CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

30 de abril de 2011

Amazonenses na Faculdade de Direito do Recife (III)

Outros amazonenses formados na Faculdade de Direito do Recife, relacionados até o primeiro centenário daquela Escola, em 1927.


10. Ricardo Matheus Barbosa de Amorim
nasceu em Manaus (AM), em 7 de fevereiro de 1875, sendo filho de Henrique Barbosa de Amorim (deputado provincial e professor do Ginásio Amazonense). Recebeu o grau de bacharel em 15 de março de 1905 e, incontinenti, regressou a cidade natal, onde passou a advogar.

Ricardo Amorim, Chefe de Polícia

Encerrada a quadra conhecida por Bombardeio de Manaus (outubro de 1910), e reempossado o governador Antonio Bittencourt, este o nomeou Chefe de Polícia, em substituição a José de Albuquerque Maranhão, o qual, parente e ativista da facção da família Nery, era adversário. Ainda nesse ano, Ricardo Amorim ocupa a direção do Teatro Amazonas. Mas, no ano seguinte, Bittencourt nomeia-o Procurador Fiscal da Fazenda.

Foi por anos, até se retirar de Manaus, professor catedrático de Direito Romano da Faculdade de Direito da Universidade Livre de Manaus. Pertenceu ainda ao quadro docente da Escola Técnica “Solon de Lucena”, da qual foi ainda diretor.
Álvaro Maia, 1934

Há, porém, um fato curioso em sua vida. Em 1931, o interventor federal Álvaro Maia “fecha” o Tribunal de Justiça do Amazonas. Para mais informação, veja a obra O Poder Judiciário na história do Amazonas, de Etelvina Garcia (2002). Para substituir os exonerados, Maia nomeou, entre os cinco desembargadores, ao advogado Ricardo Amorim.
A Justiça superior, porém, corrigiu esse abuso interventorial, recompondo o Tribunal. Alguns dos nomeados ainda foram promovidos a desembargador, menos o Dr. Ricardo Amorim. No entanto, em dezembro de 1934, o casal Ricardo e Josephina Amorim recebeu uma “indenização” do Estado, sob a forma de Contrato (hoje Precatório), em que renunciava a mais da metade dos vencimentos. Em seguida, Ricardo Amorim deixou Manaus pelo Rio de Janeiro, onde morreu.
Detalhe do Contrato de icardo Amorim, existente no Arquivo Público
Inscreveu-se no Instituto da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-AM), seção do Amazonas, em 16 de fevereiro de 1936, tomando o número 100. Outro dado consistente, a prática de sua convicção religiosa, de cunho espiritualista, conduziu-o a presidência da Federação Espírita do Amazonas.

11. Manoel Deodato Henrique de Almeida
recolhi apenas que se matriculou em 17 de março de 1903, cujo grupo inicial era de 128 alunos. Recebeu o diploma no final de 1907, ainda em turma bem copiosa, totalizando 111 bacharéis. Pouco mais da metade, 59, eram nascidos em Pernambuco; 19, na Paraíba e 13, no Piauí, entre os mais representativos. Entre seus colegas, destacaram-se: o poeta paraibano Augusto dos Anjos; Aristides Rocha, representante do Amazonas no Senado Federal, e Luciano Pereira da Silva, que representou nosso estado no Congresso Federal, ambos piauienses.

12. Ismael Henrique de Almeida
natural de Tefé (AM), nascido em 20 ou 30 de novembro de 1877, era filho de Antônio Henrique de Almeida e de Maria da Penha Henrique de Almeida.
Matriculado na FDR em 19 de março de 1904, graduou-se na véspera do Natal de 1908, de cuja turma constavam 147 bacharéis. No ano imediato, regressa a Manaus, ingressando na magistratura, como 1.º suplente de juiz municipal do 3.º Distrito.
Exerceu ainda os encargos de Promotor Público (1909); Procurador Geral dos Órfãos (1910); delegado auxiliar de Polícia (1931); Procurador Geral do Estado (1935) e desembargador da Corte de Apelação, nomeado a 12 de julho de 1935.
Tomou posse no TJA, em 15 de julho de 1935, sendo presidente da Corte, no ano de 1940.
Constitui assim o primeiro amazonense formado na FDR a alcançar o mais elevado cargo da Magistratura. Aposentado em 1945.

29 de abril de 2011

Casamento real

Principe Charles
Nada contra casamento e suas variações, ao contrário. Falo por mim. Mas, haja saco, ops, paciência para aguentar tantos comentários descabidos no dia de hoje. Tudo para preencher o tempo da TV e garantir o patrocínio.

Ainda bem que os príncipes e as princesas estão em extinção, mas a “fome” da informação cresce a cada evento, seja casamento ou desabamento.

Para não dizer que não participei, reproduzo uma foto do sogrão real. Ocorreu quando o príncipe Charles completou 9 anos, em 1957. A Rainha divulgou no mundo uma nova foto do garoto, diria, usando termos da rede social, que a Inglaterra editou a foto do Charles. Lembro que o primeiro herdeiro passou por Manaus ano passado.

A Crítica. Manaus, 30 nov. 1957

Aqui, quem atendeu a solicitação foi nossa conhecida A Crítica.

Vida eterna para o jovem casal real.

Amazonenses na Faculdade de Direito do Recife (II)

Prosseguindo com a relação dos amazonenses bacharelados na Faculdade de Direito do Recife, até o primeiro centenário daquela Escola em 1927, observando a data de formatura:


6. Genuino Amazonas de Figueiredo,
da turma de 1894, composta de 132 bacharéis. Dele apenas recolhi que foi contemporâneo, entre outros, do pernambucano Emílio Bonifácio Ferreira de Almeida e do cearense Martinho de Luna Freire, desembargadores do TJA, e de Odilon Nestor, depois lente da FDR, autor de várias obras literárias sobre a Academia do Recife.

7. Rodrigo Rodrigues da Costa,
filho de João Fausto Rodrigues da Costa, nascido em Codajás (AM), a 3 de agosto de 1875, Obteve o grau de bacharel em 1899, quando então foi nomeado promotor público em Belém (PA).
Posteriormente, em Manaus, foi diretor da Instrução Pública do Estado, professor de Lógica, no Ginásio Amazonense, e de Economia Política, na Faculdade de Direito da Universidade Livre de Manaus. Bem realizado financeiramente, adquiriu a propriedade da casa situada na esquina das ruas Marçal com Costa Azevedo, a mesma que abrigou por décadas a sede da representação da Sudam, em Manaus.
Em História da Faculdade de Direito do Recife, Clovis Bevilaqua reservou para este amazonense a seguinte nota: “Católico praticante e convicto, escreveu alguns trabalhos, em que afirma a sua crença, como: A mulher e o simbolismo católico e Brado de Justiça. Devemos-lhe, ainda: A instrução pública na Suécia; Uma página de história e Quatro mortos ilustres”. Lamentavelmente, ainda não localizei qualquer dos trabalhos citados.
Em sua cidade natal existe (ou existiu) um Grupo Escolar com seu nome; nele na década de 1930 estudou o saudoso poeta Anísio Mello.
Rodrigo Costa faleceu em 1915, na cidade do Rio de Janeiro.

