CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

Mostrando postagens com marcador Adolpho Lisboa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adolpho Lisboa. Mostrar todas as postagens

terça-feira, junho 23, 2026

CICLOS DA BORRACHA

 

Renato Mendonça - 07.08.2019

 

Tento contar o que os livros de História do Brasil omitem, talvez por desinteresse ou o preconceito antigo de que o Amazonas era apenas uma terra de índios, sem tradição histórica. Os escritores regionais também não acordaram cedo para recolher o látex e o sernambi, a fim de narrar a epopeia de tantos ingênuos nativos e bravos sertanejos que pereceram e contribuíram com sua cota de sacrifício para o desenvolvimento da Região Norte do Brasil.

Placa existente no interior do mercado, ocasião em 
que tomou a denominação de Adolpho Lisboa.

Além da omissão nos livros didáticos, havia também uma visão centralista que privilegiava os acontecimentos do eixo Rio-São Paulo. Isso fez com que essa epopeia amazônica fosse relegada a notas de rodapé dos jornais, quando na verdade fortaleceu a economia nacional, além de representar um dos maiores movimentos migratórios internos do Brasil no século XIX.

Manaus era um lugar esquecido, longe dos grandes centros urbanos brasileiros, até que a indústria europeia e a americana passaram a necessitar do látex extraído das seringueiras, plantadas pelas mãos da natureza em toda a Amazônia. Entre os períodos de 1879 até 1920, a Região Norte brasileira viveria o seu apogeu de desenvolvimento; Manaus conheceria seu melhor momento urbanístico, e o Brasil experimentaria um de seus grandes ciclos econômicos, o Primeiro Ciclo da Borracha.

Naquela época, o mundo voltou-se para a Amazônia que, abençoadamente, possuía abundância de seringais nativos, por isso passariam a ser incansavelmente explorados por seringalistas para fornecer o insumo para a fabricação de borracha. Com o sonho de enriquecer, milhares de imigrantes brasileiros e estrangeiros instalaram-se nesses seringais. A mão de obra nacional era composta principalmente de nordestinos que fugiam das secas de suas terras.

Trabalhadores estrangeiros, entre eles portugueses, ingleses, espanhóis, italianos, alemães, americanos, gregos, sírios, japoneses e libaneses, também integravam a cadeia produtiva da borracha e faziam o intercâmbio econômico entre Manaus, os seringais e os grandes centros industriais da Europa e dos Estados Unidos. A presença desses imigrantes criou uma atmosfera multicultural única. O Estado tornou-se um ponto de encontro de línguas, religiões e tradições, ainda que essa diversidade fosse mais visível na capital do que nos seringais, onde predominava a exploração.

Manaus era um dos centros de todo esse processo, uma boa parcela dos seus habitantes tornava-se muito rica, surgindo assim os barões da borracha. A economia do Estado investiu em imponentes construções e num projeto ousado de urbanização.

As construções erguidas no auge da borracha permanecem como testemunhos de um tempo em que Manaus rivalizava em modernidade com capitais europeias. O Teatro Amazonas, o Mercado Adolpho Lisboa, o Palácio da Justiça são símbolos de uma cidade que ousou sonhar grande, mesmo cercada pela floresta.

A inauguração do Mercado Municipal Adolpho Lisboa aconteceu em 1883. Edificado com pavilhões em estilo Art Nouveau, suas peças pré-fabricadas foram importadas da Europa; em 1896, ocorreu a inauguração do imponente e suntuoso Teatro Amazonas, que por duas décadas recebeu óperas, orquestras e grandes artistas internacionais e por pouco não teve o compositor de “O Guarani”, Carlos Gomes, para abrilhantar a inauguração, este morreu meses antes, em 16 de setembro, quando já havia se comprometido para o evento. O Palácio da Justiça foi inaugurado no fechamento do século, em 1900. Nove anos depois, o Prédio da Alfândega, com blocos e peças importadas da Inglaterra, teve concluída sua edificação. 

O Tesouro Estadual vivia acentuado aumento de arrecadação e Manaus transformou-se num verdadeiro canteiro de obras. Uma das primeiras cidades a serem urbanizadas no país, uma das primeiras a possuir energia elétrica, possibilitando substituir os bondes puxados por animais pelos elétricos. Ao receber novo traçado urbanístico, foram abertas praças, ruas e avenidas; executados aterros, escavações e construídas magníficas pontes, duas delas em estrutura metálica, com material importado da Europa. As construções erguidas no auge da borracha permanecem como testemunhos de um tempo em que Manaus rivalizava em modernidade com capitais europeias. No período em que praticamente todas as grandes cidades brasileiras viviam quase de modo rural, ali já existia luz elétrica, redes de água encanada e esgotos. O porto móvel (Roadway) e os bondes elétricos a tornavam verdadeiramente cosmopolita, apelidada de ‘Paris dos Trópicos’.

