CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, outubro 24, 2026

ANIVERSÁRIOS DE MANAUS

Duas datas da mesma comemoração, a festa de Manaus que, há 40 anos, era mais de um centenário, hoje - neste 24 de outubro - passa de três centenários e meio. 

Recorte do Jornal do Commercio, 24 outubro 1986
     

Manaus, com o status de cidade, está completando hoje 138 anos. Agora tendo aproximadamente 1 milhão de habitantes, ela surgiu da fortaleza de São José do Rio Negro, construída em 1669 pelos portugueses para impedir a invasão dos espanhóis que desciam da Cordilheira dos Andes e, já se aproximavam da região. A história, porém, é mais antiga e remonta a 1639, quando Pedro Teixeira tomou posse da região amazônica em nome da Coroa Portuguesa. Em 22 de junho de 1657, uma tropa comandada pelo cabo Bento Maciel Parente partia de São Luís do Maranhão para o sertão amazônico. Segundo o historiador Mário Ypiranga Monteiro, essa tropa aliciaria perto de 300 índios, e foi o primeiro grupamento de "homens brancos" a fixar-se na área onde hoje é a capital amazonense. Antes deles, ocupavam secularmente a região, os índios Manáo, Bares e Mura.

Post da Prefeitura de Manaus


Manaus 357 anos 

                    editorial do Jornal do Commercio, hoje circulado 

Manaus completa 357 anos, nesse 24 de outubro, envolta por uma névoa de fumaça que contrasta com a grandeza de uma metrópole de mais de 2,3 milhões de habitantes. A imagem remete ao início do século 20, quando a cidade ainda dependia do porto e da lenha, mas hoje abriga um dos maiores poios industriais do país e desafia distâncias continentais para garantir abastecimento, emprego e renda.

Cercada pela floresta e ligada ao Brasil e ao mundo por rios, estradas e transporte aéreo, a capital amazonense construiu uma logística singular, sustentada pela resistência de sua população e pela força de sua economia. Seu Distrito Industrial, o comércio e a diversidade de seus moradores fazem de Manaus uma das grandes capitais brasileiras. Mas a fumaça das queimadas, trazida pelos ventos de municípios amazonenses e até de outros Estados, impõe uma dura realidade.

A poluição altera a rotina, ameaça a saúde e obriga mudanças na programação oficial do seu aniversário. A comemoração, desta vez, precisa ser mais reservada, porque não há festa que justifique expor a população a um ar de qualidade instável. Manaus resiste ao tempo, à geografia e aos desafios logísticos.

Aos 357 anos, merece celebrar sua história, mas também cobrar respostas efetivas para que a fumaça não se torne parte permanente de sua paisagem. 


domingo, setembro 13, 2026

PMAM EM CACAU PIRERA

 Exatamente há 50 anos, o Jornal do Commercio publicava a nota que ilustra esta postagem. A propósito, o distrito do Cacau Pirera, integrante do município de Iranduba, servia como ponto de partida da rodovia para Manacapuru, pois a saída de Manaus era realizada em balsa, que partia do bairro de São Raimundo. Daí a relevância desse distrito, devido ao grande fluxo de veículos. A construção da Ponte sobre o rio Negro, retirou a importância do porto de Cacau Pirera. 

O sargento Rivaldo Silva era excelente motorista, tratado cordialmente por “Garrafinha”, sem que eu lembre o motivo. E sua boa conduta o levou a cuidar daquele destacamento que, de certo modo, estava na outra margem do rio Negro, em frente à Manaus.

 

Jornal do Commercio,
12 setembro 1976

Pela Portaria 010/76, baixada pelo Comando-Geral da Polícia Militar do Estado do Amazonas, o cabo da PM Rivaldo Paulo da Silva, comandante do Destacamento de Cacau-Pirera, foi nomeado para ocupar a função de Chefe do Posto Policial da Delegacia Geral de Polícia daquela localidade, que conta, além do delegado, com mais três soldados da PM que ocupam a função de policiais para a segurança da cidade.

Adiantou-nos o delegado mencionado, que em face da antiga delegacia da localidade se encontrar um tanto deteriorada, uma nova está em fase final de construção, faltando somente o material necessário para terminar os xadrezes.

Com o término da construção da nova delegacia, o delegado Rivaldo acredita que os presos terão outro tratamento, já que a nova delegacia terá condições para tal.

sexta-feira, setembro 04, 2026

VIAGEM NO TEMPO (7)

 

 

A partida 

Renato Mendonça

18.07.2026

 Na véspera da partida, o ritual de acomodação da bagagem nas malas revelou sua insuficiência — como se a bagagem tivesse tomado fermento e nunca fosse capaz de conter tudo o que uma jornada guarda. Logo ao amanhecer, quando o comércio abriu suas portas, na Avenida Sete, uma loja de departamentos nos socorreu. Pelo tamanho da loja de dois pavimentos grandes, pensamos tratar-se de chineses, mas a atendente de caixa nos assegurou que o proprietário era do Amapá. Pensei com meus botões que ali precisaria ter um movimento compatível com o investimento.

Não demoramos a escolher os produtos, pois havia a ameaça do relógio: o navio partiria às onze, e o trânsito matinal de Manaus, somado à burocracia desconhecida dos portos, parecia um desafio maior do que o recibo de nossa compra de passagens — tão simples quanto a sinuosidade dos rios.

Roberto, sempre cordial nos buscou no hotel e, com a serenidade de quem conhece o ritmo da cidade, logo encontrou um espaço para estacionar. O Ana Beatriz, com capacidade para 700 passageiros, já nos aguardava, imponente, de motor ligado. O acesso à plataforma de embarque revelou-se surpreendentemente bucólico. Passamos pelo convés inferior, abarrotado de carros usados e motos novas e reluzentes, como se o navio fosse também um armazenador de sonhos sobre rodas.