8. Heliodoro Nery de Lima Balbi,
“condensou, numa síntese, todo esse ambiente revolucionário daquela época pernambucana, no seu memorável discurso como orador da turma dos bacharéis de 1902”. A solenidade oficial teve lugar no salão nobre da Faculdade, em 13 de dezembro.
Entre seus colegas, lembro as figuras de Raphael Benaion e Manoel Anísio Jobim, este de Alagoas e aquele, do Rio de Janeiro, que serviram ao judiciário e ao magistério em Manaus.

Inscrição na Academia Amazonense de Letras

Heliodoro Balbi. O Jornal. Manaus, 25 nov. 1945
Heliodoro Balbi nasceu em Manaus, em 16 de fevereiro de 1876, era filho de Nicolau Balbi e de Domiciana Lima (filha de Lima Bacury, parlamentar regional brilhante por sua oratória). A razão da unânime consciência de seus contemporâneos sobre a capacidade intelectual de Balbi, pode ser compreendida por este juízo: “Sua cultura era extraordinária. Conhecia profundamente direito, sociologia, filosofia e história", assegura o sociólogo André Araújo. Também é deste, a impressão de que Balbi preferiu seguir os ensinamentos do consagrado professor de Filosofia da FDR – Laurindo Leão, que os dos mestres da Escola do Recife, daí a descrição de quem conviveu a belle époque manauense. “Balbi era filósofo verdadeiro. Quem o conheceu o sabe. Ironia, piedade, erudição, oratória, tudo ele possuía”.

Sobre a brilhante passagem de Balbi pela FDR, Bevilaqua anotou com respeito: “Artista da palavra escrita e oral, faleceu antes de desbastar as exuberâncias próprias de um talento vasto, mas ainda não fixado em sua diretriz. Tinha cultura literária e filosófica”
Estranha curiosidade verifiquei nos arquivos da FDR: alguns documentos oficiais, expedidos pela própria Escola, grafam apenas Heliodoro Balbi. Ainda me interrogo, permanecendo sem resposta, qual a veracidade sobre a exclusão de Nery (sobrenome de seus possíveis algozes em Manaus) e Lima (sobrenome materno)?.


De personalidade deveras controvertida, cuja atuação no espaço literário e político do Amazonas reclama – e merece – um biógrafo. Com capacidade tanto de redirecionar as luzes sobre a profusão literária e o empenho político de Balbi, quanto a de elucidar particularmente a disputa quixotesca empreendida contra a oligarquia dos Nery, que governou o Estado na primeira década do século XX. Ainda que sob a suspeição imposta por apaixonados historiadores, o governador Silverio Nery manteve Balby em seu emprego de Conferente da Recebedoria Estadual, segundo anotação extraída de Diário Oficial da época.

Um dos móveis, contudo, encontra-se amplamente divulgado, e quem prelecionou foi o amazonense Almino Affonso, então deputado federal representante do povo paulista, em discurso proferido no plenário da Câmara Federal, em 1998. “Desgraçado Amazonas que, vitimado pelas tropelias dos oligarcas, não teve a honra de ver-se representado, no Parlamento Nacional, por Heliodoro Balbi! Não é que as forças lhe faltassem ao bravo lutador. Mas, o cerco era imenso! Ao regressar a Manaus – três vezes eleito pelo povo, três vezes esbulhado na Câmara Federal! O Parlamento brasileiro e suas derivações à época sofriam incompreensível dominação do senador gaúcho Pinheiro Machado, patrono dos governantes locais.

A desmedida coação impeliu Balbi para a capital acreana, para sofrer, ainda segundo Almino Affonso, “a derradeira ilusão”, aquela que “o envolveu para sempre, fechando-lhe os olhos a 26 de novembro de 1918, em plena maturidade de um sol a pino”. O confessado admirador encerrou desta maneira sua apreciação sobre um dos genuínos campeadores planiciários: “quando ainda o talento e a irreprimível vocação de homem público tinham tanto a dar ao Amazonas e às instituições democráticas”.
Alguns anos depois, seus restos mortais foram transladados para Manaus, estando inumados no cemitério de São João Batista. Ouso assegurar que o pelejador amazonense prossegue sendo injustiçado: quando em vida, por políticos torpes; ora em seu jazigo, pelo povo. Porquanto, patrono de um logradouro (a praça em frente ao quartel da Polícia Militar) no centro de nossa capital, a população teima em ignorar a denominação oficial, preferindo nominá-la de Praça da Polícia.


9. Vitor Antônio de Souza,
natural do Amazonas, nascido em 15 de junho de 1887, era filho de Antônio Marcelino de Souza. Colou grau no dia 15 de dezembro de 1903. Solamente...  (segue)

27 de abril de 2011

Amazonenses na Faculdade de Direito do Recife (I)

Primeira parte dos bacharéis amazonenses graduados na Faculdade de Direito do Recife, observando a data de formatura:


Palácio da Justiça, Manaus AM
1. Guilherme Amazonas de Sá,
filho de Ricardo Antônio de Sá, nascido no Lugar da Barra (hoje Manaus), em 10 de fevereiro de 1839, então comarca da Província do Grão Pará. Foi considerado, todavia, oriundo do Amazonas, visto que ao tempo de sua matrícula (1860) e mais especialmente de sua formatura, em 3 de novembro de 1864, já existia esta unidade política. Concluído o curso jurídico, foi nomeado, no ano imediato, Promotor Público da capital amazonense.
 2. Alexandre Herculano de Brito Amorim,
natural de Manaus (AM), filho do comendador Alexandre Paulo de Brito Amorim (patrono da artéria central do bairro de Aparecida) e de Amélia Brandão de Amorim, nascido a 18 de setembro de 1859. Bacharelou-se em 18 de setembro de 1886. Foram seus condiscípulos, entre outros, com passagem pela administração judiciária amazonense, os desembargadores Abel de Souza Garcia e José Alves de Assunção Menezes; os lentes da Faculdade de Direito da Universidade Livre de Manaus, Alcedo Marrocos e Gilberto Ribeiro Saboia, este ainda diretor da mesma (1926-29).

