CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

29 de maio de 2012

MANAUS OU MANÁOS?

O trabalho aqui postado foi retirado do jornal A Notícia, assinado por Robério Braga, reproduzindo relatório do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA). O autor ainda não havia assumido a presidência daquele instituto, e longe de sua posse na Secretaria de Cultura do Estado.
Jornal A Notícia, 22 maio 1974

O Consulado do Japão, em maio de 1974, endereçou consulta ao Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, visando recolher informações sobre a utilização do vocábulo MANAUS, motivo da alteração de sua grafia e desde quando passou a ser grafado nos documentos oficiais, como hoje se escreve.

Para atendimento àquela solicitação, o então Presidente do sodalício, desembargador André Vidal de Araújo, que cognominei de “desembargador da bondade”, designou uma comissão para estudos e redação do documento final a respeito do assunto. Coube-me redigir a informação que foi levada ao conhecimento do ilustre representante do povo da terra do sol nascente, entre nós.

Para conhecimento de uma camada mais ampla da comunidade, passo a transcrever a seguir as mesmas explicações prestadas àquela altura, baseando-me nas pesquisas e contribuições de diversos membros da Casa de Bernardo Ramos, e para esclarecimento de dúvidas que vêm sendo suscitadas, entre os estudantes, sempre motivadas por informantes mais afoitos ou despreparados.

O vocábulo MANAU era atribuído à uma das muitas tribos que habitaram o rio Negro, compondo celebre confederação tribal dedicada à defender a região contra a invasão dos europeus.
Poucos são os recursos para a classificação e divisão do povo encontrado na Amazônia, é a opinião do professor Antônio Braga Teixeira, e toda a base de quaisquer estudos linguísticos pode ser desenvolvida sobre a fonética, sendo desconhecida a escrita e com ela regras rígidas, bem cuidadas, da grafologia dos vocábulos.  

Assim é que os etnólogos afirmam que os índios MANAU são de origem ARUAQUE, segundo se pode ver em Lima de Figueiredo e Armando Levy Cardoso, citados pelo mestre André Araújo, que também lembra a aparência de MANAU com MANOA.
Os estudos de Pedro Luiz Simpson, patrono de uma das poltronas do nosso Instituto e figura de relevo no saber, como de Pe. Lemos Barbosa, Plínio Ayrosa, Frederico G. Edeiweiss demonstram, pela fonética araucana ser mais certa, mais concordante com a língua da tribo que originou esta cidade, MANAU com U e não MANAO com O. Eles bem evidenciam as profundas e diversas razoes etimológicas para a alteração da grafia.

São bastante conhecidas as dificuldades de distinção da pronuncia das palavras escritas com O ou U em final de vocábulos, formando ditongo. Ainda hoje, em razão de regionalismos podem parecer oralmente iguais – Manáos e Manaus.
Sabemos que não existe em qualquer gramática que discipline a ortografia de termos aruaques incorporados à Língua Portuguesa determinação da pronúncia e/ou grafia de Manaus com O.

Na Língua Aruaca como se refere André Araújo, o O tem dois sons: fechado (avô) e aberto (socó). Assim, entendia aquele mestre que a pronúncia indígena verdadeira deveria ser MANAUS e nunca MANAÔS ou MANÁOS. Não há uma lei que determine o uso do U, mas, etimologicamente é assim que deve ser grafada.

Jornal já extinto, circulado em 1923, com a grafia de Manáos
O professor Arthur Cezar Ferreira Reis, amazonólogo de grandes e indiscutíveis méritos, às páginas 77 de sua obra História do Amazonas, editada em 1931, em nota de rodapé mostra que “Antônio Brandão de Amorim e outros conhecedores do nheengatu preferem grafar Manau”, mas o ilustre professor à época grafava com O.

Octaviano Mello, em obra editada pelo Governo do Estado, mostra o contraste de Manaus com uma das formas femininas de MANOUH, MANOU, MANU, MANI, que são abreviações de nome hebraico - Munouchyak e suas variações, donde veio a palavra indo-tupi, HOUCHA, homem ou gênio nascido de Manou, significando, conforme o autor procurou demonstrar às páginas 31 de Topônimos da Amazônia, deus dos índios.

