CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

31 de outubro de 2011

ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS

O silogeu amazonense convida para a posse de seu novo acadêmico: Geraldo Xavier dos Anjos

Convite expedido pela Academia Amazonense de Letras

30 de outubro de 2011

PONTES DE MANAUS (3/4)

Após as quatro pontes construídas no governo de Eduardo Ribeiro, decorreram mais de três décadas até que o governo do Amazonas edificasse uma nova ponte. Ocorreu no governo de Efigênio Salles (1926-1930). Trata-se de outra ponte romana de pequeno porte (menos de duzentos metros), que serviu para extinguir o insulamento do bairro de Constantinópolis (agora Educandos).

Mas a história desta ponte tem outro componente, a própria comunidade, sob a liderança de Jacques Souza Lima, Júlio Barbosa e Pedro Telles, que fundam a Sociedade Esportiva de Constantinópolis. Isto e tudo sobre o bairro de Educandos quem melhor narra é o jornalista Cláudio Amazonas.

Detalhe do jornal comemorativo, editado por Cláudio Amazonas,
vendo-se o governador Efigênio Salles
Sucede que os moradores do bairro somente se ligavam com o centro de Manaus utilizando as catraias. O governo, exigido pelos lideres, negociou a seguinte empreitada: a Sociedade Esportiva se encarregaria de abrir a “estrada” de Constantinópolis (agora av. Leopoldo Péres) e o governo, da ponte necessária para atravessar o igarapé da Cachoeirinha.

A ponte (à esq.) e a Baixa da Égua, na inauguração, no
jornal comemorativo de Cláudio Amazonas
Assim, utilizando pás, enxadas e facões (terçados), e partindo do Alto, os moradores ultrapassaram a Baixa da Égua, seguiram com a picada em direção ao bairro da Cachoeirinha. Limparam, para isso, a “estrada” de 20m de largura e 1550m de extensão, consumiram 608 dias (pouco mais de um ano e oito meses) na obra.

Conforme acordado, o governo fez construir uma ponte romana sobre o igarapé. A engenharia buscou as margens mais próximas, encontrando no local denominado de Pancada.

A ponte, projetada e construída pelo engenheiro Antonio Rodrigues Vieira Junior, e iniciada em 1927, foi inaugurada dois depois com o nome do governador. Seguiu servindo ao tráfego de veículos e pedestres até a construção da ponte JK, em 1958.


Atualmente, com a remodelação do local, esta ponte foi desativada, servindo apenas de decoração.
* *  *

Somente duas décadas depois, em 1948, os sãoraimundenses, carinhosamente alcunhados de “bucheiros”, foram libertos pela construção de uma ponte, que permitia o tráfego rodoviário com o centro de Manaus.
Esta edificação leva o nome de Eurico Gaspar Dutra, então presidente da República, e a homenagem ocorreu pelo incentivo financeiro disposto pela União. Na esfera estadual, que seguia sem recursos, era governador, Leopoldo Neves, mais conhecido pelo apelido familiar de Pudico.


A ligação ocorreu no igarapé do Franco, depois de passar pelo bairro da Glória, já na av. Leopoldo Neves (hoje, injustamente mudada para Kako Caminha). Em nossos dias, ainda devido a recuperação urbanística de Manaus, segue atendendo o trânsito no sentido bairro-centro.  (segue).

29 de outubro de 2011

Memórias amazonenses (LXX)

Outubro, 29

As Lojas Populares existiu nesse trecho
da av. Eduardo Ribeiro 

2001 – As Lojas Populares, de propriedade de Braga & Cia, encerram as atividades em Manaus, depois de 55 anos de existência. Compunham-se então de três supermercados: situados na av. Eduardo Ribeiro, Av. Pedro Teixeira (conj. Dom Pedro) e Av. Silves (igarapé do Quarenta).  Passaram ao controle do grupo Supermercados DB.

2002 – Morreu em Manaus, José Brás de Chermont Rayol, que era vereador, quando, em 1994, foi atingido por um AVC e, nessa condição, manteve-se oito anos em estado de coma. Nascido em Belém (PA), e exerceu a superintendência  de Habitação do Amazonas (SHAM).

28 de outubro de 2011

PONTES DE MANAUS (2/4)

Ponte Benjamin Constant ou de Ferro
Na República e, especialmente, face a prosperidade do Amazonas, o governador Eduardo Ribeiro (1892-96) construiu quatro pontes. Apresento-as, pela ordem de inauguração:

1. Ponte de Ferro ou Terceira Ponte (em razão de que existem mais duas na mesma avenida), originalmente denominada de Benjamin Constant. Lançada sobre o igarapé do Mestre Chico, liga o centro com o bairro da Cachoeirinha, que então estava sendo arruado.


