CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

10 de dezembro de 2016

APARIÇÃO DO CLOWN: INTÉRPRETE


Alencar e Silva
O poeta Jorge Tufic ajudou-me bastante na publicação da plaqueta Intérpretes de Aparição do Clown, que apreciava o livro-poema de L. Ruas. A publicação ocorreu em 2010. Havia eu organizado os textos de quatro “intérpretes”; eis que surgiu o quinto.

Trata-se do falecido poeta Alencar e Silva, autor de Quadros da Moderna Poesia Amazonense (2011). Este post foi dali retirado.


A primeira amostra da poesia de L. Ruas (Pe. Luiz Augusto de Lima Ruas) foi-nos dada em 1958, ano de grande significação para a poesia amazonense, com o aparecimento da Pequena Antologia Madrugada, em que o poeta Jorge Tufic, seu organizador, nos oferece, nos sete poetas ali reunidos, a primeira visão de conjunto dos novos quadros da poesia amazonense, ou, como se lê em sua apresentação, "uma nítida visão do que tem sido o trabalho deste grupo que, há aproximadamente três anos, se organiza sob a égide do Clube da Madrugada".

L. Ruas está ali representado por quatro poemas — Versos à Margem de Um Poema de Rainer Maria Rilke, Sinos, Possível Noturno em Lá Menor e Evocação da França — aos quais retornei, muitos anos depois para, com brilho nos olhos, constatar quão pura, quão autêntica e definitiva me parece essa pequena amostra de sua poesia! Poesia que conserva inalterado o mesmo primitivo frescor e o mesmo sopro de eternidade que lhe infundem os valores que informam todo o labor intelectual de seu autor.

L. Ruas forma na linha de frente do modernismo amazonense, já em razão da participação no movimento madrugada, desde as primeiras horas, já pela notável contribuição expressa em sua poesia. Como ocorre com todos os verdadeiros artistas, poetas e escritores, L. Ruas deixa impresso, definitivamente, em toda a sua experiência convertida em expressão artística, o selo pessoal da identidade própria, chancela sem a qual ninguém pode aspirar à cidadania universal que as letras e as artes conferem a seus representantes.

Quer isto significar que estamos, efetivamente, diante de um grande poeta e escritor. Diante de um dos temperamentos intelectuais mais notáveis e mais completos/complexos já surgidos entre nós. (...)

Também de 1958 é o livro de estreia de L. Ruas: Aparição do Clown, poema cristão — ou crístico — dos mais belos que já se escreveram e que o autor quer que seja "um ato de adoração ao Cristo quando Herodes o chamar de louco". Poema que considero o seu magnum opus e de cujo foco luminoso ouso aproximar-me agora, dezessete anos depois, e não sem uma ponta de temor.

Não de que se possa trair em exagero e superestima a admiração que voto ao extraordinário texto, mas, sim, de que a tarefa esteja além do meu alcance, dada a realidade estonteante e quase inabarcável desse poema verdadeiramente belo e majestoso, e de brilho arrebatador.

Disse que se trata de um poema crístico. Mas ficou implícito, também, que não se trata de um poema fácil, que logo se entregue à nossa fruição. Ao contrário. Diria mesmo ser este um texto tremendamente difícil e labiríntico em seu maravilhoso hermetismo, visto que os seus vários segmentos luminosos podem, com efeito, confundir-nos (numa leitura menos atenta) e fazer-nos caminhar por seus desvios, afastando-nos, consequentemente, de seu núcleo, de seu tema fundamental, de sua significação humana e divina, assim como se, em vez da estrada real, tomássemos por atalhos que apenas nos deixassem perceber, ao longe, o rumor e as luzes da festa...

E é este o grande desafio que o poema nos propõe. Ou lhe identificamos os símbolos, ou sua chuva não nos molhará.

Começa pela circunstância de que por ele perpassa inominadamente o espírito do Cristo, que é a um tempo sua respiração e seu mistério fundamental.