Era comum os filhos das abastadas famílias emigrarem para estudar nas melhores universidades europeias, embora já existissem cursos de nível superior. A Escola Universitária Livre de Manáos, depois Universidade de Manáos, hoje Universidade Federal do Amazonas, foi criada em 17 de janeiro de 1909, sendo assim a primeira universidade brasileira.

Para se ter uma ideia da explosão demográfica de Manaus, em 1849 a cidade tinha aproximadamente 25 mil habitantes, em meio século esse número subiu para 70 mil. Como comparação, em 1900 a cidade de São Paulo possuía cerca de 240 mil habitantes. Além do provimento do látex, também contribuiu para o desenvolvimento da cidade não existirem meios de transportes aéreos na época, sendo a navegação, o único transporte intercontinental. Geograficamente favorável, Manaus ficava mais próxima dos grandes centros da Europa e Estados Unidos do que o Rio de Janeiro e São Paulo.

O Segundo Ciclo da Borracha aconteceu no período correspondente à Segunda Guerra Mundial, quando os seringais malaios — plantados com sementes contrabandeadas da Amazônia — foram interditados pelas forças japonesas no Pacífico e o governo americano, impedido de receber o insumo para a fabricação de borracha, incentivou novamente a produção de látex no Brasil, particularmente pelo Amazonas.

O grande desafio do governo brasileiro foi aumentar a produção de 18 mil para até 70 mil toneladas. Para atender a essa demanda, necessitava da mão de obra de mais de 100 mil homens. Estabeleceu-se o que foi denominado de "Soldados da Borracha", com recrutamento de voluntários que receberam a promessa de serem tratados no mesmo nível dos combatentes que integravam as forças brasileiras na Europa. Foi recebido um contingente de aproximadamente 55 mil peões de todos os cantos do país e, como sempre, uma expressiva soma de voluntários do Nordeste, particularmente do Ceará.

Quase todos esses voluntários jamais retornaram à sua terra natal, enquanto o Amazonas voltou a experimentar uma sutil sensação de pujança e riqueza. A maioria morreu de doenças como a malária ou pela violência da selva. Sem nenhum treinamento, recebiam apenas os itens básicos para o trabalho: uma calça de mescla azul, uma camisa branca de morim, um chapéu de palha, um par de alpercatas, uma mochila, um prato fundo, um talher, uma caneca de folha de flandres, uma rede e um maço de cigarros. Muitos desses homens foram enganados por promessas nunca cumpridas. Diferente dos pracinhas que lutaram na Itália, os soldados da borracha não receberam pensões ou reconhecimento oficial por décadas. Só muito tardiamente, no governo progressista de Dilma Rousseff, o Brasil começou a reparar, ainda que de forma tímida, essa dívida histórica, atendendo à Emenda Constitucional 78/2014, que estabeleceu o pagamento de uma indenização e pensão vitalícia.

 Muitos sobreviventes ficaram na Amazônia, por não terem dinheiro para pagar a viagem de volta ou estavam endividados com os donos de seringais. E muitos deles foram mortos pelos capangas dos barões da borracha, naquelas terras sem lei, sem nenhum sentido humano.

Apesar do sofrimento, a cidade voltou a sorrir, experimentou uma breve sensação de prosperidade e a economia regional revigorou-se. Mas, o período foi curto, apenas para atender os interesses americanos. A cidade caiu novamente no ostracismo até o surgimento da Zona Franca de Manaus em 1967, que trouxe indústrias e fragmentou a cidade em novos polos de desenvolvimento.

 


sexta-feira, outubro 31, 2025

MERCADO "ADOLPHO LISBOA"

 Estava concluindo o trabalho intitulado - Administração do Coronel Lisboa, quando o amigo-jornalista Marcos Santos efetuou comigo uma longa entrevista, capaz de preencher uma página do matutino Amazonas em Tempo. O papo aconteceu há exatos 20 anos, ou seja, dia 31 de outubro de 2005.


Recortes do jornal Amazonas em Tempo, 31 outubro 2005

quarta-feira, fevereiro 26, 2025

VILA ALCIDA OU CASTELINHO – ADRIANÓPOLIS.

