CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, julho 06, 2026

MEUS OITENTANOS (8)

 

FASCÍCULO 8

 

Aniversariante em vários anos

Não demorou para a jovem esposa anunciar a vinda do primeiro rebento, a filha Valéria, nascida em dezembro. O apartamento da família, de cerca de oitenta metros quadrados, ocupava o terceiro andar do Edifício Lilac, sem elevador. A minha impressão era de um prédio semiacabado, projetado para mais um quarto, todavia, não construído. Erguido no início dos anos 1960, foi possivelmente o primeiro edifício de um apartamento por andar em Manaus. Bastante degradado, ainda agora permanece no mesmo endereço, agora com a denominação de Edifício Jurandir Queiroz. Para atender às recomendações médicas e evitar as escadas para a gestante, alugamos uma casa na rua Carolina das Neves, esquina da praça Bandeira Branca, no bairro de Aparecida, utilizada até o nascimento da filha, quando retornamos ao Lilac.

Iniciei o curso superior no período noturno com cerca de trinta universitários, oriundos dos colégios mais conhecidos, e pela primeira vez me encontrei com mulheres em sala de aula. Nas aulas, era exigido o uso de paletó ou blazer; para tanto, fui me adaptando. O entusiasmo pelo curso me fez adquirir um gravador importado pela Zona Franca. Gravava a aula e depois efetuava uma cópia, às vezes distribuída aos colegas, em particular àqueles da turma da “igrejinha”. Mantive afinco nos estudos e excelente classificação e, já no primeiro ano, conquistei a Ordem dos Cobras, outorgada pelo mestre Samuel Benchimol. Frequentei a faculdade até concluir o terceiro ano; em 1972, viajei a Fortaleza para cursar o Aperfeiçoamento e, em vez de solicitar transferência, optei por trancar minha matrícula. Ao retornar, o sistema seriado havia sido substituído pelo de créditos, e essa alteração e outros detalhes inconvenientes adiaram minha formatura para 1980.

A Força estadual prosperava com ênfase, em parte para atender à demanda de trabalho que lentamente ocupava a capital. Aumentou o efetivo, incluindo oficiais R/2 e de escolas de formação, além de praças. Como a circulação de veículos crescia, o controle também exigia mais policiais; a massa de ribeirinhos apossava-se sem ordem dos arrabaldes da cidade, as afamadas invasões. O policiamento mais efetivo era realizado pelo Cosme & Damião, exclusivamente no centro comercial. Na festa da criação da província do Amazonas — comemorado no dia 5 de setembro —, fui promovido a capitão e em decorrência, fui nomeado tesoureiro da corporação. A explicação para promoções tão céleres é que aconteciam por efeito do aumento do quadro e da posição hierárquica.

Deparei a tesouraria com um sistema anacrônico, movido à caneta esferográfica e papel almaço, as folhas de pagamento eram manuscritas em almaço e, para evidenciar a indigência da repartição, havia apenas uma máquina de calcular manual disputada por cinco furriéis (encarregados das folhas). Quando do pagamento, o tesoureiro recebia na Tesouraria estadual o cheque com o total de todos os policiais, ativos e inativos, distribuindo o valor de cada folha por unidade. Atribulado por mais um pormenor: pagamento realizado em espécie. Certo dia de pagamento, pensei em desaparecer da cidade com esse imenso valor, mas não atendi ao mau espírito, receoso das pragas, além de perder as benesses permitidas pela função.

No final de outubro, o quartel promoveu uma marcha para Itacoatiara, orientada por oficiais recém-formados no CIGS, que transpôs a rodovia de cerca de 260 quilômetros interligando a capital ao município. Grande trecho da estrada ainda de terra, bastante enlameada em função das chuvas, por isso, o deslocamento de automóvel era desastroso, ainda assim, na condição de tesoureiro, enfrentei o trajeto para levar um adiantamento monetário ao pessoal. Por essa ocasião, adquiri meu primeiro veículo: Chevrolet Chevette, modelo 1967, placa 8392 — com pequeno defeito na tampa do porta-malas —, que pertenceu ao colega do NPOR Renato Tribuzi. Eu conseguia dirigir de maneira razoável, aptidão aprendida em viaturas da Polícia Militar, mas não tinha carteira de habilitação.

Em casa, empenhava-me nos preparativos para a vinda do bebê, sem saber o sexo, com previsão do parto para a metade de dezembro. As necessidades essenciais, como hospital e médico, já estavam ajustadas. Encontrava-me nessa expectativa, quando, em 10 de dezembro, o subcomandante coronel Neper Alencar solicitou minha presença no gabinete e me consultou se poderia presidir um inquérito acerca de um homicídio ocorrido naqueles dias. Em síntese: o soldado Jonas Santos havia matado um homem no garimpo do Igarapé Preto, um afluente do rio Madeira, no município de Manicoré. Num beiradão ermo, onde parecia não haver vida. O próprio coronel me persuadiu ao esclarecer que o conflito estava relacionado à disputa pela jazida de cassiterita no local, na qual circulavam vultosos recursos. Para finalizar as tratativas, o coronel conduziu-me ao Hotel Amazonas para que eu me encontrasse com o senhor Valadares, um dos interessados na exploração exclusiva do minério.

No curso da conversa, Valadares, sendo informado da conjuntura doméstica e das providências tomadas, enfiou a mão no bolso e me entregou uma dinheirada, e ainda prometeu o apoio de transporte entre Porto Velho e o garimpo, a ser realizado em seu avião. Deixei o hotel consciente do anseio dele: retirar de um local severo um concorrente, tratava-se de ação rejeitável para este policial. Os preparativos foram céleres, nomeado o escrivão, sargento Sandoval da Silva, acautelei um revólver 38 e, portando meu rifle 22, excelente para passarinhar, embarquei com o escrivão em um turboélice YS-11 da Cruzeiro do Sul e desembarquei na capital de Rondônia. Ali encontrei o sogro, que, após conhecer minha missão e saber a situação do parto da filha, ficou de sobreaviso. Como me avisar no meio do mato, se era difícil a ligação telefônica interestadual, somente se valendo de aviões que diariamente circulavam para o garimpo. Prontamente embarquei no avião monomotor de Valadares, com 4 lugares e capacidade para 300 quilos de carga, ideal para operar na pequena pista de pouso e a única condição de retirar a cassiterita do local. 