Como identificá-lo, se seu nome não é uma só vez modulado? Na alusão dos signos? Nos símbolos? Na atmosfera prestigiosa do poema? Certamente que sim. Inclusive porque uma tal forma de mostrar-se — a um tempo incógnita e inconfundível — era/é, porventura, a mais consentânea com o feitio e a doce índole do Mestre. Não foi assim, porventura, na antemanhã da ressurreição? E assim também na estrada de Emaus? E no caminho de Roma? E no episódio da pesca milagrosa (E nenhum dos discípulos ousava perguntar: Quem és? sabendo que era o Senhor [João, XXI:12])?

Tenho para mim que é assim também que ele perpassa pelo poema. E que podemos adivinhá-lo na figura do pássaro ferido, vagando antes que surja a madrugada. Na hora em que não é dia nem é noite. No lusco-fusco crepuscular. Na hora da luz azul.

L. Ruas, autor de Aparição do Clown
É bom que se tenha presente, no entanto, que a poesia é também um pássaro, estrela ou fonte. E que o poema é também um hino à poesia. Da mesma forma que é um ato de adoração ao Cristo.

Temos, aí, portanto, as duas intenções, os dois segmentos ou impulsos básicos do poema — polos cuja distinção se impõe à atenção e sensibilidade do leitor interessado na compreensão plena do texto, porquanto uma leitura meramente hedonística, além de ser chuva que não molha, poderá, com efeito, fazer-nos tomar, equivocadamente, aquelas com realidades por uma só.

Dir-se-á que para isso concorrerá a própria complexidade do poema. Sem dúvida. Mas deve-se ver que, no caso, a complexidade e seu teor de mistério são positivamente elementos consubstanciais ao poema, à falta dos quais este não se consumaria, da mesma forma que a impossibilidade do perfume frustraria a perfeição da rosa.

É claro que um poema é o que é, e até o que não é; nunca, porém, o que poderia ser. Assim, no primeiro caso, o poema é (o que é): o que a compreensão plena do seu texto nos revela. No segundo, ele é (o que não é): o que o mistério da leitura nos sugere. No terceiro, ele não é (o que poderia ser): o que não está expresso nem sugerido no seu texto. Ou, ainda: No primeiro caso, teremos mergulhado em sua realidade. No segundo, apenas vivido a ilusão do mergulho. No terceiro, porém, teremos ficado completamente por fora da realidade do poema, circulando-lhe à volta, longe da possibilidade ou da ilusão do mergulho, a tentar impossivelmente captar-lhe uma realidade que não é a sua.

Donde se infere que somente uma leitura eficiente nos possibilitará a compreensão verdadeira do poema de L. Ruas, seguidas as indicações subliminares que ele mesmo nos fornece. Será preciso, por exemplo, atentarmos duplamente para a advertência do poeta, num dos pontos culminante do poema:
“lê de novo o poema. desce. vai ao fundo. / (...) não te afadigues. / o ritmo do meu nome é longo. majestoso. / quando souberes quantas rosas floriram / na paisagem perdida e de novo descobrires / o sonho inquieto e a aurora prateada /alegra-te, então, pois caminhas certo / rumo ao mistério inexprimível do meu nome.”

Quem fala assim é ainda a poesia, por cujos pés misteriosos (de fauno grego ou de arcanjo bizantino) o espírito humano movimenta-se no ritmo apolíneo ou na dança dionisíaca.

Símbolo do Clube da Madrugada
Nesses dois mistérios, o da poesia e o do Cristo, estarão os polos do poema de L. Ruas. E é por ambos que nos virá a salvação: pela condição de cativos do pássaro ferido (ser livre em essência é ser cativo) ou pelo incessante modelar daquela chama que nos queima a alma e as mãos, sem deixar que se perca uma só de suas fagulhas: “pois uma delas pode ser a luz que salvará tua face passageira quando raiar o sempiterno dia.”
A salvação — eis o sentido profundo da aventura do espírito. Eis o supremo anelo da condição humana. Eis o substrato do poema de L. Ruas.

Creio que muito se há de escrever sobre esse grande e torturante poema, cuja extraordinária plasticidade, aliás, não faria senão a fortuna do artista que se decidisse a transpô-la para a linguagem das tintas. Ou recriá-la em seus traços.