A estrutura metálica desta ponte pesava setenta toneladas e foi importada, obviamente, da Inglaterra. Sua inauguração ocorreu em 7 de setembro de 1895 e, há dois anos, recebeu suntuosa recuperação, quando também foi reconquistado seu entorno pelo programa de recuperação de igarapés de Manaus (Prosamim).
Ponte Campos Salles, de ferro sobre o igarapé da
Cachoeira Grande, hoje Bilhares

2. Igualmente de ferro, em 18 de setembro, o governo inaugurou a Ponte da Cachoeira Grande ou de Eduardo Ribeiro, mas oficialmente de Campos Sales. A ponte situada no então bairro de Flores resistiu ao tempo, tendo sofrido recentemente uma recuperação e a companhia de nova ponte (esta em alvenaria), para atender a expansão viária de Manaus. Ponto de referência: av. Constantino Nery, próximo as torres do Millenium.

3. Ainda na av. Sete de Setembro, em 5 de julho de 1896, foram inauguradas duas pontes romanas, construídas sobre os igarapés de Manaus e de Bittencourt. Ainda servem ao trânsito em geral.
Primeira ponte - Floriano Peixoto, acima, e a
Marechal Deodoro, abaixo
A primeira, denominada de Floriano Peixoto, é mais conhecida como a Primeira Ponte, pela posição. O igarapé de Manaus recebeu e ainda recebe cuidados do Prosamim. O seu entorno foi amplamente saneado e as margens do curso de água foi transformado em parques.

Como referência, antecede ao Palácio Rio Negro (sede do governo até 1996), agora Centro Cultural.


4. A segunda, situada na esquina seguinte, leva o nome de Marechal Deodoro, mas, como vem na sequência, é mais conhecida como Segunda Ponte. Também suas margens receberam cuidados urbanísticos e foram dotadas de recursos para o acolhimento de público e apresentação de artes.
Somente mais de três décadas depois, o governo do Estado conseguiu construir nova ponte, outra ponte romana de pequeno porte, que tirava o bairro de Constantinópolis (agora Educandos) do isolamento. (segue)

27 de outubro de 2011

PONTES DE MANAUS (1/4)

Aproveito o ensejo da inauguração da mais nova ponte, para relembrar as principais pontes construídas em Manaus. Na segunda-feira, 24, aniversário da cidade, a presidenta Dilma Rousselff veio prestigiar a solenidade, montada a beira do rio Negro, que dá nome a ponte.
Também convidado, caro Rogel Samuel, compareceu o antecessor da presidenta da República que, a cada dia, me parece mais ridículo. Tanto que, nesta festa, esteve macaquiado de índio. Talvez quisesse acentuar que todos aqui pertencem a mesma tribo.

Ponte Rio Negro, em Manaus. Foto: Chico Batata
A ponte inaugurada, ligando as duas margens do rio Negro, está entre as maiores do país. Mas, o que a imprensa alardeou foi o valor final da obra: a ponte de um bilhão de reais. Quase o dobro do previsto. Especula-se que mudanças elevaram-lhe o custo, e, para explicar, tomo a liberdade de invocar uma das tantas lendas amazônicas. Tal qual o desempenho do boto (cetáceo fluvial) com as mulheres, na ponte atuou a “cobra grande”, capaz de engolir transatlântico.


Dois parágrafos sobre a topografia da capital baré para esclarecer o número de pontes. Plantada à margem esquerda do rio Negro, Manaus possui o privilégio de assistir ao fenômeno do Encontro das Águas, na confluência dos rios Negro e o Solimões. Em nossos dias, já incluído no seu perímetro urbano.
A cidade segue limitada pelas águas, os grandes rios nos termos regionais, e os igarapés, que dividiam e isolavam bairros. Dos mais antigos, Educandos e São Raimundo levaram décadas para ter ligação terrestre com o Centro. Até então, servia de transporte a catraia, como bem descreve Áureo Nonato, em livro de memórias. As informações a seguir foram alicerçadas em obra de Mário Ypiranga Monteiro (1909-2004).

Ponte de madeira dos Remédios, próxima do Palácio dos
Presidentes (1858-59)
É conhecida por Ponte da Vila a primeira ponte que se tem notícia. Em data aproximada de 1825, foi construída em madeira, claro, e lançada sobre o igarapé da Ribeira, hoje aterrado. Ligava o “bairro” de São Vicente (início da atual av. Sete) com o do Espírito Santo (atual av. Eduardo Ribeiro). A Ribeira começava próximo onde hoje se encontra a centenária Loja 22 Paulista, e rolava em direção à baia do rio Negro.
Sem data conhecida, mas antes que se instalasse em sua margem direita o Seminário São José (1848), hoje marcado pela agência do Banco do Brasil, ocasião em que a Ribeira tomou a alcunha de igarapé do Seminário.

