CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, novembro 01, 2020

CINEMA DE L. RUAS


 Esta postagem tem o objetivo de recordar o autor de Aparição do Clown, morto em 2000, e que ontem completaria 90 anos. Compartilho a publicação do matutino Diário do Amazonas (8 agosto 2010), cujo texto pertence ao jornalista Sávio Stoco.

 L. Ruas ganha livro

PRODUÇÃO DE UM DOS FUNDADORES DO CLUBE DA MADRUGADA 

ESTÁ EM CINEMA E CRÍTICA LITERÁRIA DE L. RUAS.

Filósofo, poeta, cronista, professor universitário, radialista, ator teatral e
padre. Tudo isso foi Luiz Ruas (1931-2000), um dos principais fundadores do Clube da Madrugada, movimento cultural amazonense responsável pela difusão das artes modernas no Amazonas.
Em julho, L. Ruas – como costumava assinar suas obras - ganhou um livro resgatando parte da sua produção, a coletânea Cinema e Crítica Literária de L. Ruas, organizada por Roberto Mendonça (Edua, 168 páginas, R$ 20), com textos publicados nas décadas de 1960 e 1970 nos jornais da cidade.

Capa do livro divulgada pelo 
matutino

O Clube da Madrugada contribuiu para que L. Ruas valorizasse o cinema como arte e se dedicasse nos textos, segundo o sociólogo Renan Freitas Pinto, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). “Ele teve um papel de destaque em Manaus. Foi uma das vozes mais ativas no movimento Madrugada. Difundia as artes modernas, inclusive o cinema e o teatro. O interesse pelo cinema, essa arte do século 20, contemporânea por excelência, revela aspectos da modernidade do movimento. Nem todos os próprios integrantes do movimento tinham essa visão. Foi um dos que primeiro escreveu trabalhos críticos sobre cinema com visão filosófica”, lembra Pinto, que conheceu o escritor nos cineclubes da cidade.
Um “cabocão muito inteligente”. É como o escritor Márcio Souza, que também o conheceu nos cineclubes, se refere ao padre, com bom humor. “Era bom poeta, ator que causou escândalo em Manaus quando produziu o Auto da Compadecida (de Ariano Suassuna) com o Teatro Escola e coordenava o suplemento literário do Clube da Madrugada”.

Sobre a atividade dedicada ao cinema, Renan disse que não era um dos nomes mais assíduos, mas que sua produção tem importância. “Ele tinha uma visão cristã de cinema, mas o livro reflete bem a visão da época, como as pessoas percebiam o cinema, como a imprensa publicava. Hoje crítico de cinema é coisa de Ibama, animal em extinção. A crítica literária, então já não tem mais volta nos grandes jornais", observou.

Entre os filmes e livros criticados e incluídos no livro, a diversidade se sobressai. De Rashomon (1950), do japonês Akira Kurossawa, ao religioso espanhol Marcelino Pão e Vinho (1955), de Ladislao Vajdao, passando pelo brasileiro A Primeira Missa (1961), de Lima Barreto, e o western norte-americano Rastros de Ódio (1956), de John Ford. Entre as críticas literárias, análises de obras dos amazonenses Luiz Bacellar, Jorge Tufic, a literatura infantil de Monteiro Lobato, o francês Arthur Rimbaud e autores revelações internacionais da época.

A pesquisa de Roberto Mendonça, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Amazonas (IGHA), iniciou em 2004, quando L. Ruas completou, morto, 50 anos que se tornou padre. Outros três volumes estão previstos para lançamento, segundo o organizador. A Poesia do Padre L. Ruas, que sairá pela editora Travessia, e outros dois volumes com os textos em prosa do autor, como crônicas e ensaios.
A obra literária de L. Ruas mais importante é o livro de poesia Aparição do Clown, de 1958. Por sua qualidade, o trabalho mereceu estudos de Rogel Samuel, professor de Letras aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (disponível no blog historiadosamantes.blogspot.com) e de Russell S. King, da University of Nottingham.

domingo, junho 01, 2014

FUNDAÇÃO DE MANAUS


Ouvindo orientação do escritor e poeta Rogel Samuel sobre o novo livro de Robério Braga, Manáos... Manaos.. Manaus (Valer, 2013, R$ 35,00 na livraria Saraiva) e para atender a solicitação da Isabelle Valois, publico uma página do mesmo.