A palavra que denomina nossa cidade tem sido grafada de diversas formas: MANOU, MANAU, MANAO, MANÁO, MANAHA, MANAVE, MACNAL, MANOUH, MANOUÃ, MANÁOS.
Pela construção da fortaleza, hoje com placa simbólica, moldada em bronze, fixada no prédio da antiga Secretaria de Fazenda, Manaus data de mais de 300 anos, e à época de sede da Capitania, como da Provincia, o vocábulo era escrito com O.


Embora desde o dia 19 de março de 1937 os atos oficiais venham apresentando a grafia MANAUS, como se vê do decreto nº 117, publicado no Diário Oficial do Estado, nº 12.589, foi somente em 14 de julho de 1939 que o próprio Diário corrigiria o cabeçalho, passando a circular com a grafia que há pouco mais de dois anos já havia utilizado. Verifique-se, a respeito, o exemplar de nº 13.192, do DOE.

Em 1908, publicado pela Tipografia J. Renaud & Comp., Bertino de Miranda lançava seu livro sobre Manaus, trazendo a grafia com U. Porque então somente em 1937 passou-se a utilizar esta grafia, nas obras de escritores locais, como nos órgãos e documentos oficiais, não consegui identificar.
Dois documentos de 1910, um com Manáos (acima), outro,
com Manaus (abaixo)

Fato interessante e digno de nota é que o primeiro ato a trazer a grafia MANAUS, e que foi assinado pelo político e intelectual Álvaro Botelho Maia, concedia prêmios a estudantes do curso secundário. Era sexta-feira, 19 de março de 1937.

Os critérios ortográficos que primeiro determinaram a grafia MANAUS, resultaram do acordo assinado entre as Academias de Letras do Brasil e Portugal, com a chancela dos respectivos governos, em 1943.

Estas informações servem a todos que busquem saber da nossa história e da própria língua, que nos mantém unidos.

27 de maio de 2012

Quarta Literária, junho


CONVITE
A Livraria e Editora Valer tem a satisfação de convidá-lo(a) para a Quarta Literária do mês de junho, que acontecerá dia 6,às 18h30, no Espaço Cultural da Livraria Valer (av. Ramos Ferreira, 1195 –Centro), com a palestra sobre o livro Czardas, de Jonas da Silva, ministrada pelo professor José Almerindo.


Sobre o palestrante

José Almerindo
José Almerindo possui graduação em Licenciatura Plena em Letras (1971) e especialização em Literatura Brasileira, ambas  pela Universidade Federal do Amazonas (1990). Atualmente, é professor de Língua Portuguesa do ITEPES e professor de Comunicação e Expressão do curso de Licenciatura em Matemática/UEA, em 2011.



Evento: Quarta Literária
Palestra sobre o livro: Czardas – Jonas da Silva
Palestrante: José Almerindo
Local: Espaço Cultural da Livraria Valer (Av. Ramos Ferreira, 1195 – Centro)
Entrada livre

25 de maio de 2012

Arthur Engrácio versus Hugo Bellard


Arthur Engrácio

Arthur Engrácio ganhou o prêmio Prefeitura de Manaus 1976, com seu livro A Berlinda literária, que o autor conclama tratar-se de “notas de leitura”. Escritor amazonense laureado, integrou os primeiros momentos do Madrugada. Engrácio era na verdade um respeitável crítico.
O texto que reproduzo – Nem tanto nem tão pouco - das páginas deste livro, cuida do livro de poesia de Hugo Bellard, Angústia, sonho e pecado, circulado em 1954.


Na sua quase totalidade, os intelectuais da província têm, já, por princípio, acatar com um respeito quase místico as opiniões que emitem os escritores da metrópole acerca de uma obra literária qualquer.

Daí o mutismo em que se recolhem ante o aparecimento de um livro aqui pelos nossos pagos, procedente do Sul. No seu acanhado modo de ver, livro prefaciado por Afrânio Coutinho, Álvaro Lins, Sérgio Milliet, Agripino Grieco e outros pontífices das letras brasileiras, é livro bom, excelente, não precisando da sua crítica para que seja aceito pelo público. Entendem que a "marca registrada" de um desses grandes da literatura é suficiente para valorizar qualquer volume impresso, seja de autor de mérito ou medíocre.

O autor destas linhas não reza por essa cartilha. Pois sabe que há uma política dos prefácios como há uma política dos governos, das religiões, dos padres etc. E, como um novo São Thomé, antes prefere ver com os próprios olhos e apalpar com as próprias mãos.
Esta a razão que o traz aqui para falar de um livro de versos há pouco aparecido em nossas livrarias, ou seja, Angústia, Sonho e Pecado, do Sr. Hugo Bellard, editado pela Pongetti, Rio de Janeiro.

