CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

30 de agosto de 2012

Prefeito de Manaus



Amazonino Mendes, foto de
Carlos Navarro, 2011
O prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, hospitalizado em São Paulo, vai muito bem obrigado. Aleluia. No curso da eleição para seu substituto, tudo se tem dito sobre o enfermo. Não sei se é ele ou é Manaus que precisa de tratamento paulista. Para a cidade, melhor em outro local, porque, nesse sentido, o governo de São Paulo vem sacudindo a nossa Zona Franca. 

Agora, uma lição bem dada deixa o senhor Mendes, ao mostrar que não há obrigação de vice-prefeito para governar a cidade. Manaus sabe, conhece que seu vice, Carlos Souza, renunciou ao ser empossado deputado federal.

A partir dessa época, há dois anos, o substituto do prefeito passou a ser o presidente da Câmara. Nada ilegal, ao contrário. Mas, como esse regra-três encontra-se impedido de assumir pelas eleições municipais, veio a grande lição. A Câmara aprovou com extrema celeridade o projeto do Executivo que modificava as regras da substituição, incluindo o auxiliar de confiança do prefeito Amazonino.

Publicado o ato em DOM, assumiu o bacharel João dos Santos Pereira Braga, procurador-geral de Justiça do município.

Essa aula nos leva a outra mais rendosa: a de que não existe precisão de se eleger o vice-prefeito. Pois, se mais adiante houver necessidade, basta recorrer à cartilha amazonina 

Assim, já temos novo Prefeito interino. Lamentavelmente, este promete ser apenas discreto. Basta de discrição, doutor João Braga, pois é dessa maneira que o prefeito Amazonino (des)cuida de Manaus. Faça alguma coisa pela nossa cidade!

29 de agosto de 2012

A última noite


A Petrobras desenvolve inúmeras iniciativas, sabemos, mas uma delas, no campo cultural, surpreendeu-me duplamente. 
Renato Mendonça, 2010

O projeto intitula-se Prata da Casa e destina-se “a incentivar as habilidades artísticas e a criatividade da força de trabalho do Sistema Petrobras no Brasil e no exterior”.
 
Meu irmão Renato participou do projeto, na modalidade Literatura 2012 e na categoria conto. E aqui registro minha melhor impressão: com o conto – A última noite, ele levou um prêmio.  

A ÚLTIMA NOITE
Renato Mendonça

 As ruas de terra batida e poeirentas do bairro deslizavam velozmente sob os aros da bicicleta do garoto, enquanto o sol descia verticalmente no horizonte. As casas de madeira e algumas em alvenaria também descortinavam lépidas ao seu lado. Sem que tivesse sido avisado, voltava mais cedo pra casa, guiado apenas pela sua intuição casual, embora sua labuta diária tenha sido mais curta nesse dia. E existia alguma coisa no ar que conjecturava uma adversidade da vida. Estranhamente estava mais tenso, apesar da tenra idade e de não haver nenhum motivo aparente que colaborasse com esse tédio.

Antes de chegar, observou um pequeno alvoroço que se formava. Nada demasiado, porém diferente da imobilidade dos dias anteriores. Diferente daquela simplicidade costumeira, pacata. Um pouco mais de gente entrando e saindo de sua casa, apenas isso.

Parou em frente ao portão e lhe anteciparam a desdita. Estancou antes de entrar, feito um cavalo xucro ante um obstáculo, hipnotizado pela má notícia. De súbito, sua alma se angustiou e pensamentos estranhos invadiram sua mente, mesmo considerando que, em face da doença, já podia ser esperado aquele desfecho. Por mais paradoxal que possa parecer, a dor o fortaleceu. Nenhuma lágrima, naquele momento, rolou no seu rosto.         

Da porta do quarto, avistou um corpo franzino estendido na cama, inerte, derrotado. Não conseguira falar nenhuma palavra até então. Apenas a mente produziu efeitos no seu comportamento e nos seus gestos. O olhar vazio não queria ver o acontecido, não estivera nunca preparado para essa fatalidade. Limitou-se a olhar sem ver nada, sem abstrair o tamanho que a separação iria lhe impor.

Nem entrou no quarto, havia tanta gente, e tanta coisa para os adultos providenciarem que preferiu se afastar. Ainda haveria tempo para se despedir do corpo da avó, antes de olhá-la pela última vez. Saiu e postou-se no alpendre que dava acesso ao quintal. No varal, roupas dela estendidas lhe traziam mais lembranças. Lá dentro, todos se falavam ao mesmo tempo, alguns recordando fatos, atitudes, outros apenas bisbilhotando. A família ocupada em encomendar o caixão, flores e tudo mais. A vizinhança preocupada com os quitutes, e com o café e o refresco que seriam servidos à noite durante o velório, como eram de praxe.