Já na Província, em 1881, foi instalada sobre o igarapé dos Remédios, que desaguava no rio no trecho onde foi construído o antigo Hotel Amazonas (agora, Condomínio Ajuricaba) a ponte de ferro comprada a Inglaterra. Serviu para ligar o centro com aquele bairro. Este curso também foi aterrado e, dessa maneira, a ponte existiu até 1899, quando foi desmontada e... sumiu.
Ponte sobre o igarapé do Espírito Santo, vendo-se
a Matriz em construção
Nesse período, três pontes ultrapassavam o igarapé do Espírito Santo (agora av. Eduardo Ribeiro), a de maior destaque encontrava-se no entroncamento com a hoje av. Sete de Setembro, próxima a Matriz. Era conhecida pelo nome deste curso de água ou do imperador Dom Pedro II. Há um registro desta edificação em “bueiro” localizado pelo acadêmico Antonio Loureiro, e de cuja inspeção participei.

Com a República, e com a prosperidade do Amazonas, foram construídas na última década do século XIX, quatro pontes. Listamos na próxima postagem, pela ordem de inauguração. (segue)

26 de outubro de 2011

Dez anos de Tenório Telles na Academia


Tenório Telles na Saraiva
E assim se passaram dez anos...  desde quando o festejado professor Tenório Telles tomou posse na Cadeira 16, cujo patrono é João Leda, da Academia Amazonense de Letras. A solenidade de investidura acadêmica ocorreu a 26 de outubro de 2001, presidida pelo poeta Max Carphentier e com a saudação de praxe foi laborada pelo saudoso economista Ruy Lins.

Começava assim uma renovação naquele sodalício. A idade do novel acadêmico sinalizava para tal objetivo, Tenório Telles, nascido nos barrancos do paraná de São Tomé, no município de Anori (AM), possuía então 38 anos. Estava licenciado em Letras, com habilitação em língua portuguesa e literatura brasileira e portuguesa, e graduado em Direito, ambos na Universidade Federal do Amazonas.
Empenhado na produção da Editora Valer, tornou-se um editor de competência, tendo revolucionado o mercado livreiro do Amazonas. Na busca de novos leitores, teve a envergadura de promover o Flifloresta (festival de livros em Manaus contando com a presença de escritores nacionais e estrangeiros), em 2009. Reprodução deste empreendimento alcançou alguns municípios amazonenses, como o Careiro da Várzea, Maués e Parintins.

Tenório Telles na Valer
Tenório Telles tornou-se então demais conhecido, que se torna enfadonho repetir aqui suas conquistas. Hoje pela manhã o visitei, para lembrar-lhe da efeméride. Ficou surpreso, de fato, pela “longa” data. Mesmo chegado de São Paulo pela madrugada e com inúmeros afazeres sobre a mesa, respondeu-me com o texto abaixo ao prazer em ser “imortal”. Vida longa!

Encarei a Academia, desde os primeiros momentos, como uma responsabilidade. Ao longo desses 10 anos procurei respeitar o espírito acadêmico, o conhecimento como fundamento da existência das academias e, especialmente, a fidelidade à liberdade de pensamento e a independência intelectual.
Entendo que os intelectuais têm uma função transformadora na sociedade. Até porque o conhecimento é como um farol: ilumina e permite às pessoas olhar a realidade de forma diferente. Como diz o texto bíblico, a verdade liberta. E é claro, quem pensa, reflete... não tem só um outro olhar, tende a ter uma postura pautada em princípios morais efetivos. Não estou falando de moralidade.

Assim foi a minha estada na Academia: procurei contribuir com a continuidade de sua tradição, com os debates, com os eventos, sobretudo com sua atividade editorial. Ajudei na publicação de dezenas de livros, na produção da Revista e demais veículos de informação da entidade. Além da contribuição intelectual, sempre me empenhei em preservar a instituição, resguardando suas normas e sua significação cultural e social. É claro que isso tem um preço, principalmente porque tem gente que encara a Academia de outra forma.
Acredito na Academia e acho que deve estar acima das demandas individuais e de grupos. Penso que deve ser um espaço de debate e de trocas de experiências, ajudando no aprimoramento espiritual da sociedade. Como toda instituição humana, comete equívocos e tem os seus pecados. É inegável, entretanto, a sua importância histórica para o Amazonas, tendo firmado sua história a partir da contribuição de intelectuais importantes de nossa terra, como Péricles Moraes, Benjamin Lima, Djalma Batista, Arthur Reis, Mário Ypiranga Monteiro, Alencar e Silva, entre outros.

O tempo passa tão depressa... Já se passaram 10 anos. Bem, nessa década de presença na Academia, penso que ajudei a manter viva a tradição do pensamento e do debate livre, sobretudo no processo de diálogo com a sociedade por meio dos debates e palestras que proferi no seu salão azul.