Capa do livro

Sem fugir às regras dos célebres prefácios de que acabamos de falar, o livro apresenta-se com três juízos críticos de três vultos eminentes da literatura nacional: Agripino Grieco, Álvaro Moreyra e Berilo Neves.

Abre o poeta sua brochura com o soneto Larápio, que mestre Berilo Neves, em sua carta ao autor, num rasgo de elogio que chega ao exagero, não hesita em dizer que "poderia ser subscrito por qualquer dos grandes poetas contemporâneos, da nossa língua".
Aqui o soneto:


Queixaram-se à polícia: - Era um reles ladrão,
patife refinado, astuto e sem moral!
Ao padeiro roubara um pacote de pão,
Violando, fundamente, o direito social!

O delegado, austero e homem de razão,
zeloso defensor do Código Penal,
manda, sem vacilar, que o metam na prisão
para não prosseguir na prática do mal!

No covil do gatuno, a cena ocorre assim:
Ao chegar, impiedoso e rude, o beleguim,
a mulher, sobre a esteira, em febre se consome...

E quando o pária sai, a luz dos olhos morta,
macilento e andrajoso, -- o filho chega
à porta
e diz
à meia voz: - Papai, estou com fome!...

Discordamos do ponto de vista do ilustre homem de letras, porque:

- Sendo o soneto uma das formas de composição poética clássica por excelência e que, por isso mesmo, requer de quem o escreve a necessária mestria, não descurando nem da forma nem da ideia, Larápio, como uma composição dessa ordem, sob o crivo de uma crítica conscienciosa, deixa muito (ou tudo) a desejar.

- Uma rápida leitura do trabalho em apreço dá-nos ideia da sua pouca densidade. O autor abusa dos versos agudos, o que, sobre tornar monótona e enfadonha a sua leitura, atenta contra as regras elementares da poética.

- Juntem-se à essas falhas o fecho do soneto, o seu metro forçado, as suas expressões de mau gosto, e ter-se-á concluído que mestre Berilo foi, realmente, muito longe no seu panegírico. Longe demais.

Reportamo-nos especialmente ao soneto Larápio não porque não haja no livro outros exemplos de igual natureza, mas pelo fato de ter sido o mesmo posto em pé de igualdade, pelo crítico, aos trabalhos dos nossos grandes vates contemporâneos, coisa que, honestamente, não corresponde à verdade. Perlustrem-se Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima e outros excelentes poetas contemporâneos da nossa língua e não se encontrará, na sua vasta bibliografia, um soneto tão mal construído quanto este Larápio do Sr. Bellard.
Hugo Bellard

Temos míngua de espaço e tempo. Por isso não transcreveremos os muitos exemplos maus colhidos no livro do Sr. Hugo Bellard. Citaremos apenas alguns, que têm uma finalidade: confirmar o adágio popular de que "nem tudo que brilha é ouro", e que nem sempre a capa bonita de um livro e seus prefácios encomiásticos são credenciais suficientemente válidas para a glória de um autor.

Na página 16 do volume, no segundo quarteto do soneto "Eu", lemos isto (com grifo nosso):

Conduzo no meu peito estranho idealismo,
que me faz procurar estrelas não sonhadas,

que me atira, impetuoso, aos gestos de heroísmo
e a me fazer irmão das almas flageladas!


Uma forma estranha de concordância que não conhecíamos ainda. Não seremos, contudo, demasiado exigente quanto a esse ponto. Pois sabemos que os poetas, na sua maioria, nunca deram muita importância às regras gramaticais. Prossigamos.

Mais adiante, iniciando o soneto Hora Infecunda, à página 39, dá-nos ele esta amostra:
Uma hora o relógio já bateu...
Quero fazer uns versos - não consigo!
A ideia foge e, assim como Proteu,
Muda de forma sempre que a persigo.

Não se faz mister um estudo demorado para notar-se a pobreza técnica e poética desta estrofe. O autor, forçando o metro, torna o verso frouxo, desengonçado. Haja vista o primeiro verso desta quadra. Obedecendo às regras da boa métrica, o referido verso teria apenas nove pés e não dez como quer o poeta. Em "uma hora" ele faz quatro sílabas quando, na realidade, só existem três. A última vogal da primeira palavra, segundo as regras já encionadas, funde-se com a primeira da segunda, no caso o "h" inicial do verso, que, poeticamente, tem o valor de vogal. Medido corretamente, como pedem, ainda, as normas da métrica, o verso ficará de pé quebrado, de vez que o acento rítmico vai incidir sobre a quinta sílaba do mesmo (regio).