Ao chegar, encontrei agentes da Fazenda Estadual já alojados no igarapé há semanas e me deram orientações de sobrevivência. A mais útil foi armar a rede rente ao chão para dormir, em razão de que todas as noites ocorria tiroteio por ali. Reforçaram a importância de caprichar na medicação antimalárica. E houve ainda uma intrigante: o soldado Jonas, acusado de homicídio, havia se recolhido à sede do município. No dia seguinte, o tenente já exercia a função de “delegado” do garimpo; passei a observar as grutas de minério, a mediar queixas pessoais e a fiscalizar os bares, onde as meretrizes eram abrigadas em quartos, diante da porta havia fila de inúmeros clientes. Presenciei enterros de pessoas de várias idades, a maioria vítima da malária. O campo de pouso, por não ter controlador, exigia vigilância constante de todos, pois o avião surgia com combustível na medida de ida e volta e, por isso, transportava mais cassiterita. Até fui obrigado, em certo momento, a me juntar aos presentes para empurrar um avião e liberar a pista. Detalhe final: o garimpo do igarapé Preto, dois anos depois, passou à administração da Paranapanema.

Os residentes, buscando segurança, pensaram em construir uma delegacia e, para isso, me consultaram. Como não possuía autoridade para tanto, ainda assim os estimulei. Afirmaram-me que faltavam apenas as telhas e logo se cotizaram, entregando-me o valor para aquisição do material em Porto Velho. Aproximava-se o Natal e minha preocupação estava em Manaus, sem ter qualquer notícia. Deixei instruções com o sargento Sandoval e embarquei.

Ao chegar, fui informado pelo sogro do nascimento da filha Valéria, dia 20 de dezembro, hoje residente em Brasília. Não esperei, passei o encargo da compra e remessa ao sogro, e marquei o bilhete na Cruzeiro do Sul para o retorno, que realizei na véspera do Natal. No ano, houve dois sequestros de avião na região, que foram conduzidos para Cuba, e essa funesta lembrança me fez, como oficial da PM e viajando armado, imaginar minha reação se, porventura, o YS 11, no percurso de 60 minutos, fosse sequestrado; era clara minha ansiedade em conhecer a nova gracinha de casa. O ano velho fechou com festas, e o novo chegou com a mesma medida.

  

segunda-feira, junho 22, 2026

MEUS OITENTANOS (7)

 Quantos motivos havia para celebrar! O ano se renovava, e com ele o retorno à casa paterna e às obrigações policiais. Mas, sob o brilho das festividades, pairava também a sombra da incerteza: um comandante interino deixava no ar expectativas sombrias. Logo, porém, o coronel Maury Silva, mineiro de origem e amigo do governador Areosa, assumiu o comando. Trouxe serenidade ao corpo de segurança e marcou sua gestão com iniciativas firmes e acertadas.

No Seminário, em sessão do grêmio
literário (autor, ao centro) - 1963

Por minha vez, eu buscava horizontes além da farda. Intentei o curso de Direito na Fundação Universidade do Amazonas, sem preparo prévio, confiando apenas na tenacidade. O vestibular, cruel em suas provas eliminatórias, me deteve na terceira etapa, em Sociologia, apesar das lições recebidas do mestre André Araújo. Restava-me, então, seguir no labor policial, exercitando o ofício cotidiano da corporação.

Em julho, as férias me levaram ao Sul do país. Por economia, comprei passagens de ida e volta até Brasília, completando o trajeto de ônibus. A viagem de ida foi leve, com recreio no Rio de Janeiro e em Santos. Mas o retorno trouxe inquietações: o país respirava sob a repressão militar, e os sinais eram visíveis. Ao desembarcar em São Paulo, vi os destroços do atentado contra o DOPS. O ambiente nacional era de temor, marcado por notícias de sequestros e atentados. Mais grave ainda, em Brasília, estudantes ocupavam a universidade, e a força de segurança federal preparava-se para retomá-la.

Cheguei à rodoviária da capital no dia 28 e pernoitei em um quartel da Polícia Militar, que aguardava a ordem de desalojar os invasores. Ao amanhecer, fui conduzido ao aeroporto, pois ninguém sabia o que se seguiria. Embarquei à tarde rumo a Manaus, levando comigo as imagens dos escombros paulistas e da tensão em Brasília — um painel tormentoso para um jovem tenente caboclo.

No aeroporto, o burburinho crescia com a chegada de passageiros vindos da cidade, trazendo detalhes da operação policial. No horário marcado, um quadrimotor DC-4 da VASP — ou talvez da VARIG — ergueu voo em direção a Ponta Pelada. Ansioso por abraçar a família, recolhi minha mala, tomei um táxi da empresa do vizinho Almeida e segui para o Morro da Liberdade, onde me esperava a casa paterna. 

Eu e Graça (noivos) na inauguração da sede do
Fast Clube (1968)

À tarde, que prometia apenas o reencontro sereno, reservava-me um golpe cruel. Ao ingressar na rua Amazonas do bairro, percebi uma agitação incomum diante da porta de nossa casa. Desembarquei do táxi e, ao ver um pequeno caixão, pressenti a tragédia: era de criança. O coração se apertou quando Dona Dora, em prantos, abraçou-me e revelou a morte de meu irmão Ronaldo Cesar, levado pela doença aos onze meses. Da euforia do regresso, fui lançado ao abismo da perda, ainda mais dolorosa por não poder socorrê-lo.

Seu nome, como o dos demais irmãos, nascera de um sorteio familiar. Eu, distante no Rio, enviei por carta minha sugestão, que venceu. Era também o seu padrinho, privilégio que se transformou em uma ferida ainda maior. Inumado no cemitério de São Francisco, no Morro da Liberdade, sua pequena sepultura se perdeu nas intempéries do tempo, apagada por minha desídia.

Como contraponto, na praça, aos fundos do quartel, o namoro floresceu em noivado e trouxe-me à convivência com a família dela. O patriarca, ausente em Porto Velho, não participava. Em casa, porém, meu pai não aceitava que um filho suburbano se unisse a uma jovem citadina. O mal-estar perdurou até o nascimento da primeira neta de seu Manuel, quando a vida suavizou as arestas. Reconheço, ainda hoje, minha falha por não ter recorrido ao coração materno de Dona Dora, minha madrasta.

No segundo semestre, viajamos a Porto Velho em busca do consentimento paterno para o casamento. A comunicação prévia exigia esforço: ligações interestaduais eram raras, feitas pela estação da Radional, precursora da CAMTEL, na rua Dr. Moreira. Após solicitar o serviço, aguardava-se o contato, e só então se entrava na cabine. Não se podia gritar: a telefonista era quem conduzia o diálogo.