Para o garoto, do lado de fora, a avó ainda estava viva nas recordações resgatadas de sua história. Acompanhado imaterialmente de um fundo musical de “Fina Estampa”, canção peruana que ela adorava cantarolar, reviu sua batalha, no início do século passado, como uma mulher emancipada num país notadamente machista.

A emigração do Peru, cercada de mistérios e de dois filhos menores — os outros três haviam ficado para trás, sabe Deus com quem. O fato é que conseguiu, analfabeta, lavadeira ou faxineira, vê-los todos criados. Contaram-me que viajara numa canoa e atravessara o Rio Solimões, remando noturnamente para não ser vista, e não ser obrigada a retornar para sua terra. Deveria haver algo infausto que a fez desistir da pátria natal.

Muitos outros fatos ainda permaneciam latentes na memória do garoto. Alguns gestos de ternura, outros nem tanto. Algumas broncas, alguns conselhos. Alguns corretivos ríspidos para moleques travessos. Típico de uma pessoa que educa aos trancos e barrancos porque não teve a oportunidade de estudar ou porque a sociedade lhe fora cruel. Entendia, entretanto, que tudo fazia parte do destino que Deus traçara para que tivesse uma substituta, consanguínea, da mãe que perdera tão precoce.

Caiu a noite, a última noite, no dia seguinte seria o enterro, ainda pela manhã. O caixão azul claro sobre a mesa da sala fazia uma exposição do desatino. Do seu quarto, deitado, observava que lentamente algumas pessoas chegavam para lhe homenagear, e queriam lhe tocar. Outras levantavam o véu para ver-lhe o rosto. Pareciam até que não a conheciam. Censurou as tristes cenas desumanas de gente que deseja ver seu semelhante morto. O garoto não concordava com isso. Prometeu a si mesmo, a partir dela, não ver mais ninguém — mesmo o ente mais querido — morto num caixão. Não queria ter na mente as lembranças mortas, preferiria as vivas, felizes e eternas. A morte lhe era uma derrota, um feixe de agruras, um êxtase do desconhecido, do outro lado da vida. 
Finalmente o sono o venceu.
 
Ela levantou-se lentamente, e aproximou-se de mansinho, os mesmos passos lentos que adquirira nos últimos anos. O mesmo cabelo penteado rente e preso em coque com um pente curvo no alto da cabeça. O mesmo vestido de bolinhas. Sentou-se na beirada da cama, ao seu lado. O seu rosto era lívido, a sua expressão não denotava dor, somente paz. As rugas se suavizaram sobre uma tez mais clara. 

Depositou a mão sobre sua cabeça como quem profere uma benção. As frases soltas não eram tão nítidas, mas perfeitamente assimiláveis. Parecia um anjo sublimando uma anunciação:
Renato, hijo mio, no me olvides. Ahora usted eres un joven, ya no eres un niño... Se empieza una nueva vida... Hay que tener juicio... Usted va a conocer chicas o mujeres, pero si no se olvida de que se vendrá como ángel y debe ser conocido que si distinguen la quién desea; la que quiere; la que te sabrá amar; la que tendrá un poco de paciencia con usted... No hay que encantarse por la primera, solamente la que el corazon te pida... 

No dia seguinte, o garoto estava mais tranquilo, embora angustiado. A expectativa pelo enterro era emoção que não gostaria de estar vivendo naquele momento. Não vira ou ouvira nada na noite anterior, tinha em mente apenas algo que lhe parecera um sonho ou imaginação.  Agora estava ali postado ao lado dela, sem olhá-la. Segredando as mesmas orações que rezaram juntos.

Momento antes de alçarem o caixão encorajou-se e apresentou-se pela última vez para despedir-se. E ficou ali, parado, pensativo, olhando seu rosto, desejando dar-lhe vida. Fechou os olhos para ver-lhe como no sonho, menos esculpido. O seu vestido branco de bolinhas pretas, o melhor que tinha, servia-lhe pela última vez.

 

28 de agosto de 2012

Campanha eleitoral



Recorte do informativo distribuído pela
campanha de Arthur Neto a prefeito
 
Sei que a campanha eleitoral transforma todos. Nem sei bem por onde começar. Se observando logo o visual com o qual o candidato ou a candidata apresenta-se, quase sempre rejuvenescido ou com o aspecto de integrante de novela global. Este fenômeno sucede com a candidata a prefeita de Manaus.

Outro aspecto facilmente observável é o das promessas, dos devaneios e até das excentricidades. Para ilustrar minha observação divulgo parte do informativo distribuído pelo candidato Arthur Neto, que já foi Virgílio, quando senador.

Sei que o material de propaganda foi produzido pelo diretório do vereador Mario Frota, político mais conhecido pelas suas histrionices. Dai certamente a promessa de restaurar a Santa Casa de Misericórdia, aquele hospital em fase terminal situado na rua 10 de Julho, atrás do Centro Cultural Tribunal de Justiça.