Perdura uma intransigente confusão sobre a identificação, com a maioria optando por atribuir à residência do ex-prefeito Adolpho Lisboa (1904-07), construída na rua São Luís, na época Vila Municipal, o nome da esposa do alcaide. Originalmente batizada de Vila Alcida, ora Castelinho, era o nome da única filha do casal Adolpho e Laura Leduc. Quando escrevi sobre este personagem – Administração do coronel Lisboa (Manaus: Manaus: Grafisa, 2008) procurei com afinco elucidar a construção deste imóvel, certamente doado pelo fabricante italiano, interessado em vender o produto no bairro elegante da Manaus tropical. Fui adiante. Para entender a transmissão da posse, visitei o cartório responsável pelos registros. Esta postagem elenca alguns destes dispositivos, sabendo-se que o Castelinho ora integra o grupo Top Internacional. Para melhor entendimento, esclareço que Adolpho Lisboa deixou a Prefeitura em 1907, transferindo-se para Belém do Pará, onde faleceu.

O lote era imenso (5.550m2 ou 222mx250m), uma escritura informa que a frente se posicionava na rua São Luís, como a conhecemos, estendendo-se até à rua Maceió. Porém, há outra, registrando que o mesmo se situava na rua Teresina. Certo mesmo é que foi encolhendo com o descaso de proprietários e o “loteamento” pelas vendas subsequentes. Hoje está resumido ao terreno do Castelinho.

 

 

Vila Alcida, hoje Castelinho

REGISTRO DE IMÓVEL

VILA ALCIDA, de Adolpho Lisboa

1.                        Escritura de retificação – 10 de janeiro de 1909

No 2.323, fls. 158 

2.                        Escritura de 1º de junho de 1910

         Nº 3.294 - 09 de junho de 1910

Vila Municipal Rua Teresina – lote de terras – 5.550m2 (222mx250m)

Proprietários: Dr. João Miguel Ribas e sua mulher Amélia Cardoso Ribas vendem para d. Luiza de Albuquerque Quadros, residente em Manaus. Valor – R$ 3.330$000 (três contos, trezentos e trinta mil réis).

          Escritura nº 3.300 – 16.06.1910 - Livro 3/B fls. 219

Vila Municipal – Rua Teresina

Um terreno sito a Vila Municipal, nesta cidade, medindo uma área de 5.550m2, limítrofe ao Norte com a rua Teresina, a Leste e Sul com terras do patrimônio municipal, e a Oeste com a rua Maceió.

Adquirente – Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa, residente em Belém (PA).

Transmitentes – dr. Nemezio do Rego Quadros e sua mulher d. Luiza de Albuquerque Quadros, residentes no Rio de Janeiro.

Título – Venda e compra

Escritura de 8 de junho de 1910 – Tabelião Barroso

Valor – R$ 5:000$000 [cinco contos de réis]   

4.               Escritura nº 25.230 - Livro 3.0                       

Adquirido pelo (coronel GN) Auton Furtado à Prefeitura de Manaus através da Escritura de 08 de janeiro de 1964, expedida pelo 3º Ofício, por aforamento de 1963.

Título de aforamento concedido em 1960, assinado pelo prefeito de Manaus Olavo das Neves de Oliveira Melo (1959-60). 

5.               Família Auton Furtado transmitiu para Carlo Biaggi

Vila Alcida, antigo Palacete Lisboa

Rua São Luís, 101 - Adrianópolis

Terreno de 1.864,00m2

sábado, janeiro 25, 2025

CONGRAÇAMENTO DOS NERY (1906)

Constantino Nery estava na metade de seu governo (1904-08), quando subsidiou na sede do governo (que ainda não se encontrava no Palácio Rio Negro) um banquete com os principais membros do Partido Republicano para homenagear o senador Silvério Nery, seu irmão e antecessor no Executivo.
Silverio Nery

O objetivo era ouvir a palavra do senador sobre a Questão do Acre, que se consolidara durante seu governo (1900-04), portanto, muito interessava ao Amazonas.
A postagem foi recolhida do jornal Amazonas (de 23 março 1906), pertencente ao Partido, pelo visto, compareceu a “nata da sociedade” dirigente, como diria o colunista contemporâneo.

  

Recorte do diário Amazonas, 23 mar. 1906

 

Realizou-se, ontem, em Palácio, o banquete político oferecido pelo dr. Constantino Nery, digno governador do Estado, ao nosso preclaro chefe, senador Silvério Nery.

