CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

1 de abril de 2011

Corpo de Bombeiros de Manaus (VI)

Tenente Nicanor Gomes
Em março de 2008, entrevistei ao Nicanor Gomes da Silva, capitão da reserva da Policia Militar, nascido em Itacoatiara (AM) em 1939. Ainda adolescente (14a), o filho de dona Guiomar Gomes da Silva e seu Pedro Urbano Florêncio foi incluído no Corpo de Bombeiros de Manaus. Apesar dos percalços, nunca deixou de estudar, tendo concluído o curso médio no tradicional Colégio Estadual do Amazonas.
Em 1967, foi matriculado na Escola de Formação de Oficiais (EFO) do Corpo de Bombeiros da Guanabara. Ao cabo do curso, aprovado em 8.º/23 alcançou o oficialato e o comando do Corpo de Bombeiros de Manaus, onde permaneceu até janeiro de 1973, quando essa entidade foi absorvida pela Polícia Militar. Neste novo estágio, tenente Nicanor Silva manteve-se até sua transferência para a reserva, em 1984.



Vamos do começo. Você nasceu em Itacoatiara? Não, eu nasci em Manacapuru. Ocorre que, ao ser registrado, por equívoco o escrivão do cartório registrou-me como nascido em Itacoatiara. Na realidade, nasci em Manacapuru.
Com quantos anos você chegou ao Corpo de Bombeiros? Cheguei ao Corpo de Bombeiros aos 14 anos, incorporado em 2 de fevereiro de 1953.
Naquele tempo, eram poucos os que escolhiam os bombeiros. Sim. Porque a Companhia de Bombeiros possuía um efetivo de 30 homens, contando os oficiais, comandantes etc. Pouca gente se interessava em servir a Companhia de Bombeiros.
Em 1951, o Estado passou para a Prefeitura a responsabilidade pelo serviço de bombeiros. O pessoal do Corpo, entretanto, permaneceu no quartel da Policia Militar. Essa era a situação quando você chegou em 1953. O comandante da Companhia de Bombeiros Municipais era o... o capitão Izidoro Castilho, da Policia Militar. Ele comandava a Companhia de Bombeiros na época em que fui incorporado.

Você chegou aos bombeiros com a ajuda do tenente... tenente Antonio de Souza Barros, meu cunhado. Como secretário da Companhia de Bombeiros, ele conseguiu com o comandante o beneplácito para minha incorporação.
Mesmo aquartelados na própria Polícia Militar, que possuía rancho, os bombeiros não tinham direito de comer no mesmo rancho? Nós não tínhamos direito de comer no rancho da Polícia.
A Companhia de Bombeiros possuía alguma viatura? Na época, a companhia era totalmente desprovida de viaturas de combate a incêndios. Existia apenas uma antiga escada de madeira, totalmente de madeira; seu funcionamento era manual, por meio de catracas. Essa escada ficava recolhida à garagem da Companhia de Bombeiros no prédio do quartel.
O Jornal. Manaus, 7 jan. 1959
Em 1952 surgiu a Sociedade dos Bombeiros Voluntários de Manaus, dirigida pelo coman-dante Ventura, ainda lembrado. Os voluntários estavam sediados no bairro de Aparecida e, de alguma forma, substituíam os municipais. Os bombeiros municipais e voluntários acabavam se integrando para combater algum incêndio ou sinistro. Exatamente! Naquela época quando surgia um incêndio, os voluntários deslocavam uma viatura de combate com o pessoal disponível no momento. Incontinenti, mandavam outra viatura para a Companhia de Bombeiros para recolher o pessoal da prontidão de incêndio, os escalados de serviço. Lá, trabalhávamos em comum acordo com o comandante Ventura.
É possível relatar o primeiro incêndio do qual você participou? Aconteceu em uma madrugada de março de 1953, na rua da Instalação. Eu morava no quartel. Quando o incêndio irrompeu, tive que comparecer ao local do incêndio saindo do quartel e cor-rendo a pé, com uma secção de mangueira às costas, no ombro. Em lá chegando, começamos a combater o incêndio, mas a mangueira não resolvia nada. Mesmo porque a água era muito pouca. Findamos por formar uma interminável fileira de latas de água desde o chão até o telhado. Foi uma noite de muito trabalho!
E, como se chamava a loja? Chamava-se "Palácio do Brinquedo", e ficava ao lado da "Farmácia Vitória", na rua da Instalação.
Então, foi pela farmácia que os Bombeiros... que nós conseguimos chegar até o telhado do prédio que estava incendiando e, de lá, jogávamos água com as latas.
Nessa noite você conheceu os voluntários? Exatamente! Nessa noite aconteceu meu primeiro contato com os bombeiros voluntários, os quais chegaram ao local em um caminhão cheio de “camburões” de água e uma “bombinha”. Colocavam a bombinha em um camburão, bombeavam a água e, quando a água acabava, passavam a outro, assim por diante. O pessoal ajudou muito, mas a fila da lata de água...
O Jornal. Manaus, 18 ago. 1956
Em 1955, Plínio Coelho assumiu o governo, declarando a Polícia Militar falida. Sobre os bombeiros, nada falou. O capitão Edmundo foi mantido no comando dos bombeiros e os Bom-beiros seguiam com as suas dificuldades. Houve alguma mudança no Corpo de Bombeiros? Não. Mas, na época do governo Plínio Coelho, o Departamento de Estradas recebia ordens do próprio governador. Assim, o Departamento preparou artesanalmente uma viatura para os bom-beiros, montando uma pipa em chassi marca De Soto. Não me lembro bem, mas o tanque era para 2000 litros e, com aquilo passamos a enfrente as ocorrências de incêndio.
Para comandar a Polícia Militar, o governador Plínio Coelho nomeou o major Cleto Veras, que deixou algumas amargas lembranças. Como foi o entrevero dele com os Bombeiros Municipais? Foi lá pelos idos de 1957. Um caso assim... o resultado de uma briga particular deles, dos co-mandantes. Quando se aproximava a festa da Independência, dia 7 de Setembro, a Polícia Militar sempre desfilava ostentando uma armadura de ferro, uma armadura de guerra, com um policial militar dentro da armadura, em cima de um jipe, assim desfilava no dia 7 de Setembro. Em 1957, o comandante da Polícia Militar, coronel Cleto, pretendia que o capitão Edmundo Monteiro empunhasse a citada armadura. O capitão ao experimentar a armadura, sentiu que o elmo lhe apertava o rosto. Ora, logicamente que se o apertava ele não iria suportar, porque aquilo esquentaria debaixo do sol e queimaria o rosto dele. O capitão não aceitou, ponderou, e dali começou a briga. E o quebra-pau se encerrou quando o coronel Cleto Veras, indo ao alojamento da Companhia de Bombeiros, determinou que os bombeiros se retirassem do seu Quartel.
E os bombeiros saíram, levando somente os colchões? (risos) As camas estavam na Companhia de Bombeiros, mas pertenciam à carga da Polícia Militar. Então, em pleno dia, pela avenida Sete de Setembro acima saímos carregando os colchões às costas. Cada bombeiro carregou o seu colchão! E fomos nos alojar em um prédio municipal detrás da sede da Prefeitura, que servia de garagem, de depósito de veículos velhos, sucateados.

