CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, outubro 25, 2026

POEMA DOMINICAL (155)

 

O poema postado nesse domingo é de autoria do poeta Álvaro Botelho Maia (1893-1969), circulado no Pathé Journal,  para comemorar o Natal de 1922. 


BANHISTA

Dança no mar a célere banhista,

roupão de seda, sob um sol de praga...

Ao marulho, áureo tango que embriaga,

abre a boca, ergue o ventre, o seio enrista...

 

Mergulha, emerge, nada à nossa vista...


O oceano, amante que a perturba e afaga,


esconde uma perfídia em cada vaga


para o instante supremo da conquista. 

No leito verde, que estremece e estronda,

soluça a carne da mulher robusta,

ao teu beijo, espuma, ao teu abraço, onda!

 

E, enquanto aperta os vagalhões em fúria,


ao lençol brando da estação adusta,


solta o vento lamentos de luxúria...  


sábado, junho 13, 2026

HUMAITÁ - ENERGIA ELÉTRICA

 No final de julho de 1968, a cidade de Humaitá recebeu a visita do governador Danilo Areosa (1967-71), acompanhado de vasta comitiva para realizar a inauguração de diversas obras, sendo a principal o gerador de energia. A postagem foi retirada do jornal A Crítica.

Jornal A Crítica, de 22 julho 1968

O GOVERNADOR Danilo Areosa acenderá hoje as luzes de Humaitá, ao inaugurar sua Central Elétrica, que consta como solenidade principal a ser cumprido naquele município, no programa que inclui o lançamento da pedra fundamental da Central Radiotelefônica da CAMTEL e a visita à Jornada Pedagógica que a Secretaria de Educação, ali está realizando.

— PROGRAMA

Com duas horas de viagem, o governador e comitiva serão recebidos às 10 horas em Humaitá por uma concentração na Praça Benjamin Constant e homenageados com um almoço às 12 horas. Às 15, visitarão a Jornada Pedagógica que a SEC está promovendo para aprimorar os professores do Ensino Médio daquela região, presidindo logo depois o reinicio das obras do Grupo Escolar “Osvaldo Cruz”, de acordo com promessa anteriormente feita pelo Secretário Vinicius Câmara.

Uma hora depois, será lançada a pedra fundamental da Central Radiotelefônica da CAMTEL. Algumas ruas terão suas obras inauguradas até às 18 horas, quando o governador acionará a grande chave, fazendo brilhar as luzes de Humaitá. Um jantar e um baile tomarão conta da noite e o regresso será na manhã de terça-feira.

— COMITIVA

Está assim constituída a comitiva do governador Danilo Areosa: senador Álvaro Botelho Maia, dep. federal José Lindoso e sra. Amine Lindoso, dep. federal Raimundo Parente, dr. Antonio Vinícius Raposo da Câmara (secretário de Educação e Cultura), dep. estadual Anfremon d'Amazonas Monteiro (vice-presidente da ALE), dr. Sinval Gonçalves (secretário de Imprensa e Divulgação), cel. Themistocles H. Trigueiro (chefe da Casa Militar), cel. José Maury de Araújo Silva (comandante da PMEA), cel José Mauro Carijó (diretor do DERAM), dr. Wilson Aguiar (diretor do Departamento Administrativo do MEE), dr. José Lopes da Silva (diretor-presidente da Celetramazon), engenheiro Ernani Vilar Câmara (diretor-técnico da Celetramazon), engenheiro Nélson Silva (Celetramazon), engenheiro Paulo Sotero (Celetramazon) dr. João Wanderley de Carvalho (assessor da diretoria da CEM), prof. Júlio José da Silva (diretor-administrativo da CAMTEL), dr. Idalmir Monteiro (odontólogo da Secretaria de Saúde), sr. Hélio Marques Trigueiro (chefe do Gabinete do Sec. Fazenda) sr. António José de Mattos Areosa (assessor da REGEAM-GB) e sr. Mariano Mendez (fotógrafo oficial).



domingo, maio 31, 2026

POEMA DE DOMINGO

     O poema deste domingo - Margem do Caminho - é criação do saudoso Álvaro Maia (1893-1969) publicado no jornal A Crítica, em 03 de fevereiro de 1958.

      
Recorte do jornal
 
    

                        — I —

O lutador subiu a estrada tortuosa...