Avançando mais, à página 69, cai-nos sob a vista este terceto do soneto Ficaste que, sobre estar cheio de lugares-comuns, dá margem à ambiguidade:

Oh! bendita obsessão, que não tem fim!...
Sonho, acordado, olhando outras mulheres,
que estás me enchendo de felicidade!...

Poderíamos ir mais longe, apontando aqui e ali, nas páginas de Angústia, Sonho e Pecado, falhas seriamente comprometedoras do nome do autor, que já não é um estreante. Todavia, se assim o fizéssemos, estaríamos alongando muito estas linhas que outro objetivo não tem senão fazer um apanhado das nossas impressões sobre a obra.
                    * * *

Em síntese, a leitura dos sonetos do Sr. Hugo Bellard deixou-nos um tanto decepcionado. Lendo-os, não experimentamos aquela sensação de bem estar que nos deixa sempre o contato com a boa poesia. Notamos nos sonetos do poeta uma ausência total de tudo que nos pudesse falar à alma, à inteligência, à sensibilidade.
Mas não se infira daí que as cento e duas páginas de Angústia, Sonho e Pecado são constituídas apenas das composições que acabamos de apreciar. Absolutamente.

Há no livro do bardo amazonense poemas cuja beleza seria uma injustiça da nossa parte ocultar. Se recusamos os seus sonetos, nem por isso deixamos de elogiar-lhe as outras composições. Nessa parte, aliás, é onde o artista sobressai-se: dá novas entonações à lira e chega, para o nosso contentamento, a apresentar-nos poemas como Retirantes, Poema Triste, Inquietação e Guerra, o qual, a nosso ver, é a melhor peça do livro. (1954)

24 de maio de 2012

Entre outros, aniversário da Sofia



Esse dia - 24 de maio - sempre me marcou. Desde quando passei pelo Seminário São José de Manaus (bote tempo nisso), onde aprendi a reverenciar a Senhora Auxiliadora. A data cercada de festa religiosa, claro, neste mês de maio todo dedicado à Mãe de Jesus.

Também foi no colégio dos padres que fiz amizade com o Paulo Vital, com o qual servi na força militar estadual e, em nossos dias, o coronel PM Vital ocupa a Secretaria de Segurança. Hoje é dia de seu aniversário. 
Registro aqui meu fraterno abraço, com desculpas por não ter comparecido ou ao menos telefonado. Imagino, todavia, a batelada de felicitações que deve ter recebido dado sua cordialidade. 

Outro aniversariante de hoje era o finado coronel da Polícia Militar Sidney Belota, que ficou conhecido na corporação pelo resultado de acidente rodoviário, que mutilou sua mão direita.

E, por falar tanto em militar, lembrei-me de que hoje é o Dia da Infantaria. A esta arma do Exército pertenci, ainda que temporariamente, pois conclui o NPOR no antigo 27º BC (Batalhão de Caçadores), antecessor do 1º BIS (Batalhão de Infantaria de Selva).

Algumas poses da aniversariante
A festa de hoje para mim, entretanto, coube à filha Sofia, completando o segundo ano de vida. Chegou a mim em momento de tranquilidade, que me permite nessa etapa da vida curtir de maneira bem sutil. Obrigado pelos cumprimentos e os votos de sucesso para a Sofia. 

23 de maio de 2012

Quem foi Hugo Bellard (1914-1989)?


Hugo Bellard, na orelha de
seu romance
Desde o ano passado, presto ajuda ao acadêmico Almir Diniz na revigoração do Dicionário Biográfico dos acadêmicos amazonenses, de sua autoria. O trabalho caminhava com desenvoltura, até que esbarrei em três nomes de custosa identificação: Odilon de Lima, Generino Maciel e Hugo Bellard.


Hugo Bellard, assim mesmo, diminuto, trazendo apenas o sobrenome paterno (creio eu) e de inspiração estrangeira.  O reduzido verbete até então conhecido provinha de uma antologia da década de 1960 e de providências junto ao Banco do Brasil, empregador do “verbetado”.