25 de outubro de 2011

DIA DO AVIADOR

Luiz Ruas, homenageado pelo
colégio Batista das Américas
Aconteceu domingo 23, quando a Força Aérea Brasileira lembra a vitória de Alberto Santos Dumont, em Paris, em 1906. Nesse dia, o brasileiro conquistou a imortalidade com o voo de seu Bagatelle.
Quando, em 1956, o Brasil comemorou o cinquentenário dessa conquista, aqui em Manaus, o padre-poeta Luiz Ruas emocionou seus leitores com o texto que reproduzo, publicado em A Crítica (22 out. 1956).

Bagatelle


AMANHÃ é o dia 23 de outubro. Uma data que, por sua incalculável repercussão na história da humanidade com toda a seriedade possível, com toda a seriedade que é capaz de comportar o fato por ela evocado: o início da aviação. Bagatelle será, para sempre, apesar das inúteis tentativas de usurpação do direito de propriedade, o foco, a estaca nº 1, de um dos principais fatores que vêem construindo o mundo moderno. Podemos, pois, dizer, sem medo de exagero, que Alberto Santos Dumont é, não só o “Pai da Aviação”, mas é também um dos genitores da idade moderna e, talvez, um dos maiores.

Sua figura ressalta das brumas do passado como se fora uma estrela ou um cometa, traçando para os homens, nos espaços abertos os roteiros para o Natal de uma idade nova. Céus e terra, foram os presentes que este brasileiro, no alvorecer do século XX, ofertou à humanidade. Porque, por paradoxal que pareça, a aviação tem como efeito principal descobrir o mundo, pelos caminhos aéreos. Que outros objetivos, senão a terra e os homens, seriam os de Santos Dumont?

É sabido que o inventor brasileiro “nunca tirou patente de qualquer de suas descobertas (por considerá-las de importância capital para o progresso da civilização), entregando-as ao domínio público”.

A tentação da conquista do espaço parece que é congênita ao homem. Creio mesmo que uma história do mundo poderia ser escrita em torno deste fato. O homem da caverna já pensava nisso e a fábula grega de Dédalo e Icaro derretendo suas asas de cera ao calor do sol é, sem dúvida, uma página de rara beleza, iniciando-se com ela a resenha dos mártires que tentaram se desprender da terra e percorrer os itinerários do céu.

O gênio humanista de Leonardo da Vinci, a figura quase mítica do Padre Voador, outro mártir da aviação, mártir não de desastres, mas da ignorância, das supertições, do atraso da corte portuguesa; os Montgaltier, Pilatro de Rozier a primeira vítima da navegação aérea justamente quando tentava a travessia da Mancha no dia 15 de junho de 1785, todos esses foram os grandes precursores da aviação nos séculos XVII e XVIII.

O século XX iria resolver o problema da dirigibilidade dos balões, solução oferecida ao mundo por Alberto Santos Dumont, no dia 12 de julho de 1901, com o “Santos Dumont nº 6”, com o qual conquistou o prêmio Deutsch, contornando a torre Eiffel no dia 12 de outubro do mesmo ano, Santos Dumont distribuiu o prêmio entre seus operários e pessoas necessitadas.

Dois problemas, porém, persistiam, desafiando a argúcia dos pesquisadores, e que resolvidos, transformariam a navegação aérea de mero sonho numa fantástica realidade. O primeiro consistia na adaptação de um motor facilmente transportável que imprimisse velocidade suficiente ao aparelho para mantê-lo no ar e o segundo em dotar o aparelho de um mecanismo que fosse capaz de o dirigir. Um leme.

Foi esta, precisamente,  a página luminosa de Bagatelle. No dia 23 de outubro de 1906, Santos Dumont, no seu “14 Bis”, consegue elevar-se a 80 cm do solo, voando 100m, conquistando a taça Archdeacon e antecipando-se a outros pesquisadores que tentavam também a solução, em muitas partes do mundo.

Bagatelle é a cidade-mãe das glórias irretorquíveis da aviação. Depois das experiências finais realizadas por Santos Dumont, depois do aparecimento de “Demoiselle” a humanidade estava de posse de um dos maiores tesouros dentre os que já lhe ofertou o esforço da inteligência.  Será demais dizer que a história do mundo neste século, tem sido escrita à sombra das asas dos aviões? A literatura, a economia, a política, a religião, devedores todos do Pai da Aviação, deviam rodear, no dia de hoje, o mausoléu de Alberto Santos Dumont e aí depositar, não orações arrebatadas ou coroas de flores inúteis, mas o juramento sincero de utilizar o seu invento ou os seus inventos para o fim que ele tinha em mente: o bem da humanidade, o progresso da civilização.

