CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quarta-feira, janeiro 18, 2023

CORPO DE BOMBEIROS/PMAM - CINQUENTENÁRIO

Há 50 anos, no decurso do governo estadual de João Walter de Andrade (1971-75) e do municipal de Paulo Pinto Nery (1965-72) foi cumprido o projeto de dotar a capital de um Corpo de Bombeiros mais eficiente. Até então, os serviços de extinção de incêndios e afins era cumprido pelo Corpo de Bombeiros Municipais (CBM), instalado na avenida Sete de Setembro, quase na esquina do Canto do Quintela.

Tropa dos Bombeiros Municipais em desfile de Sete
de Setembro, passando pelo IEA

Em outubro de 1972, a Prefeitura recebeu autorização legislativa para conveniar com o Estado sobre a incorporação do efetivo do CBM à Polícia Militar do Amazonas. O comandante da PM amazonense, coronel EB Paulo Figueiredo,  foi o artífice dessa integração, sem que se olvide do empenho do comandante dos "homens do fogo", major CB Nicanor Gomes da Silva. 

Coronel Paulo e
governador João
Walter

O ato definitivo ocorreu em 18 de janeiro de 1973, quando foi firmado o Convênio entre o governo estadual e o municipal (pelo novo prefeito, Frank Abrahim Lima), passando o serviço de combate a incêndios e afins à gestão da Polícia Militar do Amazonas. Este documento foi publicado no DOE 22.689, de 24 janeiro, e transcrito no Boletim Geral/PMAM 22, de 31de janeiro. 


Após a transferência do Corpo de Bombeiros para
Petrópolis, o prédio foi cedido para a Fundação
Joaquim Nabuco. Retirada esta, o edifício entrou
em abandono.

A transferência efetivamente cumprida ocorreu em 23 de janeiro, no quartel da Sete pertencente à Prefeitura Municipal, hoje dolorosamente (para quantos ali se empenharam) em ruinas. 

segunda-feira, março 09, 2020

MAJOR NICANOR GOMES SILVA


O Corpo de Bombeiros Municipais de Manaus passou a ocupar o quartel da avenida Sete de Setembro (cujo prédio encontra-se em escombros) em 1963. A prefeitura local desdobrava-se para melhorar o serviço dos “homens do fogo”. Dessa maneira, ia levando. Até que, quase ao final da década de 1960, enviou ao Corpo de Bombeiros da Guanabara um aluno oficial - Nicanor Gomes da Silva. Tratava-se do único bombeiro na corporação manauara com o curso médio completo.
Nicanor Silva
(foto do jornal)
Em 1969, Nicanor concluiu o Curso de Formação de Oficiais Bombeiros, com a conquista do 8º lugar, entre 23 alunos, todos da Guanabara. Ano passado, fui consultado para oferecer o endereço do Nicanor, pois sua turma iria comemorar o cinquentenário de formatura. Acredito que ele foi alcançado.
Concluído o curso, esse oficial efetuou um estágio em organização militar, de forma que somente desembarcou em Manaus, em março de 1970. Levado ao prefeito de Manaus, Paulo Pinto Nery, conquistou aquele alcaide e foi nomeado major comandante do Corpo de Bombeiros de Manaus, ainda pertencente à prefeitura. O restante da história do major Nicanor registrei em Bombeiros do Amazonas (Valer, 2012).
O registro da visita ao prefeito, texto aqui compartilhado, saquei do matutino A Crítica (10 março 1970).

Recorte de A Crítica (10 março 1970)


O Corpo de Bombeiros que vive na esperança de um dia melhorar, parece que está com os trunfos na mão. O primeiro oficial de escola chegou sexta-feira passada na capital amazonense após três anos de estudos no Corpo de Bombeiros da Guanabara onde aprendeu, por meios modernos, a combater o fogo e ajudar o próximo.  
O jovem Nicanor Silva, que ontem se apresentou ao prefeito municipal, acha que os bombeiros necessitam de mais incentivos e, acima de tudo, melhores apetrechos para o trabalho cansativo e sobre-humano que desempenham vontade de trabalhar e de executar uma reforma, se for pedido ao novo aspirante pelo chefe da comuna, ele tem. Seja no setor financeiro ou mesmo no técnico e assistencial, tudo isso, pode executar o primeiro graduado de escola.

TRUNFOS NAS MÃOS
Ao chegar em Manaus no sábado passado, o aspirante Nicanor Silva formado pelo Corpo de Bombeiros da Guanabara, numa turma de 23, ficou estarrecido com as condições dos Bombeiros de Manaus, onde, segundo afirma, falta muita coisa para ser verdadeiramente uma corporação. O primeiro graduado-de-escola, dentro de suas possibilidades, pretende fazer um esforço se for permitido para melhorar as comissões dos seus colegas de farda, que lutam pelo povo com um trabalho dos mais perigosos mesmo em condições.
Com os primeiros trunfos nas mãos, se encontra a corporação dos homens do fogo, que com a compreensão do prefeito deverá executar uma verdadeira reforma na corporação.
Major Nicanor Gomes Silva

MAIS INCENTIVOS
Recebendo muito pouco pelo trabalho perigoso que faz, o Bombeiro necessita verdadeiramente de mais incentivos. Há poucos dias os bombeiros terminaram um trabalho de evacuação de mais de oito famílias que estavam na iminência de morrerem soterradas, as mangueiras e outras árvores balançavam ao compasso do vento, enquanto os bombeiros faziam o trabalho de retirada das árvores na base do muque com um machado, tudo isso porque o barranco podia cair e com ele os grossos troncos arrasariam as pequenas casas existentes na beira-mar do Educandos. Recebem verdadeiramente pouco pelo trabalho, quando outrora eram equiparados aos vencimentos na Polícia Militar do Estado. Para um plantão de 24 horas é necessária em toda corporação uma boa alimentação, e no Corpo de Bombeiros a rancho é precário.

quinta-feira, julho 11, 2019

CBMAM - CORPO DE BOMBEIROS AM


Hoje 11, o Corpo de Bombeiros do Amazonas festeja mais um aniversário.