Subiu, andou, pioneiro de horizontes,

cortados de planícies e de montes,

de longes de ouro e rosa,

colorindo a paisagem... 

Chegara extenuado da viagem

e repousava à sombra da vertente,

que amenizava a soalheira ardente... 

                        — II —

Sentou-se. Ergueu as mãos, no recanto risonho,

para agradecer ao Senhor

e o consolo da vida interior... 

Aos ombros carregava o alforje do passado,

que lhe tombou ao lado.

Abriu-o, devagar,

e pedras rolaram pelo chão. 

Brilharam ao sol quebrado,

algumas verdes como o mar,

outras letais como o pecado,

com brilhos de atração e repulsão. 

Acariciou-lhes as pontas entreagudas.

Pensou em gólgotas e judas,

(Jesus, porque foi homem, teve Judas!),

e nos que escondem, num sorriso,

punhais de aço com os gumes entreabertos. 

                        — III — 

Fechou os olhos e sorriu,

imerso no dulçor de um grande rio... 

Sonhos, ilusões, gosto e desgosto,

fluíram das pedras, como flama.

(Passam sempre nos dias de quem ama).

Esta acertou-lhe o rosto,

rasgando carne e derramando sangue,

outra o peito, outra a cabeça,

mas todas pingando sangue.

Surgiram, pela estrada espessa,

carrancas de inimigos

e feições de amigos,

transbordando crueldade

e piedade... 

Vivos e inquietos na tremenda luta,

lembravam vinganças e alvoroços. 

— “Só o lutador errou, pela escalada...

Mostrámos o caminho: errou na caminhada,

embaraçado em dédalo infernal,

em queda estranha e bruta... 

Andámos com razão em apedrejá-lo,

como se faz ao cão danado e ao mau cavalo!” 

                        — IV — 

Ele ouviu, em silêncio, a ameaça fatal

e pediu que o Céu lhe desse um resplendente halo,

que todos, fossem velhos, fossem moços,

fugissem, de uma vez, às vibrações do mal. 

Queria dormir... Pegou as pedras, uma a uma,

e bebeu um verdor de sumaúma... 

Eram duras à fronte fatigada?

Deitou-se. Não! Ganhara um encosto macio,

tecido de paina e espuma,

próprio para o calor e para o frio... 

Sentiu que as pedras se mexiam,

ouviu que as pedras cantavam,

como preces de luz em manhã clara... 

Todas as bordoadas e castigos,

o sangue e o suor que derramara,

transformaram-se em pêndulos dum hino,

em bússola e em coragem nos perigos... 

Renasceu, redimido e pequenino...

Quase lhe saltava o coração,

aureolado em sol aos que o feriram... 

E teve o prêmio da consolação,

agradecido aos que o insultaram,

vilipendiaram

e vergastaram,

saqueando o património de uma vida,

mas lhe deram também, em horas sem concórdia,

a alta conquista da misericórdia,

a sobrevivência

e a resistência,

a humilhação

e a exaltação,

a força espiritual de nova Vida!


domingo, maio 11, 2025

POESIA PARA O DIA DAS MÃES

 Este domingo (11) de maio é assinalado para comemorar o Dia das Mães. Aproveito a oportunidade para retornar à atividade da qual me afastei, por moléstia própria e do computador. Para tanto, tomei emprestado ao saudoso poeta Álvaro Maia um seu poema para completar a festa. Segue com um descuido grave do pesquisador: a falta de identificação do ano da publicação, sabido que foi realizada no Jornal do Commercio, em 24 de outubro.



 

 





Recorte do matutino

Deixando o Olimpo em esto e arremessos,

presos os cachos por sedosos nastros,

os deuses pelo céu gravaram, rastros,

encheram o alto de estendais espessos...

 

Em noites puras, o colar dos astros

brilha, quais joias de elevados preços,

-- brincos, rosetas, pedras, adereços,

cordões de luz, pulseiras e de alabastros...

 

Traçaram na passagem pelo mundo,

labirintos suspensos aos olhares,

o seu itinerário vagabundo...

 

Fugiram, dispersaram-se... E, chorosas,

morreram diluídas nos luares,

na voz das fontes e no odor das rosas... 

II 

Os olhos aos céus límpidos levanto,

na adoração das místicas estrelas.