3. Paulino de Almeida Brito,
nasceu em Manaus (AM), em 9 de abril de 1859, quando seu pai, capitão de artilharia de mesmo nome, servia na guarnição da Província do Amazonas, e de Ricarda de Almeida Brito. Seu pai morreu por ocasião da Guerra do Paraguai (1865-70), deixando a família morando em Porto Alegre (RS) em precárias condições financeiras.
Mediante auxílio do governo imperial, a viúva e os dois filhos acabam se radicando em Belém (PA). Ali, Paulino deixou-se aos estudos, mas não dispensou uma aventura financeira pelo rio Juruá. Mas, de regresso à casa materna e à escola, como professor, passou a “sonhar” com a graduação em Direito.
Paulino de Brito

Ao receber ajuda organizada pelos amigos, teve oportunidade de desembarcar no Recife (PE) para enfrentar a Faculdade. Manteve-se naquela cidade “dando aulas”, até  conquistar o bacharelado na Faculdade de Direito do Recife. A solenidade ocorreu em 9 de novembro de 1889, em plena efervescência da Proclamação da República.
Entre os colegas, cabe destacar: Augusto César Lopes Gonçalves, senador pelo Amazonas, e Benjamim de Souza Rubim, desembargador do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJA), ambos maranhenses; o piauiense Gregório Taumaturgo de Azevedo, oficial do Exército, primeiro governador constitucional do Amazonas (retaliado, porém, pelo vice-presidente Floriano Peixoto); o pernambucano Paulino João de Souza e Mello, também desembargador do TJA, e professor do Conservatório de Música (ensinando violino, instrumento de seu desempenho nos concertos locais, registra Márcio Páscoa).

O bacharel Paulino de Brito regressou à capital paraense, onde se consagrou pela dedicação ao magistério e, também, como ardoroso polemista, um dos clássicos recursos culturais da época. Entre suas publicações, reeditado como parte da Coleção Resgate da Editora Valer, em 1998, o livro de poesias – Cantos Amazônicos.

4. Geraldo Matheus Barbosa de Amorim,
nasceu em Manaus, em 5 de dezembro de 1869, filho de Henrique Barboza de Amorim (deputado provincial, homem de notável cultura, falecido prematuramente) e Rosalina Simpson de Amorim. Depois dos estudos básicos no Liceu, Geraldo seguiu para Recife (PE) onde enfrentou o curso de direito. Obteve o bacharelado em 12 de dezembro de 1893. Logo regressou a Manaus, onde passou ao exercício da advocacia.
Ginásio Amazonense D Pedro II
Exerceu também o magistério no Ginásio Amazonense, ensinando Latim e Grego, e onde esteve como diretor do estabelecimento em algumas oportunidades. Casou-se com Eugenia Fleury de Amorim, em 1900.
Notabilizou-se igualmente como músico. Acredita Márcio Páscoa que ele “deve ter aperfeiçoado seus estudos de violino com Adelelmo do Nascimento, pois foi somente nos anos imediatamente a seguir à virada do século”, mormente a partir da inauguração do Teatro Amazonas (1896), “que seu nome começou a aparecer em concertos ao lado de profissionais e amadores”.

Aposentado do magistério, Amorim transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde faleceu aos 66 anos. (segue)

Amazonenses na Faculdade de Direito do Recife

A instalação e o funcionamento do curso de Direito em Olinda, depois Recife (PE) e São Paulo (SP), em 1828, definiram os primeiros limites do progresso educacional brasileiro de nível superior, e “de forma ascendente a profissão e a figura do bacharel tornavam-se estimadas no Brasil”. Convém lembrar que o Brasil vivia o ápice imediato de sua independência política. Assim sendo, a abertura das primeiras faculdades à juventude brasileira amplia essa liberdade, apesar de regidas pelos cânones de Coimbra.

Faculdade de Direito do Recife

O debate sobre a localização das sedes foi apaixonante. Tanto que, encerradas as prolongadas discussões pelos membros da Assembléia Constituinte, restou ao Imperador a decisão de assentar uma academia no Convento de São Bento, em Olinda (Recife, a partir de 1854), para atender aos estudantes do Norte. Essa linha divisória estendia-se desde a província da Bahia até a do Pará (lembrando que a província do Amazonas surgiria apenas por lei de 1850, com a instalação no primeiro dia de 1852).
A outra escola jurídica, no Largo de São Francisco, na capital de São Paulo, atenderia a outra porção geográfica comumente conhecida por Sul, abrigando as demais províncias.


No objetivo desse retrospecto, como indica o título, considerei apenas a Academia de Olinda/Recife, mais conhecida, a despeito de sua subordinação em nossos dias à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), por Faculdade de Direito do Recife (FDR).


Clovis Bevilaqua
Em 1927, na comemoração do primeiro centenário desta, o civilista Clóvis Bevilaqua (1859-1944) – ali graduado em 1882 – registrou a caminhada da Faculdade no livro História da Faculdade de Direito do Recife. A obra, “roteiro primoroso da evolução desse centro de estudos, escrito com uma visão de caráter filosófico e sociológico inigualável”, foi escrita com fundamento nos relatórios anuais, nos demais documentos arquivados e na própria vivência do criador.
Bevilaqua estampou, entre outros pormenores, a origem nativa dos acadêmicos, providência que me possibilitou apontar aqui os amazonenses graduados na FDR.


Em decorrência desse pormenor, desconsiderei a informação do acadêmico Antonio Loureiro (1990) sobre a naturalidade de amazonense conferida a Romualdo de Souza Paes de Andrade (que assumiu a presidência da Província interinamente, em 1879 e 1882). Paes de Andrade efetivamente concluiu o curso na última turma da Academia, ainda em Olinda, reconhecido como natural do Pará, consoante Bevilaqua e outros memorialistas.

Até o primeiro centenário da Faculdade do Recife, em 1927, somente 20 de nossos coestaduanos concluíram o curso de “sciencias juridicas e sociaes”, que era efetivado normalmente “no espaço de cinco anos, e em nove cadeiras”, consoante o edito imperial. Ao apontá-los, aproveito para renovar informações básicas, reproduzir observações julgadas pertinentes, recolhidas em fontes primárias, como as obras de Bevilaqua e de Agnello Bittencourt, e outras tantas próprias da historiografia amazonense.
Carreio para este trabalho em especial a pesquisa pessoal que efetivei no arquivo e na biblioteca daquela Escola Superior, em 1999. Foram momentos prazerosos passados entre os diferentes arquivos, alguns copiados, mal xerocopiados, enfim, por falta de melhores recursos. (segue)

26 de abril de 2011

Polícia Militar do Amazonas (XVIII)

Abril, 26


Quartel da Polícia Militar, c1901
1876 – O presidente Antonio Passos Miranda cria a Guarda Policial do Amazonas, com efetivo de 73 homens, sendo dois oficiais. A Lei tinha o nº 339, e fora aprovada pela Assembelia Provincial, atendendo indicação do deputado Ferraz. Esse organismo destinava-se “a manter a ordem e a segurança pública na Província, e auxiliar a justiça”. Em verdade, tratava-se da recriação da Guarda Policial desaparecida desde o final dos 1850.
Durante mais de duas décadas o Estado passou sem a presença da força policial, mas sempre que possível o Presidente reclamava essa ausência. Quando o governo imperial assegurou uma ajuda financeira a Província do Amazonas, foi possível inaugurar a segunda etapa da vida dessa corporação.
Em 1º de maio, o presidente nomeou ao comandante, tenente Severino Eusébio Cordeiro, e seu ajudante. A 3 de maio, passou a operar com a inclusão dos primeiros praças.


