CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, agosto 01, 2026

EDUARDO RIBEIRO POR GENESINO BRAGA

 A postagem reproduz o artigo de autoria do saudoso Genesino Braga (1906-88 ), que relata detalhes da história de Eduardo Ribeiro (1862-1900), o Pensador; dos partidos políticos e da imprensa do início da República no Amazonas, e circulou no Jornal do Commercio, há 50 anos.

Edição de domingo, 25 julho 1976

Os próceres da política amazonense, nos anos últimos do século XIX, tinham nos artigos e nas “Cartas” do jornalista Dunshee de Abranches, enviados do Rio de Janeiro, uma espécie de barômetro, que lhes media as pressões da sempre carregada atmosfera da política federal de então. Nos modos de ver e de interpretar do ilustre e perspicaz articulista, — observador inteligente e arguto das lutas de bastidores que se travavam no recesso do partido dominante na época, — o todo poderoso Partido Republicano Federal, — louvavam-se os nossos líderes locais, assim acompanhando à distância as oscilações e as alternativas que determinavam os rumos da chamada “Política dos Governadores”.

Cindido aqui entre nós, em consequência da própria cisão no Diretório Nacional, — cisão que havia originado dois grupos distintos e opostos: um chefiado por Quintino Bocaiuva e Francisco Glicério; e outro pelo senador pernambucano Rosa e Silva e o deputado baiano Artur Cesar Rios, — o Partido Republicano Federal do Amazonas abrigava também duas facções em luta: uma chefiada por Eduardo Ribeiro, O Pensador; outra sob o comando de Jonatas Pedrosa e Lima Bacuri.

Com Eduardo Ribeiro estavam Ramalho Júnior, Afonso de Carvalho, Silvério Nery, João Miguel Ribas, Luís da Silva Gomes, Euclides Nazareth e outros nomes de evidência na vida partidária amazonense. Na ala de Pedrosa e Bacuri batalhavam Antônio Bittencourt, Joaquim Sarmento, o coronel Raimundo Nunes Salgado, Frota Menezes e mais alguns chefes ostensivos. Cada um desses grupos, a exemplo do que acontecia na órbita federal, se proclamava “o legitimo” Partido Republicano Federal. Tinha, cada um, o seu diretório constituído, a sua bancada no Congresso dos Representantes do Estado do Amazonas e o seu jornal oficial.

O PRF de Eduardo Ribeiro era situacionista no Estado, com Ramalho Júnior no Governo (em virtude da “renúncia” de Fileto Pires) e o próprio Pensador na presidência do congresso estadual. Mas, seguia a facção de Rosa e Silva e Artur Cesar Rios. Já o PRF de Jônatas Pedrosa e Lima Bacuri fazia oposição a Eduardo Ribeiro e pertencia à ala federal de Bocaiuva e Glicério.

O velho periódico Amazonas, contando então mais de 30 anos de boa circulação, era o órgão oficial do PRF do Dr. Jonatas Pedrosa. Sua direção política estava confiada ao coronel Raimundo Nunes Salgado e fora, posteriormente, entregue a Lima Bacuri. O órgão do PRF de Eduardo Ribeiro era A Federação, que tinha como seu diretor-político Euclides Nazareth. Esse A Federação  é que publicava os comentários políticos de Abranches, sempre tão esperados, lidos e meditados pelos políticos das duas facções.

 Velho amigo e conterrâneo de Eduardo Ribeiro e de Euclides Nazareth, Abranches redigia as “Cartas” para A Federação, coluna em que comentava, uma ou duas vezes por semana, os acontecimentos da política nacional, com as suas tendências e as suas perspectivas. Correndo-se as coleções do velho e combativo órgão “ribeirista”, encontra--se frequentemente esses assaz momentosos artigos do culto e desassombrado jornalista maranhense, que, então, já no Rio de Janeiro, nas colunas do Jornal do Brasil e depois nas do seu próprio Jornal, — O Dia — se fazia reputar um dos melhores informantes e analistas dos fatos que se iam desenrolando nos bastidores da política nacional, com repercussão, procedimentos e efeitos tanto na capital do País que também nos Estados.

A Federação trazia os artigos de Abranches em sua primeira página e ao alto das duas primeiras colunas. Subordinava-os ao título: Pela Política e subtítulo Cartas para A Federação. Eram todos numerados com algarismos romanos, tendo sido o de número I publicado em 15 de março de 1899. A assiduidade das Cartas para A Federação se faz notar até abril de 1900, quando aparece a de número XXXVIII. Rareiam daí por diante até outubro, quando desaparecem por completo. E esse desaparecimento coincide com o suicídio, a 14 de outubro de 1900, de Eduardo Ribeiro, a quem Abranches devotava fraterna estima e grande admiração.