Em Porto Velho, hospedamo-nos na casa de um sócio do futuro sogro, pois ele mantinha outra família. O contato com a futura esposa trouxe-me uma enfermidade: a catapora, que me marcou com cicatrizes que carrego até hoje. Entre febres e cuidados, preparei o casamento, marcado para 18 de janeiro, data do aniversário da nubente Maria das Graças Coutinho. Fomos à Igreja dos Remédios, levando os documentos, e ali se desenhou o próximo capítulo de minha vida. 

Natalício do autor (cima) e
ao lado do governador 
Henoch Reis (1976)


Num certo dia, retornei ao Seminário, levado pelo desejo de agradecer ao padre Juarez Maia os benefícios recebidos e de reencontrar os colegas. Vestia a farda, pois era dia útil e meu horário funcional me acompanhava. Convidaram-me a ministrar aulas no educandário, mas respondi com leve ironia: “só se for de ordem unida”. Entre risos e lembranças, confraternizei com os novos padres vindos de São Paulo, que conheci nos tempos do Seminário São José. A turma de seminaristas já se mostrava rarefeita, e pelos corredores corria o rumor do fechamento iminente — que se concretizou antes do fim daquele ano. Pouco depois, meu benfeitor transferiu-se para Porto Alegre, onde o visitei na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em breve despedida antes de sua partida definitiva desta vida.

Manaus, por sua vez, respirava os ventos da Zona Franca. O porto livre abria as portas para quinquilharias do mundo inteiro, e o centro histórico metamorfoseava-se em centro comercial. Comerciantes nacionais e estrangeiros prosperavam, enquanto o interior do Amazonas se esvaziava em êxodo. A cidade tornava-se atração turística, ainda que o encanto maior fosse a aquisição de produtos importados. Nesse cenário de desenvoltura, a instituição policial redesenhou seu papel, ajustando o policiamento às novas exigências de uma urbe em transformação.

O segundo semestre trouxe-me nova preocupação: o vestibular. Diante do insucesso anterior, frequentei um cursinho, dedicando atenção especial à Sociologia. A Reitoria, empenhada em ampliar o número de alunos, estimulava a entrada de policiais na universidade, acreditando que o êxito acadêmico fortaleceria a imagem da Força. A campanha foi vitoriosa: cerca de noventa por cento de oficiais e praças lograram aprovação.

Casamento, em 1969

Assim, inaugurei o ano de 1969 aos pés do altar de Nossa Senhora dos Remédios, unindo-me em matrimônio a Maria das Graças Souza. A recepção, singela, ocorreu na casa dela. A antiga desavença sobre o namoro impediu a presença de minha família, mas a vida seguiu seu curso. Para desfrutar da intimidade, ocupamos por duas noites um apartamento no Líder Hotel, na Avenida Sete de Setembro. Logo, porém, a recém-casada quis regressar à casa materna, saudosa do sabor caseiro e do carinho materno. Atendi ao seu desejo, afinal já me sentia incorporado à família dela, a poucos passos do portão dos fundos do quartel, por onde eu ingressava, facilitando a logística.

Após o casamento, enfrentei novamente o vestibular, desta vez na vetusta Faculdade de Direito da Praça dos Remédios. Na primeira semana de fevereiro, acompanhei pelo jornal o resultado, publicado sem alarde. Na prova de Sociologia, além da preparação própria, contei com a ajuda da colega Josefa, que me ofereceu uma “cola” discreta, fixada no fundo largo de sua bolsa. Obtive excelente classificação, mantida nos primeiros anos.

O ano de 1969, contudo, guardava ainda muito a relatar, começando pelo anúncio da gravidez de minha esposa — prenúncio de uma nova etapa, em que a vida se expandia e o futuro se abria em promessas venturosas. (segue)

 

quarta-feira, junho 17, 2026

É HOJE: OI-TEN-TA-NOS

Demorou, mas chegou! Hoje – 17 de junho, dia São Manoel, o filho do seu Manuel e dona Francisca, o Manoel Roberto Lima Mendonça abre sua década dos 80 anos. Imaginei realizar uma extraordinária e longa festa; levei o ano passado imaginando as tantas recordações, as tantas publicações a distribuir, e outro tanto de encontros com os meus espalhados pelo país. Todavia, nada aconteceu, a precariedade do patrocinador levou à falência meus projetos. Resta-me a promessa de realizar esses desejos no decorrer dos 80.

Aniversariante do dia

Preparei, para celebrar minhas 70 primaveras, um book que narra os acertos e os equívocos vividos ao longo desse período. O banner que ilustrou o festejo, e que ilustra esta postagem, segue comigo como recordação dessa caminhada. Falando de Copa do Mundo: aos 4 anos eu estava no Rio com meu pai, que havia aceitado trabalho na construção civil no entorno do Maracanã. Nem ele nem eu entramos no estádio. Logo a família regressou a Manaus.

Banner dos 70 anos

Anos depois, aos 10, ingressei no internato em colégio de padres. Quantas angústias trouxe o afastamento da família nessa idade. Aos 18, troquei a sotaina pelo uniforme verde oliva e, um ano mais, adotei o fardamento caqui do quartel da Praça da Polícia, onde servi por trinta anos até me aposentar no último posto.

No quartel desenvolvi afeição pela pesquisa histórica e, consequentemente, pela publicação dos estudos. Priorizei inicialmente os feitos da corporação, editando as obras Candido Mariano & Canudos (por ocasião do centenário de Canudos), Guarda Policial (1º volume) e Bombeiros do Amazonas: retrospectiva, considerada meu melhor trabalho. 

Aniversariante multifacetado

Recebi dois prêmios pelas publicações sobre Adolpho Lisboa (Concultura) e Genesino Braga (Academia Amazonense de Letras). Simultaneamente, divulguei produções literárias do padre-poeta L. Ruas e do multiartista Anísio Mello. Sem esquecer Entre duas viagens, a biografia de meu genitor. Ah, e dirijo o Blog do coronel Roberto, desde 2010. 

Minha descendência já alcança as bisnetas, residentes em Brasília, e os filhos vieram de três casamentos que, sabe Deus, me abonaram saúde em geral para alcançar este nível da vida. Meus efusivos agradecimentos a quantos – indistintamente – contribuíram com esta conquista.

Deo gratias (Graças a Deus). 

