CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

Mostrando postagens com marcador Afranio de Castro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Afranio de Castro. Mostrar todas as postagens

sábado, maio 13, 2023

POEMA PARA O SÁBADO

 Reavido do extinto Jornal Cultura, produzido pela Fundação Cultural do Amazonas e impresso na Imprensa Oficial, aqui vai uma obra poética do saudoso Afrânio de Castro, artista das letras e dos pinceis, morto tragicamente. E tragicamente esquecido por nosotros!

Recorte do Jornal Cultura n. 8, jan. fev. mar. 1974


domingo, julho 17, 2022

TRÊS ARTISTAS NO DIA DOS REIS

 No Dia dos Reis de 1963, domingo, o matutino O Jornal que circulava com a página do Clube da Madrugada, colocou nas mãos dos leitores três artistas: Afrânio de Castro (1931-81), Getúlio Alho e Luiz Bacellar (1928-2012). Cada qual com sua aptidão, dois poemas, um deles com ilustração do Alho, e havia muito mais nas páginas do jornal dos Archer Pinto.

Afrânio (acima) Bacellar (abaixo)


terça-feira, fevereiro 11, 2020

NOTA DE FALECIMENTO - 1970

Mavignier de Castro

Em 5 de fevereiro de 1970 morreu o acadêmico Antônio Mavignier de Castro. Nascido no Ceará em 1895, desembarcou em Manaus depois de uma longa viagem, com escalas na cidade de Belém (PA) e na de Paris (FRA). Aqui, foi professor de francês do Colégio Estadual, e desenvolveu outras atividades, como chefe de revisão do Diário Oficial e secretário do Jornal do Commercio, que publicou esta escassa Nota. Também se desincumbiu da função de Promotor Público em algumas comarcas do interior.

No entanto, Castro teve respeitável atuação nas letras amazônicas. São dele os livros: Amazonas Panteísta (Manaus: Sergio Cardoso, 1958) e Síntese Histórica e Sentimental da Evolução de Manaus (Manaus: Tipografia Fenix, 1948), cuja capa foi obra do artista Branco Silva.
Sua atuação literária possibilitou-lhe a acolhida na Academia Amazonense de Letras, em sessão de 6 de maio de 1950, na Cadeira nº 8, cujo patrono é Torquato Tapajós.


Registro encontrado no Jornal do Commercio (6 fevereiro 1970


ACADÊMICO MAVIGNIER DE CASTRO 

Faleceu ontem, às 23h20, em sua residência à rua J. Carlos Antony, o ilustre Professor Antonio Mavignier de Castro, que por longos anos exerceu a função de Secretário deste matutino, contando 73 anos de idade.
Deixa o ilustre desaparecido na viuvez a senhora Da. Vicência Araújo de Castro e os seguintes filhos: Amaury de Castro, pintor [artista plástico e poeta] Afrânio de Castro, senhora Dagmar de Castro Tavares, funcionária da Delegacia do Trabalho, nesta capital, e senhora Aurolina de Castro, funcionária do Ministério do Trabalho no Rio de Janeiro. O féretro do saudoso pranteado sairá de sua residência, à rua J. Carlos Antony, 642, às 16h20 para o Cemitério de São João Batista.

quarta-feira, abril 17, 2019

AFRÂNIO DE CASTRO

Personagem controvertida de nossa cidade, para mais entendimento sobre este saudoso artista, compartilho um ligeira apreciação que o jornal A Gazeta ( 28 dezembro 1963) fez circular com a estampa de Afrânio de Castro.


EIS AÍ UM ARTISTA
Boêmio mesmo sem violão. Vagabundo no bom sentido, sem a mais leve sombra do pejorativo. Dizem que nasceu fora de época, com atraso de muitos anos, deixando, assim, de ser o precursor do modernismo. Pinta, desenha e faz escultura. Com perfeição e talento, preferindo motivos amazônicos. O que lhe dá autenticidade. Tem nome que ajuda: Afrânio Mavignier de Castro. Melhor ficaria na carreira diplomática. Mas estragaria o homem que prefere viver na rua e dizer o que quer e o que sente. Desenhando, pintando, esculpindo. Um dia vendeu um quadro, fiado, a um turista americano que havia alisado em Manaus. Mais de seis meses depois recebeu, pelo correio, a fortuna de trezentos dólares. O gringo (tratamento para estrangeiro liso) era o reitor da Universidade de Nebraska.
Vendeu, este ano, 526 telas. Vive da arte, contrariando os pessimistas que não acreditam possa alguém viver assim em Manaus. Tem nome em placa de bronze na Academia de Letras, onde seu pai é imortal. Fez os bustos de Rui Barbosa, que está no Silogeu, e de Beethoven, lá no Teatro.
Fazendo “ponto” em várias esquinas, estaciona, às vezes, no Jardim da Polícia. Para sentir a natureza e conversar com os amigos. No Clube da Madrugada é gente destacada. Não é de carnaval, mas gosta do samba “Bafo de Onça”. Que lhe serve regularmente de característica. 