A obra de L. Ruas, longe de esgotar-se nesse poema, estende-se pelo ensaio, gênero em que já nos deu os volumes Linha d'água e Os Graus do Poético, e prossegue com Poemeu, coletânea de poemas em que nos reencontramos com a sua grande poesia e de cuja apresentação fomos o privilegiado subscritor e cujo texto transcrevemos a seguir, por refletir com precisão o nosso pensamento acerca do Autor — pássaro de altos remígios silenciado quando ia em pleno voo.



29 de novembro de 2016

BANDE DE MÚSICA PMAM: SUBSÍDIOS

Albino Dantas foi o regente da Banda de Música da PMAM entre os anos de 1942-45. Pernambucano de Quipapa, em Manaus, depois de servir ao Exército, chegou à Força Policial, em ambos dirigindo a Banda.

Banda da PMAM, com o carneiro-mascote, início dos 1950

Costumava escrever nos periódicos da cidade sobre o assunto de sua especialidade: a Música. No entanto, numa dessas publicações, aqui postada, em defesa de seus músicos fez comentários, críticas mesmo, ao comando da corporação. 

A publicação, circulada no Diário da Tarde (06 fev. 1942), não foi aceita no quartel, razão pela qual foi punido disciplinarmente. 

A Força Policial do Amazonas é reserva do Exército?

Albino Dantas


Ninguém desconhece que, em Decreto-lei recente, o Exmo. Sr. Presidente da República equiparou os músicos do Exército, Aeronáutica, Marinha de Guerra, Policia Militar e Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, ao posto de sargento.

Consoante o citado decreto, todas as Forças Policiais já promoveram os seus músicos, baseados em que são reservas do Exército brasileiro.

No Amazonas, entretanto, os músicos da Milícia Estadual não tiveram ainda as vantagens dos seus colegas artistas dos outros Estados. Continuam eles como simples soldados músicos, e, ao que se fala, sem nenhuma esperança de promoção!

Analisando-se bem o caso, chegamos à conclusão lógica de que, não sendo os músicos em questão promovidos, vai surgir um impasse difícil de resolver quando alguns forem licenciados do serviço ativo.

Suponhamos que, hoje, tenha baixa um músico de 1ª classe. O certificado não será a Força quem fornece, pois não tem atribuições para isso.

Segue o ofício para a CR [Circunscrição de Recrutamento], dizendo que o homem foi licenciado como soldado-músico de 1ª classe. A CR não expedirá o documento, uma vez que existe um decreto dando o direito de ser sargento, para todos os efeitos, aos músicos do Exército!
Tudo estaria certo se a Força Policial tivesse reserva, mas pertencendo à reserva do Exército, tem, forçosamente, que o acompanhar, é mais do que lógico!

Acreditamos mesmo, que o Sr. Interventor Federal baixará um decreto tornando extensivo aso músicos da Força Policial, o que preceitua o Decreto Federal que equipara os músicas a sargento. E, fazendo isto, o Sr. Interventor lavra mais um benefício em favor de uma classe humilde, mas sincera!


Não é a Força Policial do Amazonas reserva do Exército? Eis, portanto, a melhor defesa dos seus abnegados músicos! 

26 de novembro de 2016

PROVÍNCIA DO AMAZONAS: 1871-72 (1)

A seguir, a segunda parte do Relatório sobre o Amazonas, referente ao biênio 1871-72, escrito pelo falecido mestre Agnello Bitencourt. Esta publicação foi realizada no Boletim da Associação Comercial do Amazonas, em 1956.