1936 – O tenente-coronel José Rodrigues Pessoa toma posse no comando da Força Policial do Estado. A data foi festejada durante o comando desse oficial como se uma nova criação. Explico: na ocasião, a Polícia Militar do Amazonas retornava efetivamente a atividade depois de extinta em final de 1930.
Dom Cerqua, com sua vistosa barba, ao
lado do prefeito Glaucio Bentes, 1972


1970 – Inauguração do Quartel da Polícia Militar, em Parintins. A solenidade contou com a presença do governador Danilo Areosa, do comandante da PM Maury Silva, e do coronel PM Julio Cordeiro, comandante do 2º batalhão. Major Francisco Carneiro da Silva, ainda vivo aos 89 anos, era o delegado de polícia do município. E a bênção do edifício foi realizada por Dom Arcângelo Cerqua, bispo de Parintins.
O quartel devidamente ampliado segue aquartelando a tropa policial em Parintins (AM).

24 de abril de 2011

Os artistas da av. Joaquim Nabuco

Querido amigo Roberto,
Liceu na av. Joaquim Nabuco
Escrevo-te “estas mal traçadas linhas”, após te assistir terça-feira, 19 de abril - Dia do Índio, o qual, como os índios mesmo dizem nada tem a comemorar. Então, após tua entrevista realizada pelo Abrahim Baze, na qual você falou com muita emoção do querido mestre Anísio Mello, do lendário Liceu de Arte “Esther Mello”, escrevi.


Lembrei que tive aulas de desenho com ela, dona Esther, nos anos 1970; ela era amiga de minha mãe. Lembrei que o Anísio sempre falava com as minhas irmãs ali no seu ateliê da Joaquim Nabuco, para não vendermos nossas casas ou o terreno, pois ele era um defensor do patrimônio histórico ou, ao menos, da conservação...

Ele, entretanto, “bateu asas” cedo; mas a morte é assim mesmo, nos pega no meio de uma frase ou pensamento, no meio de sonhos, de projetos... Fico feliz, todavia, pois sei de tua seriedade ao escrever uma biografia, especialmente do Anísio, ele merece!. Ainda mais sendo você o biógrafo...

Tem outra figura que também anda esquecida, e passando alguma necessidade. Também é da av. Joaquim Nabuco: é o Murilo Branco Silva, artista plástico que herdou a arte do pai, o celebrado Branco Silva. Murilo é primo do saudoso e cultuado por ti, padre Ruas.

Um abraço, Jorge Leite

Obrigado pelas mal traçadas linhas. Serviram-me não somente para preencher (e bem) o espaço, mas para eu explicar alguns pontos de sua carta-email.
Não tive oportunidade de difundir a data e horário da entrevista que rolou no Amazonsat, com o Abrahim Baze. Ocorreu na terça-feira, 19, às 19h30, e não haverá replay, assegurou-me o acadêmico Baze. Como tenho promessa dele de receber uma cópia, vou enfim me assisitir.

O mote, como você assinala, foi a homenagem ao Anísio Mello pelo primeiro ano de morte. Na entrevista, anunciei o desejo de efetuar a biografia dele, ou seja, completar o quanto ele já deixou pronto. Como o livro Convite à Poesia, que os amigos imprimiram e estão distribuindo 0800.

Jorge, o Liceu que formou inúmeros e bons artistas plásticos findou. Acabou e não houve qualquer manifestação. Parece não ter deixado saudades, mas eu sei quantas saudades deixou. Sempre que converso com alguém sobre o Anísio, sempre acontece revelações sobre o Liceu.
Padre Luiz Ruas, em 1957

Agora, a avenida Joaquim Nabuco e seus artistas. Primeiro, me envolvi com o padre Luiz Ruas. Rebusquei-lhe as minúcias em jornais e outros meios de imprensa local. Aprendi muito, muito mesmo sobre aquele poeta-padre. Ainda neste ano, em outubro, publicarei as poesias reunidas dele para lembrar os Oitentanos dele.

Nesse caminho encontrei o Murilo Branco (e) Silva, primo do padre L. Ruas. Hoje morando na av. Joaquim Nabuco, onde morou o primo até seu falecimento em abril de 2000. Não tenho muito como ajudar, há certo desencontro da família devido a posse da casa que pertenceu ao padre Ruas. Mas, prometo a você que vou lá.

Feliz Páscoa, amigo Jorge, e em seu nome aos demais amigos e seguidores.

23 de abril de 2011

Quartel dos Bombeiros, 1970

Já relatei essa fase da história dos Bombeiros do Amazonas, mas vou retornar a ela por uma razão singular. Em 1970, os “homens do fogo” estavam subordinados a Prefeitura de Manaus, que era dirigida por Paulo Pinto Nery.

Terreno situado à rua Recife, pertencente aos Bombeiros, c1971

O Prefeito havia tomado algumas providencias para melhorar o serviço: os bombeiros ocupavam o quartel da Sete de Setembro; havia adquirido algumas viaturas; nomeado comandante ao tenente Nicanor Gomes, recém formado oficial de bombeiros; enfim, decidira construir um quartel novo no terreno dos Bombeiros situado na rua Recife, junto ao Acapulco Clube.

Eis a razão singular, a construção desse quartel, intitulado de Quartel Central, conforme a ilustração mostrada. Mais singularidade: o edifício seria elaborado pelo arquiteto Severiano Porto, que se consagrava em Manaus. Uma de suas obras foi o quartel da Polícia Militar do Estado, situado no bairro de Petrópolis, que hoje abriga o comando geral da corporação.
O quartel dos bombeiros não foi construído, ao menos no local indicado – rua Recife, ao lado do desaparecido clube Acapulco. O projeto pode ter saído da prancheta do arquiteto Severiano Porto, mas não executado. Se positivo, pode estar no arquivo central da Prefeitura, onde vou catá-lo. Se não, será apenas lamentável.
Jornal do Commercio. Manaus, 22 jul. 1970. Veja tópico:
Projeto de Severiano
Como disse, o terreno também não foi aproveitado, passando ao usufruto do Estado, quando este encampou o serviço de bombeiros em 1973. Mais de 25 anos depois, os Bombeiros tornaram-se autônomos e, conhecendo o valor do imóvel, foram em busca do terreno para instalar naquela área nobre seu principal quartel.

E aqui respondo à seguidora que me perguntou pelo destino terreno. Os Bombeiros Amazonenses tiveram um grande sobressalto, pois o terreno fora “invadido” por gente grande. E como não teve conversa, as partes foram ao juiz que, ouvindo especialmente a Prefeitura de Manaus, decidiu repô-lo ao legitimo proprietário.
A outra parte - José Artur Pozzetti e outros – não concordou, reingressando na Justiça para manter a posse do terreno dos Bombeiros. No momento, os Bombeiros do comandante Antonio Dias já tem a posse do desventurado bem.