Bagatelle deve, especialmente, ser gravada no coração e na inteligência dos nossos jovens. Não, porém, uma Bagatelle parcial, não somente a Bagatelle do aprimoramento da técnica ou a Bagatelle dos arroubos inúteis de certo patriotismo estouvado. Mas a Bagatelle integra. 

Aquela que nos oferece a imagem total do verdadeiro trabalho humano. Aquela que nos dá o esforço do sábio, a generosidade do homem, a humildade do talento, o exemplo palpitante dos que trabalham movidos unicamente pelo bem do gênero humano.

Nesses dias em que vivemos atolados e afogados num mar de ódios, de ambições, de intrigas, de completa carência de desprendimento por parte daqueles que deviam ter olhos para ver somente o bem das comunidades e que, infelizmente, só vêem a si mesmos.

Nesses dias em que a honra, a fibra, o caráter, o brio, a vergonha levaram sumiço, nesses dias de ambições políticas e econômicas, de fraudes, de roubos e crimes inomináveis, Bagatelle deve ser reconstruída, Bagatelle deve ser focalizada com todas as luzes possíveis e, antes de tudo, com as luzes que jorram de dentro dela, Bagatelle vale por si mesma.

É uma autentica lição de patriotismo, de generosidade, de amor à ciência, ao estudo sério, de amor à humanidade. Lição que continua viva naquilo que a aviação possui de mais vivo. Lição que cintila em páginas humanas, palpitantes e ternas como as de um Saint Exupéry.

Lição que se prolonga nas jornadas heróicas do nosso Correio Aéreo Nacional, que rasga os céus do Brasil, devassa os nossos sertões brutos e vão, à custa de riscos indizíveis, construindo a unidade nacional, levando aos lugares mais esquecidos, aos rincões mais longínquos, um pouco de civilização, um pouco de brasilidade, de comunhão humana, desbravando, alargando, conquistando, continuando o trabalho dos descobridores lusos e dos imortais bandeirantes.

Amanhã quando, no Campo dos Afonsos, na Capital da República, a reprodução do “14 Bis” cortar os céus brasileiros, no 50º aniversário do vôo de Bagatelle, praza a Deus, que a lição de Alberto Santos Dumont, brilhe para o mundo como um anseio de confraternização e para o Brasil, sua dilacerada pátria, sua e nossa, como um estímulo de recuperação, pelo menos para os que apesar de todas as traições e decepções, ainda se sentem com coragem, pelo menos, de lutar, para que o Brasil se oriente, livre, para os destinos altaneiros que lhe sonharam os seus filhos imortais.

24 de outubro de 2011

Batista das Américas

No sábado, 22 e no próximo, 29 de outubro, neste centro educacional, os alunos do ensino fundamental e médio estarão apresentando a Vitrine do Amazonas. Trata-se de uma amostragem dos bens de nosso Estado, dividida em diversas oficinas. Ocorre sempre nesse período para coincidir com o aniversário de Manaus, festejado hoje.

Prof. Diego Valois
Uniforme antigo
Convidado pelo professor Diego Valois, estive lá no sábado passado. Foi uma grata surpresa para mim, especialmente pelas fotos antigas do conhecido colégio do bairro da Cachoeirinha. Recordei o fardamento antigo, tão colorido, que ensejou alcunha bastante hilária.
Hoje, o progresso é exuberante, não apenas pela extensão do edifício, mas pela apresentação de atualizado fardamento, das instalações adequadas e da maneira de conduzir os discentes.

Estendo o convite a todos. Senti-me reconfortado ao ouvir as falas decoradas ou não dos alunos, o esforço deles relatando fatos que tivemos oportunidade de apreciar.
Mais ainda. Na sessão sobre os poetas amazonenses, destacaram três: Anibal Beça, Tiago de Mello e Luiz Ruas. A presença do padre-poeta na casa de ensino evangélica renovou-me, reforçou a divulgação do autor de Aparição do clown.

Parabéns a Igreja Tabernáculo Batista, que completa 60 anos de presença em Manaus, e ao colégio Batista das Américas, que alcança os 55 anos de profícua labuta.

23 de outubro de 2011

Aniversário de Manaus: 342 anos

24 outubro

1848 – A capital amazonense é elevada de categoria de cidade, consoante a lei n.º 145, da Assembléia Provincial do Pará, com o título de Nossa Senhora da Conceição da Barra do Rio Negro. A denominação foi mantida até 1856, quando assumiu a de cidade de Manáos e, atualmente, de Manaus.
Ponte Rio Negro sobre o rio de mesmo nome, em Manaus
Em 1969, foi cumprida enorme programação comemorativa do Tricentenário de Manaus, cidade tida como inaugurada em 1669, com a construção do fortim protetor.
Entre outras festas, teve início a construção da fábrica de jóias BETA, na rua Belo Horizonte esquina da rua Recife, em Adrianópolis. Esta fábrica desapareceu nesta década e, no local, foi construído mais um edifício de escritórios.