O banquete começou às 7:30h da noite, sentando-se no lugar de honra o senador Silvério Nery, a quem foi dedicado o ágape, e à direita dele os coronéis Antonio Bittencourt, vice-governador do Estado, Hidelbrando Antony, secretário do Congresso, Raphael Machado, Cordeiro Junior e Públio Bittencourt, deputados; dr. Arthur Araújo, superintendente da Viação, e Carlos Figueredo; e à esquerda, drs. Sá Antunes, secretário de Estado, Victor de Souza, Alvares Pereira, major Raul de Azevedo, dr. Pedro Botelho, coronel José Gonçalves Dias, deputados, e dr. Ignacio Moerberch.

Em frente ao senador sentou-se o dr. Constantino Nery, governador do Estado, tendo à sua direita os dr. Jorge de Moraes, deputado federal, coronel Emídio Pinheiro, comandante do Regimento do Estado, drs. Paes de Andrade, inspetor do Tesouro, Porfirio Nogueira, Coriolano de Carvalho, diretor das Obras Públicas, e major Júlio Nogueira, diretor da Escola Normal; e à esquerda, coronel Ferreira Pena, desembargador Assumpção de Menezes, chefe de Segurança Pública, coronel Adolpho Lisboa, superintendente municipal, general Jacques Ourique, coronel João Batista de Faria e Souza, administrador  da Recebedoria, dr. Epaminondas de Albuquerque, procurador fiscal da Fazenda. Nas extremidades da mesa sentaram-se os drs. José Gayoso, diretor-geral da Instrução Pública e representante desta Folha, e Luiz Barreiros, diretor do Diário Oficial.

Justificaram suas não comparência ao banquete o desembargador presidente do Superior Tribunal de Justiça, o diretor do Serviço Sanitário e o diretor do Ginásio Amazonense.

(...) Em seguida, o ilustre senador Silvério Nery usou da palavra, pronunciando este brinde:

Sr. Governador, meus Senhores:

A benevolência de V. Exas. e a extrema gentileza dos meus amigos cativam-me sobremaneira com esta brilhante festa em que vejo representado aquilo que o nosso Partido tem de mais distinto e mais seleto: o chefe do Poder Executivo, membros do Poder Legislativo, chefes do serviço público, a imprensa, o comércio, as finanças.

Sinto-me feliz e satisfeito no meio de todos vós, senhores.

Feliz, porque vindo de longe, desde a primeira praça, a trabalhar nesta agitada política pelo progredir do Amazonas, conquistando pouco a pouco os acessos, cheguei à posição imerecida de comandar um partido forte e disciplinado; satisfeito, porque se me oferece oportunidade para dizer o que pensa e o que quer o Partido Republicano Federal do Amazonas, relativamente ao Acre.

 

E seguiu descrevendo aos comensais sua luta pelo direito do Amazonas ao território do Acre, sua luta por uma indenização que, não obstante o empenho do notável advogado Rui Barbosa pelo Amazonas, esta somente foi creditada décadas depois.

domingo, abril 28, 2024

INSTITUTO VACINOGÊNICO: MANAUS 1906

A postagem reproduz a notícia sobre a inauguração do escudo municipal no futuro Instituto Vacinogênico (destinado à produção de vacinas e à própria vacinação como forma de combater doenças infecciosas), instituição sanitária muito em voga no início do século 19. Não há notícia de quanto durou este estabelecimento, e até se funcionou. O prefeito Adolpho Lisboa, também comandante da Polícia Militar estadual, por demais esquisito, não compareceu, apesar de que haveria uma solenidade na Vila Operária com seu nome, construída no hoje bairro de Aparecida.

Brasão do município de Manaus

Há outras citações sobre o personagem – Victor Derbés, cônsul francês na cidade, e construtor da Vila Operária. Registros que permitem assegurar que obteve boa acolhida do governante municipal, tanto que, além do empreendimento no citado bairro, recebeu da municipalidade um lote de terras no bairro de Constantinópolis (hoje Educandos) para a construção de vila operária semelhante. 

Notícia circulada no Jornal do Commercio, 
22 novembro 1906

Realizaram-se ontem, às 7 ¹/² horas da manhã, as cerimônias de que demos notícia, inaugurando-se o escudo municipal na fachada do edifício em que vai ser instalado o Instituto Vacinogênico desta cidade, e, sendo em seguida, colocada a primeira pedra do sexto grupo da “Vila Operária Adolpho Lisboa”, no Plano Inclinado. O ato foi presidido pelo dr. Thaumaturgo Vaz, secretário do Município e representante do exmo. sr. coronel Adolpho Lisboa, digno superintendente desta capital.