22 de abril de 2011

Memorial Amazonense (LII)

Monsenhor Alcides Peixoto
1956 – O padre Alcides de Albuquerque Peixoto foi nomeado vigário da paróquia de Itacoatiara, em substituição ao monsenhor Joaquim Pereira. Em 4 de outubro, recebeu o coadjutor, padre Bernardes Martins Lindoso, irmão do político José Bernardino Lindoso, que seria governador do Estado (1979-1982). Bernardes, tendo abandonado o sacerdócio, trabalhou com o irmão nesse governo. Padre Alcides recebeu posteriormente a dignidade eclesiástica de monsenhor, tendo sido vigário da paróquia de Nossa Senhora dos Remédios, em Manaus.


2005 – Morreu em Manaus, Ignes de Vasconcelos Dias. Conhecida professora e diretora do Instituto de Educação do Amazonas, fora graduada pela Faculdade de Direito do Amazonas. Exerceu a função de Secretaria de Educação e Cultura. Era membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.


Marcus Luis Barroso Barros tomou posse na Academia Amazonense de Letras, e segue ocupando a Cadeira 11, cujo patrono é José Veríssimo. Dirigiu a solenidade o presidente Elson Farias e o discurso de recepção coube ao acadêmico Roberio Braga. Marcus Barros nasceu em Manaus, em 29 nov. 1947. Médico na primeira turma da Universidade do Amazonas, em 1972, especializou-se em medicina tropical na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1981, dirigiu o Hospital Universitário Getúlio Vargas. Mais adiante, foi Reitor da Universidade Federal do Amazonas (1989-1993). Em 2002, assumiu o cargo de diretor geral do INPA e, em janeiro de 2003, a presidência do IBAMA.


2010 – Morreu em Manaus, a desembargadora Euza Maria Nice de Vasconcelos. Surpreendente seu falecimento, visto que havia assumido essa função na Alta Corte amazonense no ano anterior, exatos quinze meses. Foi sepultada no cemitério São João Batista.

21 de abril de 2011

21 Abril: Dia de Tiradentes - Patrono das Polícias

A Polícia Militar do Amazonas vem cumprindo uma decisão estranha: elaborar apenas uma festa para comemorar seu 174º aniversario (4 de abril) e do seu patrono, o protomártir Tiradentes (21 de abril).
Galeria de ex-comandantes da
Polícia Militar do Amazonas

Este ano, a solenidade aconteceu ontem pela manhã, na Praça da Polícia. Parece ter sido decidida muita apressadamente, entre outros indícios, não houve uma manifestação da imprensa, convidando aos simpatizantes desta corporação. A PMAM decidiu concorrer com o 62º aniversário do jornal A Crítica, que lançava seu helicóptero RCCop. E uma edição cheia de atrações.

Resultado: o governador Omar Aziz optou pelo jornal, e  foi comemorar com o pessoal do matutino “mais lido”. Despachou para o encontro com os policiais o vice-governador José Mello, que deveria ter calado. Sua fala foi um desastre para os apreensivos, esperançosos policiais na data do dissídio coletivo. Lembrando que fora uma iniciativa do ex-governador Eduardo Braga, a data do anúncio da revisão do soldo.

Sem ser convidado, não fui. Por isso, ouvi de circunstante que o vice-governador parecia ter comido abio, pois o visgo fechou-lhe a boca. Nada foi dito sobre o aumento salarial, aumento que os aposentados espalham pela praça com imaginação, que não há Estado que suporte tantos “subsídios”.

A Polícia Militar do Amazonas, portanto, ganhou um presente de grego. Assim, para reagir a esse desaforo, para manter a tradição centenária que a consolida, deve o coronel comandante Almir David imprimir o respeito às datas.
Em 4 de abril, realize uma solenidade interna, ao menos. Realize uma vasta distribuição de medalhas e condecorações para os seus subordinados. É importante esse afago.
E não transija. O Dia de Tiradentes é dia 21. Lembro ao senhor que a maior comemoração dessa efeméride acontece em Ouro Preto - Minas Gerais, claro, e atenção!, no dia dedicado a Joaquim José da Silva Xavier.

20 de abril de 2011

"O Salto no abismo"

 

Semana passada, o mundo relembrou o cinquentenário do voo espacial do russo Yuri Gagarin. Uma volta de pouco mais de 100, exatos 108 minutos, em pouco mais de três horas. Tudo era ainda diminuto, menos o deslumbramento do russo que nos revelou a cor azul da Terra. Passamos a conhecer nomes bem esquisitos: Sputinik, que partiu da Base de Baikonur, no Cazaquistão.

Ramayana de Chevalier, 1958

Em Manaus, Ramayana de Chevalier tomou de sua pena brilhante e produziu o texto que reproduzo. Também ele, o texto, cinquentenário, publicado em A Gazeta, em 14 de abril. Ano dessas aventuras - 1961.


Estamos vivendo a hora cósmica. Nossa casa é pequena para a vertigem do nosso sonho. A ciência soviética acaba de penetrar no universo oleoso e silente do firmamento estelar. As cadelas que precederam ao salto humano pelo silêncio sideral merecem nossa mais carinhosa gratidão. Agora sentimos, em toda a sua extensão, de como foram ridículos e imbecis os santinhos da Sociedade Protetora dos Animais, com os seus protestos líricos. Depois dessas cadelas magníficas, o homem foi lançado, pela primeira vez na história da humanidade, a uma velocidade de 600 mil quilômetros/hora, numa altitude de 340 mil metros acima do solo, completando, em uma hora e meia de relógio, a volta em torno do planeta.

Note-se, para efeito de raciocínio, que o nosso planeta Terra é lançado no espaço a uma razão de 104 mil quilômetros por hora, dando-nos a perfeita ilusão de estabilidade e fixidez, de tanta estabilidade que iludiu aos astrônomos antecessores do Copérnico. Numa velocidade, pois, algumas vezes maior do que a massa do planeta, esse bólido russo conseguiu levar um ser humano a uma altura jamais suspeitada, num deslocamento alucinante, que trouxe, como prova, uma série de hipóteses cosmológicas que a Relatividade Restrita de Einstein havia, teoricamente, comprovado.
Uma delas é a absoluta ausência de luz no espaço cósmico. A outra, que representa uma afirmação categórica da teoria corpuscular, é a que declara que, na visão do firmamento, a luz, lançada como um oceano corpuscular através do infinito, só é sentida quando encontra a massa dos planetas ou dos cometas transeuntes. A visão que o astronauta Gagarin teve do espaço cósmico, mergulhado nele a uma profundidade de 340 quilômetros distante da Terra, confere com as anotações de Einstein e com a moderna teoria mecânica celeste e da física corpuscular. O espaço é negro. Ao longe, Gagarin conseguiu entrever o seu planeta, mergulhado num azul claríssimo, resultado do impacto do feixe luminoso nas camadas atmosféricas e na própria massa da Terra. A sua visão deve ter sido angelical. Assim devem os anjos contemplar à Terra e Deus, como Lei, na sua escuridão permanente, assiste à vitória dos seus filhos, sem comoções.
Revista Veja, 20 abr. 2011