quinta-feira, março 22, 2018

CLUBE DA MADRUGADA: NOTA


Jornal do Comércio, 12 março 1963
O matutino Jornal do Commercio, enquanto localizado na avenida Eduardo Ribeiro, promoveu durante alguns anos exposições de pintura de artistas locais. Compartilho sua manifestação sobre a II Exposição, realizada em março de 1963, com telas e desenhos do saudoso Afrânio de Castro.
Vale lembrar que um ano depois, nos dias da posse do Governo Militar (1964-85), ocorreu a abertura da exposição do artista Jurandir Macedo. Então sargento do Exército, a presença de colegas verde-oliva no endereço sugeriu outra conotação.
  
II Exposição De Pinturas

Continua obtendo franco sucesso, a II Exposição de Pinturas no hall do edifício do JORNAL DO COMÉRCIO, desta vez com excelentes quadros do artista Afrânio de Castro. Muitas têm sido as visitas ao referido salão, do qual temos um aspecto no clichê que estamos estampando. Na foto aparecem, à esquerda o poeta Nelson Farias, ao centro o pintor Afrânio de Castro, e à direita o Dr. Aloísio Sampaio Barbosa, presidente do Clube da Madrugada, que patrocina a Exposição.

Do Jornal do Comércio, 12 março 1963
ACONTECIMENTO relevante, nos círculos artísticos e culturais da cidade, foi, sem dúvida a abertura, domingo à noite, do Salão de Pinturas do consagrado artista Afrânio de Castro, no “hall” do JORNAL DO COMÉRCIO.ÀS VINTE horas, com a presença do representante do governador Plinio Coelho, coronel Neper Alencar e de numerosas pessoas convidadas, assim como de grande número de representantes do Clube da Madrugada, falou o Dr. Aloysio Sampaio Barbosa, para declarar inaugurada aquela exposição de pintura e desenho, realçar as qualidades do autor dos trabalhos expostos e agradecer a presença do representante governador Plínio Coelho, do Dr. Geraldo Pinheiro, representante do Instituto Geográfico e Histórico, do jornalista Epaminondas Barahuna, superintendente dos Diários Associados no Amazonas e do selecionado público presente.FACULTADA a palavra a quem dela quisesse fazer uso, falaram o Sr. Sátiro Barbosa, diretor do Teatro Amazonas, o jornalista Epaminondas Barahuna, o Dr. Geraldo Pinheiro e o coronel Neper Alencar.DESDE os primeiros instantes ficou comprovada, pelo julgamento generalizado de todos os presentes, a excelência e a beleza dos trabalhos de Afrânio de Castro, que foi muito cumprimentado.
E' POMOTOR dessa exposição de Pintura, a segunda a se realizar no mesmo local, o Clube da Madrugada, figurando como patrocinadores o Governo do Estado, o Instituto Geográfico e Histórico e os Diários Associados. Ressalte-se, ainda, que também a primeira exposição, realizada no “hall” do edifício do JORNAL DO COMÉRCIO, de trabalhos dos pintores Moacir Andrade e Ney Raiol, também foi uma promoção do Clube da Madrugada, que vem se notabilizando pelo esforço em prol da cultura no Amazonas. *

quarta-feira, setembro 20, 2017

AFRÂNIO DE CASTRO (1931-81)


Recorte de A Crítica, 1967
O encontro do documento abaixo trouxe-me à lembrança esse artista, que conheço apenas pelos causos contados a seu respeito. Sim, também conheço alguns de seus quadros e alguns poemas esparsos. Todavia sei do trabalho que o Restauro do Palacete Provincial vem operando nas suas telas ali recolhidas.

Hoje, completam-se 36 anos do “encantamento” de Afrânio de Castro, repetindo o termo usado por outro “encantado”, Arthur Engrácio, autor do texto aqui copiado. O lembrete sobre o amigo foi postado no Jornal do Commercio (19 de setembro de 1982).