O COMEÇO DE MANAUS


Tenho ouvido muitas pessoas pedirem respostas claras a respeito do surgimento do lugar, da razão do nome de Manaus e sua grafia mais antiga, certamente porque os livros e as escolas pouco tratam da história da cidade e, quando tratam, padecem de bibliografia séria a respeito, muito embora já se tenha publicado bastante, especialmente nos últimos anos.


De forma mais simples pode-se afirmar que Manaus nasceu em 1669, quando começou o núcleo urbano em derredor do Forte de São José da Barra do Rio Negro, com a capela oferecida a Jesus, Maria e José, construído de forma simples, na beira do rio Negro, a três léguas acima do encontro das águas que se transformou em cartão-postal, nas cercanias de onde se encontra o antigo prédio do Tesouro do Estado, na região portuária.


Ali se reuniram famílias de posses, paisanas, urequenas, manáos, júris, que foram os primeiros habitantes da região militar a que os carmelitas, pouco depois se uniram com a bênção de Nossa Senhora da Conceição que depois se tomou padroeira. Por aqueles anos era apenas o Lugar da Barra, reunindo um pequeno grupo de portugueses, militares autoridades e poucos índios agrupados pelos missionários.


Na evolução histórica foi se transformando, paulatinamente, em Aldeia de São José da Barra, Lugar da Barra do Rio Negro até chegar a ser chamada de Vila de Manáos. Cidade da Barra do Rio Negro e Cidade de Manáos no largo período de 1669 a 1856, indo e vindo com estes nomes por diversos processos políticos, governos, intervenções, juntas governativas, com ou sem o próprio senado da câmara como era designado o grupo de legisladores locais naqueles anos.


O ouvidor Sampaio que por aqui passou em 1774, considerou que o lugar tinha todos os requisitos para a 'cômoda, útil e estável' fundação da capital, principalmente por ser o centro de três rios principais da capitania: Madeira, Negro e Solimões. Era mais próximo ao Pará, abundante em pesca, com terras qualificadas para a produção e pedras suficientes para obras. Poucos anos depois, em 1786, quando Alexandre Rodrigues Ferreira passou em suas pesquisas, já se dividia em dois bairros, entre os igarapés da tapera dos Maués e da Tapera dos Manáos. Começou a crescer e a ser ordenada como capital da região com Lobo d' Almada que retirou a capital de Barcelos.


Desde 1791 o Lugar da Barra vinha sendo considerado a capital do Rio Negro, mas recebeu o nome de Manáos pela primeira vez em 1832, com o Código Criminal do Império, quando foi elevada à categoria de Vila e cabeça de Comarca, constituindo a sua própria câmara de vereadores, passando a ter juiz e pelourinho, juiz de órgãos e promotor de justiça, sendo criada a Comarca do Alto Amazonas, elementos que davam um novo foro à localidade.


Em 24 de outubro de 1848, pela lei 145, a então Vila de Manáos, como se escrevia e se escreveu durante anos e anos, foi elevada à categoria de cidade, mas foi restabelecido o nome de Cidade da Barra do Rio Negro que só foi modificado para Cidade de Manáos em 1856, permanecendo com esta grafia - Manáos –, oficialmente, até o ano de 1937, quando Álvaro Maia publicou o primeiro decreto governamental grafando de maneira diversa (Manaus), mas o Diário Oficial do Estado só incorporou esta nova forma em 14 de julho de 1939.

A velha forma de escrever o nome da cidade ainda permaneceu sendo usada em vários documentos comerciais entre eles a lista de telefones. Para harmonizar a grafia ainda se passaram alguns anos, certamente porque tem razão o ditado popular de que o hábito do cachimbo torna na boca torta, ou porque foram muitas as formas como era escrita, anos seguidos: Manou. Manau, Manao, Manaó, o que corresponderia, seguindo alguns estudiosos, a Manaha, Maneve, Macnal. Manouh, Manouâ, até chegarem a Manáos, que perdurou por longos anos e foi a maneira mais aceita antes da composição atual.