A vinda do astronauta, em perfeito estado físico, como de resto já havia chegado os animais enviados ao espaço, assegura também uma razão admirável à teoria einsteiniana do espaço pessoal, arrastando cada um de nós o seu universo de bolso em torno de si. O que acontece com o microclima para os vegetais, existe também para o ser humano, quanto às inerências de sua condição biológica e sensorial.
O homem conduz o seu próprio universo. Os planetas, com a sua atmosfera, as suas nuvens, as suas diferenças climáticas, volitam em torno do Sol, num arranco de 104 mil quilômetros por hora, no que tange ao nosso “habitat”. Os de maior volume, certamente se deslocarão em velocidades superiores, de acordo com o seu empuxo necessário. Dentro dessa concepção, o homem, como indivíduo, também arrasta consigo o seu continente cósmico, capaz de isolá-lo e de mantê-lo, num equilíbrio de compensação, dentro de um esquema de resistência pessoal à velocidade.
Não podem ser selvagens, nem atrasados, nem primitivos, aqueles que possuem cientistas capazes de tais cometimentos. Parece não ter razão o presidente do Banco de Boston, quando nega à Rússia qualquer virtude. A exploração do homem pelo homem está perdendo na competição com a ciência socialista.
Gagarin, hoje, não é astronauta russo. É um cidadão do mundo, que veio concorrer para provar que todos somos irmãos e que a ciência, quanto mas prestigiada pelo Estado, mais frutos dará e mais novidades oferecerá aos sedentos de sabedoria e de liberdade... 

19 de abril de 2011

Convite & Convite

Max Carphentier
A Cátedra Amazonense de Estudos Literários, grupo de pesquisa certificado pela pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da UEA junto ao CNPq, inaugura seu terceiro ano de atividades constantes convidando a todos para a palestra a ser proferida pela Professora Doutora Auricléa Oliveira das Neves (UFF/UNINORTE).
A palestrante falar-nos-á sobre A poética de Max Carphentier e, como tradicionalmente já fazemos, haverá bastante tempo para o debate de ideias.

Quarta-feira (amanhã): dia 20, às 10h, na Escola Normal Superior

Ainda há tempo para agendar.


Legenda da chapa vitoriosa
Clube dos Oficiais da Polícia e Bombeiros Militar do Amazonas (Copmbmam)
A vitória no Clube da chapa oposicionista oportuniza este festejo. Há doze anos permanecia uma mesma direção, que levou o Clube de ladeira abaixo. Talvez por esse entusiasmo se admita a exigência de paletó e gravata para a posse. E os militares?
 POSSE DA DIRETORIA EXECUTIVA DO COPMBMAM, BIÊNIO 2011/2013

Amanhã: 20 DE ABRIL DE 2011 - Horário: 19h30Local: Auditório Belarmino Lins

PRÉDIO DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO AMAZONAS
ENDEREÇO: Av. Recife - Parque Dez

Atenção: Indumentária - PASSEIO COMPLETO

17 de abril de 2011

Bombeiros: mudança de comando

Quartel dos Bombeiros, em Manaus
Em outubro de 1982, a substituição do então comandante dos Bombeiros, tenente-coronel José Cavalcanti Campos, forneceu movimentado burburinho. O pretexto era bastante usual: a leitura da ordem do dia (espécie de discurso militar lido em solenidades que, ao tempo do governo dos generais, causava certo calafrio). Para o gasto policial militar amazonense, o documento produziu refluxos. Antes de relatar a passagem de comando, uma palavra sobre a situação política. Vivenciávamos a proximidade do encerramento do Governo Militar e uma eleição direta para governador, com os candidatos em campanha: Josué Claudio S. Filho, da situação, e Gilberto Mestrinho, pela oposição.

"Santinho" do presidente Figueiredo
e deputado Josué Filho, 1982

Tudo começou em junho, quando da substituição do governador José Lindoso pelo vice, Paulo Pinto Nery. Nery demitiu o coronel Guilherme Vieira dos Santos, comandante da PMAM; nomeou, temporariamente, ao coronel PM Hélcio Motta, enquanto o Exército buscava o substituto. Quem assumiu foi o coronel Ex José Raimundo Duailibe Mendonça, que chegou prometendo a vitória do candidato da situação.

Repudiando tamanha proclamação, o comandante do Corpo de Bombeiros contrapôs-se, arregimentando mais de uma centena de oficiais. A disputa eleitoral deixou então a caserna e adentrou a residência de conhecido cabo eleitoral de Mestrinho (Luis Costa, na rua 24 de Maio). Mas acabou na imprensa, que divulgou o esquema do comandante da PM que prometia encarcerar os oficiais recalcitrantes. Mas, venceu o candidato da oposição, e o final da história todos sabem.
Governador Paulo Nery substitui o coronel Guilherme (à dir.)
pelo coronel Helcio Motta (atrás), em 1982
Antes da eleição, o coronel Duailibe Mendonça vingou-se, exonerando o comandante dos Bombeiros. Cavalcanti prometeu revidar na ordem do dia, de leitura obrigatória na passagem de comando. Para ludibriar qualquer censura castrense, a ordem deixou de ser impressa. Neste ínterim, o governador Nery telefonou ao comandante Cavalcanti, aconselhando-o que amenizasse. De fato, foi amenizada. Na solenidade, presente o governador, coronel Cavalcanti leu seu discurso a partir do original, após o que me entregou as folhas que foram guardadas convenientemente.
Coronéis Cavalcanti e Ruy Freire comemorando, em 2004
Empossado nos Bombeiros o tenente-coronel Ruy Freire de Carvalho (27 out.), dele, o comandante Duailibe exigiu a ordem do dia. Claro, somente existia o original em minha posse. A fim de se escamotear o truque, coube-me como subcomandante imprimir um boletim especial (27 out.), com a censura devida. No livro que escrevo sobre Os Bombeiros do Amazonas, reproduzo o documento.

15 de abril de 2011

Destruição da fábrica "Potência"


Major Osório, 1972
Ainda entrevistando os ex-comandantes do Corpo de Bombeiros, enquanto unidade operacional da PM do Amazonas, ouvi um depoimento do coronel Osório Fonseca. Registrando que este oficial dirigiu os bombeiros entre 1978-79.


À pergunta: Lembra algum grande acidente de que, sendo comandante, participou?
Respondeu: O maior acontecimento foi, sem dúvida, o incêndio da fábrica Potência, no Distrito Industrial. Para nós, o incêndio foi classificado de grandes proporções, em razão da perda total da indústria, que operava material sintético. Além deste, armazenava no interior do prédio, lubrificantes e combustíveis; inflamáveis que contribuíram fartamente para o resultado.