Onde você concluiu o curso científico? Conclui-o no Colégio Estadual do Amazonas.
Como era estudar e trabalhar? Eu trabalhava e estudava. Eu tinha que trabalhar no quartel, mas ainda mantinha meus “bicos” nos hospitais, pra ajudar no orçamento. À noite, ia pro colégio.

Os vencimentos dos bombeiros eram pagos regularmente? Havia atrasos, sim. Logo no ano entrei, em 53, a Prefeitura ficou me devendo os meses de ou-tubro e novembro. Nunca os recebi! Em 1954, fiquei sem receber até o mês de julho. Consequentemente, perdi nove meses de vencimentos. Entreguei a Deus! Daí, a grande falta de interesse em servir a Companhia de Bombeiros. Só aquele pessoal mais antigo que estava lá, acostumado com a vida da corporação. Alguns moravam no quartel, como eu.

Os bombeiros não possuíam viaturas, nem equipamentos. Por isso, trabalhavam para a Prefeitura nas feiras, nos mercados e nos jardins. Como era realizado esse trabalho? Isso vinha de muito tempo. Quando fui incorporado à Companhia de Bombeiros, a Prefeitura utilizava os bombeiros pra outras finalidades. Por exemplo: coleta de lixo, que se fazia à noite; faxina no Teatro Amazonas, quantas e quantas vezes fizemos faxina no Teatro Amazonas.

E, por falar no Teatro, os bombeiros chegaram a limpar a colorida cúpula? Falava em faxina por dentro. Agora, em 1955 e 56, quando o bombeiro recebeu a viatura montada no Deram, foi encarregado de limpar a cúpula do Teatro Amazonas pelo lado de fora. Os bombeiros subiam por dentro da cúpula, dali passavam para o lado de fora e desciam até a calha existente lá em cima. Então, seguros pela corda, dirigiam a mangueira com água. O mencionado carro lançava a água para cima, usando o hidrante de incêndio. E o pessoal, lavando. Passavam-se duas ou três semanas para fazer aquele serviço todo.

Penso que sem equipamentos, com vencimentos atrasados, a turma preferia ir pro mercado, porque sempre sobrava uma ajuda de custo, uma ajuda de... Aquele pessoal que era casado, então... Eu era solteiro, mas também fazia meus bicos. Na folga, trabalhava na estiva (Porto de Manaus), como avulso. Tirava castanha, cortava borracha no entre-posto, caixaria de estiva, aquela coisa toda. Tinha que pegar serviço extra para exatamente suprir a falta de pagamento. Nesse tempo, em que a Prefeitura não pagava a gente, a gente não tinha praticamente pra quem recorrer.