Eis aí dicas para que se conheça melhor o começo de Manaus, e as idas e vindas do poder e do seu próprio nome.

quinta-feira, novembro 07, 2013

JORGE DÓRIA: MORTE



Jorge Dória
Compartilho com Rogel Samuel a publicação sobre a morte do ator Jorge Dória, especialmente, pela ligação deste com o Amazonas, via seu avô Fileto Pires Ferreira. Fileto, oficial do  Exército, foi governador do Estado (1896-98), após a administração de Eduardo Ribeiro.
Deixou duas marcas em sua gestão: a forma como chegou e deixou o Poder Executivo. Na posse, foi eleito pela Assembleia em golpe engendrado pelo antecessor; na saída, levou uma rasteira dos deputados, que aceitaram sua "renúncia" em documento forjado.
A segunda marca, porém, foi perene. Como acentua Rogel Samuel, teve o privilégio de inaugurar o Teatro Amazonas, obra que segue imponente marcando a metrópole cabocla.
 
MORRE JORGE DÓRIA, NETO DE FILETO PIRES FERREIRA 

ROGEL SAMUEL 

Morre Jorge Dória (Jorge Pires Ferreira), filho de Alkíndar Pires Ferreira, filho de Fileto Pires Ferreira.
Túmulo de Pires Ferreira, cemitério
do Caju - Rio
Jorge Dória era neto de Fileto Pires Ferreira, ex-governador do Amazonas, que inaugurou o nosso Teatro Amazonas, em 1896.
Quando estávamos pesquisando os fatos para escrever o nosso romance “Teatro Amazonas”, tentamos falar com ele, mas Jorge Dória já estava doente, e não nos pôde ajudar.
Jorge Dória viveu na própria casa de seu avô, no Maracanã, onde seu pai vivia.
Segundo o Dr. Edgard Pires Ferreira, Jorge Dória tinha informações preciosas sobre o avô. Mas o passado morreu com ele.

Ficou, imponente, o majestoso Teatro Amazonas, obra de seu avô e de Eduardo Ribeiro.

quarta-feira, maio 23, 2012

Quem foi Hugo Bellard (1914-1989)?


Hugo Bellard, na orelha de
seu romance
Desde o ano passado, presto ajuda ao acadêmico Almir Diniz na revigoração do Dicionário Biográfico dos acadêmicos amazonenses, de sua autoria. O trabalho caminhava com desenvoltura, até que esbarrei em três nomes de custosa identificação: Odilon de Lima, Generino Maciel e Hugo Bellard.


Hugo Bellard, assim mesmo, diminuto, trazendo apenas o sobrenome paterno (creio eu) e de inspiração estrangeira.  O reduzido verbete até então conhecido provinha de uma antologia da década de 1960 e de providências junto ao Banco do Brasil, empregador do “verbetado”.

A partir dessas ralas anotações, recorri à internet. Nessas páginas, recolhi um pouco mais. Antes da pesquisa, porém, sabedor de que nascera em Urucará (AM), em 1914, fui ao Pedro Fallabela, que fora prefeito daquele município por alguns mandatos. Ele ficou surpreendido, nunca ouvira falar em tal sobrenome, por isso prossegue junto ao cartório local buscando a certidão de nascimento.

A pesquisa virtual ofereceu-me dele três dados: onde alcançar os livros publicados; sua permanência no Rio de Janeiro, onde morreu em 1989, e a existência de um filho homônimo.
Capa de livro, editado em Manaus

Quanto à bibliografia ativa, Bellard publicou em Manaus, em 1948-49, dois poemas épicos (Ajuricaba, o guerreiro manau; e A segunda visão de Tiradentes). Com essa dupla apresentação e a amizade com os patriarcas da Academia de Letras local, nesta ingressou em 1950. Logo depois estava no Rio, de onde não mais se ausentou. Nesta cidade publicou Angústia, sonho e pecado, poesias (1952) e o romance As mulheres dos outros (1954).  