A tentativa de reabrir, de restaurar este hospital já foi perseguida por outras autoridades mais sensatas. Nada deu certo, até o presente. A Casa está perdida. Basta lermos o próprio folder em circulação, quando assegura que o prédio necessita de reforma, reforma capaz de adaptá-lo à modernidade hospitalar.

É necessário substituir os equipamentos, pois os existentes estão obsoletos, portanto, imprestáveis. Devem existir outros quebra-cabeças para montar ou desmontar, como o pagamento dos funcionários e dos fornecedores que tem sua importância.

Ainda hoje a cidade se lembra dos bingos que foram realizados em beneficio da Santa Casa, quantos carros de Garcia Veículos circulam em Manaus, oriundos dessa benemerência.

Centro Cultural não se aguenta mais, mas um hotel naquele espaço caberia muito bem. Entre nessa, candidato Arthur Neto, é mais simpático e eleitoreiro.

27 de agosto de 2012

A Imprensa no Amazonas (3/7)


 
Capa da edição, 1908
Prossigo com a publicação do livro A Imprensa no Amazonas, editado pelo governo do Estado, em 1908, para comemorar o primeiro centenário da imprensa no Brasil. 

Resumo histórico 

A ideia abolicionista abraçada por todos os jornais do tempo e por eles sustentada com ardor ganhava terreno, e foi essa uma das causas a que maiores serviços prestou a imprensa amazonense. O Amazonas e o Commercio do Amazonas tomaram francamente e com desassombro a testa do movimento libertador. Falava assim o Commercio do Amazonas de 15 de agosto de 1883:
Ao lado do escravo a nossa posição sempre foi definida e pugnaremos para que em breve seja a Província toda livre dessa mancha que enodoa o pavilhão bicolor.
Os anúncios sobre escravos de qualquer gênero que sejam são banidos das colunas do Commercio do Amazonas. 

Dizia o Amazonas de 21 de março de 1884:
Esposando a generosa ideia, desde hoje pomo-nos ao serviço da grande causa da abolição da escravatura da província, empenhando todos os esforços no sentido da sua completa extinção por todo o corrente ano, se for possível. 

A abolição, ganhando prosélitos, continuava sua propaganda com um vigor extraordinário, até que, a 10 de julho de 1884, se fez a libertação geral dos escravos da Província, sendo curioso transcrever o tópico seguinte do Commercio do Amazonas de 15 de maio de 1884, para que se veja o entusiasmo que a grande causa despertava na imprensa:
Temos a subida honra de anunciarmos aos habitantes de Manaus, à Província, ao Brasil, ao Mundo inteiro que na rua Henrique Martins onde se acha o nosso estabelecimento não tem UM SÓ ESCRAVO. 

Com esse valiosíssimo concurso da imprensa o Amazonas foi a segunda das províncias do Brasil que espontaneamente fizeram a abolição do elemento o servil, antes da lei geral de 13 de maio de 1888.

* * * 

Libertada a Província, nem por isso a sua imprensa já então bastante poderosa e brilhante, deixou de seguir, com interesse, o grande movimento que se fazia no resto país, e especialmente no que se passava em seu parlamento. E quando chegou a notícia em Manaus da promulgação da Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, extinguindo a escravidão no Brasil todas as folhas de então: Amazonas, Commercio do Amazonas, A Provincia do Amazonas, Jornal do Amazonas, O Norte do Brasil, Evolução, Equador e o Artista esqueceram as lutas, dissenções oriundas das ideias políticas que defendiam e, reunidas, deram um número especial com o título A Imprensa Unida no dia 31 de maio.

Comemoraram o notável acontecimento com outro também notável: jornais que eram acérrimos liberais, conservadores e republicanos, bem como os neutros, e que se digladiavam valentemente na véspera, perante a vitória final da abolição terçaram as armas para juntos entoarem hosanas e enviarem uma mensagem à Princesa Imperial Regente, a signatária da Lei Áurea.    

Esta mensagem que estava assinada pelos redatores, proprietários, colaboradores, tipógrafos, impressores etc. de todas as citadas folhas era do teor seguinte:
MENSAGEM DA IMPRENSA
A S.A. A Princesa Imperial Regente 

A IMPRENSA do Amazonas, representada pelos jornais de todos os matizes políticos, literários e comerciais, agremia-se cheia de júbilo e entusiasmo para render à V. A. IMPERIAL, em nome desta vastíssima Região Amazônica, cujos interesses de progresso advoga com denodo e convicção, as suas homenagens, o seu preito de agradecimento, as suas puríssimas congratulações, conquistadas por V. A. IMPERIAL sancionando o projeto de lei que aboliu do solo da Pátria a escravatura, esse grande feito de patriotismo que importa ao arrasamento das senzalas e no levantamento moral de uma raça até então oprimida e aviltada.