Quartel do Corpo de Bombeiros - Petrópolis
São agora 143 anos de serviços, desde que o vice-presidente da província, capitão-de-mar-e-guerra Nuno Alves Pereira de Mello Cardoso sancionou a Portaria nº 268/1876, “mandando observar as instruções para o serviço de extinção de incêndios”. Apesar de não se tratar de uma corporação militar, esta data tornou-se respeitada pelas demais congêneres, de sorte que o Amazonas possui a segunda corporação do gênero criada no Brasil. A primeira, como é sabido, foi estabelecida na capital da Corte pelo Imperador D. Pedro II, em 1856.
Na capital amazonense, esse serviço assemelhava-se aos bombeiros voluntários. Com uma diferença: a administração havia determinado as obrigações de tantos, da igreja e os sinos a anunciar o local da tragédia; dos policiais civis e militares e demais militares; da tripulação de navios ancorados no porto; dos aguadeiros (vendedores de água) com suas carroças; enfim, a ajuda intimorata da população; todo esse esforço estava sob a responsabilidade do diretor de Obras Públicas, coronel de engenheiros Leovigildo Coelho.
Bomba de incêndio
Convém salientar que para apoiar ao trabalho dos “bombeiros”, o governo provincial havia importado uma bomba de incêndio, estando ela armazenada na igreja matriz, próxima de sua abertura ao culto. Exemplar dessa máquina (veja foto) encontra-se no Museu do CBMERJ (Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro).

Oito anos depois desse arremedo de instituição, o presidente José Paranaguá ousou implantar “um corpo especial de bombeiros”. Porém, os cofres públicos não suportavam a medida. Assim se manteve, até que a República veio modificar essa atuação.
Coube ao governador Eduardo Ribeiro (1892-96) implantar o serviço de extinção de incêndios como corporação militar, desse modo, pode-se indicar o primeiro comandante do Corpo – major João de Lemos, nomeado em 23 de fevereiro de 1893.
Em 1900, com a posse do governador Silvério Nery, esse serviço foi “terceirizado” com a implantação de bombeiros voluntários. No entanto, durou enquanto aquele Nery foi governador. seu sucessor e irmão, Constantino Nery, restabeleceu a organização. Então, com definhamento financeiro do Estado, o Corpo de Bombeiros correu de ceca e meca, ou seja, ora sob a égide do governo estadual, ora do municipal.

BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE MANAUS
Comandante Ventura
Na metade do século passado, o Corpo de Bombeiros estava sob o controle da Prefeitura. Cada vez mais quebrado o orçamento do Município, o depauperado Corpo de Bombeiros municipais sofreu a ingerência dos voluntários do “comandante” José Antonio Dias Loureiro VENTURA, desaparecido em 1961 com a morte de seu fundador. Ventura era cidadão português, morador do bairro de Aparecida, e essa instituição funcionou em sua residência-indústria à rua comendador Alexandre Amorim, onde agora está erguido o Fórum.

Major Nicanor Gomes
A instalação do Governo Militar em 1964 trouxe novos recursos para o Estado, permitindo que as forças de segurança crescessem. A Prefeitura seguia administrando o serviço contra incêndios. No entanto, em 1970, em afortunada decisão do prefeito Paulo Nery, este entregou o comando do CBM ao então
tenente Nicanor Gomes da Silva, que acabara de se formar na Academia do então Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. Trata-se do primeiro oficial bombeiro formado em academia do gênero. A entidade estava aquartelada na avenida Sete de Setembro, no Canto do Quintela, em prédio hoje em ruínas.

CORPO DE BOMBEIROS DA PMAM
Em 1972, o governo do Estado resolveu encampar este serviço. Havia duas alternativas: ou adotar nova organização ou transferir para o Estado o corpo existente, com pessoal e material. Foi esta a decisão. No início do ano seguinte, estava criado o Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Amazonas.
Na semana da Pátria de 1974, já com viaturas importadas com benefícios da Zona Franca, foi inaugurado o novo quartel, no alto da rua Codajás, bairro de Petrópolis. Onde ainda se encontra. Sob a direção da PMAM, este serviço e afins durou até 1999, quando ocorreu o instalação do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, que segue altaneiro cumprindo seu dístico: Alienam vitam et bona salvare, ou Vida alheia e riquezas salvar!


Parabéns, homens e mulheres do Fogo.

quinta-feira, novembro 15, 2012

BOMBEIROS DE MANAUS, EM 1962

Há 50 anos, o serviço de combate ao fogo e outras calamidades era exercido pela Companhia de Bombeiros Municipais, sob a responsabilidade da prefeitura de Manaus.
Estava instalado nos “fundos” do Paço Municipal, com entrada pela av. Sete de Setembro. Para atender à nova geração e àqueles que se orientam pelo ponto de referência: a antiga sede da prefeitura na praça Dom Pedro II; os bombeiros atendiam na garagem, onde muito depois ergueu-se a Manaustur, edifício achinesado pelo diretor Orlando Câmara. 

Hoje, a sede “não mais existe”.

O ex-paço municipal ainda em reforma (acima) e a
extinta sede da Manaustur, local onde esteve o quartel dos
Bombeiros Municipais


Na abertura do ano, os Bombeiros revelavam uma perda considerável do efetivo. E, justamente do pessoal básico, pois restavam apenas 12 soldados de, no geral, 24 homens. A população de Manaus girava em torno de 200 mil. O País envolvido pelas disputas politicas, que resultaram no Golpe Militar de 1964.

As medidas administrativas tomadas já aprimoravam a organização dos “homens do fogo”. A renovação tem marca inicial: a eleição do prefeito de Manaus, em 7 de janeiro. Apoiado pelo governador Gilberto Mestrinho (1959-63), foi eleito Josué Cláudio de Souza. Este catarinense, que aqui desembarcara contratado pelos Diários Associados, agora era proprietário da Rádio Difusora e, possuidor da palavra fácil e repleta de entonação, marcara o meio-dia da Cidade com a Crônica do Dia. Também por esses atributos, realçara sua imagem de político vitorioso. Josué Cláudio substituiu a Loris Cordovil na PMM, em 23 de fevereiro.            

Os Bombeiros continuavam alojados nos fundos do Paço da Liberdade. O prefeito empossado empenhou-se em melhorar o aquartelamento, mas eram tantos embaraços que, melhor fora aguardar. O “novo” aquartelamento somente foi ocupado no início de 1963, sem data esclarecida.

O ex-comandante Nicanor Silva lembra que permaneceu no Rio de Janeiro até setembro de 1962, efetuando curso profissional. Ao regressar, no final do ano, ainda alcançou os companheiros aquartelados nos fundos da Prefeitura. Outro relato, de abril de 1963, comprova a presença dos Bombeiros no quartel do Canto do Quintela (ver O Jornal, 9 de abril, relatando o acidente com o ônibus Iracema).

Sem grandes novidades, ao final de 1962, a Câmara Municipal promulga a Lei nº 746, de 27 de novembro, que estabelece a obrigatoriedade de inscrição dos componentes da Companhia de Bombeiros Municipais no Montepio dos Servidores do Município de Manaus.

sábado, abril 02, 2011

CORPO DE BOMBEIROS DO AMAZONAS (XVII)



Soldado Nicanor Gomes, 1953
Major Nicanor, comandante dos
Bombeiros, 1970 
Encerrando a entrevista postada ontem, informo que o major Nicanor Gomes da Silva prossegue gozando uma existência controversa. Aposentado da corporação, segue empregado em atividade laboratorial. Desfruta ao menos de duas graças: a de ter pertencido por duas décadas (1953-1973) aos bombeiros municipais. Sua memória mitológica permite-lhe conhecer ao vivo a história dos municipais. E um pouco da Polícia Militar até 1984. Suas lembranças muito contribuÍram para o livro que escrevo sobre Os Bombeiros do Amazonas.

