a capital do Amazonas. Em especial a visão de alguns migrantes bem sucedidos publicados no jornal A Crítica.
Não importa, importa que tenhamos crescido, evoluido ainda que com restrições, como ocorreu com tantas cidades do País.

Encontro das águas dos rios Negro e Solimões, que sinaliza
a cidade de Manaus (AM)
1848 – A Assembléia Provincial do Pará, consoante a lei nº 145, eleva o Lugar da Barra a categoria de cidade, com a denominação de Nossa Senhora da Conceição da Barra do Rio Negro. Essa designação foi mantida até 1856, quando tomou em definitivo a de Manáos e, posteriormente, de Manaus.


1864 – Nasce na capital da Bahia, Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa, filho de Felipe Guilherme de Miranda Lisboa, oficial do Exército, e de Olympia Rosa M. Lisboa. Ainda de berço foi conduzido para Belém (PA), por motivo de transferência funcional do seu genitor.

Adolpho Lisboa, 1906
Na capital paraense, foi incluído no Exército. Casou-se com Laura Leduc, em 1886, e deste consórcio nasceu, em 1892, a filha Alcida Leduc Lisboa.
No início do século XX, transferido para Manaus, foi nomeado coronel comandante do Regimento Militar do Estado, hoje Polícia Militar. Mais adiante, durante o governo dos irmãos Nery (1900-07), foi prefeito da capital amazonense. Reformado em 1908, retornou à capital paraense, onde morreu em 19 de outubro de 1913.

 1969 – Tem início os trabalhos de construção da fábrica de jóias BETA, situada na rua Belo Horizonte esquina com a rua Recife, em Adrianópolis. A solenidade fez parte das comemorações do Tricentenário de Manaus, celebrado em 1969, quando era prefeito de Manaus, Paulo Pinto Nery.
Seguindo o conselho de um amigo, não procure a Beta, pois ela já desapareceu mesmo. No local, hoje cresce uma torre com salas de escritório.



23 de outubro de 2010

Marcha da sobrevivência II

Para atender orientação de alguns participantes, devo esclarecer que o exercício promovido pela Polícia Militar do Amazonas, há 40 anos, possuía a denominação de Marcha de Resistência e Sobrevivência. Realizadas em duas ocasiões. Na primeira, a tropa saiu em direção à Itacoatiara a partir da Ponte da Bolívia, ou da Barreira, como hoje é conhecido o local.
A segunda partiu do quartel do comando geral da corporação, na Praça da Polícia. A mesma que relembrei há dias. 
Osorio Fonseca relembrando
a Marcha, em 2010

Preciso, de igual maneira, relacionar o pessoal componente da  marcha. A direção maior estava com o tenente-coronel Helcio Motta; mas a operacionalidade cabia ao major Pedro Câmara. Seguiam ainda o capitão Osório Fonseca e os tenentes Osias Lopes e Daniel Mar.  
Falei em 40 praças, mas seguiram apenas 21. Os sargentos Mesquita; Araújo; Pedrosa; Viana e Crispim. E mais, os cabos Lima; Neves; Afonso (corneteiro); Barata e Penalber. E os soldados Barbosa; Almires (enfermeiro); Jesus (motorista); Marinho; Rocha; Dourado; Aguiar; Martins e Pereira Pinto; Jessé e Leal.
Em Itacoatiara, era delegado de polícia o finado Alfredo Assante Dias, então tenente da Polícia Militar.

Pelé - 70 anos

Hoje, nos jornais de todos os formatos o Pelé estará lembrado pelos seus 70 anos. Os jornalistas listaram os setenta melhores momentos do "Rei do futebol". Certamente, nada sobrou para este escriba. Mas, catando nos jornais da província, vou relembrar quatro momentos do nosso aniversariante. Que ele nos proporcione outros tantos bons momentos!

O Jornal. 5 abril 1970

A primeira viagem de Pelé a Manaus ocorreu com o time do Santos, em 1968. Antes do Vivaldão, e ao tempo do presidente da FAF, Flaviano Limongi. O time paulista ficou hospedado na Maromba e jogou contra o Nacional no estádio Ismael Benigno, do São Raimundo.