Hoje toda a Pátria está livre de tão execranda instituição, nós, que promovemos a extinção dela na paz a mais completa, no meio de festas as mais solenes e ruidosas, sem a mínima alteração da ordem pública, sem prejuízo do senhor, sentimo-nos orgulhosos em levar à presença de V. A. IMPERIAL as hosanas que a futurosa província do Amazonas, por intermédio da sua IMPRENSA UNIDA, levanta para abençoar o nome querido da Augusta e Excelsa Regente. 

Pode-se afirmar que a Imprensa do Amazonas tornou-se a promotora dos grandes festejos que se fizeram por essa ocasião em Manaus, tal foi o entusiasmo de que se possuíra com a vitória de tão nobre causa pela qual tanto combatera.
 
Primeira página do Jornal do Amazonas, 1875
  
Catálogo geral de jornais circulados no Amazonas (1851-1889) 

1870

MONARCHISTA
O 1º número é de 1º de janeiro de 1870. Desapareceu em 2 de junho do mesmo ano, com o nº 18.
ECCO
O 1º número é de 21 de março de 1870. Desapareceu em 28 de junho do mesmo ano.
ARGOS
O 1º número é de 9 de abril de 1870. Suspendeu a publicação em 19 de fevereiro de 1871, com o nº 24, para reaparecer dias depois. Desapareceu definitivamente em 30 de junho de 1872, com o nº 87. 

1871

CHRYSALIDA
O 1º número é de 10 de junho de 1871. Deixou de ser publicado um mês depois.
JORNAL DO NORTE
O 1º número é de 2 de julho de 1871. Deixou de ser publicado em julho de 1872. 

1872

BOLETIM OFFICIAL
O 1º número é de 18 de dezembro de 1872. Deixou de ser publicado em novembro de 1873. 

1873

COLIBRI
O 1º número é de janeiro de 1873. Deu poucos números.
FUTURO
O 1º número é de 14 de abril de 1873. Terminou com o nº 20 do mesmo ano.
RIO-NEGRO
O 1º número é de 11 de maio de 1873. Deixou de ser publicado em julho de 1874.
LIBERAL DO AMAZONAS
O 1º número é de 20 de novembro de 1873. Terminou a publicação em fins de 1874.  

1874

ACTUALIDADE
O 1º número é de 15 de maio de 1874. Deixou de ser publicado em fins de setembro do mesmo ano.
O BADERNA
O 1º e único número é de 8 de junho de 1874.  

1875

JORNAL DO AMAZONAS
O 1º número é de 8 de abril de 1875. Desde o seu início foi órgão do partido conservador.
Em 23 de novembro de 1889 substituiu aquela divisa pela de órgão federalista. Foi o primeiro jornal que definiu logo a sua posição em face da República.
Suspendeu a publicação em 23 de março de 1878, com o nº 231. Reapareceu em 4 de abril do mesmo ano, com o nº 232.
Suspendeu a publicação em 29 de outubro do mesmo ano, com o nº 288. Reapareceu em 6 de novembro do mesmo ano, com o nº 289.
Suspendeu em agosto de 1889. Reapareceu em 10 de setembro do mesmo ano. No artigo político (artigo programa desse dia) ele combate a centralização e prega, a despeito dos princípios do conservadorismo da sua escola, a federação monárquica.
Suspendeu em fins de dezembro de 1889. Reapareceu em 5 de janeiro de 1890, com o nº 1.
Desapareceu definitivamente em fevereiro de 1891. (segue)

 

26 de agosto de 2012

POLÍCIA MILITAR DO AMAZONAS: TRIATHLON (XXV)


Folder distribuído pela comissão organizadora
A Academia de Polícia Militar coronel Neper Alencar e o Instituto Integrado de Ensino de Segurança Pública realizarão em 15 de setembro, a partir de 7h30, uma prova de Triathlon, na praia da Ponta Negra. Além da própria PMAM, a prova terá apoio do Corpo de Bombeiros Militar e da Universidade do Estado do Amazonas.

A iniciativa objetiva congregar tanto os policiais militares quanto os bombeiros militares com a comunidade. Também serve como preparação para os Jogos Acadêmicos, que podem ser conhecidos no site jogosacademicos.com

Como é sabido, a prova será disputada em três modalidades: natação (750m), bike (20km) e corrida (5km). Enfim, haverá prêmio em dinheiro para os vencedores, mas a inscrição será cobrada em reais e um quilo de alimento.