Prova da admiração que Abranches tinha por Eduardo Ribeiro, seu conterrâneo e também, como ele, uma força moça exponencial da sua geração, temo-Ia em página do seu livro de crítica política intitulado Homens e Fatos do Início da República, publicado em 1903. Nesse livro, dedicado um capítulo inteiro — o 5º — à política do Amazonas, naquele quinquênio último do século XIX, Abranches assim em breves linhas, traçou o perfil de Eduardo Ribeiro:

“Eduardo Ribeiro, o Pensador, embora houvesse passado o governo a Fileto Pires, que só mais tarde o trairia sem necessidade e sem proveito, gozava, como chefe de partido, de uma dessas popularidades que fariam lembrar Silveira Martins e José Mariano em outros tempos. E a par de um coração magnânimo e benfazejo, possuía ainda as mais distintas qualidades de um político astuto e enérgico, sabendo comandar como poucos e como poucos criar dedicações sinceras, capazes de eclipsar os ingratos que tanto o aborreceram e acabaram cavando-lhe a morte. É verdade que, entre os grupos oposicionistas do Amazonas, era Jonatas Pedrosa quem contava, como chefe, real prestígio na capital, onde dispunha também de numerosas simpatias. Mas estas não bastavam para fazer sombra à auréola brilhante que cercava o nome querido do Pensador, o homem-coração, que a todos fidalgamente abrigava, o administrador emérito que, de uma tapera, havia levantado em três anos Manaus à altura de uma cidade moderna, semelhando-se a esses ianques arrojados da América do Norte”.

 Precioso documentário histórico da nossa evolução política, o capitulo 5° do livro Homens e Fatos do Início da República, editado em 1903, nos põe ao conhecimento pormenores os mais interessantes dos primeiros passos do Estado do Amazonas na vida republicana implantada em 1889.


sábado, janeiro 25, 2025

CONGRAÇAMENTO DOS NERY (1906)

Constantino Nery estava na metade de seu governo (1904-08), quando subsidiou na sede do governo (que ainda não se encontrava no Palácio Rio Negro) um banquete com os principais membros do Partido Republicano para homenagear o senador Silvério Nery, seu irmão e antecessor no Executivo.
Silverio Nery

O objetivo era ouvir a palavra do senador sobre a Questão do Acre, que se consolidara durante seu governo (1900-04), portanto, muito interessava ao Amazonas.
A postagem foi recolhida do jornal Amazonas (de 23 março 1906), pertencente ao Partido, pelo visto, compareceu a “nata da sociedade” dirigente, como diria o colunista contemporâneo.

  

Recorte do diário Amazonas, 23 mar. 1906

 

Realizou-se, ontem, em Palácio, o banquete político oferecido pelo dr. Constantino Nery, digno governador do Estado, ao nosso preclaro chefe, senador Silvério Nery.

O banquete começou às 7:30h da noite, sentando-se no lugar de honra o senador Silvério Nery, a quem foi dedicado o ágape, e à direita dele os coronéis Antonio Bittencourt, vice-governador do Estado, Hidelbrando Antony, secretário do Congresso, Raphael Machado, Cordeiro Junior e Públio Bittencourt, deputados; dr. Arthur Araújo, superintendente da Viação, e Carlos Figueredo; e à esquerda, drs. Sá Antunes, secretário de Estado, Victor de Souza, Alvares Pereira, major Raul de Azevedo, dr. Pedro Botelho, coronel José Gonçalves Dias, deputados, e dr. Ignacio Moerberch.

Em frente ao senador sentou-se o dr. Constantino Nery, governador do Estado, tendo à sua direita os dr. Jorge de Moraes, deputado federal, coronel Emídio Pinheiro, comandante do Regimento do Estado, drs. Paes de Andrade, inspetor do Tesouro, Porfirio Nogueira, Coriolano de Carvalho, diretor das Obras Públicas, e major Júlio Nogueira, diretor da Escola Normal; e à esquerda, coronel Ferreira Pena, desembargador Assumpção de Menezes, chefe de Segurança Pública, coronel Adolpho Lisboa, superintendente municipal, general Jacques Ourique, coronel João Batista de Faria e Souza, administrador  da Recebedoria, dr. Epaminondas de Albuquerque, procurador fiscal da Fazenda. Nas extremidades da mesa sentaram-se os drs. José Gayoso, diretor-geral da Instrução Pública e representante desta Folha, e Luiz Barreiros, diretor do Diário Oficial.