Lembro a questão do vício da bebida alcoólica que atingia a maioria, do oficial ao soldado. E você, aos 14 anos, como é que você lidou com isso? A principio, eu fiquei quieto porque era muito novo, muito jovem, eu não bebia nem fumava. Mas, com o passar do tempo, fui me influenciando com festa pra lá, festa pra cá; em festa se bebia, fumava-se, eu achava bonito. Também o cinema mostrando os artistas com o cigarro na boca. Era a moda da época, o cigarro (risos).

Os voluntários iam muito bem, quando aconteceram dois acidentes devastadores: o primeiro, em maio de 1960, que matou o subcomandante Constantino Machado. Como foi este acidente? No dia desse acidente, aconteceu um incêndio na usina Três Unidos. Era uma fábrica de beneficiamento de castanha localizada na rua Visconde de Porto Alegre com a rua Ipixuna. O pessoal da Companhia de Bombeiros estava empenhado no incêndio, apesar de estarmos sem viatura, mas utilizávamos as viaturas dos Bombeiros Voluntários. Os voluntários também estavam empenhados no incêndio. Já no final da tarde, ainda com o incêndio em andamento, o comandante Monteiro me dispensou pra ir jantar em casa, já que não existia refeição no local. Depois do jantar, fui pro colégio, pois tinha prova. Regressaria pra continuar o trabalho noite afora. Nesse intervalo, soube que a viatura que transportava o subcomandante Constantino Machado, ao cruzar a av. Sete de Setembro com a av. Eduardo Ribeiro, chocou-se com um ônibus da Transportamazon. Ali aconteceu a tragédia.
Em dezembro do ano seguinte aconteceu a outra, matando o comandante Ventura. E mais o soldado... Mario de Assis Sá.
Quartel dos Bombeiros de Manaus na avenida Sete de Setembro.
O Jornal. Manaus, 19 maio 1963
Os bombeiros, a partir de 1962, começam a se expandir, com seu efetivo aumentado. Qual a sua opinião nesse sentido? É a seguinte: já na gestão do prefeito Josué Cláudio de Souza a prefeitura adquiriu dois carros de combate a incêndio, um autobomba para inflamável (ABI) e um autobomba tanque (ABT). Também, a auto-pipa Mercedes Benz, com tanque para 7.000 litros, que muito ajudava no combate aos incêndios. Destinou a picape F-75 para o transporte de pessoal, do comandante e da tropa, serviço rápido etc. O Corpo de Bombeiros começou a crescer a partir daquela época, despertando interesse em muita gente. Enfim, a Companhia de Bombeiros mudou a denominação para Corpo de Bombeiros Municipais.
Quase sempre se destacam as dificuldades básicas dos bombeiros, todavia, a cidade de Manaus não contribuía. Por exemplo, a questão de hidrante, a distribuição de água, a pressão da água, toda uma infraestrutura. Como era isso? Essa estrutura era pouco funcional. Porque não havia manutenção de parte da Repartição das Águas, não havia manutenção dos hidrantes. Não raro, a gente chegava num hidrante pra pegar água, e o hidrante estava travado. Pior, a gente não conseguia abrir o registro, porque estava travado. Certa ocasião, aconteceu um incêndio na rua Marechal Deodoro e o hidrante estava travado de tal forma que, ao se forçar a abertura, foi quebrado seu pistão. E, pior ainda, não conseguimos água. Que se fazia? Os carros se deslocavam do incêndio para abastecer na piscina do Parque Dez de Novembro. Isso era comum nos incêndios, pois não se podia recorrer aos hidrantes. Primeiro, porque não havia pressão d’água. Segundo, os hidrantes não tinham manutenção. Eram hidrantes subterrâneos, ficavam abaixo do nível da calçada e, em geral, soterrados ou cheios de areia ou de terra, que vinha com a chuva.
Você está falando da área do centro da cidade. E, como era na periferia? A maioria das casas da periferia era construída de madeira e coberta de palha, de palha branca. Assim, quando ocorria um incêndio numa dessas casas era uma calamidade! Em pouco tempo, dez, 15 casas eram devoradas pelo fogo. E também, continuava a dificuldade dos Bombeiros, quanto ao abastecimento de água pro incêndio. Continuava pegando água do Parque Dez, tudo era muito difícil!

Bombeiros efetuam o rescaldo em incêndio. Major Nicanor (à dir.)
observa. A Crítica. Manaus, 14 out. 1971 
Como os bombeiros eram avisados em caso de incêndios, de sinistros? A situação era muito dramática, porquanto, à noite, o aviso de incêndio era dado pela sirene da fábrica de gelo instalada no chamado Plano Inclinado, onde hoje se encontra a fábrica da Kaiser. Ainda lá se encontra a chaminé e a sirene no topo. O ruído era bem ouvido lá na Sete de Setembro. De dia, era anunciado pelas emissoras de rádio. Anunciado o incêndio e o lugar a gente saía de casa, correndo até ao local do incêndio. Lembro-me desse incêndio na rua da Instalação, falado acima, e do então cabo Tertuliano... O incêndio aconteceu de madrugada, ele correu do bairro de São Francisco, onde morava, até àquela rua.

Vamos prossegir amanhã com a entrevista do ex-comandante do Corpo de Bombeiros de Manaus, major Nicanor Gomes da Silva.