24 de agosto de 2012

BATALHA NAVAL DE ITACOATIARA – 80 ANOS


Há oitenta anos, em 24 de agosto de 1932, aconteceu a esdrúxula Batalha Naval de Itacoatiara. Nela, foram derrotados os rebeldes da fortaleza de Óbidos (PA), embarcados em dois navios cargueiros, o Jaguaribe e o Andirá.

Depois do assalto à Parintins (AM), investiram contra Itacoatiara (AM), ambas as cidades na calha do rio Amazonas. A defesa da Velha Serpa coube ao capitão Gonzaga Tavares Pinheiro, da Polícia Militar, prefeito da cidade. Gonzaga, cearense de conduta altiva, acercou-se do padre Joaquim Pereira para o diálogo com os invasores. A atuação destes foi produtiva, pois tudo realizaram para retardar as ações rebeldes, esperando como aconteceu a chegada de reforços.

Quem conta o fato abaixo é o acadêmico Francisco Gomes, nascido na Velha Serpa, por isso, dotado de recursos competentes para esclarecer o acontecimento inédito na historia não só do Amazonas. O texto foi digitalizado de seu livro Cronografia de Itacoatiara, 2º vol. (Manaus: Imprensa Oficial, 1998).

Capa do livro de Francisco Gomes
 A história da batalha naval de Itacoatiara (AM) está umbilicalmente ligada à revolução constitucionalista que eclodiu em São Paulo, em 1932. Sob o comando do coronel Alderico Pompo de Oliveira, os rebeldes partiram de Óbidos (PA) subindo o Amazonas, decididos a tomar posse das cidades ribeirinhas até Manaus, intimando a população nortista a fazer frente à política adotada no país pelo governo Vargas.

Em meio à viagem apreenderam os navios “Jaguaribe” e “Andirá”, desde logo armados com canhões, metralhadoras, obuses, fuzis e muita munição, transformando-os em postos avançados de guerra. A lancha “Diana” também foi capturada.

Parintins foi tomado de assalto e, quando se preparavam para ocupar Itacoatiara, foram surpreendidos pela força naval legalista embarcada nos navios “Baependi” e “Ingá”, procedente de Manaus, sob o comando do capitão de fragata Alberto de Lemos Basto.

Em terra liderava o movimento de defesa o capitão Gonzaga Tavares Pinheiro, da Força Policial do Estado, e então no exercício da Prefeitura de Itacoatiara.

O governo do Amazonas era chefiado pelo ministro Waldemar Pedrosa que foi homenageado, após sua morte, em junho de 1967 (na oportunidade, a Câmara Municipal de Itacoatiara decretou: As ruas Saldanha Marinho e Visconde do Rio Branco passam a denominar-se rua Ministro Waldemar Pedrosa (Lei n° 11, de 30.06.1967).
Precisamente, às treze horas e trinta minutos de 24 de agosto de 1932 teve inicio a batalha, resultando na vitória da legalidade. Os vapores inimigos “Jaguaribe” e “Andirá” foram postos a pique.

No gênero, a batalha naval de Itacoatiara foi a única na América Latina, neste século. O movimento sedicioso é narrado por Anísio Jobim, 1948; Francisco Gomes da Silva, 1965, 1970 e 1997; Robério Braga, 1979; e Antônio Loureiro, 1995. Há também pesquisas inéditas promovidas pelo autor deste trabalho a respeito do evento, que serão compiladas em volume a sair breve, sob o título "Motins itacoatiarenses".

23 de agosto de 2012

A Imprensa no Amazonas (2/7)


 
Prossigo com a leitura do livro A Imprensa no Amazonas, editado pelo governo do Estado, em 1908, para comemorar o primeiro centenário da imprensa no Brasil.

Resumo histórico

Capa do jornal, de julho de 1870. Fonte: Biblioteca Nacional
De 1880 a 1889 a imprensa manauense tomou notável incremento, salientando-se como principais folhas o Amazonas, Commercio do Amazonas e Jornal do Amazonas. O primeiro era órgão do partido liberal; o segundo, neutro nas lides partidárias, e o terceiro, órgão do partido conservador.

A imprensa de Manaus, que relevantes serviços prestara no sentido de virem até nosso porto os vapores da antiga Companhia Brasileira, como já havia trabalhado para o estabelecimento da navegação direta à Europa e Norte América, porque via nesses fatos um grande elemento de progresso para o Amazonas, levantou-se num só pensamento quando em 1885 se tentou suprimir nossa capital da escala que faziam os paquetes daquela Companhia.

Em reunião efetuada na redação do Commercio do Amazonas a 9 de dezembro do ano citado, os representantes do Amazonas, do Jornal do Amazonas e do Commercio deliberaram enviar uma exposição de motivos contrária a esse ato, ao governo imperial, ao Jornal do Commercio, Gazeta de Noticias, Gazeta da Tarde, o Paiz e Vanguarda, do Rio de Janeiro.