BOLETIM DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DO AMAZONAS
A Província do Amazonas e sua Capital em 1871 e 1872
Agnello Bittencourt


A Assembleia Provincial cumpria a feitura dos orçamentos municipais, cujas despesas foram fixadas para esse ano. (1871):
Capital (Manaus)      Cr$ 36.895,00
Maués (Conceição) “  3.450,00
Tefé (Ega)                   “ 12.180,00
Serpa (Itacoatiara)   “  4.770,00
Serpa                           “  1.450,00
Parintins (Vila Bela) “  2.930,00
Barcelos                     “  2.930,00

Em 1869, a importação subiu a Cr$ 6.902.422,50, mais do que o do ano anterior em Cr$ 619. 293,40. E a exportação também naquele ano (1869) elevou-se a Cr$ 8.531.384,40, superior a do exercício antecedente em Cr$ 1.976.470,40. Tudo através da Alfandega e da praça de Belém, pois, como dissemos atrás, os barcos estrangeiros ainda não chegavam ao porto de Manaus.

II - MANAUS

Já vimos que Manaus era a sede de um dos 7 grandes municípios que formavam a Província. Estendia-se das terras de Silves às de Barcelos, no Rio Negro, às de Tefé no Solimões, empreendendo parte do Purus e do Madeira. Uma imensidão!
Como se sebe, as despesas totais da Câmara limitavam-se a Cr$ 36.895,00. Convém observar que os dispêndios de maior vulto corriam à custa da Província.

Iluminação pública
A cidade era iluminada por 120 lampiões a querosene. O contratante do serviço recebia dos cofres da Província, anualmente, Cr$ 20.000,00. Paro ampliar e melhorar a rede dos combustores, foi-lhe aumentado o pagamento para Cr$ 40.000,00.
Nas noites de luar, não se acendiam os lampiões. Esse péssimo serviço perdurou por muitos anos, até que, a 15 de outubro de 1896, foi inaugurado a luz elétrica de Manaus, sob o governo de Fileto Pires Ferreira.

População de Manaus
Como resultado do recenseamento de 1° de agosto de 1872, a que aludimos, verificou-se que a população da Capital da Província era de 16.383 brasileiros e 645 estrangeiros, num total de 17.028. Deste cômputo, 493 eram escravos. População livre 16.535 habitantes.

Câmara Municipal
Superintendente (hoje Prefeito Municipal) – Tenente-Coronel João José de Freitas Guimarães. Vereadores: Guilherme José Moreira, João Ignácio Rodrigues do Carmo, Antônio José Barroso, José Pereira de Moraes, Eusébio Luiz Antônio de Menezes, João Fleury da Silva Brabo, Antonio da Cunha Mendes e Hilário Pereira de Jesus. Igual número de suplentes, como os titulares, eleitos bienalmente.

Topografia
A Capital baré foi certamente a cidade brasileira que mais sofreu na sua topografia. No escopo de higiene, conforto e embelezamento. Foi aquele militar que iniciou as grandes obras, tendo deixado prontas algumas. Muito realizou, podendo dizer: “Encontrei Manaus uma grande aldeia e fiz dela uma cidade moderna”.
Onde é, hoje, a principal artéria da cidade, a avenida Eduardo Ribeiro, achava-se em 1871, o igarapé do Aterro, que podia ser percorrido por pequenas embarcações (canoas, lanchas), ao tempo das enchentes (junho e julho). No verão, seu leito era um imundo pantanal, que começava onde está o atual edifício do “Jornal do Comércio”, indo terminar onde se estende o flutuante da Manaus Harbour Limited.
No lugar em que estão as avenidas Floriano Peixoto e Getúlio Vargas prolongava-se o igarapé do Espírito Santo. No inverno, os embarcações subiam o seu curso até onde se edificou o cinema Politeama. Duas extensas pontes de madeira atravessavam-na: uma, no altura em que se encontra o “Hotel Amazonas”, e, outra, na rua da Glória (hoje Quintino Bocaiuva).

O litoral também se modificou profundamente. Havia, na época, um trecho arrampado correspondente à praça da Imperatriz (praça 15 de Novembro), na sua descida para o Rio Negro: a “rampa dos carroceiros”. Era o desembarcadouro situado à foz do igarapé do Aterro, à extremidade ocidental de uma ponte de madeira, ligando o prolongamento da rua dos Barés (prolongamento que é a atual rua Marquês de Santa Cruz) à praça referida. Todo esse litoral era uma suave descida da rua dos Barés para o rio. Nada o ocupava.