 

segunda-feira, junho 01, 2026

MEUS OITENTANOS (5)

 FASCÍCULO 5 

Ao retornar à casa paterna, percebi minhas dificuldades de relacionamento com o sexo feminino. Para quem havia passado a adolescência exclusivamente entre rapazes, faltava-me habilidade para encetar uma conversa afetiva com as garotas. Todavia, tive um aprendizado célere, muito por iniciativa delas. Eu tinha consciência de que não tinha muitos predicados, mas sabia que o respeito que me dedicavam provinha de ser o único adolescente no nosso bairro com o curso médio completo e, ademais, havia o fato de ter estudado em colégio de padres, onde o ensino era respeitável. Assim, os namoricos foram se sucedendo, naquele tempo estimulados pelos recados portados por amigas ou parentes. Há uma sessão de bons episódios vividos nessa fase da vida.

Rua Amazonas, 29 - Morro,
casa da família

 Certa ocasião, fui “convidado” para efetuar a pintura da casa da dona Hilda — uma enfermeira que tinha uma linda filha, Graça, de 15 anos —, que residia ao lado dos irmãos. Na hora do almoço, sentado à mesa, ocorreu-me um desacerto com o irmão dela, Marivaldo. Este, em ofensiva vingativa, atirou-me um carretel de esparadrapo vazio e me provocou um corte no supercílio. O problema não foi apenas curar o ferimento, mas criar uma explicação em casa e para a vizinhança.

Em outra oportunidade, aconteceu quando namorava a jovem Rosendalva do bairro de São Lázaro — muito próximo do Morro da Liberdade —, e lá meu irmão Antônio também frequentava. O percurso era realizado a pé, percorrendo uma íngreme ladeira de terra. Certa noite, ao chegar à praça da Igreja antes dele, percebi alguns jovens se articulando para promover um susto aos namoradores de fora. Quando meu irmão chegou, alertei-o sobre a minha suspeita e combinamos caminhar normalmente até a “cabeça” da ladeira. Ao atingirmos esse ponto, foi uma de “pernas para que te quero”, uma desenfreada corrida noturna até em casa. — Fácil para quem conhecia o trajeto e todos os buracos no chão de terra batida, mesmo pouco iluminado.

Narrando mais um fato:  a minha primeira namorada chamava-se Glória, simpática jovem da minha faixa etária. O nosso caso de amor seguia bem até que levei o primeiro “chifre”, quando a doce amada se interessou pelo vizinho, o xará Roberto. Quando ele arrumou outra namorada, perdoei a Glória e resolvi ficar com ela até meu ingresso na Polícia Militar. Nessa época, o chamego estava restrito a “amassos” prudentes, pelo temor de uma gravidez, pois o uso da pílula anticoncepcional estava em fase incipiente.

No ano de 1965, partindo do Morro da Liberdade, ia até o NPOR (27° BC) em condução militar. Havia um certo contratempo em usar um veículo do Exército, o que me levou a aceitar o convite do cabo Osmar da Silva, integrante do corpo administrativo do Núcleo militar, para residir em seu quitinete. Explico a residência: era apenas um quarto de uma estância de madeira nas proximidades do quartel. Ele era alfaiate e vestia-se bem. Aproveitando-me da sua cordialidade, passei a usar suas roupas. Não desconfiei de sua solteirice, até que numa noite, fui convidado a me deitar ao seu lado, e percebi sua homossexualidade. No dia seguinte, depois do expediente, voltei para casa. Porém, acabei entendendo sua opção sexual, mas combinei que cada qual teria sua liberdade, sem laços afetivos. Ali, para mim, era mais prático, residindo no bairro de São Jorge, próximo ao quartel. Essa proximidade possibilitou ao colega do NPOR, Osório Fonseca, me dar carona numa sexta-feira — 3 de junho de 1966 —, com a aprazível notícia de que eu havia sido nomeado oficial da Polícia Militar. O Diário Oficial do dia anterior havia publicado o decreto 512, nomeando-me ao posto de 2º Tenente da Polícia Militar, assim como a metade da turma Ajuricaba.             

Ingresso da turma 1966 na PMAM, posando na
Praça da Polícia. Autor assinalado. 

Osório orientou-me a comparecer ao quartel da Praça da Polícia na segunda-feira, dia 6 de junho, indicando o Café do Pina como ponto de encontro da turma. Confesso que passei o final de semana cheio de dúvidas e inquietações: seria verdade? Respondi a mim mesmo: se for, está ótimo, estou ocupado com algo que havia aprendido. Mas, se for um trote, que desventura. Acreditando na veracidade da informação, no dia marcado, vestido com a domingueira, após deixar o ônibus, caminhei em direção ao ponto indicado. Ao cruzar a Praça da Polícia, fui me esgueirando pelas árvores buscando os companheiros, até que... lá estavam eles. Após reunidos, adentramos no até então desprezível aquartelamento, de onde eu saí 30 anos depois.

No dia seguinte, visitei a alfaiataria da corporação para as medidas do fardamento, que logo foi confeccionado em caqui — uma cor que alcunhávamos de “cor de burro quando foge” — e logo conheci o quartel do Piquete, na rua Dr. Machado, uma construção centenária. A publicação do boletim me classificou para a Companhia de Comando e Serviços, ao lado do tenente Ilmar Faria, sob comando do capitão Pedro Lustosa. Prontamente reservei uma cama e um armário no alojamento, e dessa maneira abandonei o muquifo de São Jorge e passei a residir no centro de Manaus.

Experimentei inovações comportamentais, algumas estranhas para mim, como receber continência de idosos praças, com idade para ser meu pai, e por todos eles ser tratado por senhor. Afinal, aos 20 anos, eu me constituía em um dos mais jovens policiais, diante da escassa procura pela polícia “meganha”. Ao final do mês, recebi o primeiro salário — 90 mil cruzeiros —, julguei-me um marajá. No mês seguinte, fui nomeado comandante do Pelotão de Choque — criado por deliberação interna e logo desaparecido, o primeiro existente na PM. Estranhei a minha escolha devido à minha pequena estatura e porte físico franzino — 1,63m e 49kg. Considerava-me incompatível diante de corpulentos subordinados. No desfile do Dia da Pátria, assemelhava-me a mascote do pelotão, inclusive portando uma pistola cedida pelo comandante. O mês de setembro daquele ano me trouxe notícia alvissareira: o governador Arthur Reis aprovou o código de vencimentos, elevando o soldo da tropa: passei a receber 300 mil cruzeiros mensais, três vezes mais do que recebia ao ingressar.