A representação seguiu a 11 de dezembro e foi uma bela afirmação de interregno de lutas, que os jornais sustentaram diante da defesa do interesse coletivo. Firmaram-na os Srs. Antonio de Amorim, pelo Commercio do Amazonas; Aprigio Martins de Menezes, pelo Amazonas; Manoel de Miranda Leão, pelo Jornal do Amazonas; Lourenço Ferreira Valente do Couto, pela A Província, e Pedro Ayres Marinho, pela Gazeta de Manáos.

Explicando a sua atitude, assim dizia a imprensa reunida:

Uma ocasião, porém, existe em que os órgãos de publicidade semelham alas de um exército que se separa para pontos diferentes, desconhecidos, encontrando-se mais tarde justamente no lugar em que o inimigo lhe opõe barreira. Assim a imprensa. Podem as paixões, os ódios, os ressentimentos, as decepções separá-la. Venha, entretanto, um assunto que entenda com o bem estar, com a prosperidade do território em que a imprensa discute e combate e a veremos unida como baluarte enérgico, poderoso, opondo seu poderio incontestável aos pretendidos interesses dos que parecem ignorar a sua existência. A imprensa do Amazonas acaba de ver confirmada essa opinião, congregando-se para lutar, lutando para vencer.

 A população colocou-se ao lado dos jornais do tempo e a causa que defendiam tornou-se vitoriosa. (segue)
 
 
Recorte do livro A Imprensa no Amazonas

 

Catálogo geral de jornais circulados no Amazonas (1851-1889) 

1867

LEI
O 1º número é de fevereiro de 1867. Terminou com o nº 2 do mesmo mês. 

JORNAL DO RIO NEGRO
O 1º número é de 1º de julho de 1867. Terminou a 13 de maio de 1868, com o nº 102. 

1868

A REFORMA LIBERAL
O 1º número é de março de 1868. Desapareceu em 1870.
Reapareceu em 2 de fevereiro de 1871. Suspendeu a publicação em 8 de abril de 1875.
Reapareceu em 15 de março de 1879. Suspendeu em 15 de julho de 1881.
Reapareceu em 23 de setembro do mesmo ano. Desapareceu definitivamente em 12 de novembro do mesmo ano. 

MERCANTIL
O 1º número é 1º de julho de 1868. Desapareceu a 31 de dezembro do mesmo ano, com o nº 151.
Precedeu o Commercio do Amazonas. 

16 DE JULHO
O 1º número é de 1º de setembro de 1868. Terminou a publicação a 18 de dezembro do mesmo ano, com o nº 8. 

1869

JORNAL DO COMMERCIO
O 1º número é de 4 de fevereiro de 1869. Deu poucos números. 

DIARIO OFFICIAL
O 1º número é de 1º de maio de 1869. Suspendeu a publicação em dezembro do mesmo ano. 

A FÉ
O 1º número é de 1º de junho de 1869. Terminou nos primeiros dias de agosto do mesmo ano, com o nº 10. 

COMMERCIO DO AMAZONAS
O 1º número é de 15 de agosto de 1869. Substituiu o Mercantil do mesmo proprietário Gregório José de Moraes.
Suspendeu a publicação em 23 de julho de 1884. Reapareceu em 1º de novembro do mesmo ano, com o nº 1. Suspendeu em 6 de março de 1886, com o nº 26.
Reapareceu em 16 do mesmo mês, com o nº 27. Suspendeu em 2 de fevereiro de 1892.
Reapareceu em 7 de fevereiro do mesmo ano. Suspendeu em 29 de março do mesmo ano.
Reapareceu em 2 de abril do mesmo ano. Suspendeu a publicação em 13 de setembro do mesmo ano, com o nº 20.
Em 15 de agosto de 1897 (domingo) circulou um número extraordinário a fim de interromper a prescrição da sua propriedade literária.

Em 14 de setembro do mesmo ano reapareceu com o nº 1, em substituição a O Imparcial. Suspendeu em 8 de agosto de 1899, com o nº 528.
Reapareceu em 15 do mesmo mês, com o nº 529. Suspendeu em 22 de fevereiro de 1900, para reaparecer dias depois.
Suspendeu em 9 de abril de 1886 do mesmo ano. Reapareceu em 21 do mesmo mês.
Suspendeu em começo de março de 1901. Reapareceu em 28 do mesmo mês.
Suspendeu em começo de março de 1902. Reapareceu em 30 do mesmo mês.
Suspendeu em 27 de setembro de 1903, com o nº 36. Reapareceu em 4 de outubro do mesmo ano, com o nº 37.
Suspendeu em 16 de fevereiro de 1904, com o nº 142. Reapareceu em 23 do mesmo mês, com o nº 143.
Suspendeu em 26 de maio de 1904, com o nº 219. Reapareceu em 1º de julho do mesmo ano, com o nº 220.
Suspendeu em 10 do mesmo mês, com o nº 225. Reapareceu em 16 do mesmo mês, com o nº 226.
Desapareceu definitivamente em 30 de dezembro do mesmo ano, com o nº 112. 