A partir dessas ralas anotações, recorri à internet. Nessas páginas, recolhi um pouco mais. Antes da pesquisa, porém, sabedor de que nascera em Urucará (AM), em 1914, fui ao Pedro Fallabela, que fora prefeito daquele município por alguns mandatos. Ele ficou surpreendido, nunca ouvira falar em tal sobrenome, por isso prossegue junto ao cartório local buscando a certidão de nascimento.

A pesquisa virtual ofereceu-me dele três dados: onde alcançar os livros publicados; sua permanência no Rio de Janeiro, onde morreu em 1989, e a existência de um filho homônimo.
Capa de livro, editado em Manaus

Quanto à bibliografia ativa, Bellard publicou em Manaus, em 1948-49, dois poemas épicos (Ajuricaba, o guerreiro manau; e A segunda visão de Tiradentes). Com essa dupla apresentação e a amizade com os patriarcas da Academia de Letras local, nesta ingressou em 1950. Logo depois estava no Rio, de onde não mais se ausentou. Nesta cidade publicou Angústia, sonho e pecado, poesias (1952) e o romance As mulheres dos outros (1954).  

Li o romance. Na orelha desta obra há o resumo da permanência do autor em Manaus. Assegura ter nascido em Urucará, “vilota perdida no seio da floresta, à margem de um remoto paraná do estado do Amazonas”, por acidente, ainda não revelado.  A certidão cartorial pode revelar esse detalhe. Enfim, Bellard aproveita-se do romance para efetuar acanhada autobiografia. Sobre o livro de poesias, vou postar a seguir uma apreciação do crítico Arthur Engrácio.

Capa do último livro de poesia
Para examinar como morreu este urucaraense, quero recorrer à camaradagem do Rogel Samuel, morador da Urca. Direto a ele: espero que você consiga a certidão de óbito deste nosso conterrâneo, que aconteceu em 17 de maio de 1989. Pouco mais, eu sei.  

Sou sabedor que existe no panorama musical outro Hugo Bellard, certamente filho do finado. Musicista que, segundo o site de sua administração, tem acompanhado os grandes nomes da MPB e em nossos dias segue fazendo arranjos e outras intervenções afins. Acredito que o músico nasceu em Manaus, em 1949.

Se você souber algo mais sobre o amazonense Bellard, envie-me com brevidade, que o dicionário do acadêmico Almir Diniz agradece.

22 de maio de 2012

O poeta Jonas da Silva (1880-1947)

Acredito que foi bem pensada a data da próxima Quarta Literária – 6 de junho. Nessa data, estará completando 65 anos de morte o poeta Jonas da Silva, exatamente o escolhido para ser apreciado por sua obra poética. Raros conhecem este poeta. Sua obra (três livros), realizada nas primeiras décadas do século passado, perdeu-se na “margem esquerda do rio Negro”, apesar do esforço da Editora Valer em reeditar Czardas, o livro publicado em 1923, em Manaus.

Aproveito a ocasião para reproduzir um texto divulgado por ocasião do centenário de nascimento, e que explica em parte as razões que fizeram Jonas da Silva cair no esquecimento. Aproveito ainda para convidar para a próxima QL, que promete.

Jonas da Silva: os cem anos do poeta do mármore

 Deoclydes de Carvalho Leal


Canta. O teu canto é um cálice de vinho./
Vinho de som que me embebeda o ouvido.

Há cem anos nascia, em Parnaíba, no Piauí, o autor desses versos: Jonas da Silva. Exatamente no dia 17 de dezembro de 1880, três anos depois que a primeira e avassaladora seca castigou o Nordeste brasileiro. Fez parte de uma geração que elegeu o "rijo mármore do verso" como uma verdadeira bandeira literária e que, por incrível que pareça, tem ainda hoje uma enorme plateia entre estudantes principalmente.

Jornal A Crítica, 17 dezembro 1980

Escolheu Manaus multo cedo, como o centro dessa atividade intelectual que o situou como dos primeiros, entre seus pares de escola: Olavo Bilac, B. Lopes, Medeiros e Albuquerque, Alberto Oliveira e outros estilistas do parnaso. Fez parte da Academia de Letras do Amazonas e do Piauí. Fundou o cine teatro Politeama, que abrigou a sociedade amazonense e hoje está reduzido a linearidade de uma arquitetura de supermercado, ali, no cruzamento das avenidas Getúlio Vargas e Sete de Setembro.