A outra virtude: manteve a respeitada marca de, em 130 anos de existência do Corpo de Bombeiros no Amazonas, ser o único comandante do Corpo possuidor do Curso de Formação de Oficiais Bombeiros.

- Em 1966, a Polícia Militar incorporou uma turma de oficiais da reserva do Exército, renovando seus quadros. Em 1967, você ingressou no Curso de Formação de Oficiais Bombeiros. Como aconteceu essa oportunidade?
Em 66, conclui o curso científico no Colégio Estadual do Amazonas. Logo depois, o comando do Corpo recebeu um ofício do comandante geral do Corpo de Bombeiros do Estado da Guanabara, oferecendo vaga na Escola de Formação de Oficiais. Como já tinha concluído o 2º grau, fui o candidato indicado pelo comandante.

- O comando, todavia, enviou junto outro colega seu.
Comigo seguiu o Agenor Dabela Marinho que era sargento, como eu, sem possuir o curso respectivo. Entretanto, o Marinho não foi matriculado na EFO, por não possuir o curso secundário completo. Mas, devido meu apelo, meu empenho junto àquele comando, ele conseguiu realizar o curso de formação de sargento. Explico: naquele nosso âmbito todas as promoções eram feitas por antiguidade. Ou seja, o camarada era antigo e, se se dava uma vaga, ele pegava a promoção. Resultado, o Marinho fez a escola de sargentos na então Guanabara e, ao final do ano, retornou para Manaus.

- Durante o curso, você costumava enviar alguma colaboração para o comando?
Sim, enviei-lhe o Regulamento Disciplinar do Corpo de Bombeiros, porque o nosso bombeiro se utilizava do RDE, o famoso Regulamento Disciplinar do Exército. Então, o Regulamento Disciplinar do Corpo de Bombeiros já é mais amplo, tem uma parte disciplinar especifica que o Exército não adota. Foi utilizado inclusive o regulamento de promoção de oficiais, promoção de praças, para se observar o que fosse aplicado naturalmente à corporação.

- Você concluiu o curso no final de 1969. Mas, ainda fez um estágio?
Antes de concluir o curso, solicitei um estágio, alegando que em Manaus não havia como rea-lizá-lo. Assim, realizei o estágio em nível de engenharia. Procurei observar bem a parte de hidrante, manutenção de hidrante etc., e completei o estágio em março de 1970. Quando retornei a Manaus, fui promovido a 2º tenente.

Foto de F. Nascimento, fundador de Foto Nascimento. A Crítica.
Manaus, 26 mar. 1956
- Em seguida, o prefeito Paulo Nery o nomeou comandante do Corpo.
Exato! Por questão de legislação federal, pois havia uma lei no âmbito das Forças Armadas em que o comando dos Bombeiros, de um modo geral, só poderia ser exercido por oficial possuidor de curso de formação. No caso, sou o primeiro oficial formado em escola de bombeiros para o Corpo de Bombeiros do Amazonas. Como os meus colegas amazonenses não possuíam curso e, promovidos por antiguidade, como assinalei a pouco, gozei o privilégio de ser nomeado comandante do Corpo de Bombeiros. Para tanto, fui comissionado no posto de major.

- Você comandou o Corpo de Bombeiros entre 1970 e 1973. Como foi o seu comando?
De início, pautado pelas dificuldades existentes. O Corpo de Bombeiros tinha que manter suas viaturas em dias, no entanto, as viaturas já estavam defasadas. Existiam somente carros velhos, precisando de forte manutenção, assim, com recursos poucos, as dificuldades eram enormes. Logo no início, preocupei-me em colocar em funcionamento o maior número de viaturas, para enfrentar e combater aos incêndios, haja vista que a Zona Franca estava se desenvolvendo, o cento comercial da Cidade em expansão e o Distrito Industrial em construção. E o Corpo de Bombeiros tinha que acompanhar essa evolução, todavia, estávamos aquém dessas possibilidades.

- Quanto ao pessoal, o que foi realizado?
O Corpo de Bombeiros na época dispunha de noventa homens, do comandante ao soldado. Mas, desse contingente existia pessoal de férias, doentes e outros à disposição. O contingente era bem reduzido, apesar disso, as equipes de serviços, de combate à incêndios, de guarda do quartel eram mantidas. Do restante, o disponível era dividido em duas equipes, uma de serviço e outra folgando da escala de serviço do quartel. O pessoal de folga, porém, não deixava o quartel, porque permanecia às ordens do Prefeito. Os Bombeiros continuavam executando serviços alheios aos do quartel, como repressão a camelôs; repressão a feiras irregulares; apreensão de animais soltos na rua; o lixo que a população colocava em local indevido. O homem do fogo tinha que executar. Isso constituía seríssimo problema, que enfrentei no meu comando, porquanto a finalidade dos Bombeiros não era aquela. Não sobrava tropa sequer para se desenvolver um plano de instrução. Somente acabamos com esse negócio, em 1972.

- Insisto em perguntar: que benefícios você implantou para o pessoal do Corpo de Bombeiros?
No inicio do meu comando, as dificuldades para manter o pessoal de serviço eram grandes. Pois a prontidão de incêndio não podia mais ser desmembrada, para alimentar-se em casa, como anteriormente. A tropa escalada tinha de permanecer as 24 horas no quartel.
Para facilitar a alimentação, logo fiz abrir uma cantina, ou coisa parecida; organizei o Armazém Reembolsável, destinado ao fornecimento de gêneros alimentícios. Naturalmente, realizado com muito trabalho! O valor das compras era descontado em folha de pagamento, para que fosse feito também o pagamento dos fornecedores. O armazém fornecia o gênero alimentício, descontava em folha e pagava o fornecedor. Consegui manter durante todo meu comando! Com isso consegui aliviar aquela tensão do pessoal que comprava fiado nas tabernas. Muitos, ao chegar o dia do pagamento, não conseguiam pagar o taberneiro! A confusão chegava ao quartel.
O problema do rancho, a falta do rancho prosseguia. Ao assumir, verifiquei que não havia orçamento para o rancho. Por essa razão, o ano de 1970 foi bem difícil. O comando não podia fazer praticamente nada! Mesmo assim, com gêneros disponibilizados pelo Armazém Reembolsável, foi possível preparar sopa pro pessoal, e servida no quartel. Era o que se podia fazer, certo?