Nos conveses superiores, redes de dormir se multiplicavam como se fosse um jardim de flores multicoloridas, testemunhas silenciosas da vida de ribeirinhos e outros de classe menos favorecida. Naquele frenesi de pais e crianças para achar um espaço minimamente confortável. Havia a terceira classe, marcada por essa simplicidade, mas também a segunda, com a mesma ciranda de redes, climatizada, onde o ar parecia oferecer um pouco mais de conforto.

Nosso camarote nos recebeu sem demora, e ficamos à espera da partida, que se atrasou uma hora. Pensei: talvez seja uma forma de tolerância amazônica com os navegantes, um gesto de compaixão para os que correm contra o tempo. Diferente dos aviões, onde a pressa é lei, aqui o rio ensina que o fluxo pode esperar.

Enquanto aguardávamos a hora da partida, eu, Roberto e Alda explorávamos os recantos da embarcação. No olhar de meu irmão, percebi o brilho da missão cumprida: levar-nos até ali, oferecer-nos horas de convivência familiar com ócio elegante. Mas havia também um desejo contido, quase secreto, de um dia embarcar nessa travessia como protagonista. O sol brilhava sem a tirania do calor, e a atmosfera fraternal parecia dar forma a esse anseio.

Ana Beatriz IV - ferry boat e navio regional


Ao meio-dia, no dia 2 de julho, o Ana Beatriz finalmente soltou as amarras e se desprendeu do porto. À medida que o navio se afastava, vi surgir, ao longe, o bairro Educandos — o território da minha infância, onde aprendi a vencer monstros invisíveis e a dar nome ao medo. Aquele pedaço de chão, agora visto de fora, parecia acenar silenciosamente para mim. Não houve lenço branco, mas houve despedida, sim: dissimulada, íntima, gravada no coração.

E compreendi que partir não é apenas deslocar-se no espaço físico. É também reconhecer que cada embarque — nessas circunstâncias, lenta e singular — é uma metáfora da vida: sempre carregamos menos do que gostaríamos; sempre deixamos algo para trás e sempre seguiremos adiante com a esperança de que o rio possa nos conduzir a novas margens, mas nos traga de volta, sempre que a saudade exigir.

Manaus, com sua história e meus conterrâneos, tornou-se espelho da minha própria trajetória. E ao deixar a cidade, percebi que não levava apenas lembranças: levava comigo a certeza de que o passado, quando revisitado com emoção, se transforma em presente eterno — o melhor presente.

sábado, outubro 26, 2024

HAMILTON RICE E OS SALESIANOS

Para celebrar o Jubileu de Ouro de atuação no Rio Negro (AM), em 1965, os Salesianos, sob a liderança de dom Pedro Massa editaram um livro que registra as trajetórias percorridas e os personagens – tanto eclesiásticos quanto leigos – que contribuíram para a obra. Deste livro – De Tupan a Cristo (1965), tenho postado páginas bastante informativas, repletas de pormenores sobre a história do Amazonas.

Alexander Rice

No livro, outra lembrança do prelado é sobre Alexander Hamilton Rice (explorador americano da bacia dos rios Negro e Branco) que, acompanhado da esposa Eleanor Rice, visitou São Gabriel da Cachoeira em duas oportunidades: no início de 1917 e em outubro de 1919. Na primeira, o casal cooperou com a missão dos salesianos na instalação de uma escola. Na segunda viagem, os Rice puderam aferir os resultados da iniciativa e o progresso proporcionado à cidade. Qual a situação desta escola?

 

HAMILTON RICE (1875-1956)

Este ilustre engenheiro e explorador americano, muitas vezes milionário, casado com a viúva do rei do aço, falecido no desastre do Titanic, perlustrou durante anos o Rio Negro e o Rio Branco; do alto do seu pequeno “aéreo” explorou sobre todas as formas aquela região desconhecida; os trabalhos fotométricos, geográficos, trigonométricos, as pesquisas do solo deram-lhe conhecimento exato de suas riquezas, de suas possibilidades, levadas naturalmente ao conhecimento americano.

Foi nosso amigo e, atendendo aos meus pedidos, ofereceu-nos abundante material escolar, centenas de camas, milhares de folhas de zinco, equipamentos farmacêuticos e hospitalares. Na Sociedade de Geografia de Londres elogiou em suas conferências “as atividades da missão evangélica salesiana no Amazonas”, afirmando que “tinha a mesma lançado bases seguras de um grande movimento civilizador”.

Em 1926, convidado por ele, fui a Nova Iorque, onde quis me apresentar ao presidente da Rockfeller Fondation, situada na 5ª Avenida, onde, na ausência do presidente, encontramos o Dr. Vicent Smille, vice-presidente em exercício. Depois de ouvir a longa explanação de Hamilton e as minhas poucas e tímidas expressões, num inglês fraquíssimo e titubeante, assim se expressou:

“A Rockfeller deu um milhão de dólares para a exploração do Rio Negro e do Rio Branco e está pronta a ajudar a Missão Salesiana, se apresentar um plano dentro do nosso programa, talvez mesmo um milhão”.

Espantei-me com o programa, a dependência, a abundância do dinheiro e fiz-lhe entender que eu solicitava apenas um auxílio limitado, dentro do programa da missão. A Rockfeller – respondeu-me – “não dá esmolas, nem oferece recursos parcelados: tem como programa financiar planos de obras também assistenciais, mas dentro de critérios que ela estuda, antes de custeá-los; financia-os, depois de organizá-los, e os fiscaliza”.

