CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, janeiro 10, 2021

FOLHINHA DE JANEIRO [2]

Para relembrar o passado, recorro às efemérides manauaras. Que sirvam ao leitor. Morador do bairro de Educandos, utilizei bastante a ponte da “subusina” de eletricidade. E as catraias, idem. E mais, fui aluno do GE (hoje EE) Machado de Assis.


Foto conhecida do extinto cemitério de São José

 10 de janeiro

1888 – Empossado na presidência da Província, o coronel (do Exército) Francisco Antônio Pimenta Bueno, filho do visconde de São Vicente. Na mesma ocasião, assume o Comando das Armas da Província do Amazonas, o coronel Candido José da Costa.

1963 – Falece em Manaus, Abílio Damazo Nery, genitor de Paulo Pinto Nery, que foi prefeito de Manaus e governador do Amazonas.

 

11 de janeiro


1924 – Criado pelo decreto 1472, sancionado pelo governador Rego Monteiro, o Grupo Escolar Machado de Assis, ocupando o restante das instalações do Instituto dos Educandos Artífices, embrião do bairro.

1926 – A prefeitura de Manaus, mediante edital, convoca aos familiares e responsáveis por túmulos ainda existentes no cemitério de São José, a fim de proceder a exumação. Outros editais e convocações foram publicados, até o ano de 1931. No ano seguinte, foi concretizada a transferência, sob as expensas da municipalidade. Os despojos não reclamados, foram locados no Ossuário construído para este fim, localizado na Quadra Cinco.


Edital do cemitério S. João, em 1926

 

12 de janeiro


1929 – Iniciados os serviços de construção da ponte destinada a ligar o Centro, via bairro da Cachoeirinha, ao bairro de Educandos. O encarregado – Antônio Rodrigues Vianna Júnior, engenheiro civil e de minas, era também autor do projeto. Hoje desativada, a construção foi conservada para lembrar-nos do tempo em que o bairro de Educandos era uma “ilha”, socorrida pelas catraias.

1956 – Eleito pela sigla do Partido Social Democrático (PSD), Raimundo Perales assumiu a prefeitura de Itacoatiara.

domingo, novembro 15, 2020

ELEIÇÕES MUNICIPAIS

Hoje - Dia das eleições municipais no Brasil. 

15 de novembro

1889 – Ocorreu a Proclamação da República no país, cujo fato sucedeu na então Capital Federal, conduzida pelos militares federais, à frente o marechal Deodoro da Fonseca. O distanciamento geográfico do Amazonas, entretanto, apenas permitiu que esta alvissareira notícia chegasse ao nosso porto seis dias depois. Lembro que, por ocasião da Independência, a notícia alcançou Manaus um ano depois (9 nov. 1823).

1893 – Inauguração do Diário Oficial, instalado na avenida Sete de Setembro, no edifício hoje ocupado pelo banco Bradesco, aos fundos da Biblioteca Pública. Em nossos dias, a Imprensa Oficial segue ocupando o tradicional endereço da rua Dr. Machado.


Edifício original onde foi inaugurada
a Imprensa Oficial, hoje Bradesco

1919 – Assume o comando da Força Policial do Estado, Alberto Duarte de Mendonça, capitão de infantaria do Exército, comissionado no posto imediato, vindo do 27 BC. De certo, um dos comandos mais curtos, pois permaneceu no cargo, não se tem registro das razões, até 18 de dezembro seguinte. Desse modo, não há foto na galeria dos comandantes, restando dele somente uma nota de rodapé. Foi substituído pelo tenente-coronel PM Octavio Sarmento, por sinal seu contemporâneo na Escola Militar, ao lado de Cândido Mariano.

1995 – Falece, em Manaus, o doutor Paulo Pinto Nery, descendente de marcante família no Amazonas, da qual saíram quatro chefes do Poder Executivo. Pinto Nery foi mestre da Faculdade de Direito do Amazonas, prefeito da Cidade e governador do Estado, e mais outros encargos na área do Poder Legislativo.

quarta-feira, dezembro 13, 2017

SEMANA DA PÁTRIA - 1992

Capa do Programa
A comemoração da Semana da Pátria empregava, em 1992, uma respeitável comissão, que procurava preencher o período com distintas atividades cívicas. Não apenas com os tradicionais desfiles militares e, ao coincidir com a data magna do Amazonas, o escolar. A extensa comissão – 30 membros – desse ano será aqui postada. Estava sob a direção da então Secretaria da Educação, Cultura e Desportos, cujo titular era o professor Origenes Angelitino Martins.