Na condição de comandante do Pelotão de Choque, no final de setembro fui designado delegado especial da Ilha da Marchantaria — uma porção de terra que hoje integra o município de Iranduba, defronte a Manaus, e está sujeita ao alagamento pelo rio Solimões. Recebi a incumbência de proteger o rebanho bovino do senhor José (Zeca) Nascimento, destinado a abastecer a cidade. Tornei-me tenente responsável pelo gado que, vindo do período de estiagem, devastava as roças e os pomares dos moradores. Regressei da ilha após quinze dias e retomei as atividades da caserna, cujo dia começava com o desfile matinal na área externa, contornando a praça e passando diante do Colégio Estadual do Amazonas, no qual havia alunos de ambos os sexos. As alunas rapidamente notaram a nova leva de oficiais, mas foi na praça Ribeiro Junior, atrás do quartel, que encontrei a namorada Maria das Graças Souza, que residia no Edifício Lilac com a mãe Edna e a irmã Mary, o genitor era comerciante em Porto Velho.

Aquele setembro foi de fato marcante, quando Manaus recebeu o integrante da Jovem Guarda, Roberto Carlos. Fui escalado para garantir a condução do cantor pela cidade. A chegada ocorreu no aeroporto de Ponta Pelada – hoje Base Aérea de Manaus – sob espantoso entusiasmo dos fãs. O antigo campo de pouso obrigava os passageiros a caminhar até o local de desembarque. Por isso, aguardei o cantor à porta que, vendo a multidão, me pediu em rápido diálogo que o protegesse devido à deficiência de seu membro inferior. Naquela noite, ele cantou no Circo Americano, na Praça 14, e no Cheik Clube.

Recorte de folheto comemorativo
dos meus 70 anos

No final do ano, celebrei as principais conquistas: o ingresso e a moradia no quartel, além do namoro com a jovem Graça Souza. O ano novo, 1967, já mostrava certo incremento na corporação em razão das ações do Governo Militar. Em fevereiro, obteve vagas para cursos no Rio de Janeiro; fui designado para o de manutenção de armamentos, cuja escola funcionava em Deodoro, subúrbio carioca. Essa opção trouxe à lembrança a minha guia de sorte. Com a matrícula encaminhada, restou-me apenas arrumar a mala, despedir-me da família e da namorada, para a minha primeira viagem de avião. Acompanhado do tenente Odacy Okada, embarquei em 28 de fevereiro — dia da implantação da Zona Franca de Manaus —  no quadrimotor Douglas DC-4 da VASP, excessivamente ruidoso, mesmo assim, eu seguia radiante diante das inovações. O voo partiu de Manaus às 8 horas, chegou em Brasília por volta do meio-dia, almocei e embarquei novamente rumo ao Rio de Janeiro. (segue)

domingo, junho 29, 2025

DIA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO

Certamente, no dia em que nasceu seu terceiro filho, nosso pai - Manuel - deve ter se recordado sendo consumado católico da determinação do Mestre: “Tu es Petrus”. Assim foi batizado – Pedro Renato, que hoje completa 74 anos de idade. Nascido no consagrado bairro de Educandos, passou pelo Colégio Estadual do Amazonas e, depois do serviço militar, no qual obteve o terceiro lugar da turma de NPOR/72, desembarcou em Santos-SP, onde aproveitou. Vou parar aqui, senão estrago o filme. Parte do roteiro conta ele nesta crônica de aniversariante. A Igreja, apesar de nominar Paulo como santo do dia, efetua manifestação mínima, afinal Pedro é a pedra.

Ad multos annos, mano, recordando o linguajar seminarístico, do São José, deixado pro gran finale, onde seguramente aprendemos concretas lições para a vida.

Pedro Renato, de vermelho, abraça nosso pai Manuel

AINDA ESTOU AQUI

29.06.2025

Renato Mendonça (1951-)

 

Ao iniciar esta crônica, que faço a cada aniversário, fui orientado pela inteligência artificial para que o título fosse alterado para “continuo aqui”, pois considerou a forma uma expressão prolixa. Não acatei, pois a expressão usada carrega, na sua essência, um valor simbólico. Mas não descarto a utilidade dessa ferramenta aos usuários de qualquer natureza. No entanto, percebo que há uma superficialidade na sugestão da escrita, assim como falta sensibilidade para a escolha semântica dos termos. Cabe ao cronista deixar fluir para o papel a emoção não artificial, genuína, mormente nesta data, quando obrigatoriamente fazemos uma reflexão da vida.

Nesse instante de contemplação, percebo que estou revisitando memórias. Cada ano que passa carrega um pedaço do nosso mundo, e o ato de estar aqui, nesta data, com tantas histórias vividas, é em si uma celebração, um júbilo. Olho pela janela do trem da vida e encontro fragmentos que me moldaram, instantes que me elevaram o espírito e os desafios que me ensinaram a resiliência. É como se o tempo, ao invés de ser apenas um inimigo implacável a me sugar o vigor físico, fosse também um amigo sábio que, com as bênçãos de Deus, incitou-me a valorizar as verdades que floresceram a cada dia.

Quando ultrapassamos a barreira dos setenta, parece que o tempo anda mais apressado. Por vezes, me ocorre conversar com ele e questionar a sua relatividade, como nos propõe o famoso cientista Albert Einstein. E fico pasmo analisando o seu postulado ao dizer que o passado, o presente e o futuro são apenas ilusões persistentes, sendo assim criações da nossa mente. Sem nenhuma surpresa, ele me diz que somos ínfimos ao explanar sobre a grandeza temporal e espacial infinita do Universo; estima-se o tempo de existência em quatorze bilhões de anos, e a dimensão — praticamente incomensurável — só é medida em anos-luz.

Há quinze anos escrevi uma crônica, O Segredo da Vida, falando dessa incomensurabilidade do tempo, uma dimensão infinita que apenas é perceptível pela grandeza da nossa imaginação. Nessa narrativa, resgato a analogia do tempo do Cosmos com uma partida de futebol de noventa minutos. Ao compararmos o aparecimento do homem na Terra com a idade do Cosmos, o ciclo da vida humana só dura algo em torno de um décimo de segundo, desprezível.

Quanto à dimensão, também estamos aqui, fazendo parte de uma galáxia tão imensa que o homem, mesmo se tivesse recursos para viajar à velocidade da luz, jamais teria tempo de se deslocar para conhecer outros mundos. Assim, devemos nos resignar dentro da nossa ínfima porção universal, e procurar viver o que está ao nosso alcance ou o que nos rodeia. Aproveitar tudo o que Deus nos oferece para viajar para dentro de nós mesmos, tentando aprimorar a beleza espiritual; viajar também em direção ao nosso semelhante para tentar conhecê-lo melhor e promover o amor oblativo. 