Um poeta do Piauí com destino amazonense, inclusive no esquecimento de todas essas gerações que o sucederam, sem o mesmo brilho e mimo. Gerações que aprenderam a esquecer. Gerações sem escolas. Os livros de Jonas da Silva não foram reeditados, e raras bibliotecas (bibliotecas são sempre raras em Manaus) particulares mantém-no vivo, com a linguagem do seu verso esmerilado.
Jonas da Silva fez os estudos preparatórios no Ginásio Amazonense, que foi Colégio Estadual recentemente.

Mas, formou-se em Odontologia, aos 19 anos, no Rio de Janeiro, onde fez sua estreia literária com a publicação do Amphoras, que recebeu o prefácio entusiasmado de B. Lopes, o consagrado autor de Brasões, uma espécie de guru desta escola poética.
Tinha 20 anos, Jonas da Silva, quando de sua estrela em livro. B. Lopes não poupou elogios: “Terei mesmo a ousadia de dizer que você procura   para dourar os seus sonetos a mesma pampilha usada nos meus”. Mas, logo reconheceria a individualidade de Jonas: “Todavia, irrompe dos seus brunidos e cariciosos sonetos um halo de ouro lanceolado como um símbolo de força, de galanteria e de conquista”. E o entusiasmo de B. Lopes não para nesse reconhecimento.
Ele quer ser sincero com o jovem Jonas: “Para que fique na minha memória um verso, é preciso que esse verso me agrade e eu tenho alguns dos seus”, por exemplo: Que os passarinhos, quando a moça canta / Voam cantando pela casa a dentro. Ou, “As cimitarras trêmulas dos braços.” Tinha boa memória B. Lopes em se tratando de um poeta que estreava num circuito de extremo rigor pelo verso.

Jonas da Silva casou três vezes. Do primeiro casamento com D. Maria Balbi Carreira, nasceram-lhe o Dr. Alberto Carreira da Silva, ex-diretor da Saúde Pública; e um dos maiores sanitaristas do Brasil; Jandira, que foi casada com o comerciante Joaquim Amorim Junior, e Sulamita, falecida, que foi casada com o Dr. Deoclydes de Carvalho Leal. Do segundo casamento com Joana Facundo do Valle, não teve filhos. Casou-se em terceiras núpcias com D. Marina Ortiz, havendo duas filhas gêmeas, Jandira e Julieta, que hoje vivem no Rio de Janeiro.  
O poeta publicou o segundo livro em 1904, com o título Ulhanos, e o seu terceiro livro, Czardas, foi editado em 1922 (sic), quando já começavam a repercutir as rebeldias do que foi consagrado chamar de Modernismo Brasileiro. Respeitado e aplaudido desde o seu primeiro livro por Olavo Bilac, Jonas da Silva morreu em Manaus a 6 de junho de 1947.
Em sua obra é farta a referencia à sua filha Sulamita (que às vezes chamava Sulá), como é fácil reconhecê-la no poema Granadeiros de chumbo do seu primeiro livro, que a memoria da família guarda como se fora a sua musa.
Em Manaus, o centenário de seu nascimento não tem a homenagem que ele mereceu e merece, mas, que parecia adivinhar quando escreveu, para a memória fértil de B. Lopes:

Antes ficasse eternamente mudo.
Antes ficasse eternamente cego.

21 de maio de 2012

Nova Igreja Batista

Prepare-se para mais um show de fantoches. Traga seus amigos e sua família para assistir ao espetáculo – O Aprisco: o preço de um resgate. O evento ocorre no próximo final de semana – 26 de 27 de maio, no auditório da Nova Igreja Batista. Entrada franca.

Local – Nova Igreja Batista

Endereço – avenida Torquato Tapajós (próximo ao viaduto da Cidade Nova)

Horários – Sábado (26.05) às 19h30
                   Domingo (27.05) às 17h e as 19h30

Mais detalhes – www.nib.org.br

Não perca!

Cartaz do empreendimento da Nova Igreja Batista

19 de maio de 2012

Mudança de nome de ruas


Mário Ypiranga
Reproduzo artigo muito oportuno do escritor Mario Ypiranga Monteiro (1909-94), no qual, este clamava contra a identificação de nossos logradouros. Nele, recriminava as distintas maneiras utilizadas para a designação de nossos caminhos. Ao tempo, lembrava o articulista, recorriam-se aos santos. Agora, não é novidade, aos políticos de plantão e suas árvores genealógicas. Tanto os ascendentes quanto os descendentes servem para “proteger” os espaços alcançados e dominados.