A cada ano eram escolhidas personalidades a nível nacional e regional para as homenagens. Nessa ocasião, a Representante da Mulher Amazonense coube à professora Ritta Haikal; o Vulto Estadual foi o Dr. Paulo Pinto Nery, e o Nacional, jornalista Assis Chateaubriand.

A abertura e o encerramento ocorreram na Praça Heliodoro Balbi, conhecida Praça da Polícia, que abrigou ainda o Show de Bandas Militares, com a participação das Bandas da Polícia Militar, do VII Comando Aéreo Regional e do Comando Militar da Amazônia.

O Amazonas Shopping foi utilizado para a apresentação de bandas escolares e ginástica rítmica, além de local da chegada do Triathlon da Independência. Outro espaço bastante utilizado foi a Praça da Saudade, que proporcionou a exibição de orquestras e corais.

Enfim, tanto o Desfile Escolar, em 5, quanto o Militar, a 7, foi realizado no Centro de Convenções. Convém registrar que essa “parada” militar já havia ocupado a avenida Eduardo Ribeiro, passando para a avenida Djalma Batista. Atualmente realiza-se na Ponta Negra.

A seguir, as razões da escolha da representante da Mulher Amazonense e, ao final, a Comissão Executiva

RITTA DE CÁSSIA DA SILVA HAIKAL

É amazonense, nasceu em 17 de novembro de 1940, filha de José Alves da Silva e Irene Pinto da Silva. Cursou o 1° e 2° graus, no Colégio Santa Dorotéia, formando-se como professora em 1958, estudou também o curso técnico em Contabilidade, concluindo em 1960. É Bacharel em Licenciatura Plena em Língua Portuguesa e suas literaturas; Licenciatura Plena em Língua Inglesa e suas literaturas e Bacharel em Direito, colando grau em 1978 e 1985, pelas Universidades do Pará e Amazonas, respectivamente.

São inúmeras as atividades que tem desempenhado, ressaltando-se os seguintes cargos: professora de Português da Escola de Enfermagem, chefa de Controle de Qualidade da Empresa Norte Editora Ltda., professora de Inglês do Instituto Cultural Brasil Estados Unidos e Colégio Brasileiro de Manaus, professora de Português, Literatura Brasileira, Inglês, Linguística e Estilística da Língua Portuguesa, do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora.


Como assessora e consultora tem contribuído com seus conhecimentos da Língua Portuguesa, Inglesa, e Área Jurídica em diversos trabalhos como: revisora de pesquisas do CEAG, secretária do presidente do Tribunal Regional Eleitoral, secretária da Comissão Estadual de Voluntários Pró-Carente, assessora do Presidente do Tribunal de Contas dos Municípios, revisora e membro da comissão de assessoria do vereador Robério Braga na feitura da Lei Orgânica do Município de Manaus.

É também, membro do Conselho Regional de Contabilidade e do Conselho Consultivo da Associação das Mulheres de Carreira Jurídica do Estado do Amazonas. Tem ministrado inúmeros cursos de Língua Portuguesa e Assessoria Jurídica a professores e técnicos de Instituições do Estado.
Seu trabalho merece destaque na área de teatro estudantil, coordenando essa atividade no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora por 12 anos, ou seja, de 1975 a 1987. Atualmente tem desempenhado com competência e dedicação as seguintes funções: professora de Português para o 2° grau (Seduc), Analista de Contas do Tribunal de Contas dos Municípios do Estado do Amazonas, chefa de Gabinete da Secretaria de Estado da Justiça, e advogada militante no Fórum de Manaus.

A professora Ritta tem efetuado relevante trabalho em prol da educação de jovens seja como professora, seja como incentivadora à arte da dramatização, especialmente ao teatro juvenil. Sua contribuição profissional é inestimável e imprescindível à cultura de nosso Estado.

COMISSÃO EXECUTIVA ESTADUAL DA
SEMANA DA
PÁTRIA - 1992
(Representantes e seus respectivos órgãos)