Publicado em A Notícia. Manaus, 30 ago. 1980
- Ainda sobre o pessoal. Qual foi sua iniciativa para instruir e especializar o efetivo?
Obtive reconhecida ajuda do então Capitão dos Portos, comandante Mário Jorge da Fonseca Hermes. Ele foi um colaborador, muito amigo do Corpo de Bombeiros. A princípio, ele conseguiu no Centro de Adestramento Almirante Marques de Leão, no Rio de Janeiro, incluir no curso de combate a incêndio em navios uma equipe nossa. Essa mesma equipe, aproveitando a viagem, cumpriu um estágio no Corpo de Bombeiros da Guanabara.
Reconheço que foi bem sucedida essa missão, pois os elementos retornaram com aproveita-mento. Coube ainda ao comandante Hermes disponibilizar dois instrutores de combate a incêndio. Com o auxilio desses instrutores, realizamos cursos não só para o pessoal do Corpo, como para as brigadas de incêndio da Companhia de Eletricidade e outras do Distrito Industrial. Estou convencido de que cumpri ótima jornada, a de 1971 e 1972, pela reforço do comandante Hermes.


- Em 1972, o comandante da Polícia Militar, coronel Paulo Figueiredo, coordenou o trabalho de incorporação do Corpo de Bombeiros Municipais na Polícia Militar. Como foi que você tomou conhecimento dessa iniciativa?
Nos idos de 1972, o coronel Paulo Figueiredo me convocou e me colocou a par da pretensão do governo do Estado. O cumprimento de legislação federal que determinava que os corpos de bombeiros, particularmente os sediados nas capitais, fossem incorporados às policias militares. A lei era mais conhecida pelo codinome de R–200. Toda a coordenação coube ao coronel Paulo Fi-gueiredo, mas, naturalmente, o assessorei dentro do possível, com as informações sobre o Corpo de Bombeiros.

- O prefeito Paulo Nery participou desse movimento? Falou com você sobre...
Falou, falou! Sempre quando estávamos juntos... No final de 1972, o Corpo de Bombeiros recebeu a visita de uma equipe de técnicos franceses, encarregada de elaborar estudos sobre o combate a incêndios e sinistros na capital. A equipe veio chefiada pelo coronel Robert Abadie, oficial do Corpo de Bombeiros de Paris (FRA), e mais dois engenheiros. Eles permaneceram aqui por duas semanas, subvencionados pela Aliança Francesa.

- Essa transferência passava por questões cruciais, como a dos oficiais bombeiros, que se preocupavam com a nova situação. Os oficiais foram selecionados e, sui generis, “rebaixados”. Quais são suas lembranças?
A princípio, foi trágico. É duro relembrar aquela situação desconfortável que alcançou meus companheiros. Eu me lembro da última vez que nos reunimos, como comandante foi exatamente na assinatura do convênio. Tivemos uma reunião no comando do Corpo de Bombeiros e, posteriormente, nos deslocamos ao Palácio Rio Negro para a assinatura do documento de convênio.
Realizada a passagem de comando, desencadeou-se aquela torrente de normas que redundou no “rebaixamento” dos oficiais. Todos foram rebaixados a 2º sargento, o major Nascimento, Sebastião Vicente do Nascimento... que tinha sido comandante dos Bombeiros. O 1º tenente Tertuliano da Silva, o 2º tenente Francisco Morais de Lima, e até o subtenente Antonio Ferreira da Silva. Todos foram aviltados, com o rebaixamento à graduação de 2º sargento.

Placa no mausoléu da família do ex-comandante dos Bombeiros,
Sebastião do Nascimento, rebaixado a sargento
- Você era originalmente 2º tenente, apenas estava comissionado major. Como você foi aproveitado?
Apesar de ter ocupado o comando no posto de major, a situação era de comissionamento. A partir da cessação do comando, teria que assumir minha condição de 2º tenente. Então, para mim foi normal, não encarei isso como desonra. Reconheço o privilégio recebido, como 2º tenente ser comissionado no posto de major e nomeado comandante do Corpo de Bombeiros.
Quero aqui enfatizar, igualmente, que a minha escalada no Corpo de Bombeiros de Manaus é singular, pois sou o único bombeiro a incluir como soldado e alcançar o comando da corporação.


- Você foi bem aceito pela turma da PM? Você pouco tempo depois pediu sua demissão da Policia Militar. Quais as razões dessa desistência?
Diversas foram as razões. Uma em especial: muito me deixou desestruturado, assim dizendo, a situação dos meus companheiros. Rebaixados, submetidos a humilhante rebaixamento, sem nenhuma nota de culpa, pelo simples fato de terem pertencido ao Bombeiro Municipal. Por outro lado, alegavam os novos colegas da PM que eu não possuía formação, que não sei mais o quê e tal. Isso não era coisa para se levar em consideração, afinal o Bombeiro é uma entidade que sempre existiu, ora subordinado ao Governo do Estado ora subordinado à Prefeitura.
Qualquer uma dessas autoridades detinha o poder para nomear seus oficiais, nomear seus comandantes. Esses oficiais, portanto, deveriam existir como existiram. Foi para mim de muita surpresa ver os companheiros “rebaixados”, da maneira como foram humilhados. Para mim que fora colega e comandante de todos eles, eu me sentia muito... muito... como dizer? Fiquei muito magoado, triste com a situação. Isso pra mim... (visivelmente emocionado)

- Você não podia fazer nada!?
Eu não podia fazer nada. Veio do alto, despencou como se fosse um meteoro na nossa cabeça.


- Como você foi recebido pelos seus colegas tenentes da PM?
Após a solene encampação do Corpo de Bombeiros, contada a minha promoção de 5 de março, fui efetivado na PM com aquela data. Exatamente à frente de todos os 2º tenentes ali existentes. Para mim, aquilo ato foi normal. Depois, todavia, senti uma reação contrária, muito grande contra a minha pessoa. Nesse tempo, coisas desagradáveis aconteceram em minha vida, desencadeando outras coisas, como o problema do “rebaixamento”. Confesso que esse fato gerou em mim uma situação bastante negativa. Então, eu pedi para sair da PM.

- Você foi indicado para fazer estágio em Paris. Mas, um pouco antes da viagem, você desistiu. Desistiu e, seguidamente, pediu demissão da PMAM. Agora, pergunto-lhe: por que você desistiu de ir à França?
Não foi bem questão de desistência, de não ir à Paris. Foram pressões que... pressões de toda sorte, de todo lado...

- ... de oficiais que também queriam ir?
Muitos oficiais queriam pegar aquela bolsa de estudos, conhecer Paris etc. e tal. A coação sofrida gerou um problema muito sério pra mim, tão sério a ponto de optar por uma retirada.