Nesse combate, assisti um grave acidente com um soldado e um sargento. Um desses heróis anônimos, tentando remover um tambor de óleo lubrificante, e como a tampa se desprendesse, foi atingido pelo material efervescente. Teve baixa hospitalar, com queimaduras graves. Outros apenas se feriram. Sofri queimaduras leves nos pés, apesar do calçado, porque a fibra sintética derretia-se, espalhando-se pelo solo.

A intensidade do fogo obrigou-nos a usar água de piscinas de clubes ao redor. Enfim, eu olhava para aquelas estruturas de ferro retorcidas, ou que se retorciam ao fogo, pingando como lágrimas altamente incandescentes. Como era assustador sentir as temperaturas elevadíssimas. Confesso, foi uma visão terrível!



A Crítica. Manaus, 27 nov. 1978

O relato jornalístico (A Crítica, 27 nov. 1978) do incêndio da Potência, incluído na galeria dos maiores desastres no Estado, oferece mais detalhes, alguns desprovidos de credibilidade. A fábrica, edificada sobre estrutura metálica, porém, diante da violência das labaredas rigorosamente desmilinguiu-se.

Foi o maior incêndio já registrado no Distrito Industrial e sua causa foi apontada, preliminarmente, como curto-circuito nas instalações elétricas, embora a Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS), que instaurou inquérito, não tivesse fornecido o resultado do exame pericial. (...)

Com a chegada do Corpo de Bombeiros, o fogo já havia atingido quase todo o primeiro galpão. Quando o fogo passou ao compartimento das máquinas, os bombeiros tiveram que enfrentar o mais sério perigo. Foi nessa ocasião que o soldado João Stanislau, que carregava uma mangueira, ao tentar se infiltrar numa parte onde melhor pudesse dar combate ao fogo sofreu o acidente. O militar caiu de costas, não tendo condições de se reabilitar. Porém, o seu colega sargento Eunésimo Batista Serra e outros o salvaram, tendo o primeiro recebido queimaduras nas mãos, embora sem maior gravidade.

Apenas João Stanilau foi internado no Hospital Getulio Vargas e terá que ser submetido à intervenção cirúrgica plástica, pois está com as costas, o peito e o rosto marcados por queimaduras de alto grau. O soldado tinha bastante prática. Recentemente havia feito outro curso de treinamento, mas o acidente foi inevitável. Contudo, ao mesmo tempo, o coronel Osório, que comandou as operações, adotou novos sistemas, evitando que ocorressem outros acidentes.
Coronel Osório Fonseca, 2010

O coronel Osório esteve perto durante toda a operação do Corpo de Bombeiros. Abordado pela imprensa, ressaltava a importância da colaboração da Cosama, todas as vezes que o Corpo de Bombeiros atende chamado de urgência. Mencionou um caso recente ocorrido no bairro de São Raimundo, quando mais três soldados saíram feridos, no momento em que evitavam que um incêndio atingisse o quarteirão da Beira Mar. Naquela operação, os homens da Policia Militar não puderam contar com o apoio da COSAMA, pois não havia água no depósito instalado na Estrada da Compensa.
 
Os feridos mais graves no incêndio da Potência foram o soldado 2101, João Istanilau da Silva Pedrosa, recolhido ao Pronto Socorro e Hospital dos Acidentados (av. Joaquim Nabuco) com “queimaduras nos membros inferiores direito e esquerdo de 1º e 2º graus, sobre 15% da superfície corporal”. Recebeu alta hospitalar em 4 de dezembro, e seguiu sob os cuidados do Serviço de Saúde da corporação. Seis meses depois estava de volta ao serviço e, hoje (2011), subtenente PM, aguarda a transferência para a reserva. O outro foi o 3º sargento 0265, Eunesimo Batista Serra, com ferimentos leves, atendido no pronto atendimento. Mas sua sorte tem nome: o soldado Renato José Monteiro Rola que o socorreu, evitando o pior.

14 de abril de 2011

A tragédia do barco "Dominique"

Okada (à esq.), ajudante de ordens
 do governador Areosa, 1969
Conversei com o coronel da reserva Odaci Okada sobre o comando que ele exerceu no Corpo de Bombeiros (1979-1981). A entrevista sairá no livro Os Bombeiros do Amazonas, cujo lançamento acontecerá no final do ano. Lembrou-me os graves acidentes que aconteceram nos dois anos de seu comando. O relato abaixo pertence a ele, complementado pela publicação do jornal A Notícia.

A competência da equipe de homens-rã dos bombeiros é comprovada. Mas sempre motivou comentários bem diversos, favoráveis ou não. Pretextos sempre existiram. Anteontem, porque não existia nem homens nem equipamentos; ontem, apesar dos aparatos técnicos, da instrução e do aprimoramento, os obstáculos ficavam por conta de nossos rios.

Verdade. Não é fácil mergulhar nos rios amazônicos, seja qual for a profundidade ou extensão. O pessoal encarregado desse serviço, todavia, seguia adestrando-se e a corporação adquirindo o material adequado. O desafio para esse treinamento surgiu quando o barco Dominique naufragou.
A Notícia (jornal dsaparecido). Manaus, 15 fevereiro 1980
 

“30 mortos no naufrágio do motor Dominique“ bradou a edição de 15 fev.1980. Em resumo, este barco afundou na madrugada de 14 de fevereiro, no rebojo “Ponto do Vapor”, próximo à sede do município de Codajás, no rio Solimões, quando “foi envolvido por um remanso em forma de uma imensa onda que virou o motor”.

A Notícia. Manaus, 15 fev. 1980
Entre os mortos, há “duas crianças de colo, uma de nove meses e outra de um ano,” e dezesseis com idade até quinze anos. Não há informação sobre o trabalho dos bombeiros nesse periódico (17 fev.), mesmo quando relata a busca e os cuidados com os sobreviventes.
Mas os homens-rã estiveram no local empenhando-se como sempre. Obrigados a recolher do rio os mortos. Será sempre um serviço doloroso, mesmo para os profissionais mais experimentados.
Homens-rã do Corpo de
Bombeiros
Dois destaques: a iniciativa do proprietário do barco, Manoel Viana Neto, em mobilizar “mais de 40 canoeiros para auxiliar a equipe de resgate que fora providenciada pela Capitania dos Portos”. O outro, o resgate do neném Alberto Marinho, de nove meses, amparado em “colete salva-vidas preso ao galho de uma árvore caída dentro do rio caudaloso”.

