CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

Mostrando postagens com marcador Max Carphentier. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Max Carphentier. Mostrar todas as postagens

domingo, julho 26, 2026

POEMA DOMINICAL (45)

 O autor - Max Carphentier (abril de 1945), publica este poema no Jornal do Commercio, edição do domingo, 25 julho 1976 - há 50 anos.

Jornal do Commercio, 25 jul. 1976 - não foi
possível identificar o ilustrador 

O CANTO DO POETA 

Ribalta de ninguém, esta / rotura clássica / do granito em sépalas / de espanto / 

não poderá tecer-te / de rápida platina: toda / liquifação da flora não / resumirá o ilógico do instante, / mormente o que separa o antes / do sempre nos cabelos da lembrança / firme, 

peregrina nas tumbas de um / deserto / (a tara fica, fica e vai / pousar apenas renda em / teus quadris).

E na fronte insentida / (que adormece) / o abandono cai com a mesma / consternação irreparável / da lágrima de um lírio / de setembro.

domingo, julho 05, 2026

POEMA DE DOMINGO (25)

 Max Carphentier Luiz da Silva (1945-) nasceu em Manaus, revelando-se poeta no conjunto da literatura amazonense na década de 1970. Pertence à segunda geração do Clube da Madrugada, que administrava a página O Canto do Poeta, Max é membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e da Academia Amazonense de Letras.

 

 

Recorte de A Crítica, 11 julho 1976, circulado
há 50 anos

REENCONTRO

Max Carphentier

Tenho-te agora mais antiga e / menos imponente / como os vestígios de uma catedral: / as asas de teus pés não mais conseguem / te suster no altiplano do sonho / e é forçoso dizer-te que os teus braços / não mais podem elevar-se sobre os montes / pra acender a manhã de que eu precise / nos desmaios das lágrimas noturnas.

Ah, aquela luz sonorizada / agora no teu rosto é apenas lenda / das fontes que a inventaram nos teus olhos. / Considero teus quadris: / ainda batismais e resolutos, / mas de seus extremos não mais pendem / minhas vestes azuis na redenção / de anjo crucificado sobre a neve.

Assim também teus cabelos, tua pele, / teus seios / (também teus seios não são mais as águias / prontas para o sacrifício do cordeiro) / tudo de ti, amor, vencidamente, / despiu-se dos milagres verdadeiros / que o amor enquanto busca te impusera.

 

sexta-feira, novembro 22, 2024

CLUBE DA MADRUGADA: 70 ANOS

Aproveito a efeméride de hoje para recordar a comemoração do Jubileu de Ouro deste clube, celebrada em 2004. O Largo de São Sebastião engalanou-se para abrigar a arena da celebração. Subiram ao palco músicos e literatos, jovens e remanescentes do movimento amanhecido em 1954, quando “um punhado de jovens, sequiosos por romper o isolamento da província, o isolamento geográfico”, resolveu “descobrir o verdadeiro comando de sua existência”, consoante o registro de um dos fundadores – Jorge Tufic, in Clube da Madrugada 30 Anos.

Teatro Amazonas e o palco dos festejos

Ainda em plena atuação, um dos fundadores, Luiz Bacellar (1928-2012), prestigiou o lançamento de livros de integrantes do Madrugada promovido pela Editora Valer. O autógrafo de Bacellar em Quatro Movimentos (1975) guardo o exemplar com religiosidade.

Personalidades presentes: músico Maury Marques;
poeta Max Carpenthier e o editor Tenório Telles (a partir da esq.)

Mais uma memória, do mesmo modo compartilhada do Tufic: em comemoração ao 7º aniversário do CM, a direção mandou confeccionar uma placa alusiva ao evento, com os seguintes dizeres:

Pois foi. Jovens se reuniram sob a fronde desta árvore; e aconteceu. Quando Madrugada, o Clube surgiu. Era novembro, 22, 1954.

 

terça-feira, setembro 22, 2020

ANOTAÇÕES ESPARSAS

Roberto Mendonça

Ao revisar o arquivo da Polícia Militar do Estado, nesses dias, em busca de dados sobre os oficiais da corporação, encontrei o registro abaixo, que me diz respeito. Assinado pelo coronel Guedes Brandão, ao final de sua administração em 1994, e escrito pelo coronel Fonseca Neto, apregoou sem salamaleques o assunto que atento há décadas, desde aquele período. A aprendizagem com afinco e a divulgação coerente da história do Amazonas, com especial dedicação ao setor militar estadual.