Dois anos depois, Pelé voltou, agora com a seleção brasileira, para pré-inaugurar o Vivaldão. A festa foi completa, com a apresentação dos convocados para o selecionado brasileiro, incluindo alguns jogadores locais.
Pelé, na ocasião, recebeu a visita de seu amigo Silvio (Cururu) Moreira (então um esperto moleque, deficiente físico). 

Enfim, em outubro de 1971, quando Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, antes de outro jogo contra o Nacional, recebeu das mãos do governador João Walter o diploma de Cidadão do Amazonas. No dia seguinte, antes do retorno, Pelé foi visitar as Irmãs que assistiam aos hansenianos no sanatório existente no Aleixo. No canto esquerdo da foto, revejo meu amigo Orleilson Guimarães, fiel escudeiro do "Rei".
A Crítica, Manaus, 8 outubro 1971

A Crítica. Manaus, 7 outubro 1971
Agora, sabedor de que Pelé é meu conterrâneo, tomo a liberdade de abrir uma gelada para acompanhar aquele "bicho de casco". No mais, vida longa para o "Rei"!

22 de outubro de 2010

BOMBEIROS DO AMAZONAS (XIV)


Estando decidida a transferência do Corpo de Bombeiros para a estrutura do Estado e da Polícia Militar do Amazonas, em dezembro de 1972, desembarcou aqui uma “missão francesa”, sob os auspícios da Aliance Française local, representada por mr Ange Guimera, vice-cônsul francês, e mr Guy Mourillas.

O grupo veio chefiado pelo coronel Robert Abadie, do Corpo de Bombeiros de Paris (FRA), assessorado por monsieurs Jean François Veillard, representante da empresa CAMIVA (Constructeurs Associés de Matériels d´Incendie, Voirie, Aviation), e Michael Haudebault, do Groupe Sicli - Bureau Commercial Parisien. E realizou estudos fotográficos aéreos e terrestres, para diagnosticar os riscos de incêndios existentes na cidade de Manaus, bem como para elaborar um diagnóstico das precariedades do CBM.

Quartel dos Bombeiros, na av Sete de Setembro, em 1973
O resumo da vistoria técnica, em forma de Memorial, alcançou as autoridades em Manaus (AM), todavia, logo foi desprezado. Dois anos depois, o Corpo de Bombeiros voltou a ser aparelhado, porém, com equipamentos importados da Alemanha.

Em 23 de janeiro de 1973 ocorreu a solenidade de incorporação do Corpo de Bombeiros de Manaus à Polícia Militar do Amazonas. Reencontravam-se após mais de duas décadas, na avenida Sete de Setembro, onde estiveram abrigados no afastado 1936 (quando da reativação da PMAM).


Tropa de bombeiros no quartel
da Sete de Setembro

O evento foi realizado no acanhado quartel do Corpo, adaptado para tal finalidade há mais de quatro décadas. Três aberturas na frente serviam para a circulação de pessoal e de viaturas. A movimentação destas ocupava a própria avenida, que acolhia um fluxo constante de veículos, pois então servia de ligação entre os bairros situados na Zona Sul e o próprio Centro.

Em precário estado, os bombeiros possuíam três viaturas, denominadas de ABT (Auto Bomba Tanque), que o vulgo prefere denominar de carro-pipa. Serviam para combater incêndios e com mais agrado aos motoristas do corpo para distribuir água (isso mesmo, sempre faltou água em Manaus). Os motoristas compraziam-se em distribuir o precioso líquido, mais precioso ainda para eles, pois, enchendo alguns tanques ou camburões particulares, recebiam algum trocado. Por isso, os pilotos apelidaram carinhosamente aos ABT de mamãe Dolores.

Na manhã de 23, o major PM Pedro Câmara recebeu do major CB Nicanor Gomes da Silva o Corpo de Bombeiros de Manaus, em uma solenidade estritamente militar. Dela, apesar da significação histórica, não há qualquer registro jornalístico, muito embora existissem em circulação vários jornais, além de rádios AM e a FM Tropical, as TVs Ajuricaba (canal 20) e Baré (canal 4).

Nada foi noticiado (censura?), por se tratar de solenidade com tropas militares ou para escamotear a inconcebível situação dos homens do fogo?