Afonso Celso Brandão Nina - Subsecretaria de Desportos
Maria das Graças Silva - Subsecretaria de Desportos
Maria Hildecy F. da Silva - Subsecretaria de Desportos
Janete Souza Queiroz - Subsecretaria de Desportos
Clair Ferreira da Silva - Subsecretaria de Comunicação
Ângela Maria de Abreu Cavalcante - Imprensa Oficial
Themis Filgueiras P. da Silva - Secretaria da Educação, Cultura e Desportos
Isis Bonfim - Secretaria da Educação, Cultura e Desportos
João Santana Neto - Secretaria da Educação, Cultura e Desportos 
Francisco Orleilson Guimarães, Coronel PM - Casa Militar
Wilson Martins de Araújo, Capitão PM - Casa Militar
Lourdes Buzaglo - Cerimonial do Palácio Rio Negro
Marcelo Dantas - Cerimonial do Palácio Rio Negro
Arlindo dos Santos Porto - Subsecretaria de Comunicação
Raimundo Carlos Daniel Mar, Cel PM - Secretaria de Segurança Pública
Marcos Afonso - Empresa Amazonense de Turismo
Edmilson Rosas - Empresa Amazonense de Turismo
Ignes de Vasconcellos Dias - Liga da Defesa Nacional
Júlio César Moraes Passos - Liga da Defesa Nacional
Carlos Matheus - Subsecretaria de Cultura
Elizeu Rodrigues de Lima - Sindicato das Escolas Particulares
Ivens de Carvalho Carreira, Tenente-Coronel PM - DETRAN
José Carlos Pereira, Tenente-Coronel - Comando Militar da Amazônia
Nelson Calvoso Pinto Homem, Major - Comando Militar da Amazônia 
Hugo Luiz da Silva Galvão, Capitão Aer - VII Comando Aéreo Regional 
Jorge Luiz Índio do Brasil, Tenente - Estação Naval do Rio Negro
João de Souza Pessoa, Capitão PM - Polícia Militar do Amazonas
Rui Gomes - Empresa Municipal de Transportes Urbanos
Ricardo Marrocos - Secretaria Municipal de Educação

Dalmo Salim Belmont - Secretaria Municipal de Serviços e Obras

terça-feira, setembro 15, 2015

NOTAS PARA A HISTÓRIA DA PMAM


Na Semana da Pátria de 1970, o governador do Estado, Danilo Areosa, inaugurou um pavilhão do futuro quartel da Polícia Militar do Amazonas (PMAM). O projeto de Severiano Mário Porto destinava-se a aquartelar o efetivo da PMAM, que se premia no quartel da Praça da Polícia. Ou seja, ali no bairro de Petrópolis, o governo construía o quartel do Comando Geral.

Tal não aconteceu, pois, no ano seguinte, apenas o 1º Batalhão de Polícia Militar, sob o comando do então tenente-coronel Flávio Rebello, ocupou aquele imenso quartel. Devido a sua ampla estrutura, abrigou várias unidades menores.

O comando-geral da Força Estadual somente transferiu-se para aquele endereço mais de 30 anos depois. Em 2002. Lastimável que tenha conduzido diversas organizações para suas dependências, tornando o espaço acanhado e disputado pelos ocupantes.
Recorte do Jornal do Commercio, 6 set. 1970

Governo inaugura quartel da PME

O dia de ontem foi duplamente festivo para a Polícia Militar do Amazonas. Foram inauguradas as instalações de seu Centro de Instrução e Treinamento e o seu novo quartel general em Petrópolis. Na oportunidade também várias personalidades foram agraciadas com as medalhas Tiradentes e Cidade de Manaus.

O Governador passou revista às tropas no novo Centro de Instrução, na rua Dr. Machado, ao lado [ao fundo] da Maternidade Ana Nery, e deu por inauguradas as novas instalações, havendo em seguida uma demonstração das práticas desportivas daquela agremiação, com ênfase em judô, que agradou a grande maioria dos presentes.

Pouco depois, se fez a entrega das medalhas aos cidadãos que com elas foram distinguidos pelo Governo do Estado.


Condecorações
As medalhas entregues foram de dois tipos. Primeira, a medalha Cidade de Manaus, que se destina a cidadãos cuja atuação em quaisquer dos setores da vida humana tenham se destacado na cidade de Manaus. A outra condecoração se destina a personalidades que, com sua atuação, tenham contribuído com relevantes serviços com a Polícia Militar do Amazonas.

Com a Medalha Cidade de Manaus foram agraciados os senhores Érico de Carvalho, presidente da [extinta] Varig; Jorge Augusto de Souza Baird; Francisco Monteiro de Paula [secretário de Fazenda]; Aderson Dutra, Stepheson Vieira Medeiros e Agesilau Araújo. Todas foram entregues pelo governador do Estado.

Já os que receberam a medalha Tiradentes tiveram paraninfo individual. Os agraciados foram: Paulo Pinto Nery – paraninfo Amaury Silva; Mário Jorge Fonseca Hermes [capitão dos Portos] – paraninfo cel. Arídio Brasil; Paulo Figueiredo de Andrade Oliveira [tenente-coronel comandante do 1º BIS] – paraninfo José Lopes; cel. Jorge Teixeira [diretor do Colégio Militar de Manaus] – paraninfo Deputado Miranda Leão; Alberto Rocha – paraninfo governador Danilo Areosa.