Digesto (Manaus: Imprensa Oficial, 1993) trata-se da minha primeira ousadia no âmbito da publicação. Ao intrometer-me até na idealização da capa, o resultado que passa é de muita indigência, daí ter sido alcunhado de “indigesto”. Ainda assim, agrada-me saber que tem sido referenciado em vários trabalhos acadêmicos de colegas policiais.

Meus agradecimentos aos coronéis Brandão e Osório, retribuindo-lhes os votos de fortunas.

Elogio: como assessor do Comandante-geral e Ajudante-geral da corporação deu provas convincentes de sua inteligência e visão administrativa. Tem contribuído de forma destacada para a história e a cultura de nossa corporação. Recentemente, elaborou cautelosamente um trabalho de catalogação de toda legislação histórica, um trabalho que por certo fundamenta a nossa história institucional: o Digesto.

Além disso tem sido um expoente cultural de nossa história. A este companheiro o nosso reconhecimento e votos de felicidades.

* * *

Quando do falecimento de Anísio Mello (abril de 2010), o poeta Max Carpenthier, expressando a perda da cultura, anotou a declaração aqui compartilhada. Todavia, devo consignar que na ocasião encontrei no quarto de despejo de Anísio Mello, não o artigo, mas um livro sobre o avô do Max. Tomei a iniciativa de reorganizar o trabalho, solicitando da Secretaria de Cultura a publicação. Minha solicitação foi bem sucedida, no que resultou o Hemetério Cabrinha: poeta (Manaus: Governo do Estado/Secretaria de Cultura, 2014).

Original de Max Carphentier

Anísio, artista de muitas Musas, da escultura à pintura, da poesia à prosa. Amigo de meu avô Hemetério Cabrinha, escreveu sobre ele um belo artigo, pelo qual sou grato. O Clube da Madrugada teve em Anísio sua inspiração constante, multifacetada. Elevemos nossas preces a Deus neste momento de angústia para a cultura amazonense.

Max Carphentier

quinta-feira, dezembro 21, 2017

NOVAMENTE É NATAL [4]

Detalhe da capa
Nossa cidade, no Natal de 2009, foi convidada a assistir o Concerto de Natal, denominado de Natal Amazônico, Tempo e Eternidade, que foi encenado no Largo de São Sebastião. Aconteceu na noite do Dia de Natal, e teve a Secretaria de Cultura como a gestora e produtora do espetáculo.

A inovação consistiu em transpor o cenário do nascimento de Jesus para as barrancas do rio Negro, nosso ancoradouro. O consagrado poeta Max Carpenthier, competente em sua produção regional e de cunho religioso, foi o autor do texto ganhador do concurso de dramaturgia criado para essa festa.

Era um tempo em que os homens lançavam seus insistentes olhares para a salvação do planeta. A Amazônia sempre despertou essa preocupação. Assim, do espetáculo, recolhi a Cena XV (O Credo do Cientista), que teve a Intervenção Eletrônica produzida pelo artista DJ Kleber Romão.



Cientista:

Senhor, na noite do Teu nascimento,
em que recordamos que a Encarnação
concentra no Teu ser o apogeu das forças
naturais e divinas, eu, que vivo a estudar os movimentos da evolução, rezo diante de Ti o meu credo amazônico:
 Eu creio que a conjugação das potências vegetais, animais
e líquidas incessantemente se desdobram em mais e mais
mistérios revelados, para a realização do destino
humano. Creio que a missão dos frutos, a doação dos
peixes, a múltipla vitalidade que se arrasta na jiboia, salta
na jaguatirica e alcança o céu nos pássaros, tudo é,
ao mesmo tempo, paraíso recapitulado, riqueza do presente, 
provisão do futuro. 
Creio na harmonização das sabedorias ancestrais e contemporâneas. Creio que a sustentabilidade inaugura uma nova era da Amazônia. Creio na convivência solidária da estrada e do rio. Creio na solidariedade entre a várzea e a fábrica, entre a tarrafa e o computador. Creio na complementaridade entre o tambor e o celular. Creio nas trocas culturais como processo civilizador. Creio que na preservação ambiental e no amor ao belo e às artes sustentamos o mais antigo fundamento da plenitude da vida.
Plenitude da vida, Senhor, é o outro nome do teu Reino. Amém.

