CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

16 de outubro de 2011

L. Ruas: oitentanos (2)

Outra homenagem aos 80 anos de nascimento do padre-poeta Luiz Ruas, que completaria em 28 de novembro. Entre 1957 e 58, o homenageado exercitou sua aptidão jornalística em A Crítica. Escrevia a coluna às vezes diária, intitulada Ronda dos Fatos.



Padre Luiz Ruas
Como o título deixa entender, L. Ruas articulava de tudo quanto a cidade de Manaus reclamava ou exibia. Reproduzia também acontecimentos nacionais, posto que era ávido leitor de jornais e revistas nacionais. Lembrando aos de hoje que esses periódicos chegavam a Manaus com dias de atraso.


Para homenagear o Dia do Professor, ontem comemorado, reescrevo a crônica de L. Ruas, tema de sua Ronda. Ele falava com propriedade, pois foi durante a vida um professor de várias gerações.


15 de outubro de 1957


No dia consagrado aos professores não me ocorrem os que já exercem o magistério ou os que já exerceram por muitos anos e por muitos heroísmos, mas me vêm à lembrança aqueles que se preparam para exercê-lo. Digamos aquelas que se preparam porque a maioria dos professores de escola primária são professoras. E é até bom que seja assim. Se a escola, o jardim da infância, o grupo escolar são uma continuação da família convém que a criança continue a experimentar aí os carinhos maternos e aquela peculiar energia materna o que encontrará com facilidade nas professoras algumas ou muitas das quais além do tirocínio de mestras já exerceram o de mãe.

Todas as manhãs encontro-me com elas. Alegres. Rindo. Conversando animadamente aos grupos de três, de quatro, de duas, raramente, sós, elas se encaminham sob a luz auripurpúrea do sol nascente, sobraçando os livros e os cadernos de pontos, metidas na jovial saia azul e blusa branca, nos pés uns sapatinhos pretos que me evocam imediatamente as sapatilhas de balé ou de um balé irrequieto, desmedido, garantia de que dançam nos corredores do Instituto de Educação, nas salas de aula, das carteiras para o quadro negro, na animação dos recreios.
L. Ruas (à dir. em pé), na Academia de Letras, na posse de Jorge Tufic 
Não sei se todas elas, as morenas, as louras, as da primeira série ou as da quarta, as que têm os cabelos curtos, as que usam rabos de cavalo, não sei, só sei que elas estão conscientes da grande missão que as espera.

A mocidade tem um jeito especial de encarar as coisas mais difíceis e mais árduas da vida. Há certa audácia na confiança que ela deposita em suas próprias forças. Para alguns desinformados esta confiança quase absoluta pode parecer petulância ou mesmo leviandade. Geralmente não se trata nem de uma coisa nem de outra. Não é nem petulância nem leviandade. É o jeito mesmo da mocidade.

Esta certa despreocupação, este otimismo exagerado, esta alegria oportuna é importuna, tudo isso é a mocidade. As pessoas mais velhas, os que já travaram a luta impiedosa da vida ou que já sofreram os ataques da existência, os que carregam em sua pele as cicatrizes do mundo e, de suas ciladas, exasperam-se ao ver o modo trêfego dos inexperientes moços. Às vezes vai nesta zanga muito amor. É que essas pessoas mais velhas querem impedir que os moços caíam nas mesmas armadilhas nas quais afinal de contas, mais cedo ou mais tarde, todos cairemos, inclusive os moços e as crianças que muito amamos.

Justamente por isso não posso fazer um juízo certo sobre as nossas futuras professoras e sobre o conhecimento que elas têm da importância do trabalho que daqui a uns poucos anos elas terão em sua frente e em suas mãos. Não só da importância, mas também da fadiga, da canseira, dos suores, das decepções, das tristezas.

Não sou um técnico no assunto, mas sei que o curso das nossas professorandas não corresponde mais às necessidades da pedagogia moderna. Sei também que o curso atual não está correspondendo nem mesmo às necessidades da pedagogia antiga. Poderia citar fatos. Não faço porque sei que a culpa não é dos daqui de casa. Pelo menos toda a culpa. O grande mal ou a causa do grande mal está mais longe, está nesta ausência absoluta de outras escolas superiores.