Terminada a aposição das condecorações, os presentes se dirigiram às novas instalações da PM, no bairro de Petrópolis.

O governador inaugurou o pavilhão lá existente e prometeu que entregaria em dezembro os outros quatro pavilhões que formarão o Quartel General da Polícia Militar do Amazonas. O pavilhão tem linhas discretas, modernas, e foi feito para alojar 150 homens.

Depois dos discursos de praxe foi servido um coquetel aos presentes.


(*) Jornal do Commercio, 6 de setembro de 1970

domingo, maio 24, 2015

DESFILE DE SETE DE SETEMBRO


Em 1963, ainda na avenida Eduardo Ribeiro, com o palanque instalado no cruzamento da rua José Clemente, ao lado do Tribunal de Justiça, ocorreu o desfile de Sete de Setembro. Era governador do Estado, Plínio Ramos Coelho, que presidiu seu último Dia da Pátria, pois foi cassado no ano seguinte.
Curioso é o aproveitamento do asfalto para a propaganda política. Pode se ler o anúncio do deputado Paulo Nery, bem em frente ao palanque.

A primeira foto mostra a Banda de Música, enquanto, na segunda, vê-se o comando da tropa da Polícia Militar do Amazonas.






domingo, agosto 25, 2013

MANAUS: 1º CENTENÁRIO


Em 1948, a capital do Amazonas comemorou seu primeiro centenário – 24 de outubro. A festança foi esfuziante, com manifestações gerais, para ilustrar, reproduzo o discurso comemorativo lido na Assembleia Legislativa. E lembro que um marco bem mais sólido foi inaugurado, trata-se do obelisco plantado na Praça da Matriz, que começa a ser revista e o monumento melhor resguardado.
Na ALE, foi ouvida a “oração que o deputado Paulo Pinto Nery, em nome da União Democrática Nacional (UDN), o partido majoritário, proferiu na Assembleia Legislativa do Estado", na sessão especial de 23 de outubro de 1948, homenageando o centenário de Manaus.

Curiosa e desastradamente, em 1969, o mesmo político, na ocasião investido na chefia da Prefeitura de Manaus (1967-72), preside as comemorações pelo Tricentenário de Manaus. Apenas 20 anos depois, o município saltou do primeiro para o terceiro centenário. Quais argumentos levaram o saudoso prefeito a inventar esta data? Foram somente os estudos de seu assessor? Houve estudo e comprovação do IGHA, que somente se pronunciou em 2002? Não sei.  

Recorte de O Jornal, 24 de outubro de 1948

 
Senhor Presidente e demais autoridades

As páginas vivas da história, recordadas nesta semana de eloquente alegria e satisfação para quantos tiveram a ventura de aqui nascer ou aqui empregar as suas atividades, oferecem-nos passagens maravilhosas que bem dizem da grandiosidade de espírito e dos propósitos sadios e patrióticos dos nossos maiores.
Os colonizadores portugueses e espanhóis, sedentos pelas grandes conquistas e sonhadores no desbravar os mundos lendários, voltaram as suas vistas para as terras selváticas, fabulosas e misteriosas, na esperança de satisfazerem as suas curiosidades, aumentarem os seus domínios com anexação de novas faixas de terras, transportarem para as suas metrópoles as riquezas formidáveis, inesgotáveis e cobiçadas por todos.
A efetivação desta conquista foi feita a troco de vidas preciosas e sofrimentos indescritíveis, onde a coragem do homem foi posta à prova, face às intempéries da região, à ferocidade dos selvícolas, senhores absolutos da terra, à temebilidade das feras, às dificuldades de transportes, à ambição descomedida e sempre insaciável dos próprios companheiros de jornada.
Cada palmo de terra conquistada recebia o sinete de sangue derramado por aqueles heróis desconhecidos, que impulsionados pela miragem de tudo vencer, de pigmeus insignificantes, transformavam-se em gigantes indomáveis, levando de roldão a quase invencibilidade da natureza agreste.Lendas e mais lendas atravessam as fronteiras do território ainda inexplorado, aumentando o entusiasmo e a ânsia de conquista de quantos ouviam falar no El Dorado e no país dos Omáguas.
O festejado historiador amazonense Arthur Cesar Ferreira Reis, nas páginas lapidares de sua “História do Amazonas”, apresenta-nos em cores emocionantes essas lendas: “Para o Oriente, como o país da canela, fora também do domínio incaico, reinava um príncipe, El Dorado, cujas riquezas não eram possível medir. Os templos, os palácios, a pavimentação das ruas da cidade de Manoa, onde vivia, tudo nessa região encantada se construíra em ouro, ouro puro, só ouro. O monarca, pelas manhãs, banhava-se num lago de águas perfumadas, sob as quais lançavam ouro em pó”. “O país dos Omáguas, confundindo-se com o do El Dorado, fazia crer que nessa nação também uma cidade resplandecia pela magnificência de seus edifícios suntuosos, e seus templos edificantes, onde os ídolos eram de ouro maciço, nação de muitos milhares de indivíduos, governada pelo poderoso cacique Guarica”.
O certo, porem, é que a preocupação dominava os espíritos dos homens civilizados além-fronteiras, forçando-os a projetarem expedições que, de escalada em escalada, iam varando a selva densa que escondia as paragens buscadas, plantando aqui e ali um povoado. Com o transcorrer dos anos, com a vinda de novas expedições, com a catequese dos selvícolas, ora pela imposição da garrucha, ora pelos meios convincentes, com a organização de novas povoações, com a implantação nestas regiões de uma civilização com características já definidas, a história, afinal, oferece-nos o quadro soberbo da Assembleia Provincial paraense, votando a lei n.º 147, de 24 de outubro de 1848, que eleva a vila de Manaus à cidade, com o nome de cidade da Barra do Rio Negro.
Descrever os pormenores do evoluir daquela vila, com foros de cidade, por força legal, gravando páginas resplandecentes de heroísmo e de trabalho, os nomes de todos aqueles que como chefes ou como parcelas ínfimas de uma coletividade, que nos presentearam esta encantadora e risonha Manaus, seria empresa ciclópica, privilégio dos espíritos amadurecidos no manusear cotidiano dos documentos que a História nos legou, e não para um espirito curioso, como o do orador que vos fala, que só agradecimentos tem para com o Grande Deus por lhe ter dado como pátria essa terra abençoada e dadivosa.

