CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

31 de outubro de 2010

Memorial Amazonense XXXVII

Em 31 de outubro de 1954, na Catedral de Manaus, Dom Alberto Ramos ordenou o padre Luiz Augusto de Lima Ruas.

Jornal Em Tempo. Manaus, 12 nov. 2004


Padre Ruas iniciou a função sacerdotal no bairro de São Jorge, que se implantava na cidade. Sem local próprio para a celebração, o novo vigário celebrava missas e outras atividades religiosas em residências de paroquianos. É considerado o primeiro pároco de São Jorge. Também exerceu o ministério sacerdotal nas paróquias de Educandos, Colônia Oliveira Machado, dos Remédios, onde se despediu da atividade religiosa, Sagrado Coração de Jesus, na rua Ferreira Pena, e Nossa Senhora das Dores, na Redenção.


L. Ruas, como assinava, se destacou em várias atividades, em especial nas artes da prosa e do verso. Para melhor lembrá-lo, transcrevo um poema publicado em O Jornal, 26 nov. 1961.
Morreu em 1º de abril de 2000.


l. ruas

a picasso de 1935 a 1946

esta face é irreal
esta face real.
impossível ver as coisas
com olhar horizontal

as linhas se prostituem
muito aquém do objetivo.
e os olhos mal redescobrem
o real tão irreal.

é preciso refazer
esta face ambiguidade
e revelar sem cautela
a nova face total.

olho-fronte
olho-lábio
olho-mão
e coração.

é vão supor ver além
deste ângulo visual
e gerar na tinta o signo
do teu querer paralítico.

cem olhos seriam poucos:
apenas tangenciariam
a carapaça do ser
apenas confundiriam
inda mais a dança frouxa
e alucinada das linhas
que ocultam rosas e crimes.

quanto mais o olhar deslocas
para o queixo
para a testa
para o ventre
mais se envolve o ser-largata
em seu casulo – em ti mesmo
e se conspurca nas cores.

e é parvo teu dom. apenas:
angústia-de-ver cativa
do cárcere-superfície
das linhas limitativas.