Representou, durante o largo período de 1869 à 1904, a imprensa neutra e, neste caráter, discutia todas as questões da atualidade e admitiu na sua redação colaboradores de todos os matizes.
Foi o jornal de maior circulação e aquele que criou raízes mais profundas no Amazonas.
Fora da Província e do Estado era sempre o preferido. Iniciou a imprensa diária, criou o serviço telegráfico e introduziu as ilustrações, estampando retratos de homens notáveis do Brasil e da Europa, vistas de edifícios, paisagens, lugares de importância etc. 

CORREIO DE MANÁOS
O 1º número é de 7 de setembro de 1869.  Desapareceu em março de 1870.
Reapareceu em 14 de setembro de 1881. Desapareceu definitivamente em dezembro do mesmo ano. 

MORCEGO
O 1º número é de dezembro de 1869. Terminou em 15 de janeiro de1870, com o nº 4.  (segue)

22 de agosto de 2012

BIBLIOTECA PÚBLICA DO AMAZONAS


Escombros da Biblioteca
Pública, em 1945
22 de agosto de 1945

Na madrugada desse dia, aconteceu um grave incêndio que atingiu a Biblioteca Pública do Estado, única até então existente, inaugurada em 1910 na rua Barroso canto com a avenida Sete de Setembro. O fogo destruiu completamente seu acervo, salvaram-se alguns poucos, e mais preciosos, por se encontrarem em exposição fora do local. A edificação, pelo lado da rua Henrique Martins, partiu de alto a baixo, deixando ver o desastre em seu interior.
Em apenas dois anos, sem contar com tantas ajudas financeiras, o prédio foi reparado e uma nova coleção de livros foi incorporada ao acervo da Biblioteca. Nome do autor desta façanha: Genesino Braga.
Que saudades desse Diretor, quando se vê a mesma Casa de Leitura fechada há mais de seis anos, por culpa de fenômenos climáticos, como se dizia antigamente, “pecado” de são Pedro que manda tanta chuva sobre a cidade de Manaus.
O Corpo de Bombeiros de então era um desastre. Para o livro sobre os “homens e mulheres do fogo”, escrevi o texto que a seguir exponho. 

No segundo semestre desse ano (1945), as chamas descontroladas iluminaram a cidade de Manaus em trágicos acidentes. A partida começou em 4 de julho, com a destruição do batelão Arapiuns. Acionada, a Companhia de Bombeiros compareceu ao local, “tendo prestado valiosos serviços, isolando, com suas mangueiras, o batelão sinistrado”, noticia O Jornal, de 15 de julho.

Dois outros acidentes aconteceram no fatídico mês de agosto. O espantoso incêndio verificado no Emboca (hoje rua Leopoldo Neves), bairro de Santa Luzia, onde desapareceu perto de uma centena de casas humildes. Além de medidas assistenciais tomadas pela interventoria, a Associação Comercial do Amazonas (ACA) colaborou na reconstrução de residências.

O outro, inolvidável, sucedeu na madrugada de 22 destruindo o acervo da Biblioteca Pública. Já instalada onde hoje se encontra, no cruzamento da rua Barroso com a avenida Sete de Setembro, a Biblioteca e o Arquivo Público partilhavam o andar térreo do prédio. Ocupavam, respectivamente, o salão sul (av. Sete de Setembro) e o salão norte (rua Henrique Martins).

Ali estava instalada, também, a Assembleia Legislativa. Embora não estivesse em funcionamento, pois vigorava a ditadura do Estado Novo – ocupava “provisoriamente”, desde 1913, todo o andar superior.

Diante do infortúnio, Manaus irmanou-se, tanto para combater as chamas quanto para recuperar o patrimônio. As descrições oferecem ampla visão desse empenho geral, a primeira provém do acervo da Polícia Militar (Boletim Interno, de 24 de agosto), que detinha o dever de arrostar as chamas.                        

                   Ontem, o patrimônio cultural do Amazonas sofreu profundo golpe com um terrível incêndio que destruiu parte de um grande edifício do Estado, onde se achava localizada a Biblioteca do Estado. Esta lamentável ocorrência, que teve início pelas 3h da manhã, foi logo socorrida pelo Corpo de Bombeiros, além de alguns oficiais e praças da Força, com o intuito único de dominar a ação devastadora das chamas. Por um retardo da abertura da rede de águas, o incêndio tomou maior volume, entretanto, um esforço gigantesco por parte dos nossos bombeiros, bem como de alguns oficiais e praças da Força, conseguiram evitar a propagação das chamas às outras dependências do mesmo edifício. 