Todavia, o que não nos foge à imaginação é a imprecisão das primeiras linhas urbânicas, a insignificante e disseminada população, o mando absoluto como lei suprema, o trabalho forçado e escravo do nativo, a ganância como bússola de todos os sentimentos. Crescia, portanto, caldeada neste ambiente de entrechoque de sofrimentos, de jugo e liberdade, uma raça forte e destemida, que pela sua perseverança e paciência, havia de se tornar um povo hospitaleiro e reconhecido, altivo e nobre.
Como todas as grandes cidades, Manaus teve os seus dias de apogeu. Agigantou-se na senda do progresso às suas demais irmãs da Federação. Começaram os traçados das grandes avenidas. As construções dos edifícios suntuosos, que tanto nos orgulhecem. A organização do porto fluvial, que é a admiração para todos aqueles que aqui aportam pela primeira vez. O aterramento dos igarapés. As ligações dos bairros pelas pontes metálicas. A instalação de luz elétrica e água encanada. A inauguração dos serviços de bondes elétricos. O pronunciamento de uma vida comercial movimentada e irrequieta, atraindo as atenções dos brasileiros e estrangeiros, que impulsionados pelas ideias dos lucros fabulosos e fáceis, transportavam-se em massa para a nossa capital, tornando-a o centro das grandes transações, colocando numa situação privilegiada a sua balança econômica-financeira, onde o Ouro Negro, como majestade, era reverenciado por todos.

Aquela minúscula cidadela, pontilhada de barracas e tapirís, de um momento para o outro, como num sonho maravilhoso de mil e uma noites, transformou-se numa capital elegante, exuberante de alegria, onde os salões e os teatros, as ruas e os cabarés, feericamente iluminados, acolhiam prazerosamente uma população feliz e despreocupada, que dava expansão a uma prodigalidade sem medida, numa demonstração edificante de riqueza e abundância.
Num trabalho ritmado e coordenado, os seus administradores iam imprimindo um cunho de grande metrópole a esta capital que tanto nos envaidece. Figuras de homens públicos exalçaram-se as cumeadas mais elevadas do dever de bem cumprir a árdua e dedicada missão de que se achavam investidos. Exemplos marcantes nos foram deixados. Encobrir, porém, os inúmeros colapsos de que fomos vítimas, seria crime imperdoável. Tivemos momentos de verdadeiro estado pré-agônico. Manaus, como um moribundo apelava para todos os recursos. Anêmica e depauperada, moral e financeiramente, sentia faltar-lhe as últimas forças. O espetro da desmoralização administrativa sobrevoava como um corvo os nossos céus. Manaus, de decadência em decadência, despida dos dias festivos de grandeza e pompa, quedava-se abandonada e triste à margem do grande rio Negro.