Afrânio nasceu em Janauacá (AM), em 1931, e morreu, portanto, alguns dias após festejar os 50 anos. Ocupou a Cadeira 5 do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, patronada por Alexandre von Humbolt.


CRÔNICA PARA AFRÂNIO
NO SEU 1° ANO DE ENCANTAMENTO

Arthur Engrácio

Amanhã, dia 20 de setembro, estará fazendo um ano que Afrânio Castro se encantou. Digo se encantou, para acompanhar Guimarães Rosa na sua filosofia, que dizia que as pessoas não morrem, se encantam. E eu acredito que assim aconteça, pois, não seria devido a esse encantamento que a imagem de Afrânio continua mais viva e marcante na nossa memória?

A imortalidade, a meu ver, é uma espécie de encantamento. Os que se imortalizam, não chegam também a conhecer a morte, na acepção subjetiva do termo, mas se transfiguram em outro ser, em outra entidade, como acertadamente queria o grande romancista.
La Rochefoucauld, citado por Tristão de Ataide, dizia que a morte para os escritores, é como a ausência para o amor. A ausência aumenta o verdadeiro amor, mas elimina os caprichos, como o vento atiça os incêndios e apaga as velas. Os escritores medíocres — acrescenta, por sua vez, o pensador brasileiro — morrem com a morte, qualquer que tenha sido o seu êxito em vida.

Os autênticos se imortalizam com ela. O conceito expedido pelos dois ilustres homens de letras, falando de escritores, pode ser estendido a todos os artistas, de modo geral, com a particularidade de, no caso, Afrânio Castro achar-se já incluído nessa categoria, pois que era também poeta. Em verdade, o nosso pintor maior tem o seu lugar assegurado na posteridade como o talento artístico mais puro e autêntico já surgido no Amazonas em todos os tempos.

Rebelde e impetuoso, seu comportamento como artista foi um desafio constante à vida, de cujos maus tratos ele se vingava com um desprezo mortal. Não tinha fisicamente nenhum atrativo, mas poucos como Afrânio souberam cultivar a beleza com tamanho devotamento e amor. Suas telas provam isto. De concepção profundamente realística, possui ele, não obstante um alto grau, o sentido poético, que fazia transparecer em sua obra, toda ela marcada aqui e ali daquele tom de vagueza e subjetivismo e que é mesmo a poesia em si.

Afrânio nasceu no município de Janauacá e a sua infância, como de quase toda criança do interior, decorreu pobre e humilde. Passou-a nesse clima de despreocupação e irresponsabilidade próprias dessa fase da vida — nadando, remando, pescando, armando arapucas para os passarinhos incautos, enrijecendo, em suma, os músculos e fortificando os pulmões com o ar sadio que o contato direto com a natureza oferece.

Aprendeu a ler com dificuldade, mas daí em diante se tornaria um incorrigível devorador de livros, lendo tudo o que lhe caía às mãos, como ciência, literatura, folclore, arte e, especialmente, as biografias dos grandes mestres da pintura: Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Rembrandt, Renoir, Guaguin, Toulousse Lautrec e, em particular, Van Gogh, artista com o qual Afrânio, pessoalmente, mostrava possuir muita afinidade.

Sem o espírito comercial de que são dotados alguns dos seus colegas, Afrânio Castro não enriqueceu nem sequer chegou a colocar qualquer dinheiro na poupança. Deixou, todavia, uma obra expressiva, respeitável, da mais alta significação e valor. Realizou exposições em quase todos os Estados do Brasil, inclusive Rio de Janeiro, São Paulo, Natal e Brasília, Belém etc.

Há trabalhos seus espalhados pelo país à fora, como também no exterior, notadamente na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, para onde foram levados por professores daquele centro de passagem por aqui. Em Manaus suas mostras de pintura sempre alcançaram grande sucesso, tanto de crítica como de vendagem, o que bem atesta a grande popularidade e o alto mérito que possuía o artista.

Em arte, ele tinha um lema: "Nada permanece bom enquanto não se procura tornar melhor". De fato, era um insatisfeito com a sua própria obra, um inconformado, um angustiado. Cada trabalho seu era um avanço que fazia na técnica; em cada nova tela sua podia perceber-se claramente aquela preocupação, aquela ânsia de perfeição que atormenta todo artista consciente do seu papel.