No litoral ou “praia”, aportavam centenas de “igarités” e “montarias”, chegadas do interior da Província, máxime aos sábados, repletas de gêneros alimentícios e outros. Praticamente, não existindo mercado, esse conjunto de pequenas embarcações era a feira dos caboclos.  

Companhia de Aprendizes Marinheiros
Foi criado por Decreto n° 4.861, de 17 de janeiro de 1871. Instalada no mesmo ano. Funcionou com 50 alunos. Teve duração efêmera.

Seminário Episcopal
Situado à praça da Imperatriz, sob a reitoria do Pe. Dr. Frederico Celani, que regia a cadeira de Latim criada e subvencionada pelo governo Imperial. Aí, também se ensinavam Português, Francês, Geografia e História.
O Liceu Provincial, instituído pelo Regulamento n° 18, de 14 de março de 1869, funcionou, por alguns anos no Seminário, transferindo-se para outro prédio igualmente particular e impróprio, até que teve casa adequada, a do atual Colégio Estadual, inaugurada, com grandes festas, em 5 de Setembro de 1886.

Sociedades diversas
Existiam as seguintes “Ateneu das Artes” fundado em 6 de janeiro de 1869, sob a presidência do professor José Justiniano Braule Pinto; “Nacional Beneficente do Amazonas” criada em 6 de novembro do mesmo ano, sob a direção de João Wilkens de Mattos; “Harmonia Amazonense”, sob a presidência de Nicolau José de Castro e Costa; “Emancipadora Amazonense”, a primeira que se criou para o fim especial de libertar os escravos existentes no Província, para cuja finalidade muito realizou.

Advogados
Apenas quatro pleiteavam no Foro: Dr. Gustavo Adolfo Ramos Ferreira, Alfredo Sergio Ferreira, Candido Antonio Pereira e o major Clementino José Pereira Guimarães.

Médicos
Dr. Aprigio Martins de Menezes, João Pedro Maduro da Fonseca e Joaquim Januario dos Santos Pereira. (...)

Como os “regatões” que enxameavam o interior da Província, navegando nas suas “cobertas”, de sítio em sítio, isto é, de porto em porto, assim, na Capitel baré, os “teque-teques”, com suas caixas às costas de fazendas e quinquilharias, atravessando a cidade de habitação em habitação. Esse comércio ambulante era exercido por sírios e libaneses.
Não havia ainda um mercado (edifício) para a venda de gêneros alimentícios. O peixe, as frutas, a farinha d’água, o feijão fresco etc., etc., eram vendidos no litoral da cidade, quase sempre pelos próprios produtores. Outros gêneros negociavam ou eram adquiridos nos “mercearias” ou tabernas. Não se falava em metro, quilograma e litro, mas em “côvado”, “libra”, “quartilho”, “canado” etc., em se tratando de negócios.

Casaria em geral

Manaus, em 1871, época fixada em nossas referências, era uma cidade pobre, continuando assim ainda por muitos anos, como acentuou Eduardo Ribeiro, dizendo-a "uma grande aldeia". Numerosos casebres cobertos de palha pululavam, mesmo no centro da cidade. Poucas, as casas assobradadas. Nelas residiam as autoridades mais graduadas e a gente rica. O sobrado era uma habitação nobre.
Àquele tempo, Manaus não tinha um edifício condigno para a sede do Governo. O que, pomposamente, possuía o nome de Palácio do Governo, não passava de um casarão particular, tomado por aluguel. No pavimento térreo, estava a Secretaria Geral, no superior, a residência do Presidente. A cidade não conhecia canalização d’água, esgoto, telefone, telégrafo, nem jardins.
Suas praças públicas enchiam-se de capinzais e formigueiros. Calçamento das ruas, uma novidade, um luxo...

Quase tudo, que Manaus tem de melhor, apareceu depois de 1889, a ponto de provocar, do saudoso Afonso Pena, que a visitou em 1906, vendo e sendo informado que as obras importantes eram recentes, a sentença: "Manaus é uma revelação da República".

