CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

1 de outubro de 2011

Carta ao filho Betão (1971-2006)

Betão,

Passei esta semana pensando na fatídica data, não apenas nela, mas nas tuas dores e em nossos infortúnios. Nas buscas incessantes pela tua cura, nas noites mal passadas, especialmente aquela que enfrentamos no Hospital 28 de Agosto.

Roberto Souza Mendonça

As angústias daquela vigília me marcaram: o anseio em te confortar, esperando controlar e espantar a adversidade. Outra, causada pelo desastre de aviação, onde mais de duzentos passageiros perderam a vida, no encontro malsucedido da Gol com o Legacy. Ah, noite de tormentos que me acompanharam por dias e outras noites.

A manhã seguinte àquela do hospital me animou, mas não por muito tempo. Veio novamente a noite e a certeza de que a tua partida se aproximava. Ninguém desejava, claro.
Era domingo, 1º de outubro, e o País dividido empunhava o título de eleitor para votar. Particularmente, como havia gravado uma entrevista para o jornal Em Tempo, corri as bancas. Estava eu lá, na página inteira. Mas isso não me interessava, preferia que tu a pudesse ler, mas não deu.

O médico plantonista, que me pareceu ter idade menor que a tua, nos recebeu – a Sandra e eu, à porta da UTI para, sem mais delongas, anunciar que tu foras a óbito. Assim, chegara para tantos o momento das lágrimas, e elas rolaram.

Daí, encontrei contigo no necrotério, quando lhe observei que não era para terminar assim, eu acariciando teus pés inertes. Mais tarde, teus irmãos da Igreja Batista da União te receberam, ocasião em que te prestaram uma homenagem cristã, autêntica, revestida do espírito que conduz esta Igreja. Sai dela reconfortado.

Tu, Betão, que muitíssimo me ajudara na busca de muitos papeis, documentos, fotografias que fizeram o passado do Amazonas. Tu, filho, que opinara, pesquisara, discutira comigo pelo melhor, desaparecia no instante em que alinhavávamos o roteiro para disputar o prêmio da Academia Amazonense de Letras, no centenário do cronista Genesino Braga.

Quero aqui te confessar: cheguei a parar, quase desistia da disputa, mas em tua homenagem recolhi as lágrimas e, num formidável esforço, aprontei a obra, que leva também teu nome na autoria.
Vencemos, cara. Ganhamos o prêmio Genesino Braga e, quando um dia o livro for impresso, nele teu nome será mais uma vez cinzelado para a eternidade.

Até breve, meu garoto.

Lembrança do 7º dia, confeccionada pelos amigos e familiares