Talvez a curiosidade esteja palpitante em cada um dos dignos cidadãos que ora me ouvem, na expectativa de saber os nomes dos bons ou maus administradores. Acontece, porém, que por princípio somos adeptos da corrente que aceita os grandes males como encorajamento para a renovação das grandes empresas. Era preciso que Manaus pagasse o seu tributo dos dias negros e incertos, a fim de despertar em seus filhos o amor próprio, e colocá-la novamente no lugar em que sempre esteve como “Cidade Risonha”.
Para a glória de Manaus e contentamento de todos que aqui mourejam, vemos que a sua trajetória ao alcançar o seu centenário, indica-nos uma curvatura ascensional, prometendo-nos que em dias não muito longe readquirirá, por justo título, o seu galardão de “Cidade Risonha”.

A União Democrática Nacional, com a responsabilidade que lhe é inerente na atual administração, sente-se no dever irrestrito de envidar todos os esforços no sentido de reafirmar os seus propósitos de bem cumprir a sua finalidade de partido político genuinamente democrático e progressista, transformando a nossa Manaus na CATEDRAL AMAZÔNICA, de onde irradiarão beleza, opulência e hospitalidade.
Salve Manaus.

quarta-feira, julho 17, 2013

MANAUS: HISTÓRICO E SENTIMENTAL (2)


Detalhe da capa
 do livro
O hoje acadêmico Luiz Miranda Corrêa publicou, em 1969, Manaus: roteiro histórico e sentimental da cidade do Rio Negro, objetivando montar um Guia para os visitantes de Manaus. Deste roteiro copiei e colei o texto abaixo:  

AS GRANDES CASAS CRIADAS PELA BORRACHA
 
VALE a pena fazer uma visita às grandes casas que as famílias enriquecidas pela borracha mandaram construir em Manaus. É verdade que a grande maioria se encontra, atualmente, transformada em repartições públicas, hotéis de segunda categoria, ou até em ruínas grandiosas. Poucas foram as famílias a conseguir sobreviver ao grande debacle.
Algumas, como os Oliveiras da "Vila Fany", os Araújos (que possuíram a maior casa aviadora do Amazonas, cujo fundador o famoso Comendador se encontra retratado em A Selva, de Ferreira de Castro), os Bretislau de Castro, os Madureira de Pinho, os Rezende Rocha, os Miranda Corrêa, os Mattos Areosa, entre outras, sobreviveram por mais algumas décadas. A verdade, entretanto, manda dizer que a grande maioria dessas famílias não vivia diretamente da borracha. Sofreram, é claro, com o empobrecimento da cidade, com o estancamento dos negócios, mas suas atividades industriais, comerciais ou profissionais liberais, lhes permitiram resistir ao caos financeiro advindo após a quebra do monopólio e a conservar um padrão de vida excelente para os índices regionais.

Outras grandes famílias não tiveram a mesma sorte. As fabulosas fortunas dos Mello Resende, dos Raposo da Câmara, dos Ramalho, dos Rêgo Monteiro, dos Nery, dos Bittencourt ou dos Pedrosa, só para citar alguns dos mais tradicionais nomes do Amazonas, desaparecerem como por encanto.
Os Mello Rezende, por exemplo, possuíam propriedade em Paris. Nela viviam grande parte do ano. O mesmo acontecia com os Nery e com os Ramalho. Os Raposo da Câmara residiam durante grandes temporadas na Suíça, país em que edu
cavam seus filhos. Em Manaus, construíram grandes vilas ou palacetes onde os móveis caros da Europa vinham entulhar construções inteiramente deslocadas no ambiente amazônico.

Refletiam, entretanto, um estado de espírito dominante na comunidade aventureira, numa sociedade não estratificada, em que os padrões não eram regidos pelo sucesso financeiro. Da época, o anedotário amazonense herdou mil e uma histórias saborosas. Conta-se, por exemplo, que um português enriquecido, proprietário de casa aviadora, residente em palacete art nouveau, chegando a casa mais cedo, encontrou as duas filhas se exercitando ao piano, em uma peça a quatro mãos, sob o olhar complacente da professora francesa. Insultado, retirou-se, indo à loja mais próxima adquirir um segundo piano igualzinho ao belo Bekstein  de cauda inteira existente em seu salão. E repetia: "Ora bolas, tenho dinheiro. Não quero que ninguém diga que minhas filhas estudam no mesmo piano por sovinice."
As velhas casas do tempo da borracha têm histórias e fantasmas, estes últimos uma espécie de herança inglesa, bem aceita pela ingenuidade do indígena, sempre pronto a acreditar no sobrenatural. Através dos tempos elas vêm merecendo a atenção dos estudiosos. Arthur Cezar Ferreira Reis, Leandro Tocantins, José Lins, Mário Ypiranga Monteiro, Genesino Braga e eu mesmo, já tentamos descrevê-las e interpretá-las. Talvez hoje já não pareçam tão grandes e tão importantes às gerações acostumadas ao concreto armado, e as estruturas metálicas, criadoras da construção gigantesca dos arranha-céus. É necessário situá-las no tempo e no espaço a fim de entendê-las e apreciá-las. É preciso recuar ao fim do século XIX e aos primórdios do nosso século, lembrando que Manaus nada mais era que um ponto perdido no centro da Amazônia, distando mil milhas do Atlântico, com apenas
vinte mil habitantes. Aí então poderemos entender a importância dessas construções para seus proprietários e para a própria comunidade.