- Qual foi a maior sensação de trabalho ou de sinistro que você enfrentou?
Aconteceu na usina de beneficiamento de borracha Hévea, próxima da Penitenciária Central do Estado, em novembro de 1970. Eu era o comandante dos bombeiros. O incêndio foi tão intenso, lamentavelmente, pelo material de fácil combustão que ardia com intensidade. Como perdemos a oportunidade de extingui-lo, o fogo ardeu por tempo indeterminado, queimando o que tinha para queimar! O prédio ficou todo destruído.
Outro severo incêndio ocorreu em uma aeronave, no aeroporto Ajuricaba, em abril de 1971. Tratava-se do avião bimotor da Força Aérea Brasileira, que faria o trajeto Manaus – Campo Grande – Rio de Janeiro. Decolou às 7h, mas poucos minutos depois pediu pista de emergência e... quando entrou na pista um dos pneumáticos estourou e, em consequência, o avião incendiou. Foi uma tragédia! Morreram muitas pessoas. A intensidade da tragédia abalou a Cidade.

- Você particularmente andou preocupado com o resgate do corpo de uma criança.
Correto. Removendo os destroços do avião, e parte da fuselagem do avião para tirá-lo da pista, embaixo da fuselagem estava o corpo de uma criança. Fora esmagado pelo peso do avião em chamas, por isso o corpo da criança estava como que cozido.

- Isso afetou você?
Afetou demais!

- Para encerrar, uma palavra sobre sua família.
Nós eramos sete irmãos. O mais velho veio a falecer e, agora, minha mãe com 100 anos de idade, deixando a saudade entre nós. Mas a minha vida continua!

sexta-feira, abril 01, 2011

CORPO DO BOMBEIROS DO AMAZONAS (XVI)

Tenente Nicanor Gomes
Em março de 2008, entrevistei ao Nicanor Gomes da Silva, capitão da reserva da Policia Militar, nascido em Itacoatiara (AM) em 1939. Ainda adolescente (14a), o filho de dona Guiomar Gomes da Silva e seu Pedro Urbano Florêncio foi incluído no Corpo de Bombeiros de Manaus. Apesar dos percalços, nunca deixou de estudar, tendo concluído o curso médio no tradicional Colégio Estadual do Amazonas.
Em 1967, foi matriculado na Escola de Formação de Oficiais (EFO) do Corpo de Bombeiros da Guanabara. Ao cabo do curso, aprovado em 8.º/23 alcançou o oficialato e o comando do Corpo de Bombeiros de Manaus, onde permaneceu até janeiro de 1973, quando essa entidade foi absorvida pela Polícia Militar. Neste novo estágio, tenente Nicanor Silva manteve-se até sua transferência para a reserva, em 1984.


Vamos do começo. Você nasceu em Itacoatiara? Não, eu nasci em Manacapuru. Ocorre que, ao ser registrado, por equívoco o escrivão do cartório registrou-me como nascido em Itacoatiara. Na realidade, nasci em Manacapuru.

Com quantos anos você chegou ao Corpo de Bombeiros? Cheguei ao Corpo de Bombeiros aos 14 anos, incorporado em 2 de fevereiro de 1953.
Naquele tempo, eram poucos os que escolhiam os bombeiros. Sim. Porque a Companhia de Bombeiros possuía um efetivo de 30 homens, contando os oficiais, comandantes etc. Pouca gente se interessava em servir a Companhia de Bombeiros.
Em 1951, o Estado passou para a Prefeitura a responsabilidade pelo serviço de bombeiros. O pessoal do Corpo, entretanto, permaneceu no quartel da Policia Militar. Essa era a situação quando você chegou em 1953. O comandante da Companhia de Bombeiros Municipais era o... o capitão Izidoro Castilho, da Policia Militar. Ele comandava a Companhia de Bombeiros na época em que fui incorporado.

Você chegou aos bombeiros com a ajuda do tenente... tenente Antonio de Souza Barros, meu cunhado. Como secretário da Companhia de Bombeiros, ele conseguiu com o comandante o beneplácito para minha incorporação.
Mesmo aquartelados na própria Polícia Militar, que possuía rancho, os bombeiros não tinham direito de comer no mesmo rancho? Nós não tínhamos direito de comer no rancho da Polícia.

A Companhia de Bombeiros possuía alguma viatura? Na época, a companhia era totalmente desprovida de viaturas de combate a incêndios. Existia apenas uma antiga escada de madeira, totalmente de madeira; seu funcionamento era manual, por meio de catracas. Essa escada ficava recolhida à garagem da Companhia de Bombeiros no prédio do quartel.
O Jornal. Manaus, 7 jan. 1959
Em 1952 surgiu a Sociedade dos Bombeiros Voluntários de Manaus, dirigida pelo coman-dante Ventura, ainda lembrado. Os voluntários estavam sediados no bairro de Aparecida e, de alguma forma, substituíam os municipais. Os bombeiros municipais e voluntários acabavam se integrando para combater algum incêndio ou sinistro. Exatamente! Naquela época quando surgia um incêndio, os voluntários deslocavam uma viatura de combate com o pessoal disponível no momento. Incontinenti, mandavam outra viatura para a Companhia de Bombeiros para recolher o pessoal da prontidão de incêndio, os escalados de serviço. Lá, trabalhávamos em comum acordo com o comandante Ventura.

É possível relatar o primeiro incêndio do qual você participou? Aconteceu em uma madrugada de março de 1953, na rua da Instalação. Eu morava no quartel. Quando o incêndio irrompeu, tive que comparecer ao local do incêndio saindo do quartel e cor-rendo a pé, com uma secção de mangueira às costas, no ombro. Em lá chegando, começamos a combater o incêndio, mas a mangueira não resolvia nada. Mesmo porque a água era muito pouca. Findamos por formar uma interminável fileira de latas de água desde o chão até o telhado. Foi uma noite de muito trabalho!

E, como se chamava a loja? Chamava-se "Palácio do Brinquedo", e ficava ao lado da "Farmácia Vitória", na rua da Instalação.

Então, foi pela farmácia que os Bombeiros... que nós conseguimos chegar até o telhado do prédio que estava incendiando e, de lá, jogávamos água com as latas.
Nessa noite você conheceu os voluntários? Exatamente! Nessa noite aconteceu meu primeiro contato com os bombeiros voluntários, os quais chegaram ao local em um caminhão cheio de “camburões” de água e uma “bombinha”. Colocavam a bombinha em um camburão, bombeavam a água e, quando a água acabava, passavam a outro, assim por diante. O pessoal ajudou muito, mas a fila da lata de água...

O Jornal. Manaus, 18 ago. 1956
Em 1955, Plínio Coelho assumiu o governo, declarando a Polícia Militar falida. Sobre os bombeiros, nada falou. O capitão Edmundo foi mantido no comando dos bombeiros e os Bombeiros seguiam com as suas dificuldades. Houve alguma mudança no Corpo de Bombeiros? Não. Mas, na época do governo Plínio Coelho, o Departamento de Estradas recebia ordens do próprio governador. Assim, o Departamento preparou artesanalmente uma viatura para os bombeiros, montando uma pipa em chassi marca De Soto. Não me lembro bem, mas o tanque era para 2000 litros e, com aquilo passamos a enfrente as ocorrências de incêndio.