Costumes
Apesar de se tratar de uma cidade modesta, bem falha dos confortos que a civilização oferece, integrada nos hábitos simplórios dos seus 17.028 habitantes, era, contudo, um pequeno mundo de atividades e alegrias, realizando as suas constantes reuniões domésticas, religiosas e cívicas.
Cultivava em alto grau, o espírito de fraternidade, estima e respeito. As pugnas eleitorais entre "liberais" e "conservadores", não deixavam ressentimentos. Após um pleito renhido, não mais havia adversários. Uma palavra empenhada valia por uma escritura.
As festas familiares sucediam-se e prolongavam-se até a madrugada. O carnaval, com seus “entrudos”, brutais, invadindo os casas, sujando-as, alagando-as muitas vezes, também não molestava ninguém.
Nas noites de Santo Antonio e São João, as ruas (ainda calçadas) pontilhavam-se de fogueiras. Pode-se dizer que, em frente a cada residência, lá estavam os labaredas. E, na sala principal, uma grande mesa repleta de iguarias destinada aos parentes e amigos que, infalivelmente, apareciam.
Como eram frequentes, ainda, as “festas de arraial”, em frente às igrejas, com seus leilões de “prendas” e barracas de “sorteio”. Faziam-se “pic-nics” no longínquo bairro da Cachoeirinha, em cujo igarapé a gente grã-fina da época ia banhar-se e distrair-se.

Velhas famílias amazonenses
Numa relação inevitavelmente omissa, vejamos abaixo, os nomes de algumas famílias colhidas nos raros registros da época: Nomes — Chefes ou representantes:
Antony – Henrique Antony;
Aguiar – João José de Aguiar;
Augusto Bitencourt – Gentil Augusto Bitencourt;
Barbosa de Amorim – Mateus Barbosa de Amorim;
Brito Amorim – Alexandre Paulo de Brito Amorim;
Botelho do Cunha – Álvaro Botelho da Cunha;
Bacury – Sebastião de Melo Bacury;
Braule Pinto – José Justiniano Braule Pinto;
Barroso – José Antonio Barroso;
Batista Bitencourt – Antonio Batista Bitencourt;
Batista Pereira – Manoel Batista Pereira;
Castro e Costa – Nicolau José de Castro e Costa;
Cascaes – Antônio José Ribeiro Cascaes;
Faria Teixeira – Cosme de Faria Teixeira;
Fleury – José Ferreira Fleury;
Faria e Souza – Gentil Batista de Faria e Souza;
Ferreira dos Anjos – Manoel Ferreira dos Anjos;
Fonseca – Deodato da Fonseca;
Gonçalves Pinheiro – Febronio Gonçalves Pinheiro;
Lopes Braga – Antônio Lopes Braga;
Langbeck – Ludovico Langbeck;
Menezes – Dr. Aprígio Martins de Menezes;
Miranda Leão – José Coelho de Miranda Leão;
Mavignier – Aristides Justo Mavignier;
Moreira – Emílio José Moreira;
Matos Ribeiro – Francisco Leopoldo de Matos;
Monteiro Tapajós – Francisco A. Monteiro Tapajós;
Melo Cardoso – Nuno Alves de Mello Cardoso;
Moraes – Gregorio José de Moraes;
Malcher – Leonardo Antônio Malcher;
Nery – Silvério José Nery (capitão reformado);
Oliveira Horta – Bernardino de Oliveira Horta;
Pucu – Geraldo José Joaquim Pucu;
Pereira Guimarães – Clementino José Pereira Guimarães;
Pau Brasil – João Marcelino T. Pau Brasil;
Pinto Ribeiro – José Arthur Pinto Ribeiro;
Paula Ribeiro – Maximiano Paula Ribeiro;
Ponce de Leão – José Vicente Ponce de Leão;
Ribeiro Bitencourt – José Ferreira Ribeiro Bittencourt;
Ribeiro Guimarães – Gabriel A. Ribeiro Guimarães;
Rebello – Raymundo José Rebelo;
Ramos Ferreira – Dr. Gustavo A. Ramos Ferreira;
Sarmento – Joaquim José Paes da Silva Sarmento;
Silva Ramos – Manoel de Azevedo da Silva Ramos;
Thury – José Manoel da Rocha Thury;
Zuany – José Anacleto Zuany.