Temperamental por excelência, Afrânio chegava às vezes a ter tiradas que poderíamos chamar geniais. Dele, não sei se por conta ou não do anedotário que todo grande artista cria em torno de si — como no caso de um Van Gogh, um Guaguin e, mais recentemente, um Salvador Dali —, conta-se uma série de episódios mais ou menos pitorescos, que bem revelam o caráter invulgar que possuía.

Certa feita bebia ele com uns amigos, num bar localizado à rua Saldanha Marinho, quando, já bem calibrado, verificou que não tinha mais dinheiro para continuar a rodada. Pensou um pouco e chegou à conclusão de que só havia um jeito — era ir ter com o Josafá Pires, nos Associados, o qual lhe devia uma importância cujo pagamento vinha ele protelando há algum tempo.

Pensou e já ia passar da ideia à ação quando, neste justo momento, como que caído do céu, o conhecido radialista — num terno de linho branco, impecavelmente engomado, sapatos e meias também brancos — passava do outro lado da rua rumo ao bar do Carmona. Note-se que Josafá já havia percebido o artista. Mas, talvez por ele encontrar-se naquele "estado" ou não tencionar mesmo pagá-lo, resolveu passar ao largo, de rota batida.

O pintor levantou-se, chegou até à porta e gritou pelo amigo. Este, propositadamente, fez-se de surdo e continuou no seu caminho. Afrânio deu outro grito. Imperturbavelmente, Josafá se manteve no mesmo ritmo. Afrânio chamou de novo, e ainda dessa vez não obteve resposta, pois o outro não o "ouvia" de jeito nenhum. Aí não se conteve mais: pôs as mãos em concha na boca e gritou bem alto, a plenos pulmões: "Josafá, ô Josafá! Todo de branco, hein? Mas com a alma NEGRA!!!”

Quem o via com aquele físico enorme de viking, como ele próprio se arrogava, não supunha que dentro dele se agasalhava uma alma de criança, de meninão. As caretas terríveis que fazia, os berros tonitruantes que soltava, à semelhança de Tarzan, quando bebia, não passavam de encenação. Quem não o conhecesse, nessas horas, talvez saísse correndo assombrado. Mas, era estender-lhe a mão e pedir-lhe que se acalmasse, e pronto! — o "monstro" desaparecia.

Dotado de uma inteligência ágil e muito senso de humor, Afrânio alegrava qualquer ambiente onde se encontrasse. Era um repentista da piada, que ele improvisava com muito espírito e oportunidade, provocando nos circunstantes gostosas gargalhadas.

E que dizer dos epítetos infames que criava? Arlindo Porto considerava-o o maior colocador de apelidos que conhecera. Muitos desses apelidos, aplicados em seus colegas do Clube da Madrugada, pegaram e hoje estão consagrados no mundo literário e artístico de Manaus. Eis alguns deles: Pantera Cor de Rosa, Carapanã de Biafra, Gato Jaguatirica, Bunda de Vaca, Patativa de Moscou, Camaleão Moralista, Gato Jujuba, Coronel Farofa, Bezerrinho de Ouro, Caranguejeira de Pijama, Bunda de Sanfona Gafanhoto, Lavadeira de Cacimba, Caboclo Caiapó, Anjão, Tartaruga Marciana, Onça Grávida, Turculino e outros.

Passado um ano de ausência entre nós, a figura de Afrânio em nada se alterou na nossa memória. Permanece no nosso convívio, tomando parte dos nossos papai nas noites de boemia. Com os olhos da alma continuo vendo-o, carrancudo, macrocéfalo, sempre irreverente e desabusado a xingar Deus e o mundo:


— Lepra maldita! Resto de civilização!... 

sexta-feira, novembro 21, 2014

CLUBE DA MADRUGADA: 60 ANOS | 8


Detalhe da página da revista Madrugada

Na véspera do aniversário do Clube da Madrugada, outro presente, ainda retirado da revista Madrugada, que se anunciava uma PUBLICAÇÃO BIMENSAL  ANO I NUMERO I NOVEMBRO DE 1955 MANAUS - AMAZONAS - BRASIL
 
Ilustram a postagem, a explicação para a contracapa de Afrânio Castro. Fizemos pequenos reparos na publicação, em especial, o nome do autor do poema, onde se lia Luis, ao invés de Luiz Bacellar.