13 de abril de 2011

Incêndio no restaurante "Gabriela"

Restaurante Gabriela, 1980
O pomposo restaurante denominado Gabriela, mais conhecido como a “Casa dos Barões”, que funcionou por anos no boulevard Álvaro Maia, desapareceu na final de janeiro de 1980, quando as chamas lamberam-no do roteiro gastronômico. Seu proprietário, John Dalani, estimou o prejuízo em 15 milhões de cruzeiros, mas que tudo estava no seguro.
A edificação estava situada ao lado do supermercado Xeque Mate (depois Casa Roma). A casa de pastos atendia onde ontem funcionava o estacionamento do Roma, que a expansão urbanística igualmente devorou. Ao acidente, o jornal A Notícia, também desaparecido, emprestou aquele destaque.
John Dalani, o dono do
Gabriela
A delegada Graça Figueiredo, do DOPS, acompanhada do perito Orsine Ribeiro, prometeu não somente ouvir os envolvidos, mas buscar informações nos bancos sobre a situação da empresa. Em resumo, fumaça de curto-circuito.
O resumo do incêndio que destruiu o Gabriela é de A Notícia (31 jan. 1980):

O incêndio começou às quatro e meia da madrugada e seqüenciou-se com uma série de explosões, devido à quantidade de garrafões de gás existentes na cozinha, local onde principiou o fogo. John Dalani despertou com as explosões. Ele não sabia que a essa altura a parte da cozinha estava sendo destruída.
O Corpo de Bombeiros da Policia Militar utilizou seis carros pipas para trabalhar na debelação (sic) das chamas. Do outro lado da rua, John Dalani assistia calidamente à destruição do seu restaurante. Para ele, era como se estivesse acontecendo um show de “comedores de fogo”.

12 de abril de 2011

Polícia Militar do Amazonas (XVII)

Em 1955, ao assumir o governo do Estado, Plínio Coelho declarou em mensagem que havia encontrado a Polícia Militar do Estado em decadência. Trouxe para comandar esta Força Auxiliar o major do Exército Cleto Potiguara Veras, que fez o que foi possível.


Deixou iniciativas, como a instalação do policiamento do Cosme e Damião, que ainda em nossos dias patrulha a cidade. Não conseguiu, contudo, renovar o quadro de oficiais, que seguiam sendo promovidos sem curso de formação. A ascensão ao oficialato ocorria ou com o aproveitamento de sargentos ou pelo comissionamento de oficiais da reserva.
Gilberto Mestrinho substituiu a Plínio Coelho em 1959, e nomeou em 7 de março, para comandar a Força Policial ao Dr. Francisco de Assis Peixoto. Assis Peixoto, como era conhecido, era advogado conceituado, além de ter exercido o mandato de deputado estadual.

Apesar das dificuldades de cunho militar, Assis Peixoto foi um excelente administrador. Uma de suas iniciativas prosperou fartamente: o encaminhamento de policiais para as escolas de oficiais.

A turma pioneira, constituída de Hélcio Rodrigues Motta, Pedro Câmara e Pedro Rodrigues Lustosa, seguiu para a Escola de Formação de Oficiais da Guanabara, hoje Rio de Janeiro. Talvez a escola mais conceituada de então. A viagem aconteceu em 27 de fevereiro de 1960.

O Jornal. Manaus,
20 dez. 1962


A partir da esq. coronel Neper (subcomandante), aspirantes Câmara,
Lustosa, Helcio e coronel Farini (chefe da Casa Militar)
Os primeiros cadetes amazonenses enfrentaram uma “barra”, pois tiveram que disputar o curso com dez cariocas. Saíram-se uito bem. Aprovados em final de 1962, foram recebidos em Manaus na condição de aspirante a oficial, o primeiro grau na escala de oficial. E, a partir desse momento, a formação de oficiais mudou substancialmente.

Hoje, os três pioneiros são coronéis da reserva, tendo dois deles – Hélcio Motta e Pedro Lustosa – comandado a corporação.


Coronel Pedro Câmara

Coronel Helcio Motta


Coronel Pedro Lustosa


11 de abril de 2011

Convite à Poesia

Roberto Mendonça (ao fundo) fala no
lançamento de Convite à Poesia
Hoje à noite, conforme programado, ocorreu na Livraria Valer o lançamento do livro Convite à Poesia, de Anísio Mello. Trata-se de um livro póstumo deste artista, que faleceu ano passado nessa data. A apresentação da obra foi realizada pelo poeta Zemaria Pinto.
Os amigos abrigados na confraria do Chá do Armando promoveram a edição, e hoje reuniram outros amigos e admiradores do insígne poeta e prosador e artista plástico, entre outras referências, para as homenagens.
A edição trouxe outro ineditismo, a capa e a contracapa foram invertidas. Ainda não se sabe o motivo, pois o livro foi impresso em Fortaleza (CE) e os originais foram transmitidos pela internet. Algum virus preconceituoso interferiu, certamente. 

Desejo salientar que se trata da primeira publicação do Chá do Armando edições. Estamos contentes com o desfecho da iniciativa, esperando repeti-la em junho, quando será aberta a exposição O Legado de Anísio Mello.

Falando na reunião noturna, li o texto que o poeta Jorge Tufic enviou de Fortaleza (CE), lembrando o saudoso amigo Anísio Mello.
Queridos amigos do Chá do Armando: 
 
A memória que tenho de Anísio Mello remonta aos fins dos anos quarenta do século XX, por assim dizer, aos antecedentes do Clube da Madrugada. Sua mãe, dona Esther, era professora de desenho e pintura na própria casa onde moravam, à rua Dr. Moreira, em cujo porão, sempre aberto aos amigos, Anísio, que também desenhava e pintava, mantinha um prelo quase de brinquedo, no qual imprimia seu jornal de estudante do Ginásio D. Pedro II, chamado ¨O Eco¨.

Acadêmico Jorge Tufic
Ali, pois, nos reuníamos: Alencar e Silva, Guimarães de Paula, Farias de Carvalho, eu, além de outros menos frequentes ao papo literário porque mais chegados às serestas das noites amazônicas, esse outro grupo a que Anísio também pertencera. Na verdade, sendo múltiplo em suas atividades artísticas e culturais, esse poeta que hoje se edita com sua obra póstuma, jamais se ausentara dos círculos boêmios e letrados, quer estivesse em São Paulo, quer em Manaus, a partir de 1977, quando lhe dera na telha aventurar-se pela região do Juruá (Eirunepé), fixando-se, após, naquele famoso ateliê da avenida Joaquim Nabuco.

E agora, a revelação: deslumbrou-me a primeira visita que fiz ao Chá do Armando, vendo-me cercado por tantos poetas e intelectuais de nossa terra, e o nosso Anísio Mello no centro dessas movimentadas noites de sexta-feira! Tal qual o víamos no porão da rua Dr. Moreira, há cinquenta anos!

Para finalizar, embora fisicamente distante, considero-me presente a essa festa de lançamento do livro de Anísio Mello, ainda e sempre movido por aquele sentimento poético solidário e fraterno que até hoje nos une.
Parabéns, amigos do Chá do Armando!  
Jorge Tufic