Nessa longa caminhada, não deixei escapar nada que nos fosse benfazejo, como um dedicado aprendiz; não desmereci nenhuma manifestação de amor e valorizei cada gesto de carinho recebido; extirpei todos os rancores da mente, arranquei-os do coração sem o ferir nem o deixar sangrar por nenhuma forma de dor. Acho que Deus me deu uma certa imunidade quando tirou minha mãe tão precoce; hoje, sou um homem resignado e entendo que tudo estava dentro dos planos divinos. Mesmo assim, ainda retenho comigo a devoção por esta santa que me deu à luz do mundo, para quem dedico também o meu aniversário. E é muito gratificante conversar com Deus, através do rosto de uma mulher; é mais emblemático quando esta mulher é a sua mãe.

Nesta data, neste septuagésimo quarto Dia de São Pedro em minha vida — sem contar o dia em que nasci —, quereria recordar, na verdade, um ano radiante e jubiloso, 1974. O decurso da idade me traz de volta essa memória. Eu estava vivendo a porção primaveril da minha idade adulta; estava feliz com a conquista do primeiro emprego fixo, justamente na maior estatal do país, a Petrobrás. Depois de um ano que havia me habilitado como motorista, consegui comprar meu primeiro carro, um fusca ano 71, cor azul-pavão. Não gostava muito das letras contidas na placa, WC 3919, talvez porque a sigla em inglês significa “banheiro”, mas me identificava muito com o ano e a cor do carro.

A cidade de Santos, onde eu morava e trabalhava, me acolheu como um turista fascinado e mostrou-me a exuberância de sua orla marítima. E as praias tinham uma vasta extensão de areia que propiciava a prática do futebol nos finais de semana. Isso me deixava em plena forma, física e espiritual, que aliada à juventude dos 23 anos, transformava-me num atleta amador. E aconteceu que a Copa do Mundo daquele ano fez surgir no cenário futebolístico o “carrossel holandês”, nos apresentando exímios jogadores a recriar uma visão romântica do futebol. Uma estratégia dinâmica de jogo, onde os jogadores se movimentavam aleatoriamente sem guardar posição fixa. Esse esquema de jogo deu certo em quase todos os jogos, só falhando no jogo final. Uma pena! Mas, com a aposentadoria de Pelé, o jogador da Holanda, Cruyff, tornava-se um novo astro do futebol. Era o símbolo vivo daquela seleção. Por ele, eu nutria uma profunda admiração e me espelhava no seu comportamento em campo.

Um grupo de trabalhadores da construção civil, do meu sítio de trabalho, convidou-me para participar de um jogo de futebol num domingo do mês de julho, após a realização da Copa. Eles não sabiam se eu teria alguma habilidade como jogador, nem desconfiavam, pois me viam apenas como um assistente técnico envolvido na área de projetos. Entretanto, eu tinha bastante interatividade com eles, o que é normal quando se trabalha na indústria de petróleo.

E ocorreu que me convidaram para participar do “segundo quadro”, uma espécie de jogo preliminar. Naturalmente, o “primeiro quadro” jogaria logo depois, composto com os jogadores mais habilidosos e mais raçudos, mais “cascudos”, como se diz na gíria do futebol. Quando acabei de jogar o primeiro tempo do jogo preliminar, o técnico do time pediu que eu descansasse para jogar no primeiro quadro. “Fominha de bola”, não aceitei e garanti que tinha fôlego para jogar também o próximo. Consegui jogar bem, inspirado no craque e maestro holandês, três tempos dos dois quadros e saí elogiado pela minha desenvoltura em campo, marcando gols e correndo feito um velocista de curta distância. E para corroborar a minha atuação em campo, logo depois do jogo, o técnico me convidou para fazer parte do time de futebol que ele administrava, o Esporte Clube São Bento, e me trouxe, na semana seguinte, uma credencial de sócio atleta, que ainda guardo com todo carinho. Assim, foi um jogo memorável — inesquecível mesmo após cinquenta anos — de um jovem com a rebeldia dos cabelos longos e isento de consciência política, embora vivêssemos os “anos de chumbo” dos governos militares no Brasil. Naquela época, eu queria mesmo era trabalhar e jogar futebol. Duas paixões que se uniam visceralmente na minha solteirice.

Agora, depois de tantos anos, olho novamente pela janela e vejo o futuro. É apenas o futuro, sem grandes aspirações, com grandes preocupações com a saúde e buscando viver as verdades de Deus a cada dia. Desejando que o Amor nunca me abandone, para poder exprimir sempre o sentimento de gratidão; encantar-me com a beleza humana e a presença do Criador na natureza. O meu espírito ainda se ilude com a mágica do tempo e pensa que está jovem. É uma boa conduta, que eleva a autoestima e nos deixa aptos — não gosto dos clichês, mas vou usar — para novos desafios.

Sendo assim, o importante é manter a jovialidade do espírito, não por sabedoria artificial, mas por acreditar que isso possa ser congregado com boas ações, com atitudes honradas e ajuda aos necessitados e doentes, evocando sempre a alegria e fomentando a paz.  Desejo, ainda, manter a cognição intacta, para recordar os bons momentos vividos e possa discernir, nesse momento especial de comemoração, que ainda estou aqui completando essa belíssima missão de viver. 

Post Scriptum – O título da crônica faz referência ao belíssimo filme dirigido por Walter Salles, que recebeu o Oscar de “Melhor Filme Internacional” em 2024. Este filme aborda as ações autoritárias dos regimes militares no Brasil, especialmente os eventos relacionados ao sequestro, tortura e assassinato do ex-deputado Rubens Paiva em 1971.    

sábado, junho 18, 2022

DESDE ONTEM, SÃO 76 PRIMAVERAS

 O feriado de Corpus Christi contribuiu grandemente para o festejo natalício deste blogueiro, quando foi iniciado o festejo. Ontem, sexta-feira, foi o dia da festa, que prossegue hoje e se encerra amanhã. Esta festa me traz à memória o fundador da Rádio Difusora, ocasião em que ele misturava os astros para informar que algum ouvinte ganhara mais um fruto "no pomar de sua existência".  

Se pudesse escolher, optaria por um biribá (doce, macio e de fácil digestão), porém, o que mais cresce é o abacaxi. Apesar de suculentos e doces, como dão trabalho os abacaxis... De qualquer modo, gratíssimo aos chegaram junto com um abraço ou um telefonema ou aquele pedaço de bolo. 