Não era o nosso caso: regressei ao Brasil sem dinheiro, mas livre e desimpedido de compromissos, satisfeito com minha independência na ação missionária. “Um milhão de dólares”! era muita riqueza e quando a esmola é grande, o santo desconfia... E, depois, muito dinheiro não faz bem a ninguém, nem mesmo a missionários.

sábado, outubro 19, 2024

SENADOR LOPES GONÇALVES (1870-1938)

 
Ao comemorar o Jubileu de Ouro de atuação no Rio Negro (AM), em 1965, os Salesianos então sob a direção de dom Pedro Massa publicaram um livro registrando os caminhos percorridos e os personagens – eclesiásticos e leigos – que cooperaram na obra. Abuso do livro editado – De Tupan a Cristo, postando algumas páginas bem esclarecedoras, páginas que fornecem pormenores da história amazonense.

O senador Lopes Gonçalves é o personagem desta postagem, e quem conta o fato é o próprio prelado. Augusto Cesar Lopes Gonçalves nasceu em Vitória do Mearim (MA) em 1870 e faleceu no Rio em 1938. Bacharel pela Faculdade do Recife, foi senador (1915-23) pelo Amazonas e Sergipe (1924-30). Houve uma Escola com o nome deste senador em Manaus, localizada na esquina da rua Luiz Antony com Dez de Julho, ora pertencente ao sistema SENAI. 

Página do livro referente ao senador 

Certa vez, discutia-se no Senado o projeto que declarava o dia 25 de dezembro, dia festivo em comemoração da data cristã universal. Ele opunha-se com maior ou menor felicidade aos argumentos apresentados por João Luiz Alves, senador pelo Espírito Santo, que defendia o projeto. Este havia me pedido que ficasse perto de sua cadeira para sugerir-lhe alguns argumentos que não lhe ocorressem no momento, na emergência da refrega que subia de calor e intensidade, interessando vivamente os senadores.

Rui Barbosa estava ausente, mas defenderia o projeto se estivesse presente, como em seguida declarou.

Lembro-me que em determinado momento, Lopes Gonçalves disse: “A Constituição não reconhece a Deus. Este nome aqui não deve ser pronunciado e dou minha razão que agradará ambas as partes. O nome de Deus (desculpem reproduzir a palavra que ele usou), suja a pureza do nosso regime e também a política suja o nome de Deus; é por esse motivo que nos é proibido pronunciá-lo aqui”.

Por grande maioria o projeto foi aprovado e o Dia de Natal entrou no número dos feriados da República. O senador, embatendo-se comigo, pois não havia notado minha presença, pela escuridão do recinto, não se alterou dizendo-me: Padre, eu defendo a religião, não a ataco. Talvez fosse esta a sua intenção.


sexta-feira, outubro 04, 2024

PICO DA NEBLINA

Ao comemorar o Jubileu de Ouro de atuação no Rio Negro (AM), em 1965, os Salesianos sob a orientação de dom Pedro Massa publicaram um livro registrando os caminhos percorridos e os personagens – eclesiásticos e leigos – que cooperaram na obra. Abuso do livro editado – De Tupan a Cristo, postando algumas páginas bem esclarecedoras, páginas que fornecem pormenores da história amazonense.

Pico da Neblina, em Santa Isabel

A postagem de hoje descreve o esforço empreendido a fim de instalar no topo do Pico da Neblina (2.995,30 metros, consoante o IBGE 2015) uma estátua do Cristo e uma bandeira nacional, portanto, no ponto culminante do país, localizado no município de Santa Isabel do Rio Negro. Como desconheço a fixação ou a permanência do monumento, recorri à “enciclopédia livre”, onde nada alcancei nas várias fotos expostas. Por isso, o (des)apontamento. 

 

 

Deve ser assinalada, em destaque luminoso, a descoberta do ponto mais alto do sistema orográfico do Brasil, o pico da Neblina, que se eleva a 3.014 metros sobre a planície amazônica, realizada pela Comissão Demarcadora de Fronteiras entre o Brasil e a Venezuela, e onde a Associação Brasileira de Estudos e Pesquisas Arqueológicas conduziu, em janeiro deste ano, a primeira expedição, com a colaboração elementos das vizinhas missões salesianas de [rio] Cauaburi e Maturacá.

Pretende a mesma Associação, com o auxílio das missões salesianas, realizar a escalada definitiva daquele pico, a fim de proceder a pesquisas do mais alto interesse científico, diante dos indícios e informações colhidos.

Ocorrendo neste ano [1965] o jubileu áureo das missões, julgou a Prelazia do Rio Negro que não haveria arremate melhor para suas comemorações festivas do que, aproveitando os esforços da nobre Associação, levantar, no ponto mais alto do Brasil, o símbolo sagrado da fé da primeira nação católica do mundo, chantando, na solidão olímpica daquela altura, a Cruz do Redentor, como um reclamo secular que há quatrocentos anos sobe silencioso e solene da mata brasileira até o alto dos céus, nas cintilações benditas do Cruzeiro do Sul.  (...)

Outra vista do Pico da Neblina

Para esse fim, será constituída comissão destinada a realizar o grande cometimento, recolhendo os recursos necessários e — o que mais importa — vencendo as dificuldades de transporte até o Pico da Neblina.  Distintas autoridades federais e estaduais já prometeram seu valioso concurso, que a missão salesiana põe, num gesto de grande e ilimitada confiança, sob os auspícios e a proteção da maior organização jornalística do Brasil “O Globo” e de sua recém inaugurada estação de televisão.

Triunfadores em tantas vitórias, tendo já encampado várias outras campanhas que traduziram ideias generosas em esplendidas realidades, a nova campanha, lançada pelo “O Globo”, do Pico da Neblina, não poderia ter garantia mais segura para sua plena realização. Esta página consigna e lança a luminosa ideia, que, realizada ainda neste ano jubilar missionário, até agosto de 1966, cantará o hino glorioso da fé nos grandes destinos da pátria, pelo gesto de bênção divina do novo Cristo Redentor do alto do Pico da Neblina.