Lastimoso que as palavras do finado Mário Ypiranga tenham sido lançadas ao vento: em nossos dias, o administrador e outros “puxas” embirram para que seu venerável nome substitua a designação da secular rua Recife, assim como, Calderaro em substituição a rua Paraíba, quando se sabe que cada uma dessas “existe de segres”.



Caveira de Burro

Jornal do Commercio, 15 de junho de 1975

Para quem como eu familiarizou-se com a história pitoresca das ruas de Manaus (Roteiro Histórico de Manaus, 1969), a alusão e a crítica a certas incongruências não mais admira.
Certa feita um matutino trouxe observação oportuna do edil Damião Ribeiro à anarquia reinante na nomenclatura de certas ruas. O fato não é novo, certamente, mas acreditamos que depois de 1930 para cá a confusão se generalizou de tal maneira que ruas de Manaus existem de que não mais se sabe o nome real, à carência de placas elucidativas. As placas modernas sempre foram um problema pela estupidez com que foram organizadas, sem histórico.

Por exemplo, aquele vereador fazia referência às ruas, trechos da de Belém (rua de Marciano Armond); de Leonardo Malcher (de Governador Bacelar); beco da Paciência (rua Universal); bairro da Raiz (de Santo Agostinho); rua de Nhamundá  (de Barbosa Rodrigues) e rua de Japurá (do Professor Rayol).
Ponte Cônego Plácido, que liga Educandos ao centro
O mau vezo de dar-se nome de santos (às vezes cassados) a ruas e bairros é um fenômeno psicológico que foge a nossa preocupação, mas ao mesmo que os diabólicos promotores de transferências de nomes respeitassem a tradição avoenga, quando ela existe de segres. O bairro dos Tocos, onde nasci, foi idiotamente denominado de Aparecida quando com um pouquinho de senso, respeitando a religião, poderia ficar Nossa Senhora Aparecida dos Tocos, a exemplo da Nossa Senhora do Ó (Portugal), Nossa Senhora de Copacabana ou São José de Apipucos, onde reside o meu excelente amigo Gilberto Freyre, e quejandas toponimais. Respeitava-se a tradição e reverenciava-se o patrono ou matavam-se dois coelhos com uma porrada.

Assim, Santo Agostinho da Raiz (ah! o velho igarapé da Raiz onde tomei muito banho) ficaria tão bom como São Geraldo dos Bilhares, sem que ninguém viesse a especular se São Geraldo era dado às caraboias (sic) ou o venerável Santo Agostinho, a quem sempre leio e admiro pela coragem de confessar-se publicamente, tivesse tomado algum banho no local ou tomado chá-de-raiz.

Me assustam esses criadores de situações novas e difíceis para a história da cidade. A bagunça é tal para os lados da Prefeitura e tal a carência de espírito nacionalista, que até estrangeiros a quem nada devemos e que nem sabem se Manaus existe, frequentam a onomástica urbana numa concorrência aos bons filhos da terra ou a brasileiros outros que aqui pelejaram e a quem se vem cometendo injustiças clamorosas com o esquecimento. Cândido é quem chamou de Kennedy e Roosevelt a rua e praça da cidade, apunhalando pelas costas a história nossa.

Quando é que se vai colocar um paradeiro a esse quadro negativo? Quando é que vai aparecer alguém que tome a pelo endireitar essa casa de Orates? Das plantas de Manaus então nem se fala! É aquela garapa! Nomes adulterados, nomes incompletos, nomes ilegíveis, nomes em duplicata, triplicata, quadriplicata, um inferno para o historiador, para o serviço postal, para todo mundo.        

Outro dia houve um desaguisado a respeito do nome a ser dado à ponte nova sobre o igarapé da Cachoeirinha de Manaus, mais conhecido por igarapé dos Educandos. Concorrentes póstumos foram o Cônego Plácido, o meu bom e querido amigo Cônego Plácido, amazonense que dizia haver dinamizado o bairro de Constantinópolis, embora em prejuízo da memória do Dr. Jacques de Sousa Lima, o verdadeiro dinamizador daquele trecho com João Brígido; e o meu caro companheiro de escotismo Ramayana de Chevalier.