Para comandar a Polícia Militar, o governador Plínio Coelho nomeou o major Cleto Veras, que deixou algumas amargas lembranças. Como foi o entrevero dele com os Bombeiros Municipais? Foi lá pelos idos de 1957. Um caso assim... o resultado de uma briga particular deles, dos co-mandantes. Quando se aproximava a festa da Independência, dia 7 de Setembro, a Polícia Militar sempre desfilava ostentando uma armadura de ferro, uma armadura de guerra, com um policial militar dentro da armadura, em cima de um jipe, assim desfilava no dia 7 de Setembro. Em 1957, o comandante da Polícia Militar, coronel Cleto, pretendia que o capitão Edmundo Monteiro empunhasse a citada armadura. O capitão ao experimentar a armadura, sentiu que o elmo lhe apertava o rosto. Ora, logicamente que se o apertava ele não iria suportar, porque aquilo esquentaria debaixo do sol e queimaria o rosto dele. O capitão não aceitou, ponderou, e dali começou a briga. E o quebra-pau se encerrou quando o coronel Cleto Veras, indo ao alojamento da Companhia de Bombeiros, determinou que os bombeiros se retirassem do seu Quartel.

E os bombeiros saíram, levando somente os colchões? (risos) As camas estavam na Companhia de Bombeiros, mas pertenciam à carga da Polícia Militar. Então, em pleno dia, pela avenida Sete de Setembro acima saímos carregando os colchões às costas. Cada bombeiro carregou o seu colchão! E fomos nos alojar em um prédio municipal detrás da sede da Prefeitura, que servia de garagem, de depósito de veículos velhos, sucateados.

Onde você concluiu o curso científico? Conclui-o no Colégio Estadual do Amazonas.
Como era estudar e trabalhar? Eu trabalhava e estudava. Eu tinha que trabalhar no quartel, mas ainda mantinha meus “bicos” nos hospitais, pra ajudar no orçamento. À noite, ia pro colégio.

Os vencimentos dos bombeiros eram pagos regularmente? Havia atrasos, sim. Logo no ano entrei, em 53, a Prefeitura ficou me devendo os meses de ou-tubro e novembro. Nunca os recebi! Em 1954, fiquei sem receber até o mês de julho. Consequentemente, perdi nove meses de vencimentos. Entreguei a Deus! Daí, a grande falta de interesse em servir a Companhia de Bombeiros. Só aquele pessoal mais antigo que estava lá, acostumado com a vida da corporação. Alguns moravam no quartel, como eu.

Os bombeiros não possuíam viaturas, nem equipamentos. Por isso, trabalhavam para a Prefeitura nas feiras, nos mercados e nos jardins. Como era realizado esse trabalho? Isso vinha de muito tempo. Quando fui incorporado à Companhia de Bombeiros, a Prefeitura utilizava os bombeiros pra outras finalidades. Por exemplo: coleta de lixo, que se fazia à noite; faxina no Teatro Amazonas, quantas e quantas vezes fizemos faxina no Teatro Amazonas.

E, por falar no Teatro, os bombeiros chegaram a limpar a colorida cúpula? Falava em faxina por dentro. Agora, em 1955 e 56, quando o bombeiro recebeu a viatura montada no Deram, foi encarregado de limpar a cúpula do Teatro Amazonas pelo lado de fora. Os bombeiros subiam por dentro da cúpula, dali passavam para o lado de fora e desciam até a calha existente lá em cima. Então, seguros pela corda, dirigiam a mangueira com água. O mencionado carro lançava a água para cima, usando o hidrante de incêndio. E o pessoal, lavando. Passavam-se duas ou três semanas para fazer aquele serviço todo.

Penso que sem equipamentos, com vencimentos atrasados, a turma preferia ir pro mercado, porque sempre sobrava uma ajuda de custo, uma ajuda de... Aquele pessoal que era casado, então... Eu era solteiro, mas também fazia meus bicos. Na folga, trabalhava na estiva (Porto de Manaus), como avulso. Tirava castanha, cortava borracha no entre-posto, caixaria de estiva, aquela coisa toda. Tinha que pegar serviço extra para exatamente suprir a falta de pagamento. Nesse tempo, em que a Prefeitura não pagava a gente, a gente não tinha praticamente pra quem recorrer.

Lembro a questão do vício da bebida alcoólica que atingia a maioria, do oficial ao soldado. E você, aos 14 anos, como é que você lidou com isso? A principio, eu fiquei quieto porque era muito novo, muito jovem, eu não bebia nem fumava. Mas, com o passar do tempo, fui me influenciando com festa pra lá, festa pra cá; em festa se bebia, fumava-se, eu achava bonito. Também o cinema mostrando os artistas com o cigarro na boca. Era a moda da época, o cigarro (risos).

Os voluntários iam muito bem, quando aconteceram dois acidentes devastadores: o primeiro, em maio de 1960, que matou o subcomandante Constantino Machado. Como foi este acidente? No dia desse acidente, aconteceu um incêndio na usina Três Unidos. Era uma fábrica de beneficiamento de castanha localizada na rua Visconde de Porto Alegre com a rua Ipixuna. O pessoal da Companhia de Bombeiros estava empenhado no incêndio, apesar de estarmos sem viatura, mas utilizávamos as viaturas dos Bombeiros Voluntários. Os voluntários também estavam empenhados no incêndio. Já no final da tarde, ainda com o incêndio em andamento, o comandante Monteiro me dispensou pra ir jantar em casa, já que não existia refeição no local. Depois do jantar, fui pro colégio, pois tinha prova. Regressaria pra continuar o trabalho noite afora. Nesse intervalo, soube que a viatura que transportava o subcomandante Constantino Machado, ao cruzar a av. Sete de Setembro com a av. Eduardo Ribeiro, chocou-se com um ônibus da Transportamazon. Ali aconteceu a tragédia.

Em dezembro do ano seguinte aconteceu a outra, matando o comandante Ventura. E mais o soldado... Mario de Assis Sá.
Quartel dos Bombeiros de Manaus na avenida Sete de Setembro.
O Jornal. Manaus, 19 maio 1963
Os bombeiros, a partir de 1962, começam a se expandir, com seu efetivo aumentado. Qual a sua opinião nesse sentido? É a seguinte: já na gestão do prefeito Josué Cláudio de Souza a prefeitura adquiriu dois carros de combate a incêndio, um autobomba para inflamável (ABI) e um autobomba tanque (ABT). Também, a auto-pipa Mercedes Benz, com tanque para 7.000 litros, que muito ajudava no combate aos incêndios. Destinou a picape F-75 para o transporte de pessoal, do comandante e da tropa, serviço rápido etc. O Corpo de Bombeiros começou a crescer a partir daquela época, despertando interesse em muita gente. Enfim, a Companhia de Bombeiros mudou a denominação para Corpo de Bombeiros Municipais.