Nossa Contracapa

Apresentamos, neste número de MADRUGADA, como nossa contracapa um trabalho em nanquim, do nosso associado Afrânio Castro, que serve de ilustração ao poema do poeta Luiz Bacellar, publicado em outro espaço de nossa revista.
A referida ilustração do poema O GATO, num desenho cubista simboliza, mais de perto, os versos de Luiz Bacellar, que transcrevemos abaixo: 

O GATO permanece estático no tempo
e se faz dinâmico na memória
enquanto fumo o cigarro inglês:
esfinge —

Detalhe da ilustração
É de se notar o trabalho do nosso companheiro Afrânio Castro que apresenta similaridade com a técnica do pintor espanhol Salvador Dali. Não se prendendo, todavia, estritamente àquele artista, mas criando uma técnica e concepção toda sua que servem para aquilatar todo o seu talento.
Presentemente, Afrânio Castro, encontra-se na capital de São Paulo, para onde transferiu-se em busca de aperfeiçoamento, como também, a procura de valorização para o seu trabalho, que aqui, em nossas plagas não encontra repercussão pela ausência de fundamento cultural daqueles que poderiam prestigiá-lo.
Com seu talento e capacidade de trabalha inexauríveis, temos certeza absoluta, da vitória significativa que Afrânio Castro alcançará na terra bandeirante.
Ao nosso companheiro, portanto, os votos de felicidade, nessa senda difícil da vida do artista. Madrugada o abraça espiritualmente.

domingo, novembro 25, 2012

CLUBE DA MADRUGADA – 58 ANOS (2ª. Parte)

Alencar e Silva (1930-2011)l
Acredito que a última publicação conhecida sobre o Clube da Madrugada foi realizada por um dos seus fundadores: Alencar e Silva, que morreu em setembro de 2011. Portanto, dono de respeitável conhecimento sobre o Movimento, que segue lembrado. Aproveito o texto para penitenciar-me de um pecado mortal cometido no texto anterior: é que, ouvindo o autor de Lunamarga, ainda existem outros fundadores bem vivos.  Com a palavra, o saudoso Alencar e Silva. (*)

Destinado a assinalar no tempo um acontecimento de alta relevância para o desenvolvimento cultural do Estado, um dia gravou-se no bronze esta inscrição: "Pois foi. Jovens se reuniram sob as frondes desta árvore, e aconteceu. Era madrugada. 22 de novembro de 1954. E fez-se.”
Luiz Ruas, presidente do CM (1957-58)
Alude o breve texto à criação do Clube da Madrugada. E os jovens que então ali se reuniram, teriam seus nomes para sempre inscritos na legenda gloriosa como seus fundadores. Foram eles: Saul Benchimol, Luiz Bacellar, Farias de Carvalho, Theodoro Botinelly, Fernando Collyer, José Pereira Trindade, Francisco Baptista, João Bosco Araújo, Antônio Gurgel do Amaral, Celso Mello, Humberto Paiva e Camilo Souza.






E aos quais se juntariam, em seguida, Jorge Tufic, Guimarães de Paula, L. Ruas, Francisco Vasconcellos, João Bosco Evangelista, Astrid Cabral, Carlos Gomes, Pedro Amorim, Aluísio Sampaio, Jefferson Péres, Arthur Engrácio, Elson Farias, Antísthenes Pinto, Max Carphentier, Alcides Werk, Ivens Lima, Edison Farias, Sebastião Norões, Benjamim Sanches, Ernesto Penafort, Ernesto Pinho Filho, Erasmo Linhares, Edson de Souza, Carlos Genésio, M. Braga, Wagner Pinto, Anísio Mello, Maria José Hosanah da Silva, Pinheiro Pucu, Evandro Carreira, Fábio Lucena, Leopoldo Péres Sobrinho, Adrino Aragão de Freitas, Mauro Tavares, Flávio Roberto de Souza, Afrânio de Castro, Moacir de Andrade, Oscar Ramos Filho, Álvaro Páscoa, Hahneman Bacellar, Van Pereira, Getúlio Alho, José Maciel e outros.

Surgido como síntese unificadora da inquietação que vinha movendo a mocidade amazonense, desde a década anterior, e que buscava abrir espaço ao exercício da liberdade criativa e à renovação dos padrões artísticos e literários vigentes - o Clube da Madrugada chegava já amadurecido para os novos tempos sabendo perfeitamente o que queria.