Da solenidade da colocação da pedra, lavrou-se a competente ata, que foi assinada por todos os presentes. No cofre depositado sob a referida pedra foram encerrados os exemplares dos jornais do dia e diversas moedas brasileiras, francesas, chilenas e argentinas. Falou, por essa ocasião, o dr. Thaumaturgo Vaz, o qual, em nome do coronel Superintendente de Manaus, disse que sua exa. sentia-se feliz pelo auspicioso acontecimento que marcava um grande melhoramento à cidade, para o engrandecimento da qual não poupava esforços, trabalhando sem cessar no sentido de rodear os seus munícipes de todos os benefícios e confortos.

Estiveram presentes na bela festa, entre avultado número de pessoas, cujos nomes não nos foi possível reter, os dr. Thaumaturgo Vaz, representando o sr. coronel Adolpho Lisboa; dr. João Carlos Antony, chefe da seção de Obras da Municipalidade; dr. Theogenes Beltrão, chefe do Serviço Sanitário do Município; coronel Avelino Rodrigues, diretor-geral da Secretaria Municipal; cônsul francês, mr. Victor Derbés, construtor da “Vila Operária”, e tenente-coronel [Guarda Nacional] Henrique Rubim, pelo JORNAL [do Commercio].

Mr. Victor Derbés ofereceu aos convidados um Iunch, bebendo, por essa ocasião, o sr. cônsul francês pela felicidade do ilustre superintendente Adolpho Lisboa, de quem disse ser amigo dos seus compatriotas e grande auxiliador dos estrangeiros que aqui vêm trabalhar. Esse brinde foi correspondido pelo representante de s. exa. que em frases eloquentes agradeceu as lisonjeiras palavras do sr. cônsul, saudando, por sua vez, em nome do município de Manaus e de seu superintendente, à Pátria Francesa.

sexta-feira, março 22, 2024

ARQUIVO HISTÓRICO DA PM AMAZONAS

 

Nova compilação de arquivos da Polícia Militar amazonense, datados de 1901 e 1903, quando no comando do coronel Adolpho Lisboa, e era intitulada de Regimento Militar do Estado, pujança que a “era da borracha” permitia. O texto (foto) aposto com esmero e ótima caligrafia pertence ao próprio comandante, que fora sargento auxiliar da administração.
Este material e tantos outros (livro 12) acham-se no Arquivo Histórico da corporação, ora “agregado” ao Centro Cultural Palacete Provincial.
 

Transcrição abaixo

Termo de encerramento

Em vista de achar-se a escrituração da presente folha, feita com incorreções, como sejam: falta de alterações e absoluta falta de asseio, sendo aquela falta originada por incorreções na escrituração das escalas de alterações dos oficiais do estado maior do Regimento, relativas aos meses de janeiro e fevereiro do ano corrente, fica encerrada a presente escrituração e aberta à folha dezessete verso e dezoito, conforme determinou a Ordem do Dia número duzentos e setenta e quatro de agosto corrente.

Secretaria do Regimento Militar do Estado, Manaus, 8 de agosto de 1903

Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa

Comandante

Recorte da capa do livro para Registro dos Oficiais nº 12


quinta-feira, março 18, 2021

CAPITÃO ADOLPHO LISBOA

Robério Braga, presidente da Academia Amazonense de Letras, em sua coluna dominical - CRÔNICAS DE DOMINGO, publicou o seguinte relato sobre Adolpho Lisboa, aqui compartilhado. Sou grato ao festejado cronista pela citação ao meu trabalho, que restou consolidado em Administração do coronel Lisboa (Manaus: Edições Muiraquitã, 2008), prêmio literário Cidade de Manaus.

 

A Crítica, 13 e 14 março 2021

Nos tempos idos da "belle époque" amazonense, andou por Manaus e adjacências um capitão do Exército que fez história, foi notícia, governo, chefe militar e autor de muita "danação", conforme contavam os antigos em termos comedidos, mas que, sem espanto, asseguravam ter sido tudo verdadeiro. 

Já chegou para comandar e, por isso, foi logo nomeado superintendente municipal ou prefeito da capital, por obra, graça, cortesia e, quem sabe, conluio com o poderoso governador Silvério José Nery. Sem sombra de dúvidas, entretanto, foi o responsável por audacioso plano de melhoramentos urbanos e suburbanos da cidade, incluindo as sofisticação do cemitério São João Baptista com sua entrada triunfal e sua capela gótica, a abertura do bairro do Mocó que se transformou em Vila Municipal, a ampliação do Mercado Público e seus contratos inexplicáveis, as novas ruas da Praça da Matriz e da Praça Tamandaré, mas, como registra mestre Agnello Bittencourt, jamais prestou contas de todos os recursos recebidos, salvo em relatórios que não demonstravam a forma de aplicação do dinheiro.