Pensar, por exemplo, na loucura da construção do hoje Palácio Rio Negro, residência do comerciante Ernest Scholtz, um dos grandes anfitriões da Manaus da borracha. Ele oferecia bailes e recepções que se prolongavam pelas grandes varandas e jardins. Ou no palacete "Fernandinho", escondido no meio do mato, espécie de vila italiana, hoje abrigando a sede do IPASEA (em nossos dias, pertencente à Amazonprev), em cuja traça Leandro Tocantins foi descobrir formas romanas inspiradas na arquitetura de Baldassare Peruzzi. Os gigantescos sobradões portuguêses são outro exemplo, sobradões que variam entre um neoclássico um tanto romantizado até às inovações, do art nouveau, parentes bem próximos dos sobradões do Cais do Sodré, de Lisboa, ou dos belos exemplares do Boulevard Castilho França, em Belém.
 
Nas redondezas da Praça dos Remédios e na avenida Joaquim Nabuco, concentram-se as grandes residências dos senhores da borracha. Outras, porém, são encontradas nos altos da avenida 7 de Setembro, na Eduardo Ribeiro, e perto da Praça Dom Pedro II. Alguns fugiram do centro urbano, e, imitando os ingleses, procuraram terrenos mais altos: já nos limites com a floresta, perto do reservatório do Mocó. O palacete desabitado de propriedade da família Furtado é bem um exemplo dos modernismos daqueles dias. Belo prédio em centro de ampla propriedade, inteiramente art nouveau, de um risco eminentemente francês, com orientalismos marcantes em suas portas e janelas. Se a traça externa é agradável,
internamente demonstra certo acanhamento nas divisões, com salas e quartos pequenos, o que era comum nas construções europeias do gênero.

Voltando ao centro, deve-se olhar a tão conhecida "Vila Fany", ponto de encontro, até os anos dos 30, da melhor sociedade amazonense e dos estrangeiros mais categorizados. Sobradão português de larga fachada, em que certos elementos neoclássicos foram empregados visando a conseguir um efeito palaciano. As proporções do prédio são mais portuguesas, e a aparência sólida do bloco foge à leveza do neoclássico, que se pretendeu conseguir.

Ainda na Joaquim Nabuco, rua onde se encontra a "Vila Fany", encontra-se mais de meia dúzia de belos sobradões portugueses, alguns com azulejos de inspiração colonial ou já art nouveau, ostentando em seus frontões estatuária do Porto. Deve-se notar, também, outro tipo de construção mais singela, cujas origens portuguesas se denunciam à primeira vista. Espécie de pequenas casas de fazenda já com requintes urbanos, construção híbrida que talvez Gilberto Freyre chamasse de rurbana, cujo melhor exemplo é a bela casa em que hoje se encontra instalada a Legião Brasileira de Assistência.

Ainda na Joaquim Nabuco encontramos a sede amazonense do IRB, um tipo de "Vila Fany" em maiores proporções, trazida até à calçada em que os elementos neoclássicos já não são tão evidentes. Pertenceu à família do seringalista
Mendes Cavaleiro e depois serviu como Consulado da Colômbia. É outro prédio a lembrar que a Joaquim Nabuco foi das ruas prediletas dos nouveau riches do início do século. E na mesma via pública, alguns blocos mais abaixo, o palacete Nery, construído pelo governador Silvério Nery, servindo atualmente como sede de repartição federal, nos parece suave e imponente em seu neoclássico tranquilo, com frontão triangular decorado um tanto à maneira shereaton. Sem dúvida é a mansão manauense mais castiçamente neoclássica, com janelas e portas francesas, seu pátio com varandas, seus gradis forjados ao gosto de Paris da época. Os Nery, pela sua elegância e seu refinamento francês, escreveram uma página na vida política e social da cidade. Ao Estado deram dois governadores esclarecidos, que souberam aproveitar as condições que a borracha criara, lançando-se, com visão, a grandes empreendimentos. Mas tarde outro Nery (Júlio) governou o Amazonas como Interventor Federal e, presentemente, é um Nery (Paulo) o prefeito de Manaus.