O sonho, embevecido para vê-las,

agita a ideia em desvairado canto.

 

O pensamento circunvaga pelas

taças douradas do país do Encanto,

e quando volta, mergulhado em pranto,

vem com desejo de querer bebê-las...

 

Louras estrelas pelo azul perdidas,

mostrai à terra as faces diamantinas!

Fulgi, rastros de deusas foragidas,

 

Em lírios de ouro, em lúcidos junquilhos,

e recebei as lágrimas divinas,

as lágrimas de mães que lembram filhos...


domingo, fevereiro 23, 2025

POESIA DOMINICAL: ÁLVARO MAIA

 O poema foi produzido por Álvaro Botelho Maia (1893-1969), fartamente conhecido na história do Amazonas, tendo sido dirigente do Poder Executivo por largos anos, a última etapa foi entre 1951-55. Para sublinhar sua condição de artista da poesia, basta relembrar que, no início de 1925,a revista Redempção em concurso público, consagrou como o "príncipe dos poetas amazonenses".
A relíquia foi compartilhada do matutino A Crítica (08 fev. 1958), portanto há 67 anos.

Recorte de A Crítica, 8 fev. 1958



O lutador subiu a escada tortuosa...

Subiu, andou, pioneiro de horizontes,

cortados de planícies e de montes,

de longes de ouro e rosa,

colorindo a paisagem...

Chegara extenuado da viagem

e repousava à sombra da vertente,

que amenizava a soalheira ardente...

 

- II -

Sentou-se. Ergueu as mãos, no recanto risonho

para agradecer ao Senhor

e o consolo da vida interior...

 

Aos ombros carregava o alforje do passado,

que lhe tombou ao lado.

Abriu-o, devagar,

e pedras rolaram pelo chão.

Brilharam ao sol quebrado,

algumas verdes como o mar,

outras letais como o pecado,

com brilhos de atração e repulsão.

 

Acariciou-lhes as pontas entre agudas.

Pensou em gólgotas e judas,

(Jesus, porque foi homem, teve Judas!),

e nos que escondem, num sorriso,

punhais de aço com os gumes entreabertos.

 

— III —

Fechou os olhos e sorriu,

imerso no dulçor de um grande rio...

 

Sonhos, ilusões, gosto e desgosto,

fluíram das pedras, como flama.

(Passam sempre nos dias de quem ama).

Esta acertou-lhe o rosto,

rasgando carne e derramando sangue,

outra o peito, outra a cabeça,

mas todas pingando sangue.

Surgiram, pela estrada espessa,

carrancas de inimigos

e feições de amigos,

transbordando crueldade

e piedade...

 

Vivos e inquietos na tremenda luta,

lembravam vinganças e alvoroços.

 

-- “Só o lutador errou, pela escalada...

Mostrámos o caminho: errou na caminhada, embaraçado em dédalo infernal,

em queda estranha e bruta... 

Andámos com razão em apedrejá-lo,

como se faz ao cão danado e ao mau cavalo!”

 

-- IV –

 

Ele ouviu, em silêncio, a ameaça fatal

e pediu que o Céu lhes desse um resplendente halo,

que todos, fossem velhos, fossem moços,

fugissem, de uma vez, às vibrações do mal.

 

Queria dormir... Pegou as pedras, uma a uma,

e bebeu um verdor de sumaúma...

 

Eram duras à fronte fatigada?

Deitou-se. Não! Ganhara um encosto macio,

tecido de paina e espuma,

próprio para o calor e para o frio... 

 

Sentiu que as pedras se mexiam,

ouviu que as pedras cantavam,

como preces de luz em manhã clara...

 

Todas as bordoadas e castigos,

o sangue e o suor que derramara,

transformaram-se em pêndulos dum hino,

em bússola e em coragem nos perigos...

 

Renasceu, redimido e pequenino...

Quase lhe saltava o coração,

aureolado em sol aos que o feriram...

 

E teve o prêmio da consolação,

agradecido aos que o insultaram,

vilipendiaram

e vergastaram,

saqueando o patrimônio de uma vida,

mas lhe deram também, em horas sem concórdia,

a alta conquista da misericórdia.

a sobrevivência

e a resistência,

a humilhação

e a exaltação,

a força espiritual de nova Vida!