Ainda nessa data, em 1969, Dom João de Souza Lima, então arcebispo do Amazonas, toma posse no arcebispado de Manaus. Esta mudança ocorreu devido a redução do território eclesiástico, em face da instalação de prelazias na região.
Hoje, está sendo inaugurada a Ponte Rio Negro, que liga a capital a municípios da calha dos rios Negro e Solimões. Será um passo concreto e um referencial para o futuro: vencer as águas que banham, mas que isolam as cidades amazonenses.   

22 de outubro de 2011

Mostra do filme etnográfico


A Mostra do filme etnográfico começou ontem no Palacete Provincial, com discursos, homenagem e coquetel. A significação deste empreendimento, que já se consolidou, deve-se a professora Selda Vale, pois, ela realiza tudo.
Na abertura, ela voltou ao palco três vezes, para diversas funções. Enfim, para encerrar a festa, lá estava ela retocando a mesa dos frios e dos coquetéis. Sucesso, professora Selda Vale, vida longa para você e sua MOSTRA.
O festival de filmes segue até dia 27, entrada franca, veja programação abaixo:

Material de divulgação
A Mostra Amazônica do Filme Etnográfico, uma realização do Núcleo de Antropologia Visual (NAVI) Ufam, veio para ficar na agenda cultural da Cidade de Manaus e dos interessados no estudo das imagens produzidas nesta imensa biosociodiversidade cultural, chamada Amazônia.
A V Mostra dá continuidade ao projeto iniciado em 2006, visando a divulgação de filmes produzidos nas Amazônias e a reflexão acerca da representação imagética da região no documentário e no filme etnográfico, além de promover o diálogo entre realizadores e
pesquisadores e preocupar-se com a formação de um olhar mais qualificado, um olhar antropológico, um diálogo visual com o "outro".
Nesta quinta edição da Mostra, o homenageado é o cineasta amazonense Aurélio Michiles, que, como aponta Leyla Leong, o "conjunto da sua obra faz dele o intérprete imagético da Amazônia".

Parte da programação da Mostra
Continua Leyla, sua obra "tem sido marcada pela constância e continuidade da temática social, com foco preciso sobre a memória da Amazônia". A mostra Aurélio Michiles, composta de 10 documentários, certamente permitirá visualizar as imagens produzidas e compreender o universo fílmico criado pelo autor.
A V Mostra rende homenagem também ao pioneiro do cinema brasileiro, o luso-amazonense Silvino Santos (1886-1970) pelos seus 125 anos na memória daqueles que vêem em suas imagens um registro da historia da região e um olhar, artístico e técnico como nenhum outro, sobre' a vida nesta parte do mundo. Trabalho, cidade e povos indígenas são os focos do seu olhar nesta Exposição. (Divulgação)

21 de outubro de 2011

L. Ruas, oitentanos: Nota



Não fosse a persistência do poeta e amigo Zemaria Pinto, eu iria continuar confundindo. Explico melhor: os oitenta anos do padre Luiz Ruas acontecem, de fato, em 28 de novembro (segunda-feira). E não, como venho propalando, no próximo 31 de outubro.

Neste final do mês, a data lembra sua ordenação sacerdotal, realizada na catedral de Nossa Senhora da Conceição pelo arcebispo do Amazonas, Dom Alberto Ramos.

Para assinalar a efeméride do nascimento, duas entidades universitárias – Seminário São José e Universidade Federal do Amazonas, as quais o professor-padre Luiz Ruas esteve intensamente vinculado, vão promover encontros distintos.

O Instituto de Teologia, Pastoral e Ensino Superior da Amazônia (Itepes) já delineou a agenda, contando com minha presença, de Dom Luiz Vieira, arcebispo de Manaus, e do escritor Tenório Telles.

Poema Afranio de Castro
Portanto, padre Luiz Ruas nasceu em Manaus, a 28 de novembro de 1931. Aproveito para reproduzir um poema de Afranio de Castro (O Jornal, 18 nov. 1958), dedicado ao L. Ruas, certamente antecipando o aniversário deste que foi, naquele venturoso ano, efusivamente festejado.

20 de outubro de 2011

Dia do Poeta

Em homenagem ao seu Dia, os poetas do Clube Literário do Amazonas (Clam) realizam um sarau no conhecido ambiente da Livraria Valer (veja ilustração).
Será no início da noite, com entrada franca.
Os poetas do Clam, em Diário do Amazonas, hoje


Outra homenagem vem da Academia Amazonense de Letras. O silogeu amazonense abre hoje as inscrições para o concurso Manaus e Poesia, para lembrar os 342 anos da capital, que se comemora segunda-feira, 24.