Quase sempre se destacam as dificuldades básicas dos bombeiros, todavia, a cidade de Manaus não contribuía. Por exemplo, a questão de hidrante, a distribuição de água, a pressão da água, toda uma infraestrutura. Como era isso? Essa estrutura era pouco funcional. Porque não havia manutenção de parte da Repartição das Águas, não havia manutenção dos hidrantes. Não raro, a gente chegava num hidrante pra pegar água, e o hidrante estava travado. Pior, a gente não conseguia abrir o registro, porque estava travado. Certa ocasião, aconteceu um incêndio na rua Marechal Deodoro e o hidrante estava travado de tal forma que, ao se forçar a abertura, foi quebrado seu pistão. E, pior ainda, não conseguimos água. Que se fazia? Os carros se deslocavam do incêndio para abastecer na piscina do Parque Dez de Novembro. Isso era comum nos incêndios, pois não se podia recorrer aos hidrantes. Primeiro, porque não havia pressão d’água. Segundo, os hidrantes não tinham manutenção. Eram hidrantes subterrâneos, ficavam abaixo do nível da calçada e, em geral, soterrados ou cheios de areia ou de terra, que vinha com a chuva.

Você está falando da área do centro da cidade. E, como era na periferia? A maioria das casas da periferia era construída de madeira e coberta de palha, de palha branca. Assim, quando ocorria um incêndio numa dessas casas era uma calamidade! Em pouco tempo, dez, 15 casas eram devoradas pelo fogo. E também, continuava a dificuldade dos Bombeiros, quanto ao abastecimento de água pro incêndio. Continuava pegando água do Parque Dez, tudo era muito difícil!

Bombeiros efetuam o rescaldo em incêndio. Major Nicanor (à dir.)
observa. A Crítica. Manaus, 14 out. 1971 
Como os bombeiros eram avisados em caso de incêndios, de sinistros? A situação era muito dramática, porquanto, à noite, o aviso de incêndio era dado pela sirene da fábrica de gelo instalada no chamado Plano Inclinado, onde hoje se encontra a fábrica da Kaiser. Ainda lá se encontra a chaminé e a sirene no topo. O ruído era bem ouvido lá na Sete de Setembro. De dia, era anunciado pelas emissoras de rádio. Anunciado o incêndio e o lugar a gente saía de casa, correndo até ao local do incêndio. Lembro-me desse incêndio na rua da Instalação, falado acima, e do então cabo Tertuliano... O incêndio aconteceu de madrugada, ele correu do bairro de São Francisco, onde morava, até àquela rua.

Vamos prossegir amanhã com a entrevista do ex-comandante do Corpo de Bombeiros de Manaus, major Nicanor Gomes da Silva.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Corpo de Bombeiros de Manaus (V)

Revelando os Bombeiros de Manaus, focalizo ainda os episódios de 1969, concluindo a postagem anterior.
A tragédia circunda a atividade dos bombeiros, corre junto com o socorro. Na tarde de um domingo de outubro desse ano, a prontidão de incêndio foi enviada a periferia da cidade, onde o desastre já se consumara no fundo de um poço artesiano. O sacrifício de um combatente do fogo, contudo, veio sobrepor mais consternação ao já abusado espetáculo. Não se tratava de um, mas do bombeiro reconhecido por sua bravura, às vezes beirando a insanidade: Raimundo Xícharo. Ante o desenlace, os companheiros debateram a causa inquirindo porque o comandante do socorro (tenente Nogueira) não impediu o subordinado de descer, sem mínimas condições, no poço. Nogueira não exibia “pulso”, preferindo não desgostar a deliberação do falecido. Ora, não havia mais que salvar, todos estavam mortos. No entanto, o destemor do bombeiro Xícharo foi inexcedível no cacimbão do Morro da Liberdade.

Casas de madeira e palha em ruas esburacadas, e sem água
no Morro da Liberdade, em 1960
O mesmo sentimento já se manifestara em 1964, quando Xicharo escalou o mastro existente na Praça do Congresso. Destinado ao hasteamento da Bandeira, possuía cerca de vinte metros. O feito respeitoso motivou o comandante do então Grupamento de Elementos de Fronteiras (GEF), hoje Comando Militar da Amazônia (CMA), a passar o atestado abaixo, intermediado pelo comandante Nascimento (Boletim Interno, 15 dez. 1964).
Louvor: o general comandante do GEF (Grupamento de Elementos de Fronteiras) louva com satisfação o soldado n.º 72, Raimundo Xícharo, deste Corpo, pelo seu gesto destemido, que possibilitou a realização da festa da Bandeira com o brilho invulgar alcançado. Já que nos anos anteriores não foi possível encontrar quem escalasse o mastro da Bandeira, condição básica para realizar as cerimônias na Praça do Congresso. O exemplo foi lançado. O feito do soldado Raimundo Xícharo credencia-o para outras ações que exijam arrojo, determinação e desprendimento, particularmente no exercício da profissão que abraçou.


Os gases expelidos asfixiaram quatro homens no poço; diante do desespero, desceram dois “socorristas”, que se complicaram. Só então se chamou aos bombeiros, que acudiram com o grupo do tenente Nogueira e os soldados Benedito de Jesus, Raimundo Xícharo e Roberto Severiano de Castro. Segundo O Jornal (25 out. 1969), “depois que conseguiram socorrer e retirar todas as vítimas, duas das quais mortas”, o cabo que içava Xicharo rompeu-se, lançando-o à morte. No entanto, a versão do hoje sargento Castro ao autor, esclarece que o morto desceu ao poço contra todas as ordens e condições, ele “pediu para morrer”.

Para cumprimento regulamentar, o enlutado CBM divulgou no quartel (Boletim Interno, 27 out.) o lutuoso registro do destemido soldado. Continha a assinatura do 1º tenente Tertuliano da Silva Xavier, que exercia o comando interinamente. Recordou que o Bombeiro n.º 42, Raimundo Xícharo, faleceu dia 24, “por ocasião de serviço de salvamento, no Morro da Liberdade”. Depois de relatar os valores do finado, recomendou aos seus comandados que “sigam essas virtudes, para o engrandecimento do nosso Corpo de Bombeiros”.
(...) o extinto sempre soube comportar-se disciplinarmente de acordo com as normas regulamentares e gerais de administração, cumprindo o seu dever de maneira exemplar, todas as vezes que para isso era chamado. Não só demonstrou tais virtudes para com esta Corporação como para com todas as outras organizações militares e civis. O ex-bombeiro sempre foi um elemento de fibra e de coragem, valendo ressaltar o elogio que mereceu em 15 de novembro de 1964, do Exmo. Sr. general comandante do GEF, pelo gesto destemido como conseguiu subir um mastro de 30m de altura (sic) existente na Praça do Congresso, para colocar a Bandeira Nacional, para os festejos do Dia da Bandeira, naquele ano, coisa que ninguém ainda havia conseguido fazer. E tantas outras demonstrações de um verdadeiro “soldado do fogo“, que se deixa de relatar.