Antecipando a gloriosa campanha, em 15 de agosto, um modesto cruzeiro e a Bandeira Nacional, irmanada à Bandeira da Prelazia fulguram no Pico da Neblina lá conduzidas pelo presidente da Associação de Estudos Arqueológicos, na segunda escalada, que seguiu para este fim no mês de julho. A 22 de julho, no Palácio das Laranjeiras, o presidente da República, marechal Castelo Branco, às 9h30, na presença de alguns membros de seu Gabinete Presidencial, autografou a Bandeira Nacional e o pavilhão salesiano do Jubileu Áureo das Missões, desfraldados agora no Pico da Neblina ao sopro daqueles ásperos ventos, aguardando a Imagem do Cristo Redentor.

terça-feira, agosto 13, 2024

PMAM: SEUS PRIMÓRDIOS (37)

Último capítulo da história da Polícia Militar do Amazonas, relativo ao período provincial, compartilhado do meu almejado livro Guarda Policial (1837-1889). 


Colônia Oliveira Machado

O bacharel Joaquim de Oliveira Machado toma posse na presidência do Amazonas, em 10 de fevereiro de 1888. Nascido em Barra do Pirai (RJ), a 20 de abril de 1842, faleceu aos 78 anos, em Niterói (RJ). Bacharelou-se em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco (SP).

Ao assumir o governo provincial amazonense vê-se diante de intransponíveis dificuldades financeiras, porém, atendendo aos apelos locais resolve enfrentar a crise. Todavia, é curto seu período de governo, avança por 140 dias, até 1º de julho!

Oliveira Machado
As aperturas provinciais refletiam a crise geral enfrentada pelo Governo Imperial, motivada pela avalanche republicana exigida pelas mais representativas camadas sociais. Na margem esquerda do rio Negro, o esforço de Machado teve recompensa, ao menos pela singela homenagem recebida das autoridades. Uma localidade existente nos arrabaldes de Manaus, à beira do rio Negro, ocupada por migrantes nordestinos, tomou seu nome e, em nossos dias, constitui o bairro Colônia Oliveira Machado, integrante da Zona Sul em que se encontra mapeada a Manaus do início do século XXI.

 

Barão do Solimões

Em 1.º de julho de 1889, Manuel Francisco Machado (nascido em Óbidos (PA) em 1838, onde faleceu em 1928), o único barão do Solimões, é empossado na presidência da província. Dois dias depois, desembarca em Manaus o conde d’Eu (1842-1922), esposo da princesa Isabel. Na capital, o primeiro genro imperial visitou as repartições públicas, e, em seguida, acompanhado de parlamentares regionais viajou em inspeção até o forte de Tabatinga, no rio Solimões, marco da fronteira com as repúblicas da Colômbia e do Peru. O baronato teve curtíssima duração, pois se extinguiu em 21 de novembro, quando Manaus conheceu a reviravolta política com a instalação da República.

Conde d'Eu, esposo da princesa Isabel


De imediato, uma Junta Governativa assume o governo do Estado.

Há, todavia, um feito singular a se creditar ao barão do Solimões: competiu-lhe cerrar no Amazonas as cortinas do Governo Imperial. Esse feito lembra outra coincidência, também de cunho regionalista. São dois paraenses a inaugurar (Tenreiro Aranha) e a encerrar (barão do Solimões) a administração provincial no Amazonas.

 

Comandante da transição

Em 12 de setembro de 1889, assume o comando do Corpo Policial do Amazonas o major (possivelmente do Exército) José Pereira da Rocha Filgueira, comissionado no posto de tenente-coronel. Ainda não fui capaz de encontrar outros dados sobre este oficial. Nenhuma indicação foi encontrada tanto no Arquivo Histórico do Exército, consultado com tenacidade, quanto nos arquivos da Polícia Militar do Amazonas.

Não creio que esse comandante fosse oficial superior do Exército, porque na capital amazonense não havia disponibilidade de oficiais, ainda mais do posto de major. E mais, com semelhante patente, nenhum ainda não servira na Força Estadual. Mesmo buscando entre os reformados, Filgueira não foi localizado, resta, pois, a última alternativa: pertencer a Guarda Nacional, transmito esse impasse aos pósteros. Oriundo de onde tenha origem, constitui-se o comandante executor da transição do Império à República, na corporação.

segunda-feira, janeiro 15, 2024

MERCADO DE BARCELOS, AM

 Notícia da inauguração do mercado público de Barcelos, município da calha do Rio Negro, bem lembrado por ter sido capital da Província. A solenidade foi presidida pelo governador Danilo Areosa (1967-71). E este recorte foi extraído do Jornal do Commercio, circulado em 13 de novembro de 1969.



segunda-feira, maio 01, 2023

MISSÃO SALESIANA: RIO NEGRO

 Recortei do compêndio Nas Fronteiras do Brasil: missões salesianas do Amazonas, elaborado pelos padres salesianos  nos primeiros anos de 1950, a página sobre transportes, para demonstrar as dificuldades daquela região enfrentadas pelos  religiosos - padres e freiras. Obviamente, o Alto Rio Negro hoje oferece melhores condições de trabalho e de vida. 

Acervo do Arquivo Público do
Amazonas

TRANSPORTES

É este o problema dos problemas no Rio Negro. A navegação fluvial é morosa e precária. A navegação aérea é sumamente cara para os minguados recursos daquele povo. Estradas de rodagem não há. As intempéries, as inundações periódicas tornam difícil o escoamento dos produtos da região e mais difícil ainda a importação do indispensável ao funcionamento de tantas atividades, e até mesmo dos gêneros alimentícios que a terra não dá. Daí a lentidão com que tantas coisas são feitas, sobretudo as construções de prédios, igrejas e oficinas.

Ora, regiões estratégicas como essa, nas fronteiras com a Colômbia e a Venezuela, precisariam de vias de comunicação mais fáceis e mais rápidas.