Major Nicanor salvando
A singeleza da solenidade foi patente, relembra o último comandante dos bombeiros municipais: “nada de convidados, a mais destacada autoridade presente foi o comandante geral da PMAM, coronel Paulo Figueiredo”. A fim de abrigar a pequena tropa, foram retiradas as viaturas do quartel, e pronto! Não houve sequer a indefectível ordem do dia, tampouco coquetel.

Os até então sofridos Bombeiros de Manaus não viam a hora de recomeçar uma nova e prestigiosa etapa profissional. (segue)



21 de outubro de 2010

Livraria Acadêmica (1912-2009)

Última foto, em agosto 2009
Fundada em 1912, este estabelecimento fechou as portas   ano passado. Agora, o edifício passa por reformas e, certamente, ali não mais haverá livros nem papéis. Nem o acolhimento fidalgo do seu Barata. Restará apenas saudades pelo fim do mais antigo templo ocupado pelos leitores da cidade.
O Jornal. Manaus, 1949
O Estado, por iniciativa da Secretaria de Cultura, já transferiu o que restou do acervo da Acadêmica para o Centro Cultural Palácio Rio Branco. Merece ser visitado, aproveitando o visitante para estender os olhos pelos outros seletos ambientes.

Em homenagem à última livraria da rua Henrique Martins, reproduzo um texto publicado em jornal local, reminiscência do saudoso Tude Gomes da Costa, um anúncio comercial e, creio, a última foto do prédio.



Jornal do Commercio. Manaus, 13 dezembro 1981
 

20 de outubro de 2010

Mudança do visual

Detalhe do monumento
abertura dos portos, Manaus

Depois de meses vendo a mesma figura, com repetição dos mesmos recursos, decidi renovar. Acrescentei meu nome ao blog, mantive a marca da vida amazônica, esperando que este meu "barco" navegue com segurança por novos rios e igarapés. Espero melhorar. Vou apresentar algo de novo, a fim de consolidar a presença entre visitantes.

19 de outubro de 2010

BOMBEIROS DO AMAZONAS (XIII)

No início da década de 1970 os Bombeiros permaneciam sob a administração municipal e estavam aquartelados na av. Sete de Setembro. Era evidente a melhoria do serviço, talvez porque o prefeito Paulo Nery tomara a iniciativa ou talvez fora exigido pelo Governo Militar.

Quartel dos Bombeiros entre 1963-1974,
hoje abandonado
A partir de outubro de 1972 tem início o derradeiro ato da era municipal, espaço que perdurou por 22 anos (1951-73). Os municipais encaram a despedida, visto que os acertos governamentais estavam definidos para o retorno dos serviços à órbita estadual. A Lei n.º 1146, de 12 de outubro, já aprovara "o convênio firmado entre o Estado do Amazonas e a Prefeitura de Manaus, sobre os serviços de incêndios, combate ao fogo e socorros públicos”.

Aproximava-se o momento de rearrumar os troços, para a mudança. Sem muita mão-de-obra, afinal tudo se manteria no mesmo local, apenas novos comandantes dariam novas ordens.


Ideando reequipar a capital amazonense de serviço qualificado de combate a incêndios e socorros públicos, os governos do Estado e do Município aprofundaram os contatos. 
Paulo Nery
Os personagens destacados dessa nova etapa foram o Governador, João Walter de Andrade (1971-1975), e o Prefeito, Paulo Pinto Nery (1965-1972). De igual modo, mas com maior importância, os comandantes da Polícia Militar do Amazonas (Pmam), coronel Paulo Figueiredo Andrade de Oliveira (1971-1973), e do Corpo de Bombeiros de Manaus (CBM), major Nicanor Gomes da Silva (1970-1973). Apesar de tantos sobrenomes, o artífice destacado da empreitada foi o comandante da Pmam.

Amparado pela legislação emanada do Governo Militar (1964-1985), o coronel Paulo Figueiredo encetou as providências cabíveis que resultaram na incorporação do serviço de extinção de incêndios à PMAM. Esse arrojado plano, em determinado momento, o comandante do CBM conheceu e passou, de maneira restrita, a colaborar.
Na ocasião, o major Nicanor Silva muito se alegrou, pois a perspectiva de acertado futuro para sua corporação - há muito sucateada e desmerecida, era promissor. O pessoal dos Bombeiros poderia aspirar aos novos benefícios e os habitantes de Manaus acreditar em um serviço estruturado e, certamente, confiável.