Justificaram suas não comparência ao banquete o desembargador presidente do Superior Tribunal de Justiça, o diretor do Serviço Sanitário e o diretor do Ginásio Amazonense.

(...) Em seguida, o ilustre senador Silvério Nery usou da palavra, pronunciando este brinde:

Sr. Governador, meus Senhores:

A benevolência de V. Exas. e a extrema gentileza dos meus amigos cativam-me sobremaneira com esta brilhante festa em que vejo representado aquilo que o nosso Partido tem de mais distinto e mais seleto: o chefe do Poder Executivo, membros do Poder Legislativo, chefes do serviço público, a imprensa, o comércio, as finanças.

Sinto-me feliz e satisfeito no meio de todos vós, senhores.

Feliz, porque vindo de longe, desde a primeira praça, a trabalhar nesta agitada política pelo progredir do Amazonas, conquistando pouco a pouco os acessos, cheguei à posição imerecida de comandar um partido forte e disciplinado; satisfeito, porque se me oferece oportunidade para dizer o que pensa e o que quer o Partido Republicano Federal do Amazonas, relativamente ao Acre.

 

E seguiu descrevendo aos comensais sua luta pelo direito do Amazonas ao território do Acre, sua luta por uma indenização que, não obstante o empenho do notável advogado Rui Barbosa pelo Amazonas, esta somente foi creditada décadas depois.

quarta-feira, setembro 11, 2024

JORNAL SÉCULO PASSADO

 Entre tantos periódicos de curta duração circulados em Manaus no século passado, encontra-se arquivado na Biblioteca Nacional o exemplar de O DEBATE, que chegava ilustrando sua capa com a foto do governador Silvério Nery.

Primeira página do jornal


quarta-feira, fevereiro 28, 2024

PMAM: SEUS PRIMÓRDIOS (28)

 Mais um capítulo sobre a história da Guarda Policial, ora Polícia Militar do Amazonas, no período provincial, compartilhado do meu almejado livro Guarda Policial (1837-1889).



Relatório Silvério Nery (foto)

No comando da Guarda Policial desde fevereiro de 1878, a 20 de julho, o major Silvério Nery endereça ao presidente barão de Maracaju consistente Relatório, tanto que foi anexado à Falla presidencial, que abriu a 14ª Legislatura Provincial (25 ago. 1878). O documento traz ampla apreciação sobre os diversos setores da instituição. Sublinha a falta de pessoal – quatro cabos; 41 soldados e um corneta, e quantifica o efetivo: major comandante; capitão (um); tenente (um); alferes (dois); 1º sargento (um); 2º sargento (dois); furriel (um); cabos de esquadra (quatro); soldados (41) e corneta (um). Total existente – 4 oficiais e 50 praças.

Página do Relatório

O armamento usado na corporação é do sistema Minié (importante rifle do século XIX, fabricado na França a partir de 1849, cujo sobrenome do criador – Claude-Étienne Minié – cunhou a identificação), adotado no Exército e que tem servido com proveito na Guarda. O correame, confeccionado de couro branco há bastante tempo, por isso bastante ressequido, “não se presta ao uso da Guarda”. Precisa ser substituído, requeria o comandante.

Nery expôs a situação do fardamento encontrado no almoxarifado, e foi implacável – simplesmente imprestável. Depois de periciado por uma comissão de oficiais estranhos ao corpo, foi dado “como consumido”. A fim de fardar os novos alistados, o comando teve que recorrer ao armazém dos Artigos Bélicos (do Exército), que “supriu esta Guarda com 30 calças de brim branco, 30 gorros de pano e 30 gravatas de couro”. Não cabe estranhar a composição deste uniforme, nem o socorro federal, pois, em nossos dias os recrutas usam calças jeans e camiseta básica, pior, adquiridas com o próprio bolso.

Ao abordar a situação do quartel situado na esquina da rua Governador Vitório, esclarece que “é um prédio particular que não tem e nem podia ter as divisões ou departamentos próprios para um corpo de tropa regular”. E conta sua iniciativa:

À vista do parecer da comissão e que tive ocasião de observar, deliberei transferir o quartel para outra casa, o que só se pôde realizar em abril, quando se obteve o prédio que serve agora de quartel, à praça de Pedro II canto da rua Governador Vitório. Remeti então ao inspetor do Tesouro Provincial o parecer da comissão, a fim de promover por motivo de força maior a rescisão do contrato da casa de onde saiu a Guarda Policial.