Registros do artista modelo 7.6

Compartilho a página com que me saudou Renato, meu irmão, inserida no livro em que ele reverencia nossa mãe Chicuta (Niterói: Ed. Autor, 2022), e lembra meu aparecimento no seio da família Manuel e Francisca Mendonça.

E assim, seguindo o rito da natureza, com as dores do parto se iniciando em manifestação, todos acreditavam que a criança nasceria na sexta-feira, 14, no primeiro dia da lua cheia, tal qual a mãe. Mas, o primeiro vaso do oleiro não estava totalmente pronto, faltava o retoque final do Criador, o requinte, por isso o primogênito só conseguiu receber o sopro da vida no dia 17 de junho, em plena segunda-feira da semana de Corpus Christi.

Nasceu sob as bênçãos dos santos juninos, entre o dia de Santo Antônio e o dia de São João, um saudável garoto com carinha de peruano; olhos amendoados, tez morena clara e cabelos negros, trazia também na sua bagagem, os genes do bravo povo nordestino.

Manoel correu à folhinha pendurada na parede para ler as efemérides daquele dia. Exclusivamente, interessava-lhe os santos homenageados, destacou-a e guardou no bolso. Mostrou à Francisca os nomes das personalidades: entre outros, estava São Manuel. Pronto! Seu compromisso de escolha estava consumado, um dos nomes fora selecionado.

Francisca, que já tinha em mente sua preferência, apenas adicionou. Repetiu várias vezes para sentir a melhor ordem, a melhor eufonia. Nasceu então, o Manoel Roberto.

quinta-feira, junho 17, 2021

MEUS 75 ANOS

Ao completar sete décadas de vida, pude realizar uma festa com os familiares e amigos. Cinco anos depois – na data de hoje – nada foi possível realizar. As condições sanitárias não permitem a aproximação, portanto, fica transferido para o próximo ano a realização do festejo. Tomara que a pandemia permita e a saúde do aniversariante colabore. De minha parte, prometo, vou chegar lá.

Capa do livro dos 70 anos, distribuído
 como lembrança

Para sacramentar a desdita, no início da semana meu filho Eduardo baixou ao hospital com o maldito vírus. O pânico se apossou da família, não era pra menos. Contudo, a ajuda dos amigos, a oração dos crentes e a esperança dos familiares produziram resposta positiva.

Hoje, ao amanhecer, recebi um presente grandioso. O doente havia sido transferido de hospital e recolhido à enfermaria, longe da UTI e da intubação. Que presente maravilhoso recebi com a notícia e depois com o sorriso que o doente espalhou pela internet, quando pode usar seu celular.

Portanto, este é momento para agradecer àqueles que me parabenizaram, àqueles que contribuíram para a concretização deste momento. Gracias!

Roberto (acima) e Eduardo (abaixo)



terça-feira, março 09, 2021

PRIMEIRO MILHÃO DE VISUALIZAÇÕES

Comecei este Blog há onze anos (a completar em abril próximo) e já efetuei duas mil e duzentas postagens, que, se impressas poderiam se converter em cinco volumes de variados temas. 

Obtive uma centena e pouco de seguidores e, somente agora, conquisto meu 1º milhão de visualizações. Desconheço se alguém já se vangloriou por tão pouco, pois este número é costumeiramente alcançado contado em dias. Todavia, estou contente com minha produção, que a consolido em respeito a minha divisa: catando papeis, escrevendo histórias.

Repiso o que disse quando alcancei duas mil publicações: trata-se de um exercício de aposentado, que necessita preencher o tempo vago, e ponha vago nisso. De outro modo, serve-me para desovar os inúmeros papeis velhos recolhidos nos arquivos nacionais. Isso é próprio de pesquisador, a guarda tão apaixonada de seus tesouros, ou aqueles que considera privilégio possui-los. E veja, eu os guardava, mesmo os tendo publicado nos livros que produzi.

Esse recesso sanitário que já persiste por um ano, que me impede de visitar os arquivos locais, serviu-me para gravar o material que dispunha, tendo publicado neste espaço alguns e outros foram digitalizados e disponibilizados. Ao cabo desse exercício, todos foram guisados (como se fazia com o “papagaio” ou pipa do concorrente, em tempos idos).

Retomo para um terceiro tempo, publicando o quanto entendo ser de interesse coletivo, pois, de vez em quando sou procurado por algum leitor interessado ou na cidade ou em religião ou em seus ascendentes e por aí afora. Nesta estação, sigo exercitando a memória e refinando a angústia, pois como burilou o saudoso poeta Luiz Bacellar em “Noturno no bairro dos Tocos”:

memória e angústia fundem-se num branco

cavalo manco numa rua torta

Espero alcançar breve o novo milhão (melhor se fosse em dólares) de visualizações, para tanto, assim vai prosseguir o Blog do coronel Roberto.

Roberto Mendonça - dez 2020



segunda-feira, março 23, 2020

10 ANOS DESTE BLOG



Quando iniciei este Blog, há dez anos, não pensava chegar tão longe. Desejava somente, como afirmei no vestibular e reafirmei pelo trajeto, expor o material que havia recolhido nas minhas andanças pelos arquivos. As coleções na cidade de Manaus e tantas outras que consultei pelo Brasil.


Comecei esta peregrinação pelos arquivos ainda quando estava no serviço ativo da Polícia Militar do Amazonas, até mesmo para divulgar alguns detalhes da história desta corporação. Escrevi alguns livros: o que mais tempo me consumiu foi Bombeiros do Amazonas (2012). Todavia, o mais festejado foi a biografia do coronel Adolpho Lisboa – Administração do coronel Lisboa – que me deu um prêmio da Prefeitura de Manaus (2007).
Placa comemorativa do Prêmio pelo livro Administração do
coronel Lisboa

Tentei investir em um Site, que até funcionou, porém, por pouco tempo. Não me adaptei ao avanço tecnológico, pois exigia conhecimento próprio e a idade não me ajudou. Desisti, de bom gosto. Seguindo na minha jornada, ultrapassei dia dessas 2.000 mil postagens.

Não que fosse efetuar uma festa pela data, queria somente registrar este fato com respeito. Todavia, o Covid19 roubou-me a satisfação. A idade impõe-me a quarentena, mas isso não me incomoda. Tenho repetido que estou em retiro, lembrando os velhos tempos juvenis quando passei pelo Seminário.