Já deliberada a incorporação, em dezembro de 1972, desembarcou em Manaus uma missão francesa. Na direção, estava monsieur Robert Abbadie, oficial superior dos Bombeiros de Paris, acompanhado de engenheiros civis. O grupo francês, ciceroneado pelos majores Pedro Câmara e Nicanor Silva, conheceu Manaus de cabo a rabo: do centro histórico à periferia, dos bairros bem situados às invasões nascentes e, nessa inspeção, alcança os barrancos da Ponta Negra.
Os visitantes hospedaram-se no extinto Ipanema Palace Hotel (rua José Clemente, 500), e alimentavam-se no restaurante Xodó (também desaparecido), instalado no cruzamento das ruas Dez de Julho com Tapajós.


Detalhe da fachada do extinto quartel
da Polícia Militar, em Manaus
De retorno à Paris, a equipe produziu um Memorial, expondo ao governo amazonense as necessidades materiais para a existência de adequada corporação de bombeiros. Este documento, tão cedo abandonado e hoje desaparecido, sugeria a aquisição de equipamentos – obviamente – da indústria francesa.
Mas, por força do cumprimento de regras licitatórias, essa sugestão foi superada e o Estado adquiriu equipamentos alemães. (segue)

18 de outubro de 2010

América Futebol Clube

Quem diria, o América Futebol Clube de Manaus rompeu a barreira alfabética do futebol, ao ingressar na categoria C. Pois é, conta o jornalista que ontem, em pleno domingo, ao invés de assistir ao Vasco ou Corinthians, preferiu o América contra o Joinville (SC). O sucesso no jogo permitia a mudança de categoria. 
Ele conta que foram - ele e o Amadeu Teixeira, fundador do clube, obrigados a assistir! o jogo pelo rádio. Não informou, porém, se a emissora era de Manaus.
Ao final, para júbilo da "enorme" torcida americana, o time passou para a Série C, deixando no buraco (chileno) os times de primeira linha no Amazonas.  
Parabéns ao Amadeu que, além de criador, é o suporte deste time. O time é dele, e ele o carregou para esta conquista. Assim, mais que os jogadores, aos 84 anos, o grande artilheiro se chama Amadeu Teixeira.

Rohmas desenhou para A Crítica. Manaus, 18 outubro 2010
Para mais e melhores informações sobre o futebol amazonense recorra ao Blog do Bau Velho: http://www.bauvelho.com.br/

Deu em... A Crítica


Nada indica que a charge do Myrria publicada hoje tenha sido encomendada para complementar o artigo postado ontem. De minha parte, grato.
Lembro que o texto anterior saiu das páginas do Estadão. Apenas um ligeiro reparo: a concessionária denomina-se Manaus Energia, não Amazonas.

A graça do chargista não esconde a negritude que a modernidade de Manaus exige. Ao contrário.


A Crítica. Manaus, 18 outubro 2010


17 de outubro de 2010

Deu no... O Estado de São Paulo


Manaus vira a capital nacional do apagão
Interrupções no fornecimento de energia elétrica têm se tornado rotina para os moradores da capital do Amazonas nos últimos meses
17 de outubro de 2010. Renée Pereira - O Estado de S. Paulo


Nos últimos meses, Manaus deixou de ser apenas o principal centro financeiro e econômico da Região Norte para ser a capital do apagão. Lá, as interrupções de energia elétrica, que antes ocorriam esporadicamente, viraram rotina na vida de moradores, empresários e multinacionais da Grande Manaus. Tudo isso porque os investimentos na rede de distribuição não acompanharam a demanda.

Diante do caos energético da capital amazonense, onde se localiza um importante polo industrial de eletroeletrônicos e veículos sobre duas rodas, Brasília resolveu agir. Por determinação do presidente Lula, uma comitiva liderada pelo ministro de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, desembarcou na cidade no início do mês para anunciar um plano emergencial, que já começou a ser implementado.

"Até o fim do ano, vamos deixar Manaus com um bom atendimento de energia", garante José Antônio Muniz, presidente da Eletrobrás, que controla a distribuidora Amazonas Energia.
O plano inclui a troca de 425 transformadores em alguns bairros da cidade, o que deve aumentar a capacidade da rede de distribuição e dar mais confiabilidade ao abastecimento, afirma Muniz. Outros 575 equipamentos deverão ser substituídos nos próximos meses.

