CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

10 de outubro de 2011

Silvério Nery (1858-1934)

No sábado 8, o finado Silvério José Nery foi lembrado pelos 153 anos de seu nascimento. Nascido em Coari (AM), seu pai possuía o mesmo nome; para diferenciá-los, informo que o sênior, como major reformado do Exército, foi comandante da Guarda Policial (germe da Polícia Militar do Amazonas).


O filho, aqui lembrado, foi governador do Estado, na abertura do século passado. A seguir, firmou-se no senado do País, dominando a cena política amazonense por mais de três décadas, até seu falecimento em 1934.

Outro detalhe: a família Nery conseguiu durante o século passado emplacar no governo do Amazonas quatro familiares: Silvério José Nery (1900-04); Constantino Nery (1904-07); Júlio Nery (1943) e Paulo Nery (1982).

Em homenagem a data natalícia de Silvério Nery, reproduzo aqui o panegírico divulgado em A Crítica, por ocasião do centenário do homenageado.


Dentre o grande número de amigos de Silvério Nery, cujo centenário de nascimento se comemora em 8 de outubro de 1958, um sobrevive: o que assina estas linhas. Os demais, na sua quase totalidade, já foram, um a um, encerrando o ciclo da existência.

Fui também um dos seus amigos mais íntimos, um auxiliar de seu governo (1900-1904), desde o primeiro ate o último dia. Oficial de gabinete e secretário particular, eu que o conhecia desde que cheguei ao Amazonas por volta de 1895, vivi ao seu lado.

Conhecera-o em Manaus, entre os amigos do meu irmão Antonio Nogueira, que me precedera na chegada ao Amazonas e ali exercia o cargo de chefe da Repartição de Terras. Silvério havia deixado o exército, depois de servir de ajudante de ordens do presidente do Amazonas [Augusto] Ximeno de Villeroy. Ocupava-se, então, de trabalhos de agrimensura, procedendo à demarcação e legalização de posses dos seringais nativos, que, durante muito tempo, foram a base da riqueza do Estado.

Apesar de pertencer à oposição local, Silvério tinha um vasto circulo de amigos. Naqueles tempos remotos, a política não assumira ainda a catadura severa e intransigente nas relações humanas. Somente por ocasião das eleições se tratava um pouco de política. Passada essa época, reagrupavam-se todos, sem ódios, cordialmente, reajustando o círculo patriarcal da família amazonense, como num verdadeiro seio de Abrahão.

Dotado de tão excelentes qualidades, Silvério Nery não se poderia manter por muito tempo alheio da vida administrativa do seu Estado, que ele tanto amava. Entrou nela pelo voto dos seus concidadãos e tão bem aceito a todos que cedo chegou à suprema curul, depois de o representar na Câmara Federal.

Cumpria-lhe, em primeiro lugar, refazer as finanças do Estado, anular empenhos e compromissos de obras adiáveis, o que tudo ele fez com a mão firme de um timoneiro experimentado, mas sempre dentro dos limites do direito, sem preparar indenizações vultosas para o Tesouro. Nessa tarefa teve a auxiliá-lo o bacharel em direito Porfírio Nogueira, outro irmão meu.
A Crítica, Manaus, 22 out. 1958
Foi secretário de Silvério Nery durante a maior parte do seu governo. Do seu trabalho, na tarefa de reorganizar o Estado disse o bastante, em palavras sinceras, inspiradas pelo sentimento de justiça, o Dr. Júlio Nery, filho de Silvério. Nesse ensejo, o Dr. Júlio Nery relembrou as palavras com que o eminente Rui Barbosa se referiu a Porfírio Nogueira, pondo em relevo o auxílio eficiente que lhe prestara “no granjeio de documentos, informações e elementos de vários gêneros” para a defesa do Amazonas, no memorável pleito do Acre.

Impunha-se agora dotar o Estado de uma lei que o protegesse a sua economia. O Amazonas fora, até 1850, comarca da então província do Pará. Tornando-se província independente, alguma coisa perdurou da rotina administrativa. A borracha, que se tornara o principal produto de exportação da região amazonense, continuava a passar em trânsito para o estado do Pará, onde era feito o beneficiamento e exportada como borracha do sertão, sem que o nome do Amazonas aparecesse nos grandes mercados europeus e americanos.

