CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

6 de outubro de 2011

Cinemas da Manaus: cine Eden (1)

 Cine Eden (1946-1973); Cine Veneza (1974-1984); Cine Novo Veneza (1984-1985); Cine Teatro Guarany (1989-1991)



Ed Lincon


O cine Veneza era o campeão em reclamações. Vejamos dois exemplos retirados de jornais locais. Intitulada de A Sapataria do Veneza, o Jornal da Amazônia (22 jun. 1975) esbraveja contra a censura.
Outro CINE VENEZA - Sim e Não A Crítica (6 maio 1976)


O jornal A Notícia (6 jan.1977) aproveitando a confusão, publicou matéria sob o título “Povo virou cavalo-do-cão para ver e adorar o diabo”, relatando os lamentáveis incidentes ocorridos no cine Veneza:
Nem mesmo a forte chuva que desabou sobre a cidade na tarde de ontem, fez com que a multidão de mais de 5.000 pessoas desistissem de assistir o filme de produção americana, O Exorcista, que marcou a sua estréia no cine Veneza, gerando muita polêmica, agressões, tumultos e tentativa geral de invasão ao cinema. Um pelotão de choque da Polícia Militar do Estado foi destacado para o local, mas mesmo assim, a ordem não foi mantida.

Quando as portas do “Veneza” se abriram, a luta para entrar no cinema acabou gerando outro tumulto. Só entraram os mais fortes. Algumas pessoas saíram com ferimentos pelo corpo, mas mesmo assim, não desistiram de assistir O Exorcista.

Ainda assim, o filme bateu recordes de bilheteria em Manaus. Nos dias que se seguiram, as sessões ocorreram tranquilas e sem incidentes.

Em agosto de 1977, o sucesso do filme Dona Flor e seus dois maridos permitiu ao Veneza arrecadar perto de 600 mil cruzeiros. Com essa quantia, o proprietário resolveu reformá-lo. O Veneza ganhou forro com detalhes em gesso, poltronas com encosto e assento estofado, novo sistema de ar-condicionado e aparelhagem de som da marca G.K. A abertura sucedeu a 20 de dezembro, com o filme O Fundo do mar, com Nick Nolte e Jaqueline Bisset.

De Veneza a Guarany
Ao entrar a década de 1980, as finanças da empresa Bernardino, que reinara absoluta na década anterior, não era das melhores, comprometida ainda mais com a reforma do cine Ipiranga, na Cachoeirinha, e a concorrência de novas salas de cinema.

Nessa época, a programação do Veneza predominava pelos filmes pornográficos, proibidos para menores, que causaram o afastamento do grande público. Alguns desses: O Rei da Boca, O Leito selvagem de fêmeas, O Cafetão, O Diabo na carne de miss Jones, Orgia das libertinas.

A exibição da pornochanchada nacional Escalada da violência, na noite de 3 de março de 1984, marcou a despedida da empresa Bernardino da direção desta sala. No dia imediato, a empresa Cinemas de Arte Ltda., de Antonio Gavinho e Joaquim Marinho, arrenda o prédio do Veneza e realiza uma reforma parcial: pintura do edifício, instalação de ar-condicionado central, projetores com lâmpada xênon (substituindo os antigos projetores a carvão, que literalmente queimavam o filme); e sala de espera decorada com painel pintado pelo artista plástico Sérgio Cardoso, com alegorias homenageando os antigos cartazes de filmes.

A casa tem seu nome alterado para cine Novo Veneza, e a abertura ao público ocorreu uma semana depois, com o lançamento da produção nacional Águia na cabeça, estrelada por Nuno Leal Maia, Cristiane Torloni e Hugo Carvana.

Embora exibindo grandes sucessos da 7ª Arte, o cine, entretanto, não prolongaria sua existência. A 31 de março de 1985, com uma sessão dupla exibindo A Noiva e Dio come ti amo, o Novo Veneza encerraria definitivamente as atividades. Ao término do contrato de arrendamento, a empresa Cinemas de Arte devolveu o prédio à proprietária.

Em depoimento ao Jornal do Commércio (15 maio.1985), Joaquim Marinho expôs os motivos que o levaram a fechar o cine:
Primeiro o Cine Veneza fechou pelo tamanho dele, um cinema de 600 lugares que nos parâmetros hoje do mundo inteiro, a procura é por cinemas menores, 200, 300 lugares como é a média dos nossos cines atualmente.

O Veneza atingia um valor muito alto de despesas, uma despesa alta de custo de filmes porque dificilmente se conseguia filmes grandes para ele, que estava fora do pólo central de cinemas, e tinha menos afluência de público, e sempre requeria filmes de grande número de pessoas como o caso dos Trapalhões, A Noiva, Dio Come Ti Amo. Enfim, era um cine que dava bons resultados apenas duas vezes por ano, além de tudo isso era um cine arrendado.


Adquirido pelo empresário Dahilton Cabral (1940-), ainda em 1985, o prédio do Veneza permaneceu fechado durante dois anos. Em outubro de 1987, seu novo proprietário decidiu reabri-lo, batizando-o de Cine Teatro Guarany, numa justa homenagem ao antigo cinema que funcionara na esquina da av. Floriano Peixoto com a Sete de Setembro, e demolido em 1984.

Uma das primeiras medidas tomadas pelo empresário, foi estender na fachada o letreiro com nome do cinema preferido de sua infância. Em entrevista ao Jornal do Commércio (28 out.1987), Cabral disse que o nome do cine foi trocado porque tanto Eden, como Veneza, não mexiam com as recordações dos antigos frequentadores.

Questionado pelo jornal sobre a razão da nova casa de diversões chamar-se “teatro” também, Dahilton justificou que além da projeção de filmes, a idéia era aproveitar o espaço do palco que media 17x5m, para a realização de shