CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

2 de abril de 2011

Corpo de Bombeiros de Manaus (VII)



Soldado Nicanor Gomes, 1953
Major Nicanor, comandante dos
Bombeiros, 1970 
Encerrando a entrevista postada ontem, informo que o major Nicanor Gomes da Silva prossegue gozando uma existência controversa. Aposentado da corporação, segue empregado em atividade laboratorial. Desfruta ao menos de duas graças: a de ter pertencido por duas décadas (1953-1973) aos bombeiros municipais. Sua memória mitológica permite-lhe conhecer ao vivo a história dos municipais. E um pouco da Polícia Militar até 1984. Suas lembranças muito contribuiram para o livro que escrevo sobre Os Bombeiros do Amazonas.
A outra virtude: manteve a respeitada marca de, em 130 anos de existência do Corpo de Bombeiros no Amazonas, ser o único comandante do Corpo possuidor do Curso de Formação de Oficiais Bombeiros.

- Em 1966, a Polícia Militar incorporou uma turma de oficiais da reserva do Exército, renovando seus quadros. Em 1967, você ingressou no Curso de Formação de Oficiais Bombeiros. Como aconteceu essa oportunidade?

- Em 66, conclui o curso científico no Colégio Estadual do Amazonas. Logo depois, o comando do Corpo recebeu um ofício do comandante geral do Corpo de Bombeiros do Estado da Guanabara, oferecendo vaga na Escola de Formação de Oficiais. Como já tinha concluído o 2º grau, fui o candidato indicado pelo comandante.
- O comando, todavia, enviou junto outro colega seu.
Comigo seguiu o Agenor Dabela Marinho que era sargento, como eu, sem possuir o curso respectivo. Entretanto, o Marinho não foi matriculado na EFO, por não possuir o curso secundário completo. Mas, devido meu apelo, meu empenho junto àquele comando, ele conseguiu realizar o curso de formação de sargento. Explico: naquele nosso âmbito todas as promoções eram feitas por antiguidade. Ou seja, o camarada era antigo e, se se dava uma vaga, ele pegava a promoção. Resultado, o Marinho fez a escola de sargentos na então Guanabara e, ao final do ano, retornou para Manaus.
- Durante o curso, você costumava enviar alguma colaboração para o comando?
- Sim, enviei-lhe o Regulamento Disciplinar do Corpo de Bombeiros, porque o nosso bombeiro se utilizava do RDE, o famoso Regulamento Disciplinar do Exército. Então, o Regulamento Disciplinar do Corpo de Bombeiros já é mais amplo, tem uma parte disciplinar especifica que o Exército não adota. Foi utilizado inclusive o regulamento de promoção de oficiais, promoção de praças, para se observar o que fosse aplicado naturalmente à corporação.
- Você concluiu o curso no final de 1969. Mas, ainda fez um estágio?
- Antes de concluir o curso, solicitei um estágio, alegando que em Manaus não havia como rea-lizá-lo. Assim, realizei o estágio em nível de engenharia. Procurei observar bem a parte de hidrante, manutenção de hidrante etc., e completei o estágio em março de 1970. Quando retornei a Manaus, fui promovido a 2º tenente.
Foto de F. Nascimento, fundador de Foto Nascimento. A Crítica.
Manaus, 26 mar. 1956
- Em seguida, o prefeito Paulo Nery o nomeou comandante do Corpo.
- Exato! Por questão de legislação federal, pois havia uma lei no âmbito das Forças Armadas em que o comando dos Bombeiros, de um modo geral, só poderia ser exercido por oficial possuidor de curso de formação. No caso, sou o primeiro oficial formado em escola de bombeiros para o Corpo de Bombeiros do Amazonas. Como os meus colegas amazonenses não possuíam curso e, promovidos por antiguidade, como assinalei a pouco, gozei o privilégio de ser nomeado comandante do Corpo de Bombeiros. Para tanto, fui comissionado no posto de major.
- Você comandou o Corpo de Bombeiros entre 1970 e 1973. Como foi o seu comando?