O poeta Jorge Tufic, que se refere ao CM como uma atmosfera e um movimento de ideias, identifica nas raízes desse movimento uma série de fatores causais que se resumem, basicamente, no esgotamento e anacronismo da vida cultural de Manaus, êxodo da juventude, desfalcando anualmente a população de parte ponderável de seus valores, e inexistência de universidade. Surgia, assim, o Clube da Madrugada em meio a uma crise total de valores.

Muitos, evidentemente, foram os presidentes do CM. E todos o terão conduzido com o acerto esperado, dando cumprimento à pauta do seu ideário e ao intercâmbio de conhecimentos e experiências em que os madrugadenses mutuamente se enriqueciam, como que ao clima de um centro de estudos superiores.

A partir, porém, dos anos 60 e princípios dos 70, houve notável mudança de ritmo. E Aluísio Sampaio viria como que a encarnar a alma do Clube como força coesiva e dinâmica que lhe comunicaria novo ânimo e o faria projetar-se, ostensivamente, em cena aberta, para reafirmar e mostrar, em toda a sua extensão, a que vinha.

Isto se fez não só por meio da publicação de livros - o que já vinha ocorrendo desde a década anterior - mas, principalmente, do espaço gráfico de toda uma página semanal do "O Jornal", na qual se estampava a produção cultural do grupo e dos novos valores que começavam a surgir.

Dentro da informalidade que sempre o caracterizou, o Clube da Madrugada foi extremamente parcimonioso na outorga do título de "Cavaleiro de Todas as Madrugadas do Universo", contando-se entre as personalidades agraciadas com essa honraria os escritores Ramayana de Chevalier, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Assis Brasil, André Araújo, Nunes Pereira, Jean-Paul Sartre, Ferreira de Castro e o jornalista Umberto Calderaro Filho.

Aluísio Sampaio era um obstinado. Seu período presidencial (ou imperial...) estendeu-se praticamente por toda uma década - o quanto durou a página dominical do CM - tempo durante o qual só se assinalaria um breve hiato, no biênio 1965/66, com a presidência de Francisco Vasconcellos, também brilhante, dinâmica e operosa.

Lembro, a propósito, ter sido ele o iniciador da Coleção Madrugada, tornando-se, assim, o meu primeiro editor, eis que o meu livro Lunamarga veio a constituir o volume 2 da coleção, nos idos de 1965.

Voltando a tomar as rédeas em suas mãos - ocasião em que se esboçou uma cisão de consequências positivas, pois que daria lugar à criação do núcleo local da UBE - pôde Aluísio Sampaio conduzir o CM aos seus objetivos programáticos, sendo a sua dedicação pessoal responsável pela fase mais aguerrida e brilhante da entidade. A propósito, não será necessário enfatizar a competência com que se houve o grande comandante na utilização dos espaços abertos na imprensa amazonense (além da página no "O Jornal", também no "Jornal do Comércio" e na "A Crítica"), para a divulgação dos trabalhos do grupo, cuja produção intelectual se projetava para além do campo estritamente literário - poesia, conto, crônica e ensaio - e alcançava a área dos estudos sociais e econômicos.

Efetivamente, o entusiasmo, a operosidade e a força da sua liderança foram ainda responsáveis pela verdadeira explosão ocorrida no âmbito das artes plásticas, em Manaus, a partir dos começos dos anos 60, quando o Clube da Madrugada patrocinou numerosas exposições, coletivas e individuais, dos artistas locais, pertencentes ou não aos seus quadros. Lembra-se, a propósito, haver sido um membro do CM, o pintor Moacir Andrade, o primeiro artista brasileiro a expor em Brasília.

Em 1963, por exemplo, sob a denominação de Feira de Artes Plásticas, varias amostras foram montadas em logradouros públicos de grande afluência, como a praça da Matriz (lado da av. Eduardo Ribeiro) e a praia da Ponta Negra, sendo visitadas por milhares de pessoas, e atingindo-se, dessa forma, o buscado objetivo de levar ao grande público o trabalho dos nossos artistas, na primeira tentativa, entre nós, de diluição das barreiras que afastam o povo das exposições em espaços fechados.

Ao evocar-lhe a figura ímpar de grande animador do Movimento Madrugada, é de justiça creditar-se ao zelo de Aluísio Sampaio, pelo menos em parte, numerosas outras iniciativas, como, por exemplo, o experimento da Poesia de Muro. 

(*) Alencar e Silva. Quadros da Moderna Poesia Amazonense. Manaus: Editora Valer, 2011.