Em frente, Blog do coronel Roberto.

quarta-feira, junho 19, 2019

MEUS SETE PONTO TRÊS (3)


Ainda pela data de meu aniversário (73a), recebi do mano Renato o presente que abaixo reproduzo, agradecendo-lhe com o coração nas mãos. Ou como diziam os romanos: ab imo pectore. 

SER FELIZ
17.06.2019


Você pode ter defeitos, ser ansioso, e viver alguma vez irritado, mas não esqueça que a sua vida é a maior empresa do mundo; só você pode impedir que vá em declínio. Muitos o apreciam, o admiram e o amam.
Aniversariante
Gostaria de lembrar que ser feliz não é ter um céu sem tempestade, uma estrada sem acidentes, trabalho sem cansaço, relações sem decepções; ser feliz é achar a força na simplicidade, esperança nas batalhas, segurança no palco da incerteza, amor na discórdia. Ser feliz não é só apreciar o sorriso, mas também refletir sobre a tristeza. Não é só celebrar as vitórias, mas aprender lições com os fracassos. Não é só sentir-se feliz com os aplausos, mas ser feliz no anonimato.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver a vida, apesar de todos os desafios, incompreensões, períodos de crise. Ser feliz não é um acaso do destino, todavia uma conquista para aqueles que conseguem viajar para dentro de si mesmos. Ser feliz é parar de sentir-se vítima dos problemas, e se tornar autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, e conseguir achar um oásis no fundo da nossa alma.
É agradecer a Deus por cada manhã, pelo alvorecer, pelo milagre da vida! Ser feliz, não é ter medo dos próprios sentimentos, é vive-los! É saber falar de si. É ter coragem de ouvir um "não". É sentir-se seguro ao receber uma crítica, mesmo infundada. É beijar os filhos, mimá-los, reverenciar os pais e avós, viver momentos poéticos com amigos, mesmo quando nos magoam.
Ser feliz é deixar viver a criatura humana que existe em cada um de nós: livre, alegre e simples. É ter maturidade para poder dizer: Errei! É ter a coragem de dizer: Perdão! É ter a sensibilidade para dizer: Eu Preciso de Você! É ter a capacidade de dizer: Te Amo! 
Que a tua vida se torne um jardim de oportunidades para ser feliz. Que sua primavera seja amante da alegria, porém no seu inverno seja amante da sabedoria. E que quando errar, recomece tudo desde o início, pois somente assim seguirá apaixonado pela vida. Descobrirá que ser Feliz, não é ter uma vida perfeita, e sim usar as lágrimas para irrigar a tolerância, e utilizar as perdas para treinar a paciência, usar os erros para esculpir a serenidade, utilizar a dor para lapidar o prazer, aproveitar os obstáculos para abrir janelas de inteligência e da sobriedade. 

Nunca desista; nunca renuncie às pessoas que o amam. Nunca renuncie à felicidade, pois a vida é um espetáculo incrível!


MEUS SETE PONTO TRÊS (2)


Copio alguns dos abraços e beijos virtuais recebidos dos familiares, os mais próximos. Este ano retirei da internet a data de meu aniversário, pra sentir as lembranças. Agradeci ao final do dia, lembrando dois detalhes: cumprir aniversário na segunda-feira é desastroso, pois venho curtindo desde a sexta. Ainda hoje, almocei em razão da data.

Outro item lembrado: a idade vai afrouxando nossos sentimentos, de forma que a cada mensagem recebida, havia que recorrer ao lenço para evitar o vexame. Apesar disso, cheguei aos 73 anos com festa inesquecível.

[19:40, 6/19/2019] Roberto Mendonça: Bom dia!!!! Passando para festejar um feliz aniversário p o mano @Roberto Mendonça. Parabens...cade a merenda?????

[19:40, 6/19/2019] Roberto Mendonça: Bom dia!! Hoje não tem um santo do dia para comemorar. Então vamos de Robertinho Mendonça 🥰. Parabéns pai!! Felicidades e mais anos de vida e saúde 🎂👏🏻😍🥳🥳🥳

[19:40, 6/19/2019] Roberto Mendonça: Bom dia!!! Passando para lhe desejar um feliz aniversário e que Deus te abençoe sempre. Parabéns Roberto!!!
[19:42, 6/19/2019] Roberto Mendonça: Parabéns Com Amor Para o Avô @Roberto Mendonça !

Nesta data quero parabenizar uma pessoa muito especial. Tenho uma grande admiração por você, vovô, homem maravilhoso, guerreiro, avô, pai, amigo, super homem com enorme coração. Compreende seus netos, eternas crianças sempre pedindo sua ajuda.
E é por tudo isso, vovô, que eu faço esta homenagem sincera, e saiba que enquanto eu existir a solidão não fará parte da sua vida. pois eu o adoro muito. Neste dia especial peço a Deus que continue iluminando seus passos e lhe guiando pelos bons caminhos da vida.

Vovô, eu o amo muito e vou amar eternamente. Feliz Aniversário! Bjs 😘👏🏻🎂🎂🎈🎊🎉

Então quer dizer que hoje alguém completa mais ano de vida? Já há alguns anos fazendo parte da sua família, posso dizer de coração que me sinto privilegiada por fazer parte dela. Que venham muitos e muitos anos a frente, e todos acompanhados de muita saúde e felicidade. Aproveito para agradecer todo o apoio dado a mim, tanto nos bons e maus da minha vida, por ter me dado a mão quando mais precisei! Quero que saibas que tbm sempre vai poder contar comigo! 😊🎂🎂🎂🎂🎊🎊🎊🎊

Apesar de todas nossas desavenças e ideias contrárias, você sabe o quanto o amo e para sempre será amado. As circunstâncias da vida não foram muito generosas com o nosso relacionamento, mas com um pouquinho de esforço dos dois lados superamos tudo isso lindamente.
Que a sua vida lhe permita muitos momentos felizes, acompanhados de boas conversas e quem sabe também um bom vinho. Que o compartimento da saúde esteja sempre cheio, renovado constantemente com sua alegria de viver e muita energia positiva para enfrentar melhor os problemas da vida.
Espero que nossos encontros possam ser cada vez mais frequentes, já que não dá para recuperar o tempo perdido, que pelo menos não passe em branco o que estar por vir. Que possamos comemorar seu aniversário por muitos anos ainda, sempre com um sorriso no rosto lembrando os ótimos momentos que já foram vividos.
Receba cada palavra com muito carinho e saudades de seu filho, neto e nora que lhe amamos muito! Tenha um excelente dia e um feliz aniversário!
Parabéns Papai!