- De início, pautado pelas dificuldades existentes. O Corpo de Bombeiros tinha que manter suas viaturas em dias, no entanto, as viaturas já estavam defasadas. Existiam somente carros velhos, precisando de forte manutenção, assim, com recursos poucos, as dificuldades eram enormes. Logo no início, preocupei-me em colocar em funcionamento o maior número de viaturas, para enfrentar e combater aos incêndios, haja vista que a Zona Franca estava se desenvolvendo, o cento comercial da Cidade em expansão e o Distrito Industrial em construção. E o Corpo de Bombeiros tinha que acompanhar essa evolução, todavia, estávamos aquém dessas possibilidades.
- Quanto ao pessoal, o que foi realizado?
- O Corpo de Bombeiros na época dispunha de noventa homens, do comandante ao soldado. Mas, desse contingente existia pessoal de férias, doentes e outros à disposição. O contingente era bem reduzido, apesar disso, as equipes de serviços, de combate à incêndios, de guarda do quartel eram mantidas. Do restante, o disponível era dividido em duas equipes, uma de serviço e outra folgando da escala de serviço do quartel. O pessoal de folga, porém, não deixava o quartel, porque permanecia às ordens do Prefeito. Os Bombeiros continuavam executando serviços alheios aos do quartel, como repressão a camelôs; repressão a feiras irregulares; apreensão de animais soltos na rua; o lixo que a população colocava em local indevido. O homem do fogo tinha que executar. Isso constituía seríssimo problema, que enfrentei no meu comando, porquanto a finalidade dos Bombeiros não era aquela. Não sobrava tropa sequer para se desenvolver um plano de instrução. Somente acabamos com esse negócio, em 1972.
- Insisto em perguntar: que benefícios você implantou para o pessoal do Corpo de Bombeiros?
- No inicio do meu comando, as dificuldades para manter o pessoal de serviço eram grandes. Pois a prontidão de incêndio não podia mais ser desmembrada, para alimentar-se em casa, como anteriormente. A tropa escalada tinha de permanecer as 24 horas no quartel.
Para facilitar a alimentação, logo fiz abrir uma cantina, ou coisa parecida; organizei o Armazém Reembolsável, destinado ao fornecimento de gêneros alimentícios. Naturalmente, realizado com muito trabalho! O valor das compras era descontado em folha de pagamento, para que fosse feito também o pagamento dos fornecedores. O armazém fornecia o gênero alimentício, descontava em folha e pagava o fornecedor. Consegui manter durante todo meu comando! Com isso consegui aliviar aquela tensão do pessoal que comprava fiado nas tabernas. Muitos, ao chegar o dia do pagamento, não conseguiam pagar o taberneiro! A confusão chegava ao quartel.
O problema do rancho, a falta do rancho prosseguia. Ao assumir, verifiquei que não havia or-çamento para o rancho. Por essa razão, o ano de 1970 foi bem difícil. O comando não podia fazer praticamente nada! Mesmo assim, com gêneros disponibilizados pelo Armazém Reembolsável, foi possível preparar sopa pro pessoal, e servida no quartel. Era o que se podia fazer, certo?
Publicado em A Notícia. Manaus, 30 ago. 1980
- Ainda sobre o pessoal. Qual foi sua iniciativa para instruir e especializar o efetivo?
- Obtive reconhecida ajuda do então Capitão dos Portos, comandante Mário Jorge da Fonseca Hermes. Ele foi um colaborador, muito amigo do Corpo de Bombeiros. A princípio, ele conseguiu no Centro de Adestramento Almirante Marques de Leão, no Rio de Janeiro, incluir no curso de combate a incêndio em navios uma equipe nossa. Essa mesma equipe, aproveitando a viagem, cumpriu um estágio no Corpo de Bombeiros da Guanabara.
Reconheço que foi bem sucedida essa missão, pois os elementos retornaram com aproveita-mento. Coube ainda ao comandante Hermes disponibilizar dois instrutores de combate a incêndio. Com o auxilio desses instrutores, realizamos cursos não só para o pessoal do Corpo, como para as brigadas de incêndio da Companhia de Eletricidade e outras do Distrito Industrial. Estou convencido de que cumpri ótima jornada, a de 1971 e 1972, pela reforço do comandante Hermes.