A pergunta que a população local faz ao executivo é: por que essa medida não foi tomada antes que houvesse a propagação dos desligamentos? Uma das respostas está ligada aos prejuízos milionários que as estatais amargaram nos últimos anos e reduziram a capacidade de investimento. Mas a explicação também está associada à falta de planejamento.

Demanda maior. Muniz reconhece que o crescimento da demanda, de 14% no ano, não era esperado pela empresa de distribuição, já que a média nacional estava em torno de 9%. De fato, a população local avançou para áreas mais afastadas do centro, novos empreendimentos comerciais foram abertos (como um novo shopping center e grandes redes de supermercados) e a produção industrial da Zona Franca aumentou de forma significativa com a demanda nacional por eletroeletrônicos.

Enquanto isso, a rede de distribuição continuou no mesmo nível - em algumas áreas houve forte degradação. Empresários e representantes do setor produtivo relatam que a deficiência da rede chegou ao ponto de a distribuidora ter de determinar o desligamento de algumas áreas para evitar um efeito dominó na cidade durante picos de consumo. O presidente da Eletrobrás negou que a operação tenha sido adotada e desmentiu a declaração dada por um técnico da empresa.

Isso não significa, no entanto, que a conta de luz da população dos Estados do Norte é barata. Pelo contrário. Está no mesmo nível das Regiões Sul e Sudeste. "Além de cara, é de péssima qualidade. Semana passada, o Rio ficou cinco minutos sem energia e causou uma grande polêmica. Aqui, ficamos cinco minutos sem energia todos os dias e ninguém faz nada", afirma o empresário Raul Andrade, dono de uma rede de restaurantes.
Andrade e Bandeira estão liderando, ao lado do presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Manaus, Ezra Benzion, um abaixo-assinado para reivindicar melhorias no sistema. A intenção é levar o documento até Brasília e ter uma resposta mais rápida. "No Brasil, temos o custo Brasil. Aqui, temos o custo Manaus", reclama Andrade.

O presidente do Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares de Manaus, Wilson Périco, destaca que o problema já era para ter explodido se a crise mundial não tivesse arrefecido a atividade econômica. Ele conta que, em 2008, o setor elétrico local já havia apresentado sinais de estrangulamento.
Périco afirma que, para evitar ainda mais prejuízos, boa parte da indústria se equipou com geradores elétricos e "nobreaks".

Centro histórico de Manaus, vendo-se o Teatro Amazonas

É assim que o Governo Federal do companheiro Lula trata a população de Manaus. Trata o Polo Industrial de Manaus. Tá na hora de mudar esse quadro.







16 de outubro de 2010

Espaço Cultural V - Fordlândia


Capa do livro

Quando a revista Veja resenhou o livro Fordlândia: ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva (Rio: Rocco, 2010, 397p), de Greg Grandin e tradução de Nivaldo Montingelli Jr., logo me interessei em adquiri-lo. Esperava ler uma versão bem brasileira da aventura americana.
Nesse sentido, conversei com amigos nascidos naquela cidade, os quais igualmente ficaram animados com o lançamento. Encomendei a obra pela internet. Tão logo o Submarino me entregou, tratei de consumi-la, pois deveria repassar aos amigos.

Depressa observei que o trabalho do americano fora produzido para o público americano, e mais, para acadêmicos. Segui em frente. Observando o primeiro tropeço, uns disparates sobre Manaus, sapequei nesse espaço. Diante de outras topadas, porém, preparei-me para ao final resumir minhas apreciações, que espero tenham o cunho de acrescentar.

As legendas são tão deficientes, sem muitas explicações que se duvida que tenham pertencido ao grupo Ford. Como excessão, há uma foto desfocada de Santarém (PA) e de uma artista plástica. Nenhum registro do momento ou da locação atual existe, para servir de confrontação ou ilustração.

O original foi lançado em 2008. Em minha opinião, a versão brasileira surgiu com algumas irregularidades: a tradução não teve o melhor cuidado, assim como a revisão. Esse duplo descuido permitiu algumas barbáries, como a presumível morte de Diamond (p.200), entre 1933-34. “Assim ele deixou a plantação e embarcou num navio de gado de volta a Manaus. Quando o navio reduzia a velocidade para encostar na doca da cidade, Diamond olhou as águas escuras e viu sua saída. Subiu na grade e saltou para o meio de uma congregação de crocodilos.”