Lei Xicharo, 1970
Em reconhecimento ao sacrifício deste bombeiro, o governo do Estado concedeu a sua família uma pensão, que certamente já se extinguiu. O esquecimento já tomou conta de tantos, dele igualmente. Mas, onde andam seus descendentes? 

Outros "xícharos" atravessaram com intrepidez esta Corporação, enobrecendo-a. Feridos ou mortos no duelo contra o fogo, alguns foram heroicizados, outros nem tanto. A esses outros, a respeitosa veneração dos que prosseguem conduzindo o dístico de zelar pela vida e bens alheios. O gesto heróico desse soldado perpetua a memória de tantos heróis anônimos que cruzaram pela corporação de Leovigildo Coelho.
Tenente Nicanor Gomes

Excelente notícia fechou o ano do Corpo de Bombeiros de Manaus. Muito benvinda, após o desastre do cacimbão. No Rio, o cadete AM.1 Nicanor Gomes da Silva concluiu com aproveitamento o Curso de Formação de Oficiais. Obteve o total de 1920,5 pontos e conquistou o 8.º lugar, na turma de 23 alunos. Logo ele que era o único arataca (oriundo de outro estado). A formatura ocorreu em 16 de janeiro de 1970.



Conhecido no CMA o infausto desenlace, aquele comando oficiou ao Corpo de Bombeiros. No corpo da mensagem, repassa a proesa do Xicharo, da “necessidade de que uma pessoa subisse o mastro para a Bandeira, e lá colocasse uma adriça”. Soldados do QG e até mesmo do CB tentaram sem, contudo, conseguir o objetivo. Xicharo, mostrando desprendimento, habilidade e coragem, escalou o mastro. Assim prestou enorme colaboração “para que o Símbolo Sagrado da Pátria acenasse para mais alto os grandes destinos do Brasil.”
A imprensa enfatizou a tragédia do cacimbão. Sabe-se como começam tais ajuris, reúnem-se amigos ou vizinhos e, sem muita prudência, passam a executar alguma tarefa. Desafiando a providencialidade, Manoel Floro Monteiro de Sousa (motorista da Delegacia Especializada de Segurança Pública, rua João Goulart, 5), auxiliado pelo vizinho José Araújo da Silva (24a, rua Amazonas, 30), colocou a funcionar dentro do poço caseiro (28m) “um motor à explosão”. Floro esperava “esvaziar a água de um cacimbão” em construção no quintal, porém, encontrou a morte, juntamente com dois parceiros, e colocou em “polvorosa grande parte do Morro da Liberdade”.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

CORPO DE BOMBEIROS MUNICIPAIS

No Amazonas, 1953 era lembrado por sua maior enchente até a de 2009, que a suplantou. Tão severa que deixou marcas e recordações na capital, impondo dificuldades para a circulação em geral. Para facilitar o trânsito de pessoas, as ruas que circundam o roadway de Manaus receberam passarelas de madeira. Múltiplas providências foram necessárias para amenizar o impacto do fenômeno, por todo o interior amazônico.
Major Nicanor Silva

Nessa ocasião ocorrem duas inclusões que marcariam a história dos Bombeiros Municipais. Em 2 de fevereiro, ocorreu a incorporação de Nicanor Gomes da Silva (1939-), com exatos 14 anos. Isso mesmo, com a idade de adolescente. Incorporado como soldado alcançou o oficialato e, nesta classe, o comando da corporação. A 10, foi incluído Tertuliano da Silva Xavier (1916-1986) para servir como voluntário por dois anos, logo promovido a cabo, para preenchimento de vaga. A 12, foi promovido a terceiro sargento. Em 1965, sendo tenente, exerceu, por dois meses, o comando da CBM.

As promoções em tão escasso espaço refletem, aos nossos olhos, primitivismo. Eis os indefectíveis esclarecimentos: Tertuliano havia servido o Exército por quatro anos, sendo licenciado como cabo. Ao ingressar na CBM, aproveitou-se da consuetudinária norma que reconhecia a graduação alcançada. Quanto à promoção a sargento, o comando aplicou a regra da “ordem superior”.

Tenente Tertuliano e esposa
Nesse ano, ainda restavam em apreciáveis condições de utilização um acervo de peças e equipamentos para o combate a incêndios. A autobomba, a diesel, marca Henshell, de fabricação alemã, ano de 1939, que, por falta de manutenção e peças de reposição, repousava em um depósito de veículos inservíveis da Prefeitura. Este local, situado nos fundos da ex-sede municipal, serviria mais tarde de quartel da companhia.

Uma escada de dois lances, apelidada de "magyrus", fabricada há bastante tempo e toda em madeira, montada em estrutura também de madeira sobre duas rodas, tipo carroça. Alcançava doze metros de altura e seu acionamento era manual, por um sistema de roldanas, engrenagens e manivelas metálicas. De original, a "magyrus" era de tração animal, porém, nos anos de 1950, eram os municipais que a arrastavam. Apresentava-se em mau estado, por obra do tempo. Outra, era uma escada “telescópica”, como assim era denominada, de dois lances, que atingia dez metros de altura. Fabricada em madeira de pinho, por isso resistente e leve, em funcionamento. Usada nas instruções, especialmente nas ministradas pelo saudoso tenente Monteiro “Fumaça”, na rua José Paranaguá, quando se alcançava o topo da parede do quartel da Praça da Polícia.
Escudo dos Bombeiros RJ

Outros materiais e peças: aparelhos de registros, que eram acoplados aos hidrantes subterrâneos; luvas e chaves de hidrantes subterrâneos; extintores de espuma química, fabricados em metal amarelo. Existiam alguns mangotes e mangueiras de incêndios, ainda com acoplamento de rosca; máscara de ar, com o ar mandado por mangueiras, funcionava nos moldes da máscara de escafandro, todavia, não havia compressor. Lanternas archotes, a querosene; uma das peças de inspiração do distintivo do Corpo de Bombeiros.

A grande enchente em nada contribuiu com os cofres municipais, ao contrário. O prefeito interino Oscar da Costa Rayol (1952-53) deixou sem pagamento o funcionalismo municipal durante o último trimestre. Os Bombeiros não foram poupados.