sábado, novembro 22, 2014

CLUBE DA MADRUGADA - SESSENTANOS


Armando de Menezes, Astrid Cabral e Zemaria Pinto

O sexagésimo aniversário do Clube da Madrugada ocorreu hoje, e sucedeu exatamente na Academia Amazonense de Letras, levando-se em consideração que foi a única solenidade deste dia. A mesma entidade cultural que, nos primeiros dias do CM e com registro no Manifesto, fora defenestrada, repulsada, acusada da inércia de seus quadros, pelos jovens madrugadenses.
  

Ninguém se lembrou da praça da Polícia e do Mulateiro, pois, quem sabe uma reunião no local da fundação, junto à placa comemorativa, seria uma ótima sugestão. A manhã esteve mais para se conservar na cama, devido a temperatura reduzida pela ameaça de chuvas. O próprio tempo, portanto, colaborava com a efeméride.

A Casa de Adriano Jorge, sob a presidência do acadêmico Armando de Menezes, teve a iniciativa dessa comemoração, que se estendeu por todo este mês. A coordenação geral deste programa coube ao diretor de Eventos, acadêmico Zemaria Pinto, que proferiu a palestre de hoje, tratando da Poesia no Madrugada.

Alencar e Silva
Experiente, conhecido poeta, Zemaria Pinto discorreu com brevidade, mas com solidez sobre as gerações deste movimento. Dos fundadores, ainda produzindo, foi lembrado o poeta Jorge Tufic. Passaram pelo inventário do palestrante, entre tantos, os nomes de Antístenes Pinto, Alencar e Silva, Farias de Carvalho, Moacir Andrade, L. Ruas, Luiz Bacellar, do primeiro tempo. 



Tomo a liberdade de acrescentar o nome de Djalma Passos, lembrando que Jorge Tufic, em seu livro sobre os 30 anos do Madrugada, registra o nome deste poeta. Talvez a atividade política de Passos, como deputado federal, o tenha afastado da cidade e dos atuantes membros do clube.
 
Almir Diniz
Também foram citados os sucessores, sem a intenção de encerrar a listagem, Zemaria Pinto, um dos incluídos, mencionou Alcides Werk, Max Carphentier, Astrid Cabral (presente à sessão), Elson Farias, Anibal Beça, Anísio Mello, Aldisio Filgueiras. Lembrou, em especial, o nome do vice-presidente da Casa, Almir Diniz, que não pertenceu ao CM, mas que tem idade para ter sido um dos fundadores, mas que não esteve no palco.  Diniz justifica tal ausência pela sua condição, à época, de repórter de O Jornal, cujo trabalho o obrigava a “entrar pela madrugada”. Desse modo, não teve tempo para juntar-se aos clubistas.


A sessão teve ainda a participação do músico e arranjador Maury Marques que, com o banquinho e o violão, mostrou o arranjo que elaborou para diversas composições poéticas. Este trabalho foi realizado em parceria com o diretor de Eventos, que assinou os comentários sobre os poemas escolhidos. Tudo caminhava para o lançamento do CD Lira da Madrugada, com a mencionada obra, porém a empresa gravadora não concluiu o serviço. Ficou para uma breve oportunidade.

O comparecimento dos membros do silogeu amazonense foi reduzido, além dos citados (presidente e diretor de Eventos), estiveram presentes Max Carphentier, Astrid Cabral, Marilene Corrêa e Renan Freitas Pinto. A plateia, no entanto, correspondeu em número respeitável, tanto assim, que o Presidente, emocionado, ao fechar a sessão manifestou sua satisfação pela presença do grande público.

Assim, pois, até os SETENTANOS do Clube da Madrugada.
Vou estar presente! Assim espero, assim seja.

terça-feira, setembro 10, 2013

POESIA REUNIDA: L. RUAS


No próximo sábado 14, às 10h, na Livraria VALER, farei o lançamento do livro que organizei com a poesia do saudoso padre-poeta Luiz Ruas. O objetivo foi reunir em único volume as publicações Aparição do Clown (1958) e Poemeu (1985), e mais, o material que catei em jornais e revistas locais, enfim, os poemas em poder de homenageados e os hinos religiosos.