Li o romance. Na orelha desta obra há o resumo da permanência do autor em Manaus. Assegura ter nascido em Urucará, “vilota perdida no seio da floresta, à margem de um remoto paraná do estado do Amazonas”, por acidente, ainda não revelado.  A certidão cartorial pode revelar esse detalhe. Enfim, Bellard aproveita-se do romance para efetuar acanhada autobiografia. Sobre o livro de poesias, vou postar a seguir uma apreciação do crítico Arthur Engrácio.

Capa do último livro de poesia
Para examinar como morreu este urucaraense, quero recorrer à camaradagem do Rogel Samuel, morador da Urca. Direto a ele: espero que você consiga a certidão de óbito deste nosso conterrâneo, que aconteceu em 17 de maio de 1989. Pouco mais, eu sei.  

Sou sabedor que existe no panorama musical outro Hugo Bellard, certamente filho do finado. Musicista que, segundo o site de sua administração, tem acompanhado os grandes nomes da MPB e em nossos dias segue fazendo arranjos e outras intervenções afins. Acredito que o músico nasceu em Manaus, em 1949.

Se você souber algo mais sobre o amazonense Bellard, envie-me com brevidade, que o dicionário do acadêmico Almir Diniz agradece.

terça-feira, agosto 02, 2011

ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS (VII)

A Crítica, edição de hoje
O jornal A Crítica traz hoje notícias sobre a nova eleição naquele sodalício. Agora, para zerar o déficit, estão abertas inscrições para três cadeiras, que foram ocupadas pelos acadêmicos Anísio Mello, Ruy Lins e Demosthenes Carminé. E, para acelerar o processo, o prazo expira dia 25 de agosto, quinta-feira, Dia do Soldado.

São esperadas as candidaturas de Renan Freitas Pinto, Lourdes Buzaglo, João Bosco Botelho, Sergio Luiz Pereira, Rogel Samuel, Isaac Sabbá, Roberto Mendonça, Simão Pessoa e outros.


As demais informações para os muitos candidatos estão no próprio recorte que ilustra a postagem. Uma correção: Djalma Batista, de fato foi presidente da Casa de Adriano Jorge, mas não foi fundador como assegura o texto.

sábado, outubro 30, 2010

Livraria Acadêmica II

Rogel Samuel escrevendo sobre Benjamin Sanches, passou pela Livraria Acadêmica, tendo me enviado o comentário seguinte:

Leio no excelente Blog do coronel que a Livraria Acadêmica de Manaus fechou as portas em 2009. Eu saberia se tivesse ido a Manaus, pois era um dos lugares aonde sempre ia, desde a adolescência. 
“Fundada em 1912, este estabelecimento fechou as portas ano passado. Agora, o edifício passa por reformas e, certamente, ali não mais haverá livros nem papéis. Nem o acolhimento fidalgo do seu Barata. Restará apenas saudades pelo fim do mais antigo templo ocupado pelos leitores da cidade” escreveu Roberto Mendonça.
“O Estado, por iniciativa da Secretaria de Cultura, já transferiu o que restou do acervo da Acadêmica para o Centro Cultural Palácio Rio Branco. Merece ser visitado, aproveitando o visitante para estender os olhos pelos outros seletos ambientes”, acrescentou.
Numa de minhas idas à Acadêmica, comprei um raríssimo exemplar de “Argila”, de Benjamin Sanches, com a bela capa de Moacir Andrade.
O livro estava tão escondido no fundo da sala, que o Sr. Barata não queria vender-me, pois não sabia o preço.

Onde andarão aquelas gigantescas estantes de madeira? E o passado, ali recolhido?
Aquela livraria teve muito a ver comigo: Foi uma das poucas livrarias de Manaus que comprou o meu “O amante das amazonas” diretamente da Editora Itatiaia.

Termino reproduzindo um poema de “Argila”, chamado “Fé”:

Ver
sem
bem
crer.
Crer
sem
bem
ver.
Crer
é
fé.
Ver
não
é.
Argila, Manaus, Sérgio Cardoso, 1957


Rogel:

Suas angústias são pertinentes, afinal tem-se notícias de tantos acervos bem construídos que passaram às prateleiras de “sebos”. Tranquilize-se, o material da Livraria Acadêmica, em sua maior parte, agora compõe uma sala do Centro Cultural Palácio Rio Branco, ali onde serviu de sede para a Assembleia Legislativa do Amazonas.
Outra iniciativa benfazeja foi a produção de um CD-vídeo – Memória da Livraria Acadêmica (1912-2009), material produzido pelo filho do seu Antonio, o Humberto (Beto) Barata, distribuído apenas para os saudosistas, pois se trata ainda de trabalho artesanal.