- Em 1972, o comandante da Polícia Militar, coronel Paulo Figueiredo, coordenou o trabalho de incorporação do Corpo de Bombeiros Municipais na Polícia Militar. Como foi que você tomou conhecimento dessa iniciativa?
- Nos idos de 1972, o coronel Paulo Figueiredo me convocou e me colocou a par da pretensão do governo do Estado. O cumprimento de legislação federal que determinava que os corpos de bombeiros, particularmente os sediados nas capitais, fossem incorporados às policias militares. A lei era mais conhecida pelo codinome de R–200. Toda a coordenação coube ao coronel Paulo Fi-gueiredo, mas, naturalmente, o assessorei dentro do possível, com as informações sobre o Corpo de Bombeiros.
- O prefeito Paulo Nery participou desse movimento? Falou com você sobre...
- Falou, falou! Sempre quando estávamos juntos... No final de 1972, o Corpo de Bombeiros rece-beu a visita de uma equipe de técnicos franceses, encarregada de elaborar estudos sobre o combate a incêndios e sinistros na capital. A equipe veio chefiada pelo coronel Robert Abadie, oficial do Corpo de Bombeiros de Paris (FRA), e mais dois engenheiros. Eles permaneceram aqui por duas semanas, subvencionados pela Aliança Francesa.

- Essa transferência passava por questões cruciais, como a dos oficiais bombeiros, que se preocupavam com a nova situação. Os oficiais foram selecionados e, sui generis, “rebaixados”. Quais são suas lembranças?
- A princípio, foi trágico. É duro relembrar aquela situação desconfortável que alcançou meus companheiros. Eu me lembro da última vez que nos reunimos, como comandante foi exatamente na assinatura do convênio. Tivemos uma reunião no comando do Corpo de Bombeiros e, posteriormente, nos deslocamos ao Palácio Rio Negro para a assinatura do documento de convênio.
Realizada a passagem de comando, desencadeou-se aquela torrente de normas que redundou no “rebaixamento” dos oficiais. Todos foram rebaixados a 2º sargento, o major Nascimento, Sebastião Vicente do Nascimento... que tinha sido comandante dos Bombeiros. O 1º tenente Tertuliano da Silva, o 2º tenente Francisco Morais de Lima, e até o subtenente Antonio Ferreira da Silva. Todos foram aviltados, com o rebaixamento à graduação de 2º sargento.
Placa no mausoléu da família do ex-comandante dos Bombeiros,
Sebastião do Nascimento, rebaixado a sargento
- Você era originalmente 2º tenente, apenas estava comissionado major. Como você foi aproveitado?
- Apesar de ter ocupado o comando no posto de major, a situação era de comissionamento. A partir da cessação do comando, teria que assumir minha condição de 2º tenente. Então, para mim foi normal, não encarei isso como desonra. Reconheço o privilégio recebido, como 2º tenente ser comissionado no posto de major e nomeado comandante do Corpo de Bombeiros.
Quero aqui enfatizar, igualmente, que a minha escalada no Corpo de Bombeiros de Manaus é singular, pois sou o único bombeiro a incluir como soldado e alcançar o comando da corporação.


