CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

5 de outubro de 2011

Cinemas de Manaus: cine Eden

Cine Eden (1946-1973), que virou Cine Veneza (1974-1984), que virou Cine Novo Veneza (1984-1985), enfim, Cine Teatro Guarany (1989-1991)


Ed Lincon

A história desta casa de diversões deve ser repartida em quatro fases. A primeira começa em 1946, quando o português e ex-motorista, Aníbal Augusto de Castro Batista, no prédio que abrigava sua residência e garagem na rua Jonatas Pedrosa, 166/170, e ao lado da casa de Silvino Santos, construiu uma sala de exibição que denominou de Cine Eden.

Quando a casa de espetáculos ficou pronta, Aníbal se viu perdido por desconhecer como fazê-la funcionar. Mas, ao travar conhecimento com Oscar Antunes Ramos, fotógrafo amador e entendedor de assuntos cinematográficos, firmam uma sociedade e fundam a Empresa Cine Eden Ltda. Para gerenciá-la foi contratado Manuel J. Antunes, com larga experiência no ramo.
Cine Eden, em foto de jornal, 1973
A fim de que o Eden entrasse em funcionamento, a empresa adquiriu projetores das marcas Pathé e Super Sólidos, os mais modernos na época, os quais foram montados pelo técnico paulista Mario Schneider (o mesmo que oito anos depois também faria a montagem dos projetores e telas panorâmicas dos cines Avenida, Guarany e Vitória). Um “conjugado elétrico” (gerador) também foi instalado para suprir a deficiência de energia elétrica que assolava a cidade na década de 40 e seguinte. Assim, evitava a interrupção das sessões, como era frequente em outras casas concorrentes.

Com capacidade para mil assistentes e sistema de ventilação dispondo de enormes ventiladores de teto, o prédio tinha a fachada nas cores verde e branca. As entradas eram vendidas na “Garagem Central”, na av. Eduardo Ribeiro, ao preço único de sete cruzeiros e dez centavos.

A inauguração do Eden ocorreu no sábado, 23 de novembro, em duas sessões: a primeira, às 19h30, e a segunda, às 21h30. Em ambas foi exibida a produção hollywoodiana intitulada Brasil, com músicas de Ary Barroso (1903-1964) e estrelada por Aurora Miranda (1915-2005), irmã de Carmem Miranda (1909-1955), e pelo mexicano Tito Guizar (1908-1999).

Ainda na noite de abertura foi exibido o complemento nacional Reportagens “Cinédia” 10X30, e Ceilão, curta metragem à cores. A empresa contratara diretamente no Rio de Janeiro com as seguintes empresas distribuidoras: Art Filmes Ltda.; Distribuidora e Importadora de filmes Ltda.; e Republic Pictures do Brasil e Unidas Filmes Ltda.

A empresa Eden preparou uma surpresa para os frequentadores. O lançamento de duas películas mexicanas de grande destaque: O Corsário negro e A Corte do faraó, este, um misto de musical e aventura. Igualmente foram exibidos no Eden dois filmes portugueses produzidos em estúdios lusitanos: José do Telhado e Cais do Sodré.

Quando o Eden completou um ano de funcionamento, os proprietários deram ao povo manauara uma sessão de gala dupla da grande produção da Monograma: Dillinger, com entrada normal a Cr$ 5,00 e Cr$ 3,00, para estudantes.

Já no ano seguinte, sem recursos para a aquisição de novos filmes e diante da exaustiva repetição de seriados: Tambores de Fu Manchu, Adaga de Salomão, Perigos de Nioka, O Segredo da Ilha Misteriosa, entre outros, acabam por levar a empresa à falência. Então, a 23 de julho de 1948, o edifício foi vendido ao empresário Alberto Carreira, proprietário da empresa J. Fontenelle & Cia., que decide manter Oscar Ramos na gerência do Eden e do Polytheama. Ramos e sua família passam então a residir no prédio do cine.

Não é de agora, àquele tempo a bagunça promovida tumultuava as sessões das salas de espetáculos de Manaus. A coluna de cinema de A Tarde (27ago.1948), de Aristóphano Antony (1918-1968), fazia “Reclamações justas...” às autoridades: "Diversas têm sido as reclamações, que nos chegam sobre o molecório nas sessões de cinema da cidade. Raro é o dia em que a barulheira e a pornografia produzida por elementos que não têm educação doméstica, ausenta-se do recinto para sossego dos espectadores. A polícia de costumes deve agir sem panos quentes e mostrar aos mocinhos que o lugar é impróprio para excessos, seja de que natureza for".

O cine Eden, apesar de seu porte, nunca foi uma sala muito popular e menos ainda de elite, era considerado um “poeira” (sala desprovida de luxo e conforto) a exemplo de Guarany, Popular, Ideal e Vitória.

Mas, nem só da projeção de filmes vivia este cinema. No palco do Eden também havia shows com cantores, como o ocorrido na noite de 15 de maio de 1948, na despedida do tenor pernambucano José Brasileiro. Na segunda parte do espetáculo foi exibido o filme Paraíso de virgens.

Os seriados ambientados no velho oeste americano conquistavam inúmeros fãs. Em 1949 estiveram em cartaz: O Domínio das mulheres e O Valentão das mulheres, com Bill Eliott (1915-1965); Aconteceu no sertão, Cavalgada de ouro, Na velha senda, com Roy Rogers (1911-1998); O Vaqueiro vingador e O Renegado dos montes, com Charles Starrett (1903-1986).

