CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

14 de outubro de 2011

L. Ruas: OITENTANOS (1)

L. Ruas na Rádio Rio Mar 
Em 28 de novembro, o finado padre-poeta L. Ruas completaria 80 anos. Prosseguindo com a homenagem que lhe prometi, transcrevo, de sua autoria, a crônica A Bomba, integrante de seu livro Linha d´Água (Artenova, 1970).



A BOMBA


A peste grassara na cidade. Era uma cidade pequena de um pouco mais de oito mil habitantes, no máximo.

Em primeiro lugar foram tomadas todas as medidas profiláticas. A cidade foi isolada e ninguém podia entrar ou sair a não ser os organismos oficiais encarregados do abastecimento e da assistência médico-hospitalar.

Sem qualquer outro informe mais preciso, cumpre dizer que a peste se caracterizava por uma inflamação cerebral que provocava nos doentes uma série de alucinações tendo como consequência final um debilitamento que levava fatalmente à morte.

O mais curioso é que, nas primeiras semanas, os vitimados não apresentavam qualquer anormalidade no comportamento, daí o primeiro caso ter sido aceito por muitos como coisa verdadeira. Tratava-se de um cidadão que se dizia uma espécie de salvador da pátria, esta espécie, aliás, muito difundida.

Devemos acrescentar também, que todos os habitantes daquela cidade estavam irremediavelmente condenados e, mais cedo ou mais tarde, todos contrairiam o vírus, embora, segundo os médicos, não se pudesse calcular, com exatidão, quando isso poderia suceder. O contágio, em muitos casos, se dava lentamente.

Diante desse estado de coisas as autoridades federais decidiram exterminar aquela cidadezinha. Segundo os moralistas oficiais, isso seria permitido em razão do bem comum, pois, o vírus poderia ser transmitido a outras cidades vizinhas e o mal terminaria tomando conta de toda a nação. Discussão pra lá discussão pra cá, o Departamento de Defesa apresentou uma sugestão que foi por todos aceita.

O Departamento de Defesa se encontrava em fase de experiências com um novo tipo de bomba e, segundo os técnicos, faltaria um último teste para se precisar o seu raio de ação. O Departamento de Saúde, por sua vez, chegou à conclusão de que as irradiações provocadas pela explosão poderiam, talvez, purificar a atmosfera e, assim, debelar o perigo da peste para sempre.

Todos de acordo, as circunvizinhanças da cidade foram escolhidas para servir de área de experiência do Departamento de Saúde e do Departamento de Defesa.

O plano da experiência estava dividido em duas etapas. A primeira consistia numa preparação psicológica do povo para impedir qualquer movimento de pânico. A segunda, consistiria na execução técnica ou, propriamente, na explosão.

Imediatamente foi iniciada a realização da primeira etapa. Os dois matutinos da cidade e a estação difusora começaram uma campanha de esclarecimento do público que ficou logo com a pulga atrás da orelha ao tomar conhecimento dos preparativos. O povo, dizia a imprensa, não deveria dar atenção àqueles que desejavam espalhar a confusão e o pânico.

Tudo estava em ordem e não se apresentava qualquer ameaça à segurança dos cidadãos. As autoridades eram responsáveis e zelavam pelo bem comum. Tratava-se, apenas, de uma experiência científica que traria benefícios incalculáveis para a nação.

Homenagem da Universidade Federal ao mestre  
O povo deveria, pelo bem da pátria, suportar, com paciência patriótica, alguns pequenos sacrifícios que seriam exigidos para o bom êxito da experiência.

Não será necessário dizer que muitos não acreditaram na tal campanha psicológica e houve mesmo quem quis fazer movimentos de protesto contra tal experiência científica. Mas estes foram logo reduzidos ao silêncio pelas autoridades como provocadores de badernas. E, a bem da verdade, é preciso dizer que a maioria dos habitantes, sujeitos pacatos e respeitadores, aceitaram as explicações oficiais, confiantes no patriotismo e no zelo dos chefes da nação.

Não mudaram seus hábitos. Todos continuaram a ir ao barbeiro, tomar sua cervejinha, bater um papo na pracinha ou sentados em suas cadeiras de embalo, à noite, nas calçadas.

Havia também os conformados:
- Que adianta, diziam, que adianta perder a cabeça se ninguém sabe mesmo o dia da explosão?

E ninguém sabia mesmo. O dia da explosão foi guardado dentro do máximo segredo.
Mas, um dia, a bomba explodiu.

E daquela cidadezinha pacata resta, apenas, esta insignificante notícia que trago, hoje, aos meus possíveis e reduzidos leitores.