Veio, então, a lei de beneficiamento da borracha amazonense nos entrepostos de Manaus, medida forte, dessas que somente se animam a tomar os governos fortes, que sabem o que fez casas exportadoras de Belém protestaram contra a nova lei, que lhes parecia iníqua e destruidora dos seus interesses, sem reconhecer que representava apenas um direito do Amazonas, concernente à sua autonomia e no seu próprio território. Ferveu Troia, mas a resolução justa e segura de Silvério resistiu a toda a campanha que se levantara contra ele. Por fim, cessou o clamor e as casas do Pará fizeram o que lhes cumpria: estabeleceram filiais na cidade de Manaus, para melhor execução de seus negócios, com grande vantagem para a capital amazonense.

Além de haver defendido os interesses do comércio e das indústrias, a lei de beneficiamento veio tornar possível uma medida de alto alcance para o progresso do Amazonas: a construção do porto de Manaus, velho sonho de administrações passadas.

Ao despedir-se de Campos Sales, por ter de ir assumir o governo do Estado, Silvério Nery fizera sentir ao presidente da República que levava para o seu governo a decisão firme de promover a construção do porto de Manaus. Daí a necessidade da prévia lei de beneficiamento, sem a qual aquela construção decerto não se faria, por faltarem elementos de receita que assegurassem o êxito financeiro do investimento de capitais.

Durante todo o seu governo, Silvério cumpriu sempre, com fidelidade, o slogan que tomara para orientá-lo: “Menos política e mais administração”. Para isso mostrava-se acessível às boas ideias, pronto a auxiliar todas as atividades que representassem modalidades de progresso para o seu Estado. Em todas as classes produtoras foi sempre apreciado como um homem inteligente e firme na defesa de suas ideias.
Paulo Nery, 1982

Já fora do governo, mas não da política, porque depois nunca deixou de ser representante do estado na Alta Câmara da República, recebeu as mais inequívocas demonstrações de apreço, não somente do Estado, mas ainda do exterior. Em Londres e em Paris foram-lhe oferecidos banquetes com que os homens do alto comércio e indústria, que tinham interesses no Amazonas, atestavam a sua gratidão pelo que fizera como governador, amparando-as e promovendo o desenvolvimento delas.

Estive presente a essas demonstrações de homens independentes, prestadas a um ex-governador. Não é raro promover-se a exaltação dos que vão governar e dos que estão governando. Difícil é fazer a dos que já não governam. A memória humana é tarda para agradecer, se bem que pronta para louvar os que se acham cheios de prestígio.

As contingências da vida nos separaram. Vim para o Rio tentar a continuação na carreira do magistério, que iniciara no Amazonas. Aqui, porém, nunca deixei de acompanhar os passos do grande amigo, então senador da República. Foi-me ainda grato servi-lo numa piedosa tarefa em que ele andava empenhado: a publicação do excelente livro do conde Ermano Stradelli, nosso amigo comum.

Era este uma figura impressionante de incansável trabalhador intelectual. Durante a sua estada no interior, dedicara-se ao estudo da língua “nheengatu”, a boa língua dos indígenas. Fez um trabalho completo: dicionário, gramática, exercícios de versão etc. Tudo isso ameaçava perder-se porque Stradelli, já velho e enfermo, não encontrava editor. Depois de algumas tentativas inúteis, consegui o apoio de Max Fleiuss e, após um parecer favorável de Teodoro Sampaio, foi o livro publicado na Revista do Instituto Histórico [brasileiro].

Os dias trágicos de 1930 afastaram Silvério Nery do cenário político. Recolhendo-se ao seu Estado, começou a sentir os primeiros assaltos do mal que o haveria de levar. Calmo, resignado, esperou o momento extremo com a mesma coragem, o mesmo equilíbrio que jamais perdera nos embates mais difíceis da vida.

A sua missão estava cumprida.
Júlio Nogueira