CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

7 de outubro de 2011

Crônica de Manoel Bessa

A Crítica, 1960
Manoel Bessa Filho foi ordenado sacerdote em 1954, quando retornou do Canadá, onde realizara sua preparação. Logo marcou a cidade com sua presença, de batina branca, professor do Colégio Estadual do Amazonas e auxiliar do vigário da Catedral de Manaus.

Mais adiante, resolveu auxiliar ao seu colega de seminário, Umberto Calderaro. Mas, antes escrevia a coluna - Do Rádio e da Vida, no Jornal do Comércio. Para lembrar esta personalidade amazonense, hoje usufruindo da doce aposentadoria, reproduzo a crônica de 8 abril 1958.

Convém lembrar que padre Bessa "deixou a batina" e, ingressando com méritos no judiciário amazonense, aposentou-se como juiz da Auditoria da Polícia Militar. Amém. 

Quando eu cheguei a Manaus, recém-formado, ainda encontrei uma tradição bastante simpática no seio da classe estudantil de minha terra: os celebérrimos debates intelectuais e júris históricos (que já desapareceram há mais de um ano).

Os jovens se exercitavam na arte da dialética e da retórica e se acostumavam de tal maneira a fazê-lo que não mais precisava apelar para os pugilatos e as “arruaças” quando queiram impor-se diante da classe ou de outras classes.

Talvez o desprezo daquela tradição de cultura é que faz ultimamente os alunos de nossos colégios apelem, demasiado, frequentemente, para as forças físicas.
Hoje, nossos secundaristas escolherão seus dirigentes. Ouve-se vozes de “ameaças” e prenúncios tristes, que, confio na força espiritual de nossos jovens de uma e outra corrente, não se devem concretizar.

Como mestre que sou, por função e vocação, como amigo daqueles que em ambas as correntes preliarão com a arma do voto, esta tarde, lanço o meu apelo de mentor: vossas inteligências são mais brilhantes do que os canos dos revolveres e as lâminas dos punhais que vi no último congresso. Aproveitai as armas que vos convém e que vos fazem alvo de admiração e respeito de quantos ainda prezam as forças do espírito.

Compreendo que alguns momentos o homem deixa que o espírito seja embaciado pela falta de compreensão e “apele para a ignorância”. Todos temos os momentos em que apelamos para os golpes de Padre Brown ou para a força de um Dom Camilo.

Mas que jovens estudantes se proponham a usar de “qualquer meio” para atingir um objetivo que a cultura lhes pode conceder, é inadmissível. Não, tenho certeza que não! Os jovens não farão assim. Foram apenas palavras de entusiasmo de jovens bem jovens e sadios.