Na parte mais nova da cidade o turista poderá reparar no sobradinho apalaçado existente na esquina das ruas 24 de Maio e Barroso, gradis na entrada e beirais de chumbo com motivos florais trabalhados e rebuscados, bem dentro do espírito do estilo. Atualmente, abriga o Consulado de Portugal. Ainda digno de nota é o palacete Bretislau de Castro, casarão português com certos maneirismos franceses, escadarias de mármore italiano, grades e beirais enfeitados com flores de lis. Em nossos dias, serve a uma repartição do governo federal, mas já foi cenário de grandes jantares e recepções em que D. Mariquinhas Bretislau pontificava com seus quitutes e especialidades famosas nos quatro cantos da cidade, dentro de um espírito luso-brasileiro tão raro de encontrar no Amazonas, a lembrar o modo de vida patriarcal das cidades nordestinas interpretado por Gilberto Freyre em Sobrados e Mucambos.

Na Praça da Saudade o palacete a abrigar a reitoria da Universidade do Amazonas, por muitos e muitos anos conhecido como a casa do Juiz Federal, é de um art-nouveau depuradíssimo com portas e janelas mouriscas. Traça a indicar mestre de obras português inspirado nos orientalismos da moda e em certo saudosismo ibérico. O pé direito desmesurado dos andares lhe prejudica o equilíbrio externo, mas se as proporções não foram respeitadas, garantiram, no todo, grandeza um tanto antiquada mas, sem dúvida, de casa nobre.

Na Praça Antônio Bittencourt, também chamada Praça da Saúde ou do Congresso, encontramos o palacete Miranda Corrêa, com seu ar de hotel particular francês, ligado diretamente à arquitetura de Mansard com nítidas influências dos castelos do norte da França, como o Chateau Champs de Bataille, por exemplo, ou de outras casas campestres. Com porão alto, dois andares nobres e sótão mansardado, constitui-se em bela forma arquitetônica. Em seus grandes dias era decorado internamente com móveis ingleses e franceses e seus salões abriam-se regularmente para grandes jantares em homenagem a visitantes ilustres, políticos, intelectuais e músicos que, após os suculentos comes e bebes amazônicos, servidos em cristais e porcelanas francesas de 1900, se exibiam em saraus musicais em um dos quatro famosos pianos de cauda importados da Alemanha e da Inglaterra, dois Blutner, um Beckstein  e um Cramer.

Seguindo a rua Monsenhor Coutinho, que cruza a Praça da Saúde, encontra-se, um quarteirão abaixo, já na esquina da rua Tapajós, o sobradão dos Mattos Areosa, hoje funcionando como Faculdade de Filosofia da Universidade do Ama-
zonas. Digno de nota por seu aspecto lisboeta, grande fachada lateral, janelas com balcões gradeados, amplas varandas cobertas com beirais de chumbo trabalhado e belos gradis forjados.
É uma tentativa de criação de sobrado amazonense, respeitando o clima regional, a demonstrar a facilidade com que os lusos se adaptaram aos trópicos, pois se trata de casa construída por portugueses e para família originária de Portugal.

Deixamos para encerrar o capítulo das casas da borracha, com algumas notas sobre o palacete Beça, hoje residência do ramo-Beça-Vaz de Oliveira, por se tratar de belo exemplar da arquitetura luso-tropical no Amazonas, que nos chega dos grandes dias da cidade, intacto e habitado pela mesma família. Seguindo uma tradição amazonense de nítidas raízes luso-tropicais, os Beça Vaz de Oliveira continuam a receber com a mesma mesa farta e adega selecionada, apanágio dos dias fáceis do ouro negro.
O palacete Beça além dos belos gradis, azulejos e cerâmicas, vale bem uma visita aos seus jardins cuidados à maneira de um paisagista tropical em que pássaros e aves amazonenses, domesticados, graciosamente se exibem aos convidados.

Existem, é claro, outras mansões, palacetes e grandes casas. Herança dos dias em que Manaus reinava como o centro mundial da borracha. Seria impossível descrever todas elas e, portanto, escolhemos as que julgamos mais representativas de cada estilo ou de cada maneira de viver das famílias mais destacadas daqueles dias, que marcaram a ascensão de Manaus à categoria de cidade.