Na desapropriação do bairro do Mocó, por exemplo, ficou com ele o melhor lote, precisamente onde mandou construir um palacete, em forma de chalé, a que chamou de "Dona Zulmira", o conhecido castelinho da vila e cuja área externa, originalmente, era correspondente a muitos lotes reunidos; em terreno que comprou pouco antes dos melhoramentos urbanos que mandou fazer a na Rua da Matriz com Enrique Martins, construiu um prédio de dois andares; na Praça Tamandaré, teria se apropriado de um terreno municipal, de tal forma aberrante, a que teve briga judicial para excluí-lo de seu inventário após sua morte.

Como se não bastasse, foi por duas vezes comandante do Batalhão da Polícia Militar, rigoroso na aplicação das penas disciplinares, inclusive com constrangimentos físicos. Esbanjador de moedas de ouro e prata quando estava em Paris, principalmente não se continha em furor quando lhe pediam gorjetas, e talvez para vingar-se do pedido que deveria considerar ofensa, sacava do colete as moedinhas especiais e costumava jogar no chão para que o trabalhador apanhasse como se fosse mendigo.  

Mas era um festeiro, tanto assim que fez organizar e financiou com recursos municipais o mais importante carnaval de rua de Manaus até então conhecido, levado a efeito em 1902, para o qual fez questão de importar da Europa alguns carros alegóricos sofisticados e muitas fantasias. Estranho, entretanto, foi que, mesmo naquela hora de

alegria e festa, se manteve recolhido observando à distância o movimento que lotava a principal avenida da cidade, e os festejos que marcaram época. Não "se misturou" com o povo nem para experimentar as alegrias do Rei Momo.

O que ficou de sua passagem temporária na vida social, militar e política amazonense bem que poderia ser objeto de estudo mais apurado, seja por meio de uma revisão nos jornais de governo e de oposição que ocupavam o cotidiano dos cidadãos dos idos de 1900-1907, seja em obra do coronel Roberto Mendonça que resgatou em boas fontes grande parte da trajetória desse famoso capitão, para que não fiquemos somente com a má impressão que os seus conviventes nos legaram, ou com os registros de seu nome em letras garrafais no Mercado "Adolpho Lisboa" que, tal como o conhecemos nos dias de hoje, é uma de suas muitas obras de embelezamento e de possíveis orgias financeiras e “danação" política.

Quem sabe não surgem dissertações e teses acadêmicas sobre a presença de Adolpho Miranda Lisboa em Manaus, o capitão preferido por Silvério Nery.

Capa do livro mencionado


quarta-feira, dezembro 09, 2015

VILA MUNICIPAL (2)

Palácio Rio Negro, hoje Centro Cultural
Mais um nobre fundador deste bairro, que foi construído com o intuito de renovar a cidade de Manaus da belle époque.
Algumas observações pertinentes: a Vila se transformou no bairro de Adrianópolis; a rua Belém mencionada, hoje se conhece por Marciano Armond, e a Recife, por Mário Ypiranga. Enfim, o alemão Waldemar Scholtz era o então o proprietário do Palácio (sua residência), depois conhecido por Rio Negro, sede do governo do Estado, na avenida Sete de Setembro.

Em nossos dias o citado cruzamento está bastante modificado. E diante da ausência de outros dados sobre esse, mesmo em consulta ao GPS, tornou-se impossível identificar o lote de Scholtz. Pouco interessa. Certo mesmo é que a Vila teve múltiplos requisitos para prosperar, um deles, os poucos lotes de atrativos valores. Tanto que foram aforados aos homens endinheirados e bem situados na administração. Ainda assim, a única residência ali construída, e ainda existente, foi o Castelinho do prefeito Adolfo Lisboa.

LOTE Nº 6 – RUA BELÉM

Termo de aforamento feito ao Sr. Waldemar Scholtz de um lote de terras do patrimônio desta municipalidade, situado à rua Belém da Vila Municipal, como abaixo se declara:
 Aos vinte e oito dias do mês de dezembro de mil novecentos e seis, nesta cidade de Manaus, capital do estado do Amazonas, na secretaria da Superintendência Municipal onde se achava presente o Sr. Coronel Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa, superintendente do município, e eu, secretário, Dr. Thaumaturgo Vaz, compareceu o Sr. Waldemar Scholtz e disse que vinha assinar o presente termo de contrato de aforamento de um lote de terras que lhe foi concedido na rua Belém da “Vila Municipal”, bairro de S. João desta cidade de Manaus, em sete de novembro findo, limitando-se ao Norte com a rua Belém; ao Sul com o terreno aforado a Antonio de Berredo Lisboa; a Leste com a rua Recife; e a Oeste com o terreno aforado ao Dr. José Duarte Sobrinho, tendo uma área de mil seiscentos e oitenta metros quadrados (1.680m2); ficando o enfiteuta sujeito às cláusulas seguintes: 1ª) O enfiteuta obriga-se a pagar o foro de dezesseis mil (16$800) réis correspondente a mil e seiscentos e oitenta  metros quadrados (1.680m2) da área ocupada pelo Lote número 6 da “Vila Municipal”, bairro de S. João dessa cidade, assim como o direito dominical em – laudêmio – correspondente à percentagem que estiver determinada por lei. 2ª) O pagamento do foro será feito na Contadoria da Intendência Municipal.