Tá certo que crocodilo e jacaré são parentes bem próximos, mas na região amazônica predomina o jacaré. Agora, "congregação de crocodilos" é morte fatal. Manaus não merece tanto. Como não merece o inchaço populacional (p.355), quando “passou de menos de 200 mil habitantes em meados dos anos 1960 para quase 3.000.000 hoje.” Mais uma contra Manaus: “Não há rede de esgotos na cidade e os resíduos flutuam sem tratamento para (sic) o rio Negro.”

Vista aérea de Manaus, a partir do Shopping Amazonas
Mas, por que a cidade de Manaus entra na história da Fordlândia? Porque Greg resolveu subir o rio Amazonas e tomar a Zona Franca como paradigma para comparar com a derrocada de Henry Ford.
Em resumo, o livro descreve a saga de americanos e de outros estrangeiros empenhados em reproduzir “o modo de pensar Ford” no Tapajós. No entanto, apenas meia dúzia de brasileiros é contemplada por Greg, nenhum com uma história modelar, todos são incriminados.

Por isso, não vou emprestar ao professor José Nogueira e ao mestre-de-música Beto “Blue Birds” o Fordlândia de Greg, porque ele esqueceu sem cerimônia dos nativos, dos caboclos. Preferiu fazer uma biografia de Henry Ford para os acadêmicos americanos.

15 de outubro de 2010

Festival de Fotografia



 Este festival tem um título bem simpático: Manaus: bem na foto, e ocorre de 16 até 24 de outubro. Tem muito sobre essa arte, exposições, palestras, maratona fotográfica e outras atividades em P&B e a cores.

Houve um pré-show no centro de exposições do Icbeu, na avenida Joaquim Nabuco, na noite de hoje. Além do champagne e do vinho, pudemos avaliar três artistas das lentes: Carlos Navarro, Jimmy Christian e Fernanda Preto.

Conheci o Navarro faz algum tempo. Do tempo em que ele ainda jovem desembarcou em Manaus para estruturar a Sonora, com sede na Cachoeirinha, a mesma que distribuiu a Love, a máquina fotográfica descartável.
Também nos libertou de A Favorita, que recolhia nossos filmes batidos e os mandava para revelar no Rio ou São Paulo. A espera permitia mil sonhos e pesadelos, na esperança de que tudo estivesse correto. Hoje, nem é bom falar em fotografia. Tanta tecnologia até atrapalha.

Capa do folder

Mas, enquanto a Sonora se foi de Manaus, Navarro ficou. Ficou mesmo, onde gerou alguns amazonenses e segue fotografando, expondo, ensinando e recebendo prêmios.

Amanhã às 19h ocorre a abertura solene no Centro Cultural Tribunal de Justiça, ali na avenida Eduardo Ribeiro. A festa será admirável, haverá fotógrafos "pra todo lado".


14 de outubro de 2010

Morte de Eduardo Ribeiro

Eduardo Ribeiro
Nessa data, há 110 anos, morria Eduardo Ribeiro, o primeiro governante do Amazonas a alcançar a fama. Cercado de segurança prestada por elementos da Polícia Militar, ele "conseguiu" suicidar-se. A fatalidade convulcionou Manaus, afinal, o morto desfrutava de prestígio e elevado reconhecimento público, quatro anos após deixar o Poder Executivo.
Mulato, nascido no Maranhão, graduou-se engenheiro militar e, nessa condição, desembarcou em Manaus. Registram seus biógrafos que essa transferência funcional ocorreu por "castigo", em virtude a preferência dela pela República. Durante décadas, o pessoal militar sabe bem, a região amazônica serviu de castigo para militares, seja por falta grave seja por péssima classificação escolar.

Grande ventura do tenente Ribeiro: a proclamação da República. O engajamento de militares no governo ensejou a presença de outros colegas no Amazonas. Esteve ao lado do primeiro governador republicano, tenente Ximeno de Villeroy que, ao deixar Manaus, deixou o subalterno na direção do governo.