Em 2 ago.1951, a empresa Fontenelle suspende a exibição no cine da Jonathas Pedrosa, para a instalação de novo gerador de energia, e também novos projetores da marca Century Western Standard Sound, movidos por um poderoso motor diesel de 18HP. A reabertura ocorreu dois dias depois, com a exibição do épico A Queda da Bastilha.

A 5 de dezembro de 1957, os jornais publicam este aviso: A Empresa Fontenelle Ltda. avisa aos distintos frequentadores, que o Cine Eden permanecerá fechado por alguns dias, ocasião em que serão efetuados diversos reparos, tais como: pintura do prédio, instalação de um gerador elétrico, colocação de uma tela de 14 metros de comprimento, que será a maior do norte do Brasil, e adaptação de lentes para Cinemascope, Vistavision e Panorâmica. A reabertura verificou-se no dia de Natal.

No início de 1963, a empresa fecha o Eden para uma reforma geral, arrendado para a Empresa Sul, de São Paulo, que passaria a explorá-lo. O cine foi reaberto a 21 de setembro, com um coquetel promovido pelos proprietários aos integrantes do GEC (Grupo de Estudos Cinematográficos), Joaquim Marinho, Ivens Lima, Guanabara de Araújo, Marcio Souza, Genésio Bentes, Albertino Jorge, Cosme Alves Netto, entre outros, sendo projetado, em sessão especial, A Face oculta, com Marlon Brando (1924-2004).

No mesmo ano, esta empresa seria comprada por Severiano Ribeiro que, também, arrenda as demais salas da Fontenelle, que assim finaliza suas atividades no ramo cinematográfico em Manaus.

Como já foi dito e repetido, o surgimento da TV em Manaus, em 1969, colaborou fortemente para a decadência dos cinemas da cidade. Em 1970, a situação de abandono era tanta, que o jornal A Notícia (3 abr.) chamava a atenção dos frequentadores para que, “ainda antes de sentarem, examinem as cadeiras do cine Eden, pois afora a sujeira, os senhores podem cair. Porém, não pensem somente nas cadeiras deste cine, nem confundam as trovoadas provocadas pelo 'projetor', com seu teto ameaçador”. A nota também avisava sobre o perigo de ratos que infestavam o local.

Para fiscalizar as casas de diversões, a prefeitura de Manaus organizou uma comissão sanitária, esta detectou inúmeros problemas. Em editorial, A Crítica (27 out.1971) recomendava o melhoramento dessas salas para que atraíssem a frequência da população, já que a fiscalização imposta pela prefeitura nada resolvera.

A 19 de outubro de 1972, a prefeitura estabeleceu o prazo de 60 dias para que os proprietários e arrendatários de casas de diversão realizassem as melhorias e adequações necessárias. Tendo o apoio do Instituto Nacional do Cinema (INC), no que competia à exigência de melhores acomodações e conforto dos usuários.

De Eden a Veneza

O cine Eden adentra o ano de 1973 completamente sem condições de funcionamento. Vistoriado pela comissão sanitária da Divisão de Saúde da PMM, chefiada pelo médico veterinário Dr. Carlos Durand, o qual, a 21.fev., entregou ao titular da extinta Sedeco (Secretaria do Desenvolvimento Comunitário), Josué Filho (1946-), um relatório contendo os problemas enfrentados por Guarany, Odeon e Eden. Esta mesma comissão havia fechado no ano anterior as salas Ideal e Popular.

Deteriorado, o Eden funciona até 30 de junho, quando em duas sessões noturnas exibe o filme Essa pequena é uma parada. O matutino A Crítica, de 5 de julho, questiona a razão do fechamento da quase totalidade dos cinemas de Manaus, e, em especial do Eden:
o fato que ora ocorre em Manaus, talvez seja inédito em qualquer capital brasileira. Os cinemas foram fechados quase todos de uma só vez, sem explicações por parte das empresas. (...) Para o povo, amante de uma sessão cinematográfica ainda restam duas alternativas, porque o Guarany e Ipiranga continuam abertos e muito breve, o Eden estará entrando em cena...

O prédio do cine Eden em reparos pelo Prosamim, 2010
A reforma do Eden, cujo nome foi alterado para Cine Veneza, custou cerca de dois bilhões de cruzeiros e a inauguração, que estava prevista para 30 de março do ano seguinte, somente se realizou a 10 de abril. Contou com a presença de diversas autoridades, entre essas, a do governador João Walter de Andrade, que cortou a fita simbólica, Na ocasião foi exibido o filme O destino do Poseidon (1972).

Cobrando Cr$ 10,00 pela entrada inteira e Cr$ 5,00 para crianças e estudantes, a empresa Bernardino avisava que os filmes anunciados estariam em cartaz somente uma semana. Também haveria lugar para os chamados “filmes de arte” dos mestres: Fellini (1920-1993), Jean Luc Godard (1930-), Miguelangelo Antonioni (1912-2007) e outros.

Em dezembro de 1976, as pornochanchadas dominavam a programação dos três únicos cinemas da cidade: o Guarany, apresentava Traficantes do sexo; o Ipiranga, Killer Kid, vivo ou morto e o Veneza, A ilha das cangaceiras virgens. Essa era uma forma que a empresa empregava para concorrer com a TV. De todas as salas desta empresa, o cine Veneza era o campeão em reclamações.  (segue)

Começa aqui a segunda fase da história desta casa de diversões, quando adquirido pelo grupo Daou/Bernardino. O prédio logo entrou numa reforma geral, reduzindo a capacidade da sala para 600 lugares, agora com cadeiras estofadas. Na entrada, a empresa montou um bar e sorveteria.