O comando policial reconheceu o esforço e a dedicação de seus subordinados. Consignou em boletim que não mediram sacrifícios, ao ponto de exporem suas vidas “na luta pelo cumprimento do dever”, por isso, merecem especial menção “pela alta prova de amor à profissão e à pátria”. Experimentou a altivez, especialmente, “daqueles que souberam cumprir o seu dever”, concorrendo para evitar maiores danos ao patrimônio do Amazonas. Tanto entusiasmo arrebatou o comandante, a ponto de indultar a pena disciplinar “dos praças da Companhia de Bombeiros, bem como da companhia de metralhadoras do Batalhão”. Nominalmente, do cabo 339, Paulino Furtado de Araújo e do soldado 494, João Bento de Souza, da 1.ª Companhia de Fuzileiros.

Os bombeiros não puderam combater o fogaréu a contento, reconhece o comandante. Após o rescaldo, restaram aos policiais militares os encargos da segurança e da remoção dos entulhos. Isso mesmo. Foram designados 12 homens para, sob a orientação do diretor dos Serviços Técnicos do Estado, demolir as áreas do prédio irremediavelmente atingidas pelo fogo. Coube ao tenente Caetano Félix do Nascimento, que nos anos de 1954-55 seria comandante da Polícia Militar, a fiscalização desses serviços.
Genesino Braga (1906-88)
A destruição da biblioteca do Amazonas relevou outros personagens. O relator, não apenas do incêndio, mas da restauração do prédio e da montagem das coleções, foi seu diretor. Genesino Braga, cronista de méritos indiscutíveis, inicia o capítulo Incêndio da Biblioteca Pública (Nascença e vivência da Biblioteca do Amazonas. Belém: Gráfica Falangola, 1957) lembrando a queima de outra biblioteca, incluída em todos os compêndios. “Como no céu de Alexandria, no ano de 641 a.C., o céu de Manaus também se cobriu de grossos rolos de fumo, na madrugada de 22 de agosto de 1945”.

No andar superior funcionava a Assembleia Legislativa, onde mantinha seus arquivos, daí supor que, uma descarga elétrica “no velho quadro de eletricidade existente no andar superior do edifício”, tenha produzido o desastre. O fogo destruiu por completo todo “o patrimônio livresco, móveis e demais utensílios da Biblioteca Pública do Amazonas”.

Ao contrário da proclamação do comandante dos Bombeiros, o cronista-diretor Braga fustiga: quando o alarme soou, não houve “as providências que se esperavam”, pois, para a “imediata debelação do incêndio, não havia água nas bocas do incêndio próximas ao local” e, bem pior, “os bombeiros, desapresados, não dispunham do mais primário material para o combate a incêndio de tão vastas proporções”.

Diante deste quadro: madrugada, sem água nos hidrantes e com bombeiros desaprestados, “toda a biblioteca foi destruída, não se conseguindo salvar sequer uma página de livro; e toda a ala direita do majestoso edifício veio ao chão, da cobertura ao soalho do piso inferior e deste à laje do porão, ficando de pé apenas as grossas paredes laterais, na sua obra de alvenaria, com grandes fendas de alto a baixo”. 

Sem contestação, aquele foi um dia aziago para a vida cultural do Estado. Restou, contudo, nos anais da Polícia Militar as palavras reconhecidas do cientista Djalma Batista (entre março e julho de 1943, foi, na condição de capitão, chefe do Serviço de Saúde da Força Policial). Suas palavras foram manifestadas em carta ao comandante da Força Policial do Amazonas.

Nesta, ratificou a admiração pela organização a qual servira, ainda que por meses. E listou o grupo de abnegados praças que ajudaram a transferir “o modesto laboratório de pesquisas clínicas, que dirijo”, situado no entorno do incêndio. O grupo esteve constituído dos sargentos Edson (do Serviço de Saúde) e Djalma Passos (depois oficial, bacharel, poeta e deputado) e dos soldados Antônio Nunes da Silva, Januário M. da Silva, Manoel Ribeiro, Maximiniano Belarmino e João Bento de Souza.

Assim consignou o saudoso doutor Djalma Batista (1916-79): 

                        A cidade de Manaus viveu na madrugada de anteontem um de seus dias mais trágicos, com o incêndio da Biblioteca Pública, por excelência a casa da cultura e do espírito. A violência com que lavrou o fogo foi tamanha, que a ameaça de generalizar-se a todo o quarteirão se tornou evidente. (...) O gesto de solidariedade e a ajuda prestimosa dos briosos militares me cativou extraordinariamente.
Biblioteca Pública, anos 1960. Detalhe dos modelos de
carros: Rural (à dir.) e Karmanghia (à esq.)
Biblioteca Pública, em 1969