As Missões têm feito o que têm podido, dentro das suas apoucadas forças e dos recursos que o Governo Federal lhes faculta.

Assim é que, contornando temíveis cachoeiras, que dificultam as comunicações fluviais, as Missões já construíram a estrada de rodagem de Ipanerá a Urubucuara, e estão ultimando presentemente a rodovia de Papuri ao Tiquié, de 90 quilômetros de extensão, realizando notável obra de penetração nas matas da zona lindeira do Brasil com a República da Colômbia, sob os auspícios e o amparo do Governo Federal.

Página do referido livro

Agora, que o automóvel de passeio e o caminhão se introduziram em larga escala no Brasil, seria de vasto alcance a construção de outras estradas, que facilitassem a importação e exportação, entrada e saída dessa região vastíssima, que há tanto tempo está pedindo que a conheçam e explorem. Não fossem as Missões...

A propósito, lê-se na Gazeta de Manaus (27.01.1950) artigo do deputado estadual do Amazonas, Arthur Virgílio Filho, do qual nos há de ser permitido respigar esta passagem, que diz bem do esforço civilizador, colonizador e formador dos missionários Salesianos:

"O que ainda salva o Rio Negro resulta da atividade fecunda e humanitária das Missões Salesianas. Tanto em Barcelos como em Uaupés esses abnegados filhos de São João Bosco, padres e freiras, de acordo com as suas possibilidades que não são muito amplas, erguem hospitais e escolas, educam as crianças, tratam dos enfermos, empreendem, enfim, a sacrossanta missão do voto de fé que proferiram. Não fossem as Missões e não sei o que seria das populações do Rio Negro..."

domingo, janeiro 01, 2023

SOL DO ANO NOVO

 Que a grande estrela do nosso sistema nos aqueça, nos ilumine, nos dê energia, calor e alegria para enfrentar os desafios de 2023

fotos de Gunter Engel


segunda-feira, novembro 08, 2021

CAPUCHINHOS NO AMAZONAS

 Os frades capuchinhos da província de Úmbria (ITA) chegaram a Manaus em 1909, propostos à evangelização do Alto Rio Negro. A pobreza generalizada da região os desencorajou. Aceitaram, no entanto, mudar-se para o Rio Solimões, localizando a Missão à entrada deste portentoso curso d’água no Brasil. A conquista exigiu renúncia, espírito missionário, acarretou a morte de jovens apóstolos, contudo conseguiram se estabelecer. Ainda em nossos dias cabe aos capuchinhos umbros a direção da Igreja católica nos municípios da tríplice fronteira.

Para celebrar esse triunfo, relembrando as fases superadas com ingentes esforços, Mário Tosti (professor de História Moderna na Universidade dos Estudos de Perugia e docente de História da Igreja Moderna e Contemporânea no Instituto Teológico de Assis, Itália) escreveu o livro a Igreja sobre o rio (Manaus: Secretaria de Cultura do Estado, 2012), no qual relata “A missão dos Capuchinhos da Úmbria no Amazonas”. 

Capa do livro

O livro foi escrito a partir de relatos enviados pelos frades missionários, remetidos de Manaus e de outras localidades do rio Solimões. A numerosa correspondência arquivada e examinada se deve à recomendação imposta aos religiosos, em particular aos dirigentes, pela direção-geral da Ordem.

Sua leitura revela um tanto enorme da história do Amazonas, por isso, recolhi alguns parágrafos que julguei oportunos. Outros, se trata de curiosidades. Enfim, espero ter contribuído com a divulgação da “conquista espiritual da Amazônia”. 

Manaus, 8 dicembre 1912. Mais detalhado é o acerto de contas que o mesmo prefeito [religioso superior] faz no seu relatório de 1912, do qual emergem interessantes e curiosas considerações sobre a presença e a atividade dos italianos em Manaus: "em Manaus existe uma colônia italiana muito numerosa, mas que infelizmente não honra a própria bandeira.

Na quase totalidade é composta por meridionais que, emigrando para Manaus com o único objetivo de fazer dinheiro e para obter isso não se interessam pelo decoro civil nem com o sentimento religioso. Quase todos se submetem a fazer os serviços mais abjetos, como de estivadores, garis e engraxates, de modo que em Manaus a palavra italiano é sinônimo de estivador.

Agora, o cônsul italiano, para tentar remediar esta situação, tinha prometido fazer-me possuir gratuitamente uma casa com local apto para um colégio, com a condição que eu estabelecesse neste uma secção especial para os filhos dos italianos. Eu aceitei, e ele ocupou-se realmente da coisa: mas até agora não vi algum resultado".

Frei Jocundo 

Em sua viagem transatlântica rumo ao Brasil, em 1912, frei Jocundo de Soliera repassa uma informação sobre o tratamento dispensado a ele pelos passageiros de 1ª classe e os de 3ª.

Nota 249 "Todos se aproximavam de nós — escreve Fr. Jocundo — e esses maltratando o idioma italiano e nós estragando a língua portuguesa e inglesa, conseguíamos conversar suficientemente". A mesma coisa não podia afirmar dos passageiros de terceira classe, uma centena de portugueses que se dirigia ao Pará e a Manaus, embarcados em Lisboa, barulhentos e incômodos que não hesitavam em gritar, assoviar e pronunciar palavras injuriosas toda vez que no horizonte apareciam os religiosos, foi em vão o protesto de Fr. Jocundo ao capitão que respondeu de modo gentil, mas inconsequente, por isso, a única solução foi "não passar mais daqueles lados".

segunda-feira, julho 12, 2021

PADRE AGOSTINHO CABALLERO MARTIN

A fim de comemorar o jubileu de ouro das Missões Salesianas no Amazonas (agosto de 1915-65), a Prelazia do Rio Negro editou o livro De Tupan a Cristo (sem identificação catalográfica), que serviu para prestar homenagens aos seus padres e freiras, as autoridades, e ainda para registrar a marcha desta atuação, que se tornou respeitável capítulo da História do Amazonas.