A Tarde. Manaus,
16 maio 1960
 Para encerrar, reproduzo a Fé, de Sanches, e a Fé, de Aureo Mello, encontradas em jornais de Manaus.

O Jornal, Manaus, 20 agosto 1944






quinta-feira, setembro 02, 2010

Eleição acadêmica


A Academia Amazonense de Letras marcou para 29 de setembro, quarta-feira,  eleição para escolha do substituto do falecido Narciso Lobo. Na condição de candidato, tomo o espaço para divulgar a opinião de um amazonense realizado na cidade do Rio de Janeiro.
Lamento, ele não é acadêmico. Mas, você pode comentar e divulgar entre os eleitores. De qualquer maneira, meus agradecimentos.
Um acadêmico nato

Rogel Samuel



Roberto Mendonça
Leio que Roberto Mendonça é candidato a uma vaga na Academia Amazonense de Letras. Ninguém melhor do que ele pode servir à Academia do que ele. Conheci-o há anos, na biblioteca da UFAM, em Manaus, na rua Ramos Ferreira. Ele já pesquisava os textos dos antigos acadêmicos: Ramayana de Chevalier, Genesino Braga etc.
Ele sabia que eu fui o primeiro a colocar na Internet os autores daquela época de ouro da AAL: Álvaro Maia, Péricles Morais, João Leda. Ele sabia do meu gosto pelos autores amazonenses: André Araujo, Hemetério Cabrinha, Mavignier de Castro, João Nogueira da Mata, Pe. Nonato Pinheiro, Moacyr Rosas e tantos outros.
Tivemos grandes prosadores, antes dos grandes poetas do Clube da Madrugada.
Mas um livro em particular logo nos uniu naquele dia: “Aparição do Clown”, de L. Ruas. Eu só tinha um xerox do livro, mas mesmo assim consegui colocar o livro no meu site, tempos depois.
Roberto Mendonça tem tudo para entrar na academia, vários livros importantes.
E, principalmente, amor pela literatura amazonense.

segunda-feira, maio 10, 2010

Memorial Amazonense XIX

Maio, 10

1892 – Nasce em Manaus (AM), o desembargador Raimundo Vidal Pessoa. Conquistou o título de bacharel em ciências jurídicas e sociais pela Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro. Exerceu alguns cargos na Junta  Comercial do Estado. Em 1920, foi designado delegado de polícia da comarca, depois juiz substituto e, no ano seguinte, intendente de Tarauacá (AC). Esteve por dois anos na comarca de Bom Sucesso (MG).
Ingressou na magistratura amazonense em 1925, nomeado juiz de direito da 1ª vara da comarca da Capital. Finalmente, foi nomeado desembargador em novembro de 1930, tendo presidido o Tribunal de Justiça do Amazonas em 1944 e 1961.
Seu nome está gravado na Penitenciária do Estado, situada na avenida Sete de Setembro.

1922 – Nasceu em Manaus (AM), o padre Raimundo Nonato Pinheiro, filho do poeta homônimo e da professora Diana Pinheiro, devidamente homenageada na escola estadual existente na avenida Presidente Kennedy, no bairro de Educandos. Fez os estudos secundários no Colégio Dom Bosco, em Manaus, mas a formação eclesiastica forjou nos seminários de Belém (PA) e São Luís (MA), onde foi ordenado sacerdote em outubro de 1946.
Exerceu o sacerdócio em Manaus e em Parintins, antes da instalação da Prelazia local, a cargo dos padres do PIME. No entanto, por divergências com a Igreja amazonense, esteve afastado das ordens.
Jornal A Notícia, Manaus, 25 Jul. 1976

Dedicou-se com brilhantismo ao cultivo das letras. Seu extremado zelo com o idioma pátrio o fez reconhecido filólogo e linguistíco; o jornalista com colaboração em todos os jornais da Capital; e uma reconhecida aptidão pela polêmica. Pertenceu ao Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (Igha), onde exerceu com competência a função de Orador, e também cuidou da biblioteca da instituição.
Padre Nonato Pinheiro foi empossado na Academia Amazonense de Letras a 10 de janeiro de 1950, para ocupar a Cadeira 20, como patrono o filólogo João Ribeiro. Na sessão de posse, foi saudado pelo cientista Djalma Batista.