Conquistei a colaboração prestimosa do professor Marcos Frederico, que fez uma leitura da poesia de L. Ruas, passado mais de cinquenta anos desde o surgimento do primeiro poema. E do poeta Max Carphentier que, diante das composições poéticas, elaborou uma nova missa para o sacerdote. Devo registrar ainda a atuação do poeta Sergio Pereira, que assinou as orelhas da obra. Por fim, e tão importante quanto, agradecer ao padre Paulo Pinto que, em sadia homenagem ao velho amigo sacerdote – L. Ruas, morto em 2000, ultimou a publicação.
Preço promocional do livro: R$ 15,00 – quinze reais.

quinta-feira, maio 09, 2013

FESTA NA IGREJA

A paróquia do Sagrado Coração de Jesus, situada na rua Ferreira Pena, completa hoje 33 anos de funcionamento. Também hoje, seu pároco, padre Luiz Gonzaga de Souza, completa 43 anos de sacerdócio.
Coração de Jesus
Escrevo enquanto a chuva desce com vontade sobre a cidade, por isso, aproveito esta postagem para abraçar o pade Souza, do qual fui colega no Seminário São José. Claro que faz algum tempo, mas  deixemos de lado esse detalhe. Quero reconhecer sua dedicação à Igreja de Manaus, empenho concretizado nas paróquias pelas quais foi condutor.
Para saudar tão respeitável festa, reproduzo uma publicação do poeta Max Charphentier sobre o Papa Francisco (*).   

O TRÍPLICE FRANCISCO
Habemus Francisco! Quase primavera, na noite recém-nascida vaticana, o pastor olhou fundamente o rebanho das luzes, esperanças acesas numa praça. Quem viu, não pode esquecer: aquele olhar tinha toda a ternura da paternidade concentrada no amor. Pai anunciado como Francisco, logo percebi que o pastoral carinho daqueles olhos tinha uma explicação: nele estavam bênçãos de olhos que nunca se fecharam para nós, os de Francisco de Assis, de Francisco Xavier, de Francisco de Sales. Sim: Bergoglio, sendo Francisco, certamente assume e absorve, por evocação imediata e consanguinidade missionária, a presença e a renascença desses superiores da Fé, e portanto não é só Francisco, é Tríplice Francisco.
 
Papa Francisco
Três santos dos mais incensados tanto pelos altares como pela História, não há dúvida de que são exemplos, inspiração e chamado para Bergoglio. Eles foram papas sem cátedra na Terra, mas' com assento desde sempre no Céu. São Pedro não hesitaria em coloca-los entre os seus sucessores. Agora, por unção do nome e por necessidade, juntam-se num só, e deve-se perguntar em que medida, com que carisma cada um contribuirá como esteio e asa do Pontífice jesuíta.
Evoquemos primeiro Francisco de Assis, "esposo da obediência e da pobreza", um revolucionário da doçura, que pregava tanto a homens quanto a passarinhos para ter toda a criação reunida no louvor a Deus. Esse andarilho trovador da Fé invadiu com poesia evangelizadora as portas entreabertas do Renascimento, e seu Cântico das Criaturas é a página ecológica que faltava às Escrituras.
 