Entre os reverenciados, está o padre Agostinho Caballero que marcou presença na condução dos jovens no Colégio Dom Bosco. A postagem presente compartilhei do referido volume.

Capa do livro

PADRE AGOSTINHO MARTIM CABALLERO (sic)

 É um nome aureolado de simpatia e saudade, que recorda na história destes cinquenta anos de missão como uma das mais belas figuras de salesiano no Amazonas.

Chegando em julho de 1921 a Manaus para aí permanecer, segundo a vontade dos Superiores, pelo prazo de um ano, devendo seguir logo depois para a Missão do Rio Negro, o Padre Agostinho, tendo concluído os seus estudos na Espanha e na Argentina, onde se formou brilhantemente, permaneceu quarenta anos na cidade de Manaus, como orientador dos estudos e da disciplina do Colégio de D. Bosco, recém fundado, onde passaram e se renovaram gerações e gerações de alunos, aos quais distribuiu sempre, com o afeto e a simpatia de seu coração de educador, as energias de sua alma sempre jovem, conhecedora dos anseios da infância e juventude que o venerou e o amou, porque compreendeu sempre que o Padre Agostinho havia dedicado a ela todos os sentimentos de seu coração e de sua inteligência de escol.

Era conhecida e ainda é lembrada a “campainha mágica" com que impunha e obtinha disciplina e silêncio nas longas filas de estudantes: tornou-se assim, uma figura lendária, presente sempre em toda parte, animado sempre de entusiasmo, revelando sempre amor a D. Bosco, criando gerações de filhos espirituais, que ainda circundam a sua memória de veneração e de saudade.

Era conhecida a sua "fraqueza", para não dizer, a sua "força" para com seus antigos alunos: o Padre Agostinho tinha um imã especial para aglutinar ao seu coração a alma da infância e mocidade. Filas de antigos alunos o procuravam em toda

a parte e, quando em algumas cidades, mesmo S. Paulo e Rio de Janeiro, era conhecida a sua presença, espontaneamente, quase por uma adivinhação espiritual via-se ele circundado de antigos alunos, que aproveitavam sua rápida passagem para matarem as saudades de seu antigo mestre e superior. Deputados, magistrados, professores, homens de comércio e indústria, homens do trabalho, iam à porfia para visitá-lo, revê-lo, ouvir uma vez ainda a sua voz e a ressonância do seu coração.

Quem escreve esta página, ficou mais de uma vez comovido vendo o espetáculo desta mocidade que o procurava, o idolatrava, renovando os sentimentos e os afetos dos anos transcorridos sob a sua direção.

Quando vítima de um desastre na Capital Federal de outrora, foi conduzido ao Posto de Socorro da Cruz Vermelha, onde permaneceu em tratamento mais de um mês, médicos e enfermeiros, declaravam surpreendidos, nunca terem visto tamanha multidão que procurasse um enfermo naquela casa. De fato, desde Vivaldo Lima, Senador e Presidente da Cruz Vermelha, uma ininterrupta série de visitas dia e noite, em

horas regulamentares e fora delas iam ver o Padre Agostinho, que tinha para com todos sua palavra sempre acolhedora, com o amável bom humor de que ele tinha o segredo, manifestando sua gratidão por tantas e espontâneas provas de carinho e

dedicação.

Eleito cidadão honorário da cidade de Manaus, poucas vezes, ou talvez nunca, esse diploma de benemerência foi tão consciente e perfeitamente outorgado, pois o Padre Agostinho trabalhou, sofreu, esforçou-se, dedicou mais de quarenta anos de sua vida para o progresso intelectual e moral da "cidade risonha" que ele tanto amou. Nestas palavras palidamente expressa-se e resume-se a merecida saudade da juventude amazonense a seu inesquecível mestre, de seus Irmãos e de seus superiores. 

O Padre Nonato Pinheiro brindou-nos com esta pequena joia literária, que publicamos - com especial exceção - como lembrança saudosa do missionário que "de pequena estatura" agigantou-se pelo seu apostolado e pelo seu amor à juventude e infância amazonense.

 

Vão te esculpir, Padre Agostinho, um busto,

Que te lembre no bronze e no granito,

E represente um poderoso grito

Proclamando ao porvir que foste um justo!

 

Assim terás no monumento augusto,

Desafiando o tempo e o infinito,

O teu vulto de paz, suave e bendito,

Que dominou os corações sem custo.

 

Pelos anos além virão meninos

Alegres a cantar, junto à peanha,

Patrióticas canções, festivos hinos...

 

O teu nome imortal de ouro se banha,

E já bimbalham carrilhões de sinos,

Glorificando o Anão que foi Montanha!...

domingo, fevereiro 21, 2021

FORTE DE SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA

O Forte de São Gabriel da Cachoeira foi construído em 1763, e sua descrição na obra inédita Os Fortes da Amazônia, do falecido coronel EB Lauro Pastor, “permite uma orientação histórica de como se desenvolveu o processo de ocupação portuguesa na região.”

Neste trabalho, Pastor relacionou 11 fortificações construídas no Amazonas, e com mais este compartilhamento prossegue minha homenagem ao saudoso pesquisador. 

Planta original do Forte, certamente pertecente ao acervo
do Arquivo Central do Exército

Forte de São Gabriel da Cachoeira - 1763 

Construção: D. José I de Portugal (1763)

Este Forte localizava-se no morro da Fortaleza, à margem esquerda do alto rio Negro, afluente da margem esquerda do rio Amazonas, na então capitania de São José do Rio Negro, província do Grão-Pará; atual município de São Gabriel da Cachoeira.