Publicou muito pouco, apenas três livros. O mais conhecido é sobre o terceiro bispo do Amazonas, Dom João da Matta (1956), que a Editora Valer reeditou em 2008 (foto). Tenho me esforçado para recolher dos jornais as inúmeras contribuições deste sacerdote, como disse, em todos os jornais de Manaus. E mais, por um período que estimo de quatro décadas.


Morreu em 7 de dezembro de 1994, em um cubículo no subsolo de um hotel, situado na avenida Joaquim Nabuco, em Manaus, abandonado, solitário, cercado apenas de livros aos quais tratou com estima e apreço.



Acolhendo sugestão de meu amigo Rogel Samuel, reproduzo um ensaio do padre Nonato Pinheiro, publicado em O Jornal, Manaus,
domingo, 17 Ago. 1958.


Os Clássicos da Língua


Cada vez mais me convenço, e não cesso de o repetir aos que me interpelam, que o mais excelente para aprender um idioma é o contubérnio com os seus melhores escritores, os que chegaram a tal apuro de correção vernacular, que se apresentam como guapos e cadimos padrões de boa linguagem. São os clássicos de língua. Impede que não confundamos alhos com bugalhos. Há autores que se reputam clássicos em determinado ramo do saber humano, mas que o não são quanto à linguagem, por falta da necessária correção. Euclides da Cunha, por exemplo, é clássico da amazonologia, mas não é clássico da língua portuguesa. Péricles Moraes com muita razão declarou, no seu admirável estudo acerca dos intérpretes da Amazônia, que todos são “caudatários de Euclides”. No que tange, porém, ao apuro da linguagem, pela correção gramatical, o autor de “Os Sertões” e de “A margem da história” não atingiu as alturas em que brilharam Rui Barbosa, Gonçalves Dias e Machado de Assis, três notáveis brasileiros que se tornaram padrões de legítima linguagem portuguesa.
Que são clássicos? Podemos aceitar o conceito de José de Sá Nunes, em sua “língua vernácula”( 1.ª e 2.ª séries, pág. 105 da segunda edição ): “Escritores de grande autoridade, que servem de modelo no uso da língua vernácula”. Agrupamo-los em duas categorias: Clássicos antigos e modernos, aceitando-se ainda a classificação entre brasileiros e portugueses.
De entrada desfaço a ilusão em que laboram não poucos estudiosos da língua, supondo que os clássicos sejam necessariamente escritores antigos, mais ou menos como os santos padres da Igreja, que integram e preenchem determinada época da historia. Nada mais falso. A razão está com Francisco Barata, autor de um precioso livrinho, já raro no tempo de Rui Barbosa, e, pelo mesmo elogiado, em termos enaltecedores, titulado “Estudos da língua portuguesa”, onde ensinou: “Clássico é o que melhor e mais primorosamente escreve numa certa época”. (Cfr. “Replica”, nº 193). Segue-se daí, evidentemente, que sempre haverá clássicos, uma vez que em todas as épocas brilharão modelos de boa linguagem, de acordo com o estilo do tempo. Daí também se deduz a infantilidade de muitos, que identificam as obras clássicas com coisas borolentas, como se a correção gramatical fosse apanágio do passado.



São muitos os clássicos antigos, à frente o culminante Camões, autoridade que sobreexcede todas, no dizer de Sá Nunes. Para Rui Barbosa, era “o maior dos maiores”, como se lê na famosa “Réplica”, n.º 222, livro admirável que não pode faltar numa estante de língua portuguesa. “Os Lusíadas”, poema imortal que se inclui entre as melhores obras da literatura universal, é a Bíblia da língua portuguesa. Nenhum estudioso do idioma tem o direito de ignorar as páginas eternas de Camões. O preexcelso vate abre necessariamente a litania dos clássicos da língua.