No Amazonas, a consolidação da nova ordem no País fez-se com lutas. Já governador, Eduardo Ribeiro (alcunhado de O Pensador, em razão do jornal que dirigiu em São Luís) conseguiu sobrepujar os adversários, entre os quais os irmãos Silvério e Constantino Nery. Posteriormente, governadores do Amazonas e tidos como suspeitos pela morte do maranhense.


A morte encontrou Eduardo Ribeiro solteiro, sem família, residindo em sua chácara e, como sabido, cercado por segurança policial. Mas bastante enfermo, tratando-se da saúde mental, daí a explicação para a esdrúxula "causa mortis". Deixou grande fortuna. O inventário realizado pelas autoridades judiciárias contabiliza os valores, distribuídos em terrenos, imóveis, jóias e outros bens de menor peso. Abaixo, cópia da capa do processo.
O Doutor Emilio Bonifácio Ferreira de Almeida, Juiz Municipal de Órfãos, Ausentes e Interditos de Manaus, capital do estado do Amazonas, etc.


Havendo falecido hoje em sua chácara denominada Pensador, no bairro da Cachoeira Grande, desta cidade, o Doutor Eduardo Gonçalves Ribeiro, sem deixar herdeiros presentes, deixando, entretanto bens que devem ser devidamente acautelados, mando que o escrivão Nogueira, autuando este, intime os Doutores Curador Geral de Órfãos, Ausentes e Interditos e o Procurador Seccional da República, para o dia quinze do corrente, às nove horas no referido lugar, proceder-se à arrecadação e arrolamento de ditos bens, dos quais nomeia Curador o Doutor Amaro Carneiro Bezerra Cavalcanti, que também será intimado.


Cumpra

Manaus, 14 de outubro de 1900

Eu, Francisco Nogueira de Souza, escrivão, escrevi
a) Emilio Bonifácio Ferreira de Almeida



A documentação pertinente ainda se encontra nos arquivos do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Mas, apesar da abundância de objetos, nenhum subsistiu ao ataque dos “credores”. Em nossos dias, nada existe que tenha passado pelas mãos do “grande morto”.

Eduardo Ribeiro (busto) "admira" a esquina famosa
de Manaus: av Eduardo Ribeiro com Sete de Setembro


A Casa de Eduardo Ribeiro, inaugurada neste ano com belo ornamento, não possui qualquer lembrança do proprietário. Nela existem móveis de época, unicamente, adquiridos em antiquários fora de Manaus.

Não há uma biografia sobre o Pensador. Existem sim trabalhos parciais. O mais relevante – Negritude e Modernidade - pertence ao Governo do Amazonas, com texto do historiador Mário Ypiranga e outros colaboradores. Lembro o Dicionário Amazonense de Biografias, de Agnello Bittencourt. Ainda, preocuparam-se com as obras do morto mais que centenário: os acadêmicos Antonio Loureiro e Moacir Andrade, em texto jornalístico, e a historiadora Etelvina Garcia.
A morte de Eduardo Ribeiro segue envolvida em mistérios, embalada por opiniões disparatadas, e cada vez mais esquecida com o passar do tempo. Seu túmulo em área nobre do cemitério São João deixou de ser referência, no local, político morto mais jovem tomou-lhe o privilégio.
A Crítica. Manaus, março 1975

Tomara que seu nome continue batizando a avenida central de Manaus, a despeito de desprezada pela administração municipal; apesar de ter perdido a primazia para outras artérias, que hoje modernizam a Manaus sonhada, no distante final do século XIX, pelo maranhense Eduardo Ribeiro.


 

13 de outubro de 2010

Adolpho Lisboa (1862-1913)



Devo inicialmente me penintenciar: Adolpho Lisboa morreu em 10 de outubro de 1913, não a 13, como postei dias atrás. Para mim, a falta é grave, pois, como anuncio entre os livros próprios, encontra-se A Administração do coronel Lisboa (2008).
O texto que segue foi extraído deste livro, nele realizei uma biografia do coronel Adolpho Lisboa. Suas realizações quando prefeito de Manaus foram sinalizadas com este dístico, daí o título da obra.


Aproximadamente dois anos depois da morte da esposa Laura (1912) e cinco, afastado da prefeitura de Manaus, e em plena disputa judicial pelos bens entesourados, muitos adquiridos de forma fraudulenta, Adolpho Lisboa morreu em sua residência, em Belém. Era sexta-feira, 10 de outubro de 1913, às vésperas do Círio de Nazaré.