Antecedentes

As primeiras descrições da região do Alto Rio Negro e seus recursos remontam à passagem da expedição de Pedro Teixeira em 1639, elaboradas pelo seu cronista, padre jesuíta espanhol Cristóbal de Acuña. Ao final desse século, em 1695, missionários carmelitas venciam as corredeiras para catequizar os indígenas do rio Uaupés, do rio Tiquié e do rio Içana, alargando os domínios da Coroa Portuguesa até às fronteiras com as atuais repúblicas da Colômbia e Venezuela.

Em consequência do Tratado de Madrid (1750), e do estabelecimento da Capitania de São José do Rio Negro (1755), com a finalidade de controlar os descimentos indígenas e de delimitar os domínios de Portugal na região, foram organizadas diversas expedições para patrulhar e fortificar o Alto Rio Negro. O governador da capitania, tenente-coronel Gabriel de Souza Filgueiras (1760-61), conforme deliberação de 23 de maio de 1761, enviou para a área o capitão José da Silva Delgado à frente de um pequeno destacamento, com a missão de fortificá-la.

Ao final desse mesmo ano, o destacamento instalou-se na aldeia de Curucui, erguendo (ou reerguendo) um fortim em uma das ilhas existentes (ilha Adana?), a partir do qual prosseguiu subindo o curso do rio e tomando posse das aldeias de São José, São Pedro, Santa Maria e Santa Bárbara, e fundando outras, como as de São José Batista, na foz do rio Xié, Santa Isabel, na foz do rio Uaupés (Cuiarí), Senhor da Pedra, na cachoeira Caioba, Nossa Senhora de Nazaré, na ilha de São Gabriel, São Sebastião e São Francisco, na cachoeira do Vento e Santo Antônio, no rio Mariuá. A povoação, que remontava a 1759, viria a ser elevada a vila em 1833 com o nome de São Gabriel, em homenagem aquele governador.

Há referência que Delgado construiu uma casa-forte na ilha de São Gabriel, e fundou em terra firme a povoação de Nossa Senhora de Nazaré da Curiana. Filipe Sturm chamou a essa casa-forte "Presídio da ilha de S. Gabriel". Terá sido transformado mais tarde em uma vigia (ou "guarita"), com dois pavimentos, pelo capitão Simão Coelho Peixoto. Esta, por sua vez, foi destruída por um incêndio (26|09|1762), deixando a guarnição desabrigada.

O Forte

Com o falecimento do governador Souza Filgueiras (07|09|1761), assumiu interinamente o governo da capitania o coronel Nuno da Cunha Ataíde Varona, que transmitiu o poder ao coronel Valério Correia Botelho de Andrade (24|12|1761). Este oficial compreendeu que o fortim erguido pelo capitão José da Silva Delgado não atendia às necessidades de defesa e, expondo a situação ao governador e capitão-general do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Manuel Bernardo de Melo e Castro (1759-1763), solicitou a construção de um reduto mais sólido, capaz de impor a soberania Portuguesa face às investidas espanholas na região.

Desse modo, em 1762 partiu de Belém do Pará o capitão Phillip Sturm, engenheiro militar alemão a serviço de Portugal, com instruções para atender às solicitações de Botelho de Andrade. No local, Sturm recomendou a mudança do local do forte para posição dominante em terra firme, salientando as melhores condições para a construção e a maior facilidade para a sua defesa, tanto a montante quanto a jusante do rio. A construção iniciou-se em janeiro de 1763.

Devido ao material empregado, o forte encontrava-se deteriorado já em 1770, ano em que o governador e capitão-general do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Fernão da Costa de Ataíde Teive Sousa Coutinho (1763-72), determinou reconstruí-lo em pedra, abundante na região, atendendo aos relatórios do capitão Sturm sobre o estado da fortificação. Os trabalhos de reconstrução iniciaram-se em 1775, sendo a nova estrutura posteriormente ilustrada e descrita por Alexandre Rodrigues Ferreira: "O que é ela verdadeiramente é um reduto, construído de pedra e barro, com dois meio baluartes na frente, e nas cortinas que o fecham pelos lados e pela retaguarda, guarnece-o exteriormente um tal ou qual fosso que o não circunvala, mas cinge o lado da frente para o rio, e o da povoação. A parede da porta é a cortina da frente. Contei 10 peças de ferro montadas nas suas carretas, a saber: 6 de calibre 4 e 4 de calibre de meio. Há dentro dele um quartel para a guarnição, um parque d'armas e mais apetrechos de guerra. Uma pequena casa de pólvora, um calabouço etc. E todas estas casas, excetuando-se a da pólvora, são cobertas de palha."

No mesmo período, o governador da Capitania do Rio Negro, coronel Manuel da Gama Lobo de Almada, criticou a guarnição dos dois fortes do rio Negro: "As suas guarnições [são] fracas em dois sentidos, porque são diminutas e compostas pela maior parte de muito maus soldados do país, uns que são puramente índios, outros extração ou mistura deles, gente naturalmente fugitiva e indolente, [com] falta de honra, de experiência, de capacidade necessária para uma defesa gloriosa." (Observação própria: Escrita em nossos dias, produziria um ruido de enorme tamanho, acusada de discriminação contra os indígenas) 

A informação mais completa sobre a estrutura, no segundo quartel do século XIX, é de Antonio Baena (1839): "É de figura pentagonal irregular, cujo maior lado, que defronta com o rio, é uma cortina, que prende dois meio-baluartes; no meio está a porta, que simultaneamente serve ao forte e ao quartel, o qual com o calabouço, corpo da guarda e armaria abraça toda a cortina. Os lados menores não têm flanqueamento, e são uma singela parede de pedra e argila, que é o material de toda a fortificação. Falta-lhe o fosso, esplanada e obras exteriores; tem 16 canhoneiras para calibre inferior ao mediano e, portanto, incapazes de contrabater. O estado das peças, das carretas e de tudo que são anexas ao forte, como o quartel, armazéns e ribeira, é lastimoso. (...)."