Entre os clássicos antigos, distinguimos: Frei Luiz de Sousa, Padre Antônio Vieira, Padre Manuel Bernardes, Gil Vicente, Fernão Lopes, Damião de Góis, João de Barros, Bernardim Ribeiro, D. Francisco Manuel de Melo, Jacinto Freire de Andrade, Frei Heitor pinto, Padre João de Lucena, Duarte Nunes, Filinto Elísio, Frei Tomé de Jesus e muitos outros.


Rui Barbosa, na “Réplica”, cita freqüentemente os clássicos antigos, revelando conhecimento profundo de todos. Creio, porém, que poderei dar um conselho aos novos. O importante não é conhecer todos os clássicos antigos, mesmo porque muitas de suas obras se esgotaram. Conhecemo-los através das antologias. Eu recomendaria o estudo de quatro que me parecem sobreexcelentes: Camões, Vieira, Bernardes e Luís de Sousa.


De Camões, nada mais tenho que dizer: é o primeiro! 
O padre Antonio Vieira é um dos principais clássicos antigos. Era um dos prediletos de Rui Barbosa, que lhe chamava “um dos três ou quatros grandes cimos clássicos do nosso idioma” (“Réplica”, nº 232). É ainda nesse livro, que consulto quase diariamente, que topamos esta passagem do mestre a respeito do egrégio jesuíta: “No meu longo trato com os livros do exímio escritor português, etc.” (nº 453). São célebres os “Sermões” de Vieira, em número aproximado de duzentos. Aí está a opulência da língua, nas variedades de seus modismos, das suas construções, e na imponência da sua majestade. Aí esta também a assombrosa erudição do padre, em cuja cabeça faiscavam centelhas de genialidade. Além dos “Sermões”, temos as “Cartas” do jesuíta, também numerosas. A “Arte de Furtar” provavelmente não é da autoria do eminente sacerdote. Vieira, entre os clássicos antigos, talvez seja o que mais se aproxime da nossa linguagem de hoje. Há trechos que nenhum português ou brasileiro da atualidade ousaria alterar, tão modernos nos parecem.


O Padre Manuel Bernardes é outro clássico antigo de nomeada. Seu estilo, porém, difere muito do estilo do Padre Vieira. Todos conhecem o célebre paralelo entre Vieira e Bernardes, da lavra do insigne Castilho. Vieira é a tempestade; Bernardes é a bonança. Vieira é o mar encapelado; Bernardes é o lago sereno, a refletir as lucilações das estrelas. Vieira é a força; Bernardes é a doçura. Entre as obras mais excelentes do oratoriano, cito “Nova Floresta” e “Luz e Calor”, modelos de melhor prosa portuguesa.


Frei Luís de Sousa é outra sumidade. Para João Ribeiro era “o mais melodioso, e acaso o mais puro de todos os prosadores de nossa língua”. Para Herculano, era “o maior dos nossos clássicos”, conceito que arpoei na “Réplica” (nº 197). É autor da famosa “Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires”, célebre Arcebispo de Braga, que muito se distinguiu no Concílio de Trento.


Quem conhecer esses quatro clássicos, dentre os antigos, pode ficar tranqüilo.

Passemos agora aos modernos que podemos classificar em duas categorias: portugueses e brasileiros.

Dos portugueses, parece-me que o mais insigne é Antônio Feliciano de Castilho. Sá Nunes o tinha na conta de “o mais puro dos clássicos modernos”, como se lê em sua “Língua Vernácula”, terceira série, pág.201. Pedro Pinto afirma, em seu livro “Locuções e Expressões na Réplica de Rui Barbosa” ( pág. 11 ), que o lê desde menino. Rui Barbosa sempre o colocou nas alturas. Citarei alguns tópicos da “Réplica”, em que o grande brasileiro canoniza o glorioso clássico: “Subamos, porém, ainda. Vamos, dentre os mestres da língua, ao maior: a Castilho Antônio”, (nº 74)
“De todas as autoridades, porém, há um, que por cima de todas sobreleva: a daquele, que Silva Túlio aclamava o nosso pontífice contemporâneo em pontos de fé gramatical, a de Castilho Antônio. Filólogo, poeta e prosador insigne entre os mais insignes, esse clássico, o maior dos da nossa língua no século dezenove”. (nº 201)


Além de Castilho, é de justiça citar outros clássicos portugueses de fama: Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Latino Coelho e Rebelo da Silva.