José Braga, presidente da AAL, no Diário do Amazonas, hoje

18 de outubro de 2011

L. Ruas: oitentanos (3)

A participação do saudoso padre Luiz Ruas no movimento cinematográfico e teatral de Manaus foi expressiva. 

Marca literária desde 1953

Este ciclo vem sendo enfocado por vários estudiosos. Vale observar que, quando o clérigo Ruas chegou em Manaus (final de 1953), depois de dois anos no Rio, já trazia conhecimentos básicos da Sétima Arte. A permanência no seminário do Rio Comprido propiciou-lhe um envolvimento com a vida cultural da então Capital Federal.

Assim, já sacerdote, atendia a qualquer convocação de cineclubes de Manaus. Nestes, a presença do padre Ruas era constante. Por isso, pode-se afirmar que ele teve competência para aprofundar o movimento cinematográfico de Manaus, cidade que ultrapassou a ousadia de patrocinar o I Festival Norte de Cinema (1969). O instrumentador deste encontro foi o jornalista Joaquim Marinho que, hoje atuante em todos os segmentos da mídia, era então diretor do DEPRO. O padre Ruas foi um dos membros da Comissão Julgadora.


Há dele outra averbação favorável. A participação no I Festival de Cinema Amador do Amazonas, realizado entre 17 e 23 de novembro de 1966. O encontro objetivava incrementar as atividades cinematográficas entre nós (O Jornal, 21 nov. 66). Além de J. Borges Filmes, A Crítica, o Clube da Madrugada e a Rádio Rio Mar patrocinaram o evento. O encerramento ocorreu no cine Avenida e indicou como vencedor o curta Carniça, de Normandy Litaiff e Aloísio Sampaio. Na comissão julgadora, pelos críticos cinematográficos, José Gaspar e o padre Luiz Ruas, que ainda fez a apresentação da festa de encerramento.

O sucesso na ribalta ocorreria no ano de 1959, quando participou da peça Auto da
Compadecida, de Ariano Suassuna, encenada no Teatro Amazonas. No Auto, o ator L. Ruas representou com aptidão o palhaço do espetáculo. Contou-me muito depois o dr. Gebes Medeiros, diretor do TEAA, que o padre Ruas para atuar na ribalta necessitou de autorização do Vaticano. Como se vê o palhaço (clown) se incorporava à vida literária do sacerdote. E foi, a partir desta produção, que se concretizou a criação do Teatro Escola Amazonense de Amadores (TEAA).

Desde o ano de 1960 se têm notícias de suas palestras sobre cinema, a exemplo de quando foi instalado o cineclube Comerciário no Sesc-Senac (Jornal do Commercio, 06 mar.1960). Na programação, palestra do padre Ruas. Esta arte o fascinava, por isso sua atuação seja como palestrante seja como simples integrante de cineclubes (Grupo de Estudos Cinematográficos (GEC); do Colégio Dom Bosco e outros) será sempre marcante. Outro pormenor de sua aptidão acentuou-se ao escrever sobre cinema tanto na Ronda dos Fatos (1957-58) quanto, aqui especialmente, no Cinéfilo.

Como indica seu título, trata-se de uma revista produzida, em Manaus, sobre a arte cinematográfica. E funcionou no limite escasso de quatro edições, pois foi encerrada pela censura militar de 1964, rememora seu diretor — José Gaspar, ainda professor do Centro de Artes da Universidade Federal do Amazonas.

No campo do teatro, padre Luiz Ruas possui dois momentos cimeiros: a participação no Auto da Compadecida (1959), interpretando o palhaço, e a direção do Auto da Paixão (1963). Registra Selda Valle (2001) que o cenário da Compadecida era de um circo. Tudo bem, até porque estimulado pelo autor. “No alto do trapézio, balançando-se, o palhaço-apresentador anuncia os personagens e o conteúdo da história que o público irá assistir”.
Aqui começam os transtornos, pois o palhaço era interpretado pelo padre Luiz Ruas. Tem mais. “A presença no palco de dois padres da Igreja Católica criou uma enorme celeuma, como era de se esperar naqueles tempos. (...), era muito diferente ver um padre de palhaço, pendurado num trapézio, balançando-se de um lado a outro do palco. Um escândalo!”.
Recorte de especial no Em Tempo, Manaus, 12 dez. 2004
O padre Juarez Maia interferiu naquele momento tentando amenizar os estragos. Deu entrevista em nome “da Santa Madre Igreja” e, diante da doação financeira do Teatro Escola, a presença dos padres-atores (Luiz Ruas e Onias Bento) pareceu sanada. Mas assegura Selda, que “padre Ruas teve que garantir sua participação com a autorização por escrito do Vaticano, que chegou a tempo da estréia”.