Posteriormente, em 1854, o major Hilário Maximiano Antunes Gurjão voltou a criticar a escolha do local do forte, dominado pela colina pelo lado de terra, relatando que ele se encontrava artilhado com cinco peças de 6 e três de calibre 4, em bom estado. O Relatório do Presidente da Província, de 1877, acusa-lhe o abandono e o desarmamento.

À época (1958), a localidade se denominava Uaupés. Na realidade designou-se dessa forma entre 1943 e 1952. Arthur Reis informa que as pedras remanescentes das muralhas foram reaproveitadas para a construção da igreja, do hospital e da escola da Missão dos Salesianos, em São Gabriel, na década de 1930.

Atualmente o forte encontra-se desaparecido, tendo subsistido vestígios de seus alicerces em forma de ferradura. O local encontra-se ocupado pela Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama). Da primitiva artilharia do forte, restam quatro peças em frente ao edifício do Fórum do município e uma quinta ornamenta a entrada do Comando de Fronteira do Rio Negro/5º Batalhão de Infantaria de Selva (CFRN/5º BIS), que ostenta a denominação histórica de "Batalhão Forte São Gabriel".


terça-feira, março 17, 2020

MANAUS, CERCADO DE ÁGUAS


As fotos superiores mostram a baia do rio Negro, cujas águas banham copiosamente a capital amazonense; a foto inferior relembra o igarapé de Manaus, cujas águas foram canalizadas para a construção do Parque Jefferson Peres.



segunda-feira, novembro 12, 2018

SALESIANOS NO RIO NEGRO


Esta notícula (consoante registrou o saudoso padre Nonato Pinheiro) 
sobre a Missão Salesiana do Rio Negro, saquei-a do 
Jornal do Commercio, de 7 de agosto de 1965.
Capa do livro

Aí me lembrei de que possuo enorme compêndio sobre o mesmo assunto, organizado por Dom Pedro Massa, por ocasião das festas jubilares deste apostolado (1915-65). Consultando as datas vi que ambas as publicações estão envolvidas com o festejo.
Ontem, voltei a manusear o livro, em busca de alguma referência acerca da Polícia Militar do Estado. Para meu desapontamento, nada encontrei, porém, abundam páginas sobre o apoio do Exército e da Força Aérea. Então, qual terá sido o motivo do blecaute? É simples: quê possuía a PMAM para oferecer aos Salesianos? Apenas a presença de poucos soldados ali destacados, isolados naquela imensidão.

A presença mais considerável da Força Policial começa em 21 de abril de 1976, quando o Governo cria (sem implantar) uma OPM, com sede em São Gabriel da Cachoeira. Dois anos depois, esta unidade toma a denominação de 6ª Companhia Independente e, somente em janeiro de 1984, o então tenente José Moreira Nunes inaugura esta OPM.

No entanto, apesar desse descompasso, os Salesianos encaminharam ao comando da PMAM um exemplar do livro De Tupan a Cristo: Jubileu de ouro das Missões Salesianas no Amazonas (1915-65). Ao tempo, a corporação policial ainda preservava uma Biblioteca (a caminho do desamparo); assim fez constar em Boletim (30/07/1966) a doação. Com a desativação da biblioteca, este livro (foto), confesso sem pudor, encontra-se sob meu arrimo.

Sob o seu aspecto religioso o Rio Negro deve a sua primeira catequese aos Padres Mercedários que aí trabalharam por alguns decênios. Ao fim de 1600 foram substituídos pelos Carmelitas, beneméritos missionários do Rio Negro por quase um século, consolidando o trabalho apostólico nos centros de Moura, Carvoeiro e Barcelos, e estenderam a catequese também aos rios Uaupés, Tiquié e Içana e a todo o território rionegrino.
Na história da colonização do Amazonas, não faltou infelizmente a página negra e nefasta de Pombal: as leis vexatórias e anticlericais assinalaram para o Rio Negro também, não só o afastamento forçado de todos os missionários, mas o fim da civilização e do progresso, ligados historicamente à religião. Por 50 anos a decadência se acentuou com o abandono e a deserção, até que, mais ou menos em 1830 vieram os Capuchinhos a retomar o trabalho apostólico que, juntamente com os Franciscanos, continuaram com grande sacrifício até 1914.
 
UM GRANDE BISPO – Nos primórdios deste século com a criação da nova diocese de Manaus, a Providência suscitou o Pastor que veio assinalar a curva decisiva para o futuro religioso do Amazonas: Dom Frederico Costa, Bispo de Manaus. Em 1908, percorreu com coragem indômita a vastíssima circunscrição, subindo o Rio Negro até a Colômbia e a Venezuela.
Desanimado diante de tal extensão, foi a Roma para expor ao Papa, São Pio X, o plano de desmembrar da sua diocese vastas zonas para fazer delas Prelazias e futuras Dioceses. Depois recorreu a vários Institutos missionários e foi a Turim para oferecer ao venerável Padre Rua, então Reitor Maior dos Salesianos, a Prefeitura Apostólica do Rio Negro.
A Congregação Salesiana não podia recusar, embora prevendo as enormes dificuldades. Poucos meses depois, de São Paulo partia o intrépido monsenhor Giordano acompanhado pelo missionário Padre João Balzola, rico de experiência pelo trabalho entre os bororos de Mato Grosso.Existiam graves problemas para resolver: problemas religioso-moral, problema educativo, problema sanitário em uma zona altamente endêmica, sem esquecermos o problema alimentar. O que atraiu foi a juventude: dos anciãos, queimados pelo álcool e pelos vícios, nada mais se pode esperar. Mas como e onde preparar os jovens, se os 40.000 habitantes estavam espalhados sobre 200.000 quilômetros de superfície?
NA. Trata-se da primeira parte, ainda busco as demais publicações. Que Dom Bosco me ajude!