CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

2 de outubro de 2011

Padre Luiz Ruas

No final de outubro, o finado padre Luiz Ruas, ou L. Ruas, conforme a versão literária, completaria 80 anos. Mas, ele não alcançou tanto, pois interrompeu esta contagem em 2000.

Padre Luiz Ruas

Há quase uma década, tenho me empenhado em mantê-lo “vivo”, recolhendo e divulgando seus escritos, apesar de confessar minha pobreza financeira e de outros meios. Assim, e como somente disponho de seus textos, vou aqui reproduzi-los por todo o mês para relembrar a data.

O governo do Estado denominou uma escola com o nome do reverendo. A EE Pe. Luiz Ruas está situada na rua Bom Jesus nº 7630, no bairro Zumbi 3, Zona Leste. Desejaria festejar este evento nesta escola. Por isso, venho daqui de algum modo solicitar a cooperação dos dirigentes da escola estadual.

Inicio aqui este tributo ao padre L. Ruas, com o texto de um seu companheiro no Clube da Madrugada. Falo de Uma poesia de voos altos, inserido em Os Tristes (1997), livro póstumo do saudoso Arthur Engrácio.


Não fosse o descaso com que é olhado o escritor da província, já tantas vezes observado e combatido pelo signatário destas linhas, o ensaísta e poeta L. Ruas, hoje, estaria sendo objeto de comentários dos colunistas literários dos grandes jornais e revistas do país.

Mas, L. Ruas nasceu e exerce a sua atividade intelectual no Amazonas, não tem quem o divulgue, não dispõe de ninguém que faça badalação em torno do seu nome e, por isso, vai ficando por aqui mesmo, contentando-se com um ou outro registro, na nossa imprensa, sobre os livros que publica.

A exemplo de tantos outros escritores de valor que possuímos, na província, L. Ruas não se tem beneficiado, realmente, da divulgação a que a sua obra faz jus (Às vezes fico pensando se a sua condição de sacerdote não tem concorrido para essa situação; se não é ele mesmo que dentro daquela humildade que caracteriza os seguidores de Cristo, tem pedido para que não se fale dele?).

Como quer que seja, se a modéstia do autor (ou coisa que o valha) impede que os seus livros ganhem, em termos nacionais, a notoriedade que há muito vem merecendo, eles falam por si próprios, dizendo da sua importância a significação.

Um exemplo é este Poemeu, que as Edições Puxirum entregam agora ao público. Obra contemplada, em 1970, com o Prêmio Governo do Estado do Amazonas, em seu contexto inserem-se, talvez, os poemas mais representativos de L. Ruas; aqueles que o poeta escreveu em estado de graça, identificado plenamente com os deuses.

O livro, premiado, levou quinze anos para ser editado e, em que pese o reconhecimento dos seus méritos e o muito que a sua leitura poderia vir desfrutando – não fosse o seu retardamento –, o autor soube aguardar a sua chegada. Esse detalhe revela, uma vez mais, a despreocupação do poeta com a fama, a pressa de aparecer.

A observação é de Alencar e Silva [morto em 25 set. último], que prefaciou a obra: “enquanto muitos se expõem, não raro por tão pouco, até mesmo aos fiascos da aventura editorial, soube ele esperar que tempos menos hostis à inteligência trouxessem de volta ao nosso povo a alegria criativa. E, de novo, o canto, os versos dos nossos poetas, preparando o cenário da eterna ressurreição da esperança. E reunindo outra vez a Nação em torno da sua luz sagrada".

Poemeu revela um poeta com as vistas voltadas para a boa poesia que se escreve, atualmente, no Brasil. Técnica moderna, elaboração segura e elevada, os seus poemas são repassados de lirismo e uma comovedora ternura pelos que sofrem e não têm outra saída, senão acomodarem-se ao duro determinismo da existência. No poema Velho sentado na cadeira de balanço, ele nos dá esta amostra:

Já não é mais. Apenas foi nem há de
Ser que não é ser a morte, mas não-ser.
Foi homem, foi jovem, foi menino.
Foi lutador. Foi fundador. Foi Criador.
Foi pai, irmão, esposo e filho amado.
Foi desejo, foi sonho, foi futuro.
Foi músculos, foi nervos, foi carne em floração.
E, hoje, apenas é um resto de alma sentado na cadeira.

Outros exemplos temos em Para a Reprise de Luzes da Ribalta, no qual ele fala com Calvero, o palhaço criado pelo gênio de Chaplin e é encarnado pelo próprio Carlito no filme.

Eis que vens, de novo, bom Calvero
Para as telas, para o mundo,
Para os olhos, para as almas ( ... )
Como vieste outrora, agora, voltas
E retomas velhos temas, sem cansaço,
Porque tudo é recomeço; nada, findo
E a própria futilidade de existir
É a substância da volta interminável.