Camilo é o fabuloso romancista português, um dos melhores clássicos da língua, em cujas obras se ostentam a opulência e o colorido do nosso vocabulário. É o escritor mais fecundo da língua. Parece que a cegueira foi a causa do seu lamentável suicídio. Era um dos clássicos prediletos do nosso João Leda, que escreveu “Os Áureos Filões de Camilo”. Aliás, é vastíssima a bibliografia acerca do iminente e donairoso prosador. O próprio Castilho lhe chamou “o mais opulento dos nossos clássicos”, depoimento que Rui transcreveu na “Réplica” (nº 205).


Alexandre Herculano recomenda-se pela grandiosidade do seu estilo. Em Latino Coelho admiramos a eloquência da linguagem. Seus escritos dão-nos a ilusão da tribuna.


O Brasil apresenta também clássicos de nomeada, verdadeiros padrões de boa linguagem, que ombrearam com os melhores clássicos de Portugal: Rui Barbosa, Machado de Assis, Gonçalves Dias, João Francisco Lisboa, Sotero dos Reis, Carlos de Laet, Francisco de Castro e outros. Lisboa escreveu a vida do padre Vieira. Sotero dos Reis conhecia a língua profundamente. Chamou-lhe Rui “mestre de mestres”. O maior clássico brasileiro é incontestavelmente Rui Barbosa, o grande, o fabuloso Rui. Entre suas obras, sob o aspecto de linguagem, recomendo “A Réplica” e as “Cartas de Inglaterra”. O primeiro livro prende-se á famosa polêmica que manteve com o velho Carneiro Ribeiro. O segundo exibe uma linguagem excelente e foi revisto escrupulosamente pelo autor.



Aí estão alguns clássicos da língua, modelos perfeitos de boa linguagem. Devemos compulsar-lhes as obras como recomendava o mestre João Ribeiro, em suas “Páginas de Estética”: “Os nossos clássicos escreviam com lenteza e com vagar é que compunham. Não podem, pois, ser devorados dum trago como os livros de hoje improvisados num lanço”.

Mais do que nas regras gramaticais, aprendemos a língua nas páginas culminantes dos seus mais excelsos artistas e prosadores, que detinham em suas penas o senso profundo da vernaculidade.

























terça-feira, maio 04, 2010

Caryl Chessman II




A execução de Chessman, o Bandido da luz vermelha, repercutiu amplamente em Manaus. Bem caracterizado não apenas nas chamadas jornalisticas mas, também, nos editoriais e em outras formas de manifestação escrita.
As páginas se encheram de protestos, partindo de variados pensadores, de idades bem diverficadas.  
O Jornal. Manaus, 3 Maio 1960

Reproduzo algumas:

  • A coluna do jovem estudante Rogel Samuel, iniciando no jornalismo, mas afoito como todo jovem. Hoje, ao reler esta carta, quê vai nos dizer. Ele não perdoou os americanos.

O Jornal, 4 Maio 1960


  • Outro protesto veio do saudoso Oscar Carneiro que, já experimentado no trato jornalístico, igualmente não perdoou: "justiça assassina" no país de modelar protestantismo, foi a sentença.

O Jornal, 4 Maio 1960



  • A religiosidade professada por Edgard Valente sustentou sua opinião, ao alegar que Deus não concedeu aos homens o direito de matar.

O Jornal, 6 Maio 1960


  • Na semana, o amazonense leu e releu sobre a execução de Chessman. O falecido Waldemar Baptista de Salles, em sua cronica semanal, emitiu sucinto, mas degradante, parecer.

O Jornal, 8 Maio 1960

E, aproveitando o título acima, assim se foi Chessman... Não adiantou torcer pelo outro, no cinema quase sempre vence o mocinho.