A mocinha é filha de pais pobres. Os pais pobres da mocinha não possuem somente a mocinha possuem mais futuras mocinhas e futuros rapazinhos. Dia a dia a vida se torna mais difícil. É preciso arranjar um meio de vida para a mocinha pelo menos se sustentar e aliviar os pais na manutenção da casa e na criação dos irmãozinhos.

A mocinha terminou o curso primário. Mas com o curso primário somente não se consegue um bom emprego. No máximo se consegue ficar enjaulada atrás de um balcão de loja. É preciso ter um diploma de curso superior. E a mocinha corre os olhos pela paisagem circundante. Um deserto. Só há um oásis surgindo ao longe de portas escancaradas: o Instituto de Educação. No mínimo dentro de quatro ou cinco anos a mocinha terá uma cadeira que lhe dará certa independência não só em relação aos pais mas, quem sabe, casamento hoje em dia é coisa tão difícil, em relação ao futuro marido.

Então ela ouve, mais ou menos como Joana d’Arc, vozes do alto, de baixo, de dentro e de fora que lhe ordenam: Em frente, marche! E a mocinha não duvida. De passos certos e firmes ela caminha para as escadarias que lhe darão preparação de vida.

Há, porém, o caso menos necessitante e não menos doloroso da outra mocinha. Se os pais não são tão pobres e nem possuem muitos filhos. O emprego do pai e as costurinhas da mãe dão para viverem mais ou menos com certa comodidade. Não há urgência precisa da mocinha cavar um emprego e a mocinha gostaria mesmo de cursar medicina ou filosofia ou talvez química industrial. Gostaria de fazer um curso universitário.

Então ela faz a inspeção do terreno. A mesma inspeção da mocinha pretendente e chegará à mesma conclusão. No quarto imenso ela vislumbra somente a questão das portas abertas. Ouve as vozes que, de repente não são mais as vozes da necessidade ignorância, mas da necessidade cultural; a ordem porém é a mesma: “Em frente, marche”. E aí vai a mocinha rumo as escadarias que lhe darão uma culturazinha mais elevada.

Aí ela se encontra com a primeira mocinha e todos os dias quando o sol ainda é aquela mistura de amarelo de cor gostosa, as duas, rindo, cantando e conversando alegremente, sobraçando os livros, de saia azul marinho e blusa branca onde está gravado nas duas letras I e E, mas de um comum para vocações tão diversas, elas seguem para as mesmas escadarias que absolutamente não justificam sua vida embora as alimente com leite e café, de pão e de saber.

Agora me respondam os responsáveis pelo assunto: essas mocinhas podem ter interesse nos estudos? Essas mocinhas poderão no futuro serem professoras cem por cento professoras? Como exercerão o magistério essas duas mocinhas? Como um sacerdócio? Quem pode exigir dessas mocinhas amor a uma vocação que não é a delas? Quem pode exigir dessas mocinhas que se imolem diariamente sobre uma pilha de cadernos por corrigir? Quem poderá exigir que amanhã essas mocinhas se entreguem ao exílio no interior? Quem?

E, no entanto, tudo isso será exigido de vocês, minhas caras professorandas. E, depois de amanhã, quando, a gosto ou contragosto, as crianças com suas peraltices houverem pintado de branco os cabelos de vocês; desenhado rugas nos rostos de vocês; quando os vossos rins não se dobrarem mais de tanto levantar meninos caídos nas brincadeiras de manja nos recreios dos grupos escolares; quando, reunirem vocês todas num salão quase vazio dos homens importantes que vocês à custa de caminhadas ao sol quente e à chuva e cheio de saudosas recordações; quando reunirem vocês todas num salão para homenagearem o professor, no dia do professor, vocês carregarão no mais escondido e secreto recanto de suas almas a tristeza de um eco de vozes distantes que encaminharam os passos de vocês para um caminho que, absolutamente, não devia ser o de vocês.