Nos "Fioretti", súmula dos ideais franciscanos, a beleza da verdade e a perfeita alegria da paciência são bênçãos de Francisco sobre nós. Príncipe de Jesus em túnica surrada, fez mais pelo bem do mundo do que luxuosas convenções de reinados. Abandonador de guerras e de faustos, ele ouviu do Crucificado o apelo para "restaurar a sua Igreja em ruínas", e atuou de imediato sob a interpretação literal da queixa, reconstruindo igrejas.
Depois, verificando que a ruína era mais doença dos costumes que das pedras, partiu para a atitude curativa e a pregação regeneradora, dentro e fora da Itália. Os estigmas que recebeu no monte Alverne, chagas no corpo abertas como rosas, testemunham sua penitencial configuração a Cristo. E que catedral pode ter torres mais altas do que os campanários invisíveis da sua Porciúncula? Na mediação entre as penúrias sociais e as inconsistências religiosas, Bergoglio há de ter, desse Francisco, a conduta, estrategicamente depuradora do século, de colocar-se exatamente no coração do povo, para iluminação nova dos destinos.
Verifica-se em seguida a contribuição de Francisco Xavier na composição dessa tríade em um só homem. Ele oferta logo o vaticínio dos fundadores, dado que foi um dos sete de Montmartre, que conceberam, sob a liderança de Inácio de Loyola, a inesgotável Companhia de Jesus.
Fundava-se aí a escola simultaneamente alcandorada e prática de Bergoglio. Começa a cruzada das Índias orientais, com Xavier arrastando mares na evangelização transcontinental tão heroica que até hoje consola os apóstolos das brenhas. Embora tenha ajudado na redação das Constituições da Companhia, Xavier foi mais homem de ação que de meditação, tanto que, em uma de suas cartas a Inácio, declarou sua vontade de ir às academias da Europa "sacudir aqueles que têm mais ciência do que caridade".
 
A caridade aí é principalmente a da palavra evangelizadora, que imediatamente afasta o negativismo antropológico que muitos sustentam diante da condição humana. O epistolário entre Francisco e Inácio constitui um compêndio que retrata as mais preciosas convicções destes santos. Ao lado das Constituições e dos Exercícios Espirituais, nessas cartas Bergoglio há de ter encontrado e encontrará de ambos a companhia na Companhia.
Eles seguirão junto a ele desbravando, levantando e construindo, sob a égide do clássico, uno e tríplice preceito inaciano: obediência de execução, obediência de vontade, obediência de entendimento.
Agora chegamos a um ponto de convergência doutrinária e devocional na figura eclética de Francisco de Sales. Bispo, escritor, fundador de congregação (Ordem da Visitação), pregador, diretor de almas, de fé imensa e coração maior. O púlpito flamejante, de onde ele sacudia luzes pontiagudas contra os calvinistas, foi o seu primeiro altar. Marcou de uma vez por todas a história espiritual da França e da Igreja, principalmente ao convocar-nos à devoção também fora dos claustros, à santificação da existência cotidiana.
Ele esclareceu sua predestinação diante da Virgem Negra, e logo dividiu seu coração entre o mais alto amor ao próximo e o mais belo amor a Deus. Com matéria de exegese mística e prática evangélica forjadas em sua têmpera de santo, criou duas chaves que descerram juntas salvíficos segredos: O Tratado do Amor de Deus e Introdução à Vida Devota. São monumentos de doutrina e de ascese que, reunidos aos seus milhares de sermões e cartas de direção espiritual, estão entre as páginas imperecíveis da literatura cristã de todos os tempos.
Francisco de Sales ensinava que a "caridade concreta" é o "êxtase da vida e das obras". Maravilha de síntese. Isto só pode ser palavra oculta do Sermão da Montanha, guardada para ser ouvida bem depois. Bastaria essa formulação, do mesmo nível de paulina, para identificá-lo como coadjutor das bem-aventuranças, como intelectual assistido pelo Espírito Santo. Bem-aventurados aqueles de caridade concreta.
Bergoglio bebeu dessa água que não passa, mas se multiplica e guardou-a em cântaro aberto para todos.O Papa Francisco movimentará dessas três vidas o louvor que busca, a certeza que age, o amor que liberta, assumindo-as no seu orar, no seu dizer, no seu fazer, fortalecendo a súplica, reevangelizando o mundo, redescobrindo o Cristo a todo instante. E isso sob a irradiação da Virgem, de intercessora graça tríplice também: Mãe de Jesus, Mãe da Igreja e nossa Mãe.
Serás feliz, Bergoglio, atirando as tuas redes com as mesmas mãos de Pedro e dos Franciscos. Agora digo, Tríplice Francisco de São Pedro, que o maior tesouro, a maior alma a ser recolhida das ondas conjunturais será - a própria Igreja. E o som da legenda miserando atque eligendo te parecerá sempre ecoando com as sílabas do "Segue-me!".
Tudo para a maior glória de Deus.
Dado em Manaus, quando março de 2013, primeiros dias do pontificado de Francisco.

(*) Reproduzido do Boletim da Academia Amazonense de Letras, abril 2013.