Um espectador da estréia – Ediney Azancoth, parceiro na obra Cenário de Memórias, avalia o “Deus-nos-acuda” que foi a ocupação “do enorme palco do Teatro Amazonas”. Reconhece que o Teatro Escola foi aprovado. Todavia, diante da indagação do motivo do sucesso, atribui-se muito ao diretor – o paulista Luis Watson.

Mas para Azancoth, “atribuir o sucesso da peça exclusivamente à presença de alguém de fora é negar o valor do trabalho do elenco local. Há o esforço homérico de Gebes Medeiros, coordenando o grupo, e a presença de dois intelectuais que fizeram história na cultura amazonense: o maestro Nivaldo Santiago, diretor musical da peça, e o padre Ruas, filósofo, professor e profundo conhecedor de cinema, exercendo a crítica em jornais da cidade”. Não houve outra participação do padre Luiz Ruas, mas tanto o TEAA quanto o palhaço (clown) saíram consagrados.

Na Semana Santa de 1963, a Rádio Rio Mar promoveu o Auto da Paixão. Coube ao padre Ruas escrever o texto e dirigir a montagem da peça, que foi encenada no Parque Amazonense (abandonado estádio de futebol no Beco do Macedo). A emissora, adquirida pela arquidiocese no ano anterior, era dirigida pelo padre Tiago de Souza Braz (1931-1997).

Para a montagem do Auto, contou ainda com a dedicação do então padre Onias Bento, pároco do bairro de São Francisco, que se encarregou de “selecionar” os coadjuvantes entre seus paroquianos. Os ensaios aconteceram no pátio do Seminário São José.

Entrevistei (julho de 2004) duas figuras primordiais deste espetáculo de fé. Um, o professor Carlos Eduardo Gonçalves que protagonizou o Cristo. Jovem bem-apessoado fazia suspirar as penitentes de todas as idades. Não sabia — desconversa, se elas gemiam pelo enlevo da encenação ou pelo visual do ator amador.

Outro foi Edson Paiva, do cast da Rádio Rio Mar. Apresentador do programa Essa noite feliz de todos nós, nas noites de sábado desde as vinte horas até o encerramento da emissora à meia-noite. Jovem educado, dotado de elegante e bem composta voz fazia, por essas e outras qualidades, a voz do Cristo. Havia também o narrador do espetáculo, mas sua identidade se perdeu na memória do tempo.

Gebes Medeiros, em sua coluna Theatro (O Jornal, 07 abr.1963), assim noticiou e convocou a grei católica para a representação.

AUTO DA PAIXÃO DE CRISTO
Cresceu e frutificou a idéia de padre Onias Bento Filho e reverendo Tiago Braz, no sentido de montar o AUTO DA PAIXÃO DE CRISTO em ar livre, tendo como palco ambiente o Parque Amazonense. A representação teatral que está sendo cuidadosamente preparada pelos referidos sacerdotes, tem como diretor artístico o padre Luiz Ruas certamente obterá o êxito esperado, tal o carinho e zelo que envolve essa festa cultural baseada no texto bíblico.

Assistimos dois ensaios no Seminário São José e pelo que observamos o público vai gostar do espetáculo, tal a movimentação dos personagens que trabalharão na base do teatro mímico, um dos mais difíceis do gênero.

A parte narrativa será interpretada por dois ótimos locutores da Rádio Rio Mar. Mais de setenta pessoas, moças e rapazes, tomarão parte no Auto, todos vestidos a caráter, nos dando uma impressão nítida de que foi a cena real no Monte Horeb, local aliás muito discutido pelos teólogos que divergem em longas polemicas.

Louvamos desta coluna a promoção de Onias, Tiago e Ruas, mostrando a nossa gente que a Igreja também ama a arte cênica, pois nela caracteriza-se a força cultural de um povo.

É dever de todos os católicos assistirem o AUTO DA PAIXÃO DE CRISTO.


Havia ainda restrição quanto à concentração de pessoas. Tudo isso contribuiu para o encerramento dessa atividade cênica que, se tivesse prosperado, traria como tem trazido para outras regiões brasileiras apreciáveis benefícios. Cabe, todavia, registrar este Auto da Paixão como a primeira apresentação deste tipo de espetáculo no Brasil, porquanto o de Nova Jerusalém (PE), o mais conhecido, data de 1968.

Vale relembrar que o Auto da Paixão pernambucano teve início com atores do povo, a cada ano, porém, a emissora global impõe um Cristo altamente globalizado, para maior audiência.

O Auto foi encenado na quinta-feira Santa e no domingo de Páscoa, dias 7 e 10 de abril. E apenas nesse ano. Deixou de se realizar no seguinte, entre outros empecilhos, em razão de padre Ruas ter passado a Semana Santa encarcerado. O governo dos generais controlava o país (março de 1964) e impusera um relativo controle (censura) à emissora radiofônica católica.