Identificado por coronel, ele dispunha de reconhecimento na praça como bem demonstrou periódico editado em Belém. No dia imediato, quando do enterro, o matutino publicou em marcada coluna, aparentemente encomendada, o necrológio do militar.
Há quatro anos que o finado veio de Manaus para esta capital e daqui embarcara para Paris, em passeio, o ano passado, regressando no mesmo ano. O coronel Lisboa era viúvo de dona Laura Leduc Lisboa, filha do Sr. Eduardo Leduc e dona Virginia Leduc, e do seu consórcio não deixa filhos.
REGISTRO FÚNEBRE
Coronel Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa
Faleceu ontem, às 9h 30 da manhã, em sua residência, à avenida Independência nº 9, acometido por nevrite gripal, o coronel Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa. O extinto exercera nesta capital, no governo [Augusto] Montenegro, o cargo de comandante do corpo de cavalaria e, em Manaus, o de comandante da brigada militar, no governo do Sr. Silvério Nery, desempenhando também o cargo de superintendente daquela capital na administração do general Constantino Nery.

Nascera no estado da Bahia, tinha 52 anos de idade e era filho do Sr. Guilherme de Miranda Lisboa e dona Olympia Lisboa. Os seus funerais efetuar-se-ão hoje, às 7h 30 da manhã, saindo o féretro da casa onde ocorreu o óbito para o cemitério de Santa Izabel.
No mesmo campo santo volta a se reunir o casal Laura e Adolpho, apesar de sepultados em jazigos distintos, devido ao pequeno transcurso entre o falecimento de ambos. Os jazigos estão na mesma parede, bem próximos, separados por alguns passos.
A certidão de óbito de Adolpho Lisboa foi expedida pelo Cartório do 1º Ofício. Para o extinto que servira tanto ao Exército quanto as Polícias Militares, por acordo de governadores amazônicos, julgava eu encerrada tão explosiva atividade. Ainda que morto, coronel Lisboa teima. Seu nome por algum tempo reverberou na planície amazônica, muito mais por seus defeitos. Ainda retumba com certa gravidade.
O cabo subfluvial ligava pelo telégrafo as duas metrópoles da borracha, e por extensão de certo êxito com a Europa. Foi este instrumento que permitiu um cabograma para o Jornal do Commercio, que noticiou o falecimento do ex-superintendente de Manaus. A edição do domingo (15.10) lembrou as festividades do Círio de Nazaré, transcreveu o telegrama fúnebre abaixo, e, ilustrando a notícia, reproduziu a fotogravura utilizada no aniversário do alcaide, em janeiro de 1905. Quando celebrou aquele natalício, a primeira página do recém instalado jornal não dispensou aplausos. Já a transcrição da nota telegráfica sobre o falecido coube na última página. Coisas de vida e de morte!
Antes do sétimo dia, o Exército noticia o falecimento do major reformado Adolpho Lisboa, cumprindo as providências de praxe. Bastante lacônico, “curto e grosso”, o registro definitivamente encerrava a participação deste na Força Terrestre. Lisboa, com certeza, não legou marca pessoal competente, quase sempre esteve afrontando os regulamentos. É possível que houvesse se desligado sem deixar apreços.
Belém, 11. Faleceu ontem nesta cidade o major reformado do exército Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa, que exerceu vários cargos estaduais nesta cidade e na de Manaus. O seu enterro realizou-se hoje, sendo bastante concorrido.
Na capital da Zona Franca, ainda subsistem obras da belle époque manauara ordenadas por Adolpho Lisboa. Para uns, atestado do descontrole financeiro deste, que parecia se comprazer em tripudiar a legalidade. Mas sobrevivem na margem esquerda do rio Negro cronistas que lhe reconhecem convincente labor administrativo.

Adolpho Lisboa vivera 52 anos, na condição de um homem controverso.

Coronel Lisboa foi comandante da PM
Um século depois, a despeito de toda mudança política, da modernidade alcançada e do avanço sistemático de costumes, o espectro do administrador Adolpho Lisboa, inconvenientemente exorcizado, segue atormentando a tantos e, à procura de julgamento histórico, ainda vaga por ruas e praças de Manaus.