sábado, novembro 28, 2015

VILA MUNICIPAL

O atual bairro de Adrianópolis nasceu no final do século XIX denominado de Vila Municipal. Esta denominação prosperou até à morte do médico e acadêmico Adriano Jorge, ilustre morador deste subúrbio, em 1948, quando a Cidade estabeleceu a mudança: Adrianópolis. 
Quando da instalação da Vila era prefeito de Manaus o coronel (da Polícia Militar) Adolfo Lisboa. E o fundamento para a instalação deste bairro fora o obtenção de local aprazível com a construção de casas de bom nível. Para isso, a urbanização que ainda predomina foi marcante: poucas ruas, porém amplas e retas, com lotes de bom tamanho. Como se verá com a postagem abaixo.
A distribuição desses lotes parecia atender a escolha dos mais afortunados, com certo poder aquisitivo, pois o valor era baixo, todavia, bastante compreensível. Afinal, a Vila estava sendo implantada no "final" de Manaus.  

Fac-símile de parte do contrato assinado pelas partes

Vila Municipal

Lote s/n                                                            Rua Teresina

Termo de aforamento feito ao Sr. Bertino de Miranda Lima de um lote de terras do patrimônio desta municipalidade, situado na Rua Teresina da Vila Municipal, como abaixo se declara: Aos quatro dias do mês de março de mil novecentos e sete, nesta cidade de Manaus, capital do estado do Amazonas, na secretaria da Superintendência Municipal, onde se achavam presentes o Sr. Cel. Superintendente Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa e o seu secretário Dr. Francisco Tavares da Cunha Mello, compareceu o Sr. Bertino de Miranda Lima que declarou vir assinar o presente termo de aforamento de um lote de terras que lhe foi concedido na Rua Teresina da Vila Municipal, bairro de São João, desta cidade de Manaus, em treze de junho de mil novecentos e seis, limitando-se ao Norte com a Rua Teresina, ao Sul com o terreno de Lourival Muniz, a Leste com a Rua Recife e a Oeste com o lote do Dr. Astrolabio Passos, tendo uma área de dois mil e duzentos metros (2.200m2), ficando o enfiteuta sujeito às cláusulas seguintes: 1ª – o enfiteuta obriga-se a pagar o foro de vinte e dois mil réis (22$000) correspondente a dois mil e duzentos metros quadrados de área ocupada pelo lote sem número da Vila Municipal, bairro de São João desta cidade, assim como o direito dominial em laudêmio correspondente a porcentagem que estiver determinado por lei. 2ª – o pagamento do foro será efetuado na Contadoria da Intendência Municipal.

terça-feira, setembro 08, 2015

NOTAS SOBRE A PRAÇA DA POLÍCIA

Ilustração publicada no Relatório
Extraído do Relatório da Comissão Organizadora do Tombo dos Próprios do Município, publicado ao final de 1920, por determinação do superintendente (prefeito) Basílio Torreão Franco de Sá.

O local atualmente é denominado de Praça Heliodoro Balbi, mas o povo o conhece por Praça da Polícia, devido ao quartel ocupado pela corporação militar estadual no entorno desta por décadas.


Nº 23
JARDIM DA PRAÇA DA CONSTITUIÇÃO

A construção deste jardim foi determinada em 1906, pelo superintendente Coronel Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa, em uma área de 6.600m2 contendo um pavilhão de ferro erguido sobre alvenaria de pedra, diversas estatuetas também de ferro e sobre pilastras de alvenaria, um lago artificial cortado por uma ponte de cimento armado, uma gruta com cascata, um chalé de alvenaria de tijolo, para guarda de ferramentas, e uma fonte de ferro fundido.

No pátio do Regimento Militar do Estado foi montado um cata-vento para fornecer água à cascata.
A 23 de julho de 1907, o superintendente interino, Coronel José da Costa Monteiro Tapajós, perante as autoridades do Estado e de grande massa popular, declara inaugurado e entregue ao público este jardim.

