CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

13 de outubro de 2010

Adolpho Lisboa (1862-1913)



Devo inicialmente me penintenciar: Adolpho Lisboa morreu em 10 de outubro de 1913, não a 13, como postei dias atrás. Para mim, a falta é grave, pois, como anuncio entre os livros próprios, encontra-se A Administração do coronel Lisboa (2008).
O texto que segue foi extraído deste livro, nele realizei uma biografia do coronel Adolpho Lisboa. Suas realizações quando prefeito de Manaus foram sinalizadas com este dístico, daí o título da obra.


Aproximadamente dois anos depois da morte da esposa Laura (1912) e cinco, afastado da prefeitura de Manaus, e em plena disputa judicial pelos bens entesourados, muitos adquiridos de forma fraudulenta, Adolpho Lisboa morreu em sua residência, em Belém. Era sexta-feira, 10 de outubro de 1913, às vésperas do Círio de Nazaré.

Identificado por coronel, ele dispunha de reconhecimento na praça como bem demonstrou periódico editado em Belém. No dia imediato, quando do enterro, o matutino publicou em marcada coluna, aparentemente encomendada, o necrológio do militar.
Há quatro anos que o finado veio de Manaus para esta capital e daqui embarcara para Paris, em passeio, o ano passado, regressando no mesmo ano. O coronel Lisboa era viúvo de dona Laura Leduc Lisboa, filha do Sr. Eduardo Leduc e dona Virginia Leduc, e do seu consórcio não deixa filhos.
REGISTRO FÚNEBRE
Coronel Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa
Faleceu ontem, às 9h 30 da manhã, em sua residência, à avenida Independência nº 9, acometido por nevrite gripal, o coronel Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa. O extinto exercera nesta capital, no governo [Augusto] Montenegro, o cargo de comandante do corpo de cavalaria e, em Manaus, o de comandante da brigada militar, no governo do Sr. Silvério Nery, desempenhando também o cargo de superintendente daquela capital na administração do general Constantino Nery.

Nascera no estado da Bahia, tinha 52 anos de idade e era filho do Sr. Guilherme de Miranda Lisboa e dona Olympia Lisboa. Os seus funerais efetuar-se-ão hoje, às 7h 30 da manhã, saindo o féretro da casa onde ocorreu o óbito para o cemitério de Santa Izabel.
No mesmo campo santo volta a se reunir o casal Laura e Adolpho, apesar de sepultados em jazigos distintos, devido ao pequeno transcurso entre o falecimento de ambos. Os jazigos estão na mesma parede, bem próximos, separados por alguns passos.
A certidão de óbito de Adolpho Lisboa foi expedida pelo Cartório do 1º Ofício. Para o extinto que servira tanto ao Exército quanto as Polícias Militares, por acordo de governadores amazônicos, julgava eu encerrada tão explosiva atividade. Ainda que morto, coronel Lisboa teima. Seu nome por algum tempo reverberou na planície amazônica, muito mais por seus defeitos. Ainda retumba com certa gravidade.
O cabo subfluvial ligava pelo telégrafo as duas metrópoles da borracha, e por extensão de certo êxito com a Europa. Foi este instrumento que permitiu um cabograma para o Jornal do Commercio, que noticiou o falecimento do ex-superintendente de Manaus. A edição do domingo (15.10) lembrou as festividades do Círio de Nazaré, transcreveu o telegrama fúnebre abaixo, e, ilustrando a notícia, reproduziu a fotogravura utilizada no aniversário do alcaide, em janeiro de 1905. Quando celebrou aquele natalício, a primeira página do recém instalado jornal não dispensou aplausos. Já a transcrição da nota telegráfica sobre o falecido coube na última página. Coisas de vida e de morte!
Antes do sétimo dia, o Exército noticia o falecimento do major reformado Adolpho Lisboa, cumprindo as providências de praxe. Bastante lacônico, “curto e grosso”, o registro definitivamente encerrava a participação deste na Força Terrestre. Lisboa, com certeza, não legou marca pessoal competente, quase sempre esteve afrontando os regulamentos. É possível que houvesse se desligado sem deixar apreços.
Belém, 11. Faleceu ontem nesta cidade o major reformado do exército Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa, que exerceu vários cargos estaduais nesta cidade e na de Manaus. O seu enterro realizou-se hoje, sendo bastante concorrido.
Na capital da Zona Franca, ainda subsistem obras da belle époque manauara ordenadas por Adolpho Lisboa. Para uns, atestado do descontrole financeiro deste, que parecia se comprazer em tripudiar a legalidade. Mas sobrevivem na margem esquerda do rio Negro cronistas que lhe reconhecem convincente labor administrativo.

Adolpho Lisboa vivera 52 anos, na condição de um homem controverso.

Coronel Lisboa foi comandante da PM
Um século depois, a despeito de toda mudança política, da modernidade alcançada e do avanço sistemático de costumes, o espectro do administrador Adolpho Lisboa, inconvenientemente exorcizado, segue atormentando a tantos e, à procura de julgamento histórico, ainda vaga por ruas e praças de Manaus.