- Você foi bem aceito pela turma da PM? Você pouco tempo depois pediu sua demissão da Policia Militar. Quais as razões dessa desistência?
- Diversas foram as razões. Uma em especial: muito me deixou desestruturado, assim dizendo, a situação dos meus companheiros. Rebaixados, submetidos a humilhante rebaixamento, sem nenhuma nota de culpa, pelo simples fato de terem pertencido ao Bombeiro Municipal. Por outro lado, alegavam os novos colegas da PM que eu não possuía formação, que não sei mais o quê e tal. Isso não era coisa para se levar em consideração, afinal o Bombeiro é uma entidade que sempre existiu, ora subordinado ao Governo do Estado ora subordinado à Prefeitura.
Qualquer uma dessas autoridades detinha o poder para nomear seus oficiais, nomear seus comandantes. Esses oficiais, portanto, deveriam existir como existiram. Foi para mim de muita surpresa ver os companheiros “rebaixados”, da maneira como foram humilhados. Para mim que fora colega e comandante de todos eles, eu me sentia muito... muito... como dizer? Fiquei muito magoado, triste com a situação. Isso pra mim... (visivelmente emocionado)
- Você não podia fazer nada!?
- Eu não podia fazer nada. Veio do alto, despencou como se fosse um meteoro na nossa cabeça.


- Como você foi recebido pelos seus colegas tenentes da PM?
- Após a solene encampação do Corpo de Bombeiros, contada a minha promoção de 5 de março, fui efetivado na PM com aquela data. Exatamente à frente de todos os 2º tenentes ali existentes. Para mim, aquilo ato foi normal. Depois, todavia, senti uma reação contrária, muito grande contra a minha pessoa. Nesse tempo, coisas desagradáveis aconteceram em minha vida, desencadeando outras coisas, como o problema do “rebaixamento”. Confesso que esse fato gerou em mim uma situação bastante negativa. Então, eu pedi para sair da PM.
- Você foi indicado para fazer estágio em Paris. Mas, um pouco antes da viagem, você desistiu. Desistiu e, seguidamente, pediu demissão da PMAM. Agora, pergunto-lhe: por que você desistiu de ir à França?
- Não foi bem questão de desistência, de não ir à Paris. Foram pressões que... pressões de toda sorte, de todo lado...
- ... de oficiais que também queriam ir?
- Muitos oficiais queriam pegar aquela bolsa de estudos, conhecer Paris etc. e tal. A coação sofrida gerou um problema muito sério pra mim, tão sério a ponto de optar por uma retirada.

- Qual foi a maior sensação de trabalho ou de sinistro que você enfrentou?
- Aconteceu na usina de beneficiamento de borracha Hévea, próxima da Penitenciária Central do Estado, em novembro de 1970. Eu era o comandante dos bombeiros. O incêndio foi tão intenso, lamentavelmente, pelo material de fácil combustão que ardia com intensidade. Como perdemos a oportunidade de extingui-lo, o fogo ardeu por tempo indeterminado, queimando o que tinha para queimar! O prédio ficou todo destruído.
Outro severo incêndio ocorreu em uma aeronave, no aeroporto Ajuricaba, em abril de 1971. Tratava-se do avião bimotor da Força Aérea Brasileira, que faria o trajeto Manaus – Campo Grande – Rio de Janeiro. Decolou às 7h, mas poucos minutos depois pediu pista de emergência e... quando entrou na pista um dos pneumáticos estourou e, em consequência, o avião incendiou. Foi uma tragédia! Morreram muitas pessoas. A intensidade da tragédia abalou a Cidade.
- Você particularmente andou preocupado com o resgate do corpo de uma criança.
- Correto. Removendo os destroços do avião, e parte da fuselagem do avião para tirá-lo da pista, embaixo da fuselagem estava o corpo de uma criança. Fora esmagado pelo peso do avião em chamas, por isso o corpo da criança estava como que cozido.
- Isso afetou você?
- Afetou demais!

- Para encerrar, uma palavra sobre sua família.
- Nós eramos sete irmãos. O mais velho veio a falecer e, agora, minha mãe com 100 anos de idade, deixando a saudade entre nós. Mas a minha vida continua!