Candidatos fortes e bem apadrinhados, não há que ver, e todos merecedores de homenagem dessa natureza. Mas parece que os padrinhos se esqueceram de duas coisas: primeiro que existe na Prefeitura de Manaus um projeto muito antigo para a construção daquela ponte, como também para a ponte sobre o igarapé do Teiu, dito de São Raimundo Nonato; segundo, há uma lei federal não revogada, proibindo em todo o território nacional duplicidade de nomenclaturas, toponímias de caráter público.

Se a coisa for pra-valer, o falecido Rama [Ramayana de Chevalier] perderá, pois já foi contemplado em vida com uma rua. E se a nossa colenda Câmara levar a sério o trabalho de revisão dos nomes de ruas, praças, jardins etc., seu Getúlio [Vargas] e outros nababos vão ficar no singular, dando a vez para a memorização de gente a quem o Amazonas deve e muito.
Isto porque em Manaus o que mais ocorre é essa indisciplina. Apesar de que me estafei para escrever a histórias das ruas e demais logradouros blicos desta minha leal cidade, não há uma simpatia pela ordem neste sujeito.
Rua Paraíba, 1970, em direção ao Parque Dez
Qualquer cidadão dá nome a um beco, um bairro nascente, sem que a Câmara se ajuíze da irregularidade, quando essa confunde com a cumplicidade. Às vezes, nomes ridículos, fesceninos, ou cheirando a novelas, como é o caso do Coroado.
Quando é que se pretende acabar com essa anarquia? Bairro Alvorada existem dois! Mas eu creio que o pior problema é o da avenida de Constantino Nery. Na realidade não deveria existir nem este nem o nome João Coelho. A avenida, estrada antigamente, de Epaminondas, para homenagear aquele presidente dinâmico que a mandou rasgar até para além de Flores, isto é, naquele tempo até o bairro da Cachoeira Grande, chamado também de Flores. Esclarecemos que já existe uma homenagem a Constantino Nery, em Constantinópolis, embora este houvesse mandado ampliar a estrada de Epaminondas.
Avenida Constantino Nery, em 1970 (acima) e 2003.


O fato mais ridículo que se conhece e que diz respeito à carência de cultura de certos administradores aconteceu no governo Arthur Reis [1964-67]: ele exigiu que algumas ruas dos bairros de São Francisco-Petrópolis recebessem nomes de presidentes da província. Foi o suficiente para que a colônia dos “puxas” destrambelhasse e andasse catando nomes aí, atordoada e inepta. O resultado é que um cidadão cujo nome completo já estava honrado, aparece noutra rua com a abreviatura! Duas ruas com um mesmo nome porque o raio do pesquisador não dava às gatas, sem saber como descascar o abacaxi.

E as plantas de Manaus? A melhorzinha dos últimos anos é a traçada pelo meu mano, Dr. Aluizio Brasil, não fosse prejudicada pela má leitura de certas ruas. A última, que se apregoa trabalho aerofotogramétrico deixa muito a desejar. E a coisa não para, não se resolve nada, enquanto muito se fala em projetos de urbanismo, alguns tão velhos que caducaram pela novidade.

Prega-se a urbanização da cidade e todos os dias registro o vandalismo da canalha contra a paisagem, o fogo devorando árvores de sombras e até de frutos. Não há uma lei proibitiva do corte de árvores! Mete-se o machado à revelia e vem falar-se patrioticamente em Dia da Árvore!

Todos os dias surgem cochichos, numa proliferação de cogumelos. Aem frente do Palácio Rio Negro! Ameaça à saúde pública, ameaça aos nossos foros de civilizados. O historiador que cuida do processo histórico da cidade, vê, anota e arquiva.
Manaus cresce em sentido vertical, mas as plantas residenciais continuam naquele asfixiante três por três; a vidraçaria continua sendo implantada por arquitetos que só entendem de arquitetura e não de climatologia;
trágico desafio ao prolongamento da
existência numa cidade chantada em área de baixa pressão, escassas possibilidades de ventilação, forno do futuro. Os flutuantes começam de aparecer nos igarapés centrais numa imitação suburrana.

Amanhã, quando a história ocupar-se desses maus administradores, aparecerá quem se insurja, esquecidos eles de que os homens públicos devem satisfações ao presente e que seus atos serão julgados pela posteridade.

Nota: agradeço ao colecionador Ed Lincon a cessão deste recorte.