Em 1911, o superintendente Dr. Jorge de Moraes, manda proceder os serviços de restauração do chalé, do pavilhão, dos mictórios, pintura das estatuetas e remodelação do ajardinamento.

Em 1914, o superintendente Dr. Dorval Pires Porto, manda remodelar este próprio, dotando-o com cinco ficus benjamin, 30 roseiras e 190 exemplares de plantas de natureza vária, e entrega-o aos cuidados e zelo dos alunos do Ginásio Amazonense.

Em 1920, o superintendente Dr. Basílio Torreão Franco de Sá determina ao engenheiro-chefe da 3ª Seção que administrativamente procedesse a restauração deste logradouro, dando novo traçado ao seu ajardinamento, nova distribuição de luz e dota-o com 77 bancos.

Detalhe da praça com o antigo quartel da PMAM, ao fundo


sexta-feira, novembro 14, 2014

RUA DA MATRIZ


Rua Lobo d'Almada, esquina da av. Sete, atualmente

Durante o governo de Adolpho Lisboa (1900-07), a cidade de Manaus conheceu grandes obras, algumas ainda atualizadas, a demonstrar esse empreendimento. A hoje rua Lobo d’Almada é uma lição. Sua localização, como se pode ainda notar, ultrapassava de forma irregular alguns cursos de água, criando com isso dificuldades para o trânsito em geral.

Nivelada e calçada no governo do coronel Lisboa, ainda sob a denominação de rua da Matriz, teve seu nome mudado. Uma campanha do centenário Jornal do Commercio, que apoiava a administração municipal, publicou o suelto abaixo, opinando pela indicação do nome deste prefeito para identificar esta artéria.

Como se vê, não obteve sucesso, pois o Conselho optou com absoluta fidelidade pelo nome de Lobo d’Almada, que segue pouquíssimo conhecido. Falo de um português que, no período colonial, administrou com bastante sucesso este pedaço amazônico.

RUA DA MATRIZ

A antiga e conhecida rua da Matriz está destinada, por sua posição central, a vir a ser uma das melhores e mais concorridas desta florescente cidade. Convém, entretanto, alarga-la desde já para mais acentuar a sua futura beleza, favorecendo os proprietários, e convidando-os a novas e mais elegantes construções.
A parte compreendida entre as ruas Municipal e Henrique Martins já se acha definitivamente amplificada, calçada e edificada, apresentando o bom aspecto de cidade moderna.

Os dois trechos que ficam entre as ruas Henrique Martins e 24 de Maio só contem do lado oriental uma serie de casinhas velhas e esboroadas, faltas de higiene, mal construídas e pior frequentadas, salvo poucas exceções; hortas e capinzais mal cultivados, terrenos baldios, lugares de lixo, cercados apodrecidos e desmantelados pela ação do tempo.

Facilmente e por pouco dinheiro o Município ou o Estado poderia expropriar prédios e terrenos, nas dimensões solicitadas pela utilidade pública, para alargamento e embelezamento desta parte da cidade.

Mais fácil e rápido será o aformoseamento do trecho situado entre as ruas 24 de Maio e José Clemente, que só é composto de cercados, podendo ser imediatamente recuados até o alinhamento verdadeiro já determinado pelo prédio de canto onde há um estabelecimento denominado Club da Bola e por outras casas novas ali construídas.

Tudo isto é requerido com urgência, não só pelo embelezamento como também pelo saneamento dos quarteirões adjacentes.

O nome de rua da Matriz é de uma impropriedade que não se justifica.

Teve sua origem no fato desta rua dar acesso à Catedral erigida à praça 15 de Novembro; mas muitas outras ruas dão acesso da mesma forma àquele templo, e algumas delas com mais forte razão poderiam ser chamadas da Matriz ou antes da Catedral.

O que se chamou propriamente rua da Matriz em tempos remotos foi a parte da rua que ladeava a igreja pela direita, em frente aos antigos estabelecimentos comerciais do Barrigudo, Jacynto e outros, demolidos e substituídos pelo lindo jardim municipal que circunda a mesma igreja.

Melhor denominaríamos hoje essa artéria da cidade – Avenida Coronel Lisboa –, rendendo assim um justo preito de homenagem e agradecimento ao vulto nobre e simpático do chefe do Município, que maior soma de serviços, e os mais relevantes, tem prestado à capital do Estado do Amazonas.

Aí fica a ideia que de coração folgaríamos de ver abraçada pelo ilustrado Conselho Municipal em sua presente reunião.


(*) Jornal do Commercio, 26 de janeiro de 1905