Enfim, o novo endereço da Guarda trouxe benefícios, pois a casa possuía maiores acomodações, apresentava-se asseada e “em perfeito estado de segurança”. O local é bem melhor que o anterior, além disso, o aluguel custa 120$000 réis mensais.

Nery destaca sua preocupação com a disciplina, com o castigo aos guardas transgressores; para conter qualquer desvio disciplinar recomenda a preparação de “um dos quartos inferiores da dita casa para servir de célula ou solitária para castigo dos praças”. Era correção, de fato!

Em Considerações Gerais, finalizando, o comandante analisa “o desânimo de indivíduos em se alistarem”, ou seja, o principal motivo que impede a Guarda de completar seu efetivo. Trata-se do “diminuto vencimento de mil-réis diários” pago ao soldado. E justifica com esses argumentos: 1) quantia insuficiente para um soldado se manter, nessa província, “onde tudo se vende por alto preço”; 2) a facilidade de alcançar maior salário “em qualquer serviço particular”; e 3) outras gratificações oferecidas, sem ter que enfrentar a penosa vida militar.

Para sanar essa penúria, Nery sugere à presidência que “aumente o dito vencimento” e que conceda uma gratificação ao recruta, pagável a metade no ato da inclusão e o restante “quando for excluso”, como pratica o Exército. Também os oficiais precisam de aumento de vencimentos, suplica o comandante.

sábado, setembro 16, 2023

PMAM: SEUS PRIMÓRDIOS (28)

 Mais um capítulo sobre a história da Guarda Policial, ora Polícia Militar do Amazonas, no período provincial, compartilhado do meu almejado livro Guarda Policial (1837-1889). 


Em 19 de fevereiro de 1878, assume o comando da Guarda Policial o major reformado (do Exército) Silvério José Nery, nomeado pelo 2º vice-presidente Guilherme José Moreira. Moreira assegurava que nele “concorrem todas as qualidades necessárias para imprimir a ordem e disciplina no corpo de seu comando”. Major Nery exerce o comando até o dia 25 de novembro, quando se afasta por doença, todavia, “na noite de 27 exalou o último suspiro (...) e seu cadáver foi ontem sepultado às 4 e meia horas da tarde, no cemitério São José” (local hoje ocupado Exército, em foto restaurada por pela sede do Atlético Rio Negro Clube), consoante o jornal Amazonas, de 4 de novembro de 1878.

Este infausto acontecimento sinaliza outro ineditismo: trata-se do único comandante-geral a morrer no exercício da função, até o presente, ou seja, em 186 anos de atividades da Força Militar estadual.

Nery nasceu na província do Pará em 1818. Assentou praça no Exército ainda em Belém, aos 18 anos. Prospera na atividade militar, alcançando o oficialato com a promoção a alferes em 20 de agosto de 1853. Com a mudança hierárquica, também se muda para a guarnição da província do Amazonas, onde constitui família, casando-se com Maria Antony Nery. Em 2 de dezembro de 1860 é promovido a tenente. Com a eclosão da Guerra do Paraguai alista-se voluntariamente e participa daquele conflito armado. Ainda no campo de batalha, em 1º de junho de 1867, alcança o posto de capitão. Ferido com tiro de fuzil, quando em operação militar no Paraguai, adquiriu uma “anquilose no joelho direito”, o que lhe impedia a “locomoção ativa” (termos de sua inspeção de saúde).[1]


Em consequência do ferimento sofrido em combate, em 30 de novembro de 1871, Nery foi reformado no posto de major. Findo o conflito sul-americano, e assentado em Manaus na direção da Guarda Policial, buscou para seus filhos os benefícios da legislação militar, daí a inclusão de Silvério e Constantino na Escola Militar da Corte. Nery legou à sociedade amazonense numerosa e inesquecível linhagem, capaz de estimular entre os admiradores e os desafetos uma permanente contenda, seja por parte dos pesquisadores acadêmicos, seja igualmente pelos cultores da tradição oral, tradição que perpassa seus descendentes. Quatro deles assumiram o governo do Estado: os filhos Silvério José Nery (1900-04) e Antônio Constantino Nery (1904-07) e os netos Júlio José da Silva Nery (1945) e Paulo Pinto Nery (1982-83).


[1] – Para saber mais: BITTENCOURT, Agnello. Dicionário amazonense de biografias: vultos do passado. Rio: Conquista, 1973.