Hóspedes ilustres
À época em apreço, Manaus hospedou alguns militares já notáveis nos fastos do guerra. Aí esteve o Tenente-Coronel Floriano Peixoto, bravo da guerra do Paraguai, comandando o 3° Batalhão de Artilharia a pé. Também o Coronel Antônio Tibúrcio de Souza, na Comissão de Inspeção de Fronteiras e Obras Militares, e o Brigadeiro João Guilherme Bruce.

Jornais
Não obstante a Capital da Província ser então uma cidade modesta, como dissemos atrás, já possuía homens cultos, que visavam os superiores horizontes de sua terra e do Brasil, o que se infere da imprensa indígena. No Arquivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, colecionados, encontram-se os seguintes jornais: "Comércio do Amazonas" (diário), "Catequista" (semanal), "Amazonas" (diário, semioficial), "Reformo Liberal" (semanal), "Jornal do Norte" (diário) e "Argos" (semanal). A leitura desses órgãos da imprensa regional patenteia cultura, discernimento e patriotismo.

Cemitério de São José
Ao tempo em que se instalou a Província (1852), servia de necrópole à Capital o terreno que se estende por trás da Igreja dos Remédios, no local em que está o edifício da extinta Faculdade de Farmácia e Odontologia, prolongando-se pelas adjacências da rua Leovigildo Coelho (antiga da Cruz).
Em 1871, estava, há muito encerrado, porque os inumações passaram a ser feitas no Cemitério de São José, também fechado, salvo engano, em 1898, e ficava situado onde, depois da 1930, se construiu a atual sede do "Rio Negro Clube", sociedade de esportes e diversões.
Que contraste no destino do local! Onde, outrora, se derramaram lágrimas, no adeus da separação eterna, onde repousaram na quietude dos túmulos os nossos avós, hoje, ali mesmo, dança-se e bebe-se.
E aqui, encerramos esta breve síntese, de fundo histórico, uma despretensiosa revivescência para que os rapazes de hoje se identifiquem nos virtudes e compreensões dos homens de 1871, na ânsia de um Amazonas integrado nos desígnios da moral, do progresso e do patriotismo.

Rio de Janeiro, julho de 1956.




25 de novembro de 2016

PROVÍNCIA DO AMAZONAS: 1871-72

Semana passada, fui questionado por um leitor do Blog do Coronel sobre a existência de cemitério na época provincial. Fiquei intrigado, não sabia, assim sai à cata de resposta.
Esta veio em recorte de matéria publicada pela Associação Comercial do Amazonas, em 1956, quando esta comemorava seu 85º aniversário.

A autoria pertence a Agnello Bittencourt, autoridade competente da história amazonense. Desejo apenas efetuar uma observação, diz respeito a denominação e a forma de apresentar a moeda da época. Em vez de “réis”, ele preferiu “cruzeiro”, que somente existiu em 1942. Entendo que o mestre desejou fazer compreensível estes valores, mas, a meu ver, pode causar incompreensão.

No mais, encontrei detalhes sobre os enterramentos da época. Estes, porém, vão na segunda parte desta postagem.   

BOLETIM DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DO AMAZONAS
A Província do Amazonas e sua Capital em 1871 e 1872
Agnello Bittencourt

Em homenagem à Diretoria da Associação Comercial do Amazonas.

1 A PROVÍNCIA

No momento em que a benemérita Associação Comercial do Amazonas comemora o seu 85.º aniversário de utilíssima existência, queremos por em relevo alguns traços do que eram a Província do Amazonas e sua capital no biênio 1871-1872.
Presidia a Província, a esse tempo, o general José Miranda da Silva Reis, empossado em 08.06.1870, deixando o governo em 08.07.1872. No Senado Nacional representava o Amazonas o desembargador Ambrósio Leitão da Cunha. Na Assembleia Geral preenchiam a nossa representação os deputados Angelo Thomaz do Amaral e Leonel Martiniano de Alencar.

Divisão Política

A Província constituía um só Distrito Eleitoral dividido em seis Colégios: Manaus, Vila Bela ou Parintins, Tefé ou Solimões, Barcelos ou Rio Negro, Itacoatiara e Borba, com um total de 111 eleitores. O Colégio de Manaus dava 23.

Divisão Administrativa

Compreendia sete municípios: Manaus, Barcelos, Itacoatiara (Serpa), Tefé (Ega), Silves, Parintins (Vila Bela da Imperatriz) e Maués (Conceição).

Divisão Judiciária

Toda a vasta região da Província abrangia três Comarcas: Manaus, Parintins e Tefé. A Comarca da Capital (Manaus) constituía-se de 3 Termos: Manaus, Barcelos e Itacoatiara. Parintins, de 2 Termos: Parintins e Maués. Tefé, de 1 Termo: Tefé ou Solimões. Em cada Comarca havia um Juiz formado, e nos Termos serviam juízes substitutos, meros preparadores de processos.
A Província não possuía, nesse tempo, um Tribunal de Justiça. Tudo que escapava à competência funcional dos juízes amazonenses seguia para a Relação do Pará (Belém). Além de sua divisão policial, o Amazonas dividia-se também em Distritos de Paz, em número de 18, com seus juízes eleitos na forma da Lei.

Divisão eclesiástica

Era constituída por uma Vigararia-Geral dependente do bispado do Pará. Compreendia 23 freguesias, cada uma com seu vigário, mas, na sua maioria, vagas. Era Vigário-Geral o Pe. José Manoel dos Santos Pereira.

População

O primeiro recenseamento nacional foi realizado em 19 de agosto de 1872. Verificou-se possuir o Amazonas uma população de 57.610 habitantes, sendo 31.470 homens e 26.140 mulheres.

Autoridades governamentais

Assembleia Provincial – Composta de 20 deputados, eleitos bienalmente. Na época, serviam os seguintes: Major Clementino José Pereira Guimarães, Dr. Gustavo Adolfo Ramos Ferreira, Tenente-Coronel José de Miranda Leão, Tenente Henrique Barbosa de Amorim, Major Francisco Antônio Monteiro Tapajós, Capitão Nicolau José de Castro e Costa, Tenente João Carlos da Silva Pinheiro, Padre Manoel Ferreira Barreto, Padre Daniel Pedro Marques de Oliveira, Tenente Irenio Porfírio da Costa, Major Gabriel Antônio Ribeiro Guimarães, Major Manoel Pereira de Sá, Capitão Antônio Augusto Alves, Delfino Flávio Portugal, Major Antônio Lopes Braga, Major Dâmaso de Souza Barriga, Capitão João Evangelista Cavalcante, Tenente Tomaz Luiz Simpson, Capitão José Arthur Pinto Ribeiro, Capitão Francisco Leopoldo de Matos Ribeiro.

A despesa total com a Assembleia Legislativa, compreendendo a Secretaria, taquígrafo, material de expediente etc., elevou-se a Cr$ 22.900,00.
Não raro, se faziam vivos os debates entre as duas correntes políticas, "liberais" e "conservadores".

Chefia de Polícia – Desempenhava as respectivas funções o Dr. José Antonio Rodrigues, que foi substituído pelo Dr. Felipe Honorato da Cunha Mininéa, bem mais tarde desembargador do Tribunal de Justiça do Amazonas, logo que esta Corte foi criada. Em Manaus, havia duas subdelegacias policiais, e, no interior, 23, compreendendo os limites das freguesias eclesiásticas.

Comando das Armas – Compreendia o conjunto das forças militares, do Governo Imperial, na Província. Esse comando cabia ao Presidente da Província, no momento o general de brigada Miranda Reis.


Para o exercício de 1871-1872, a receita se estimou em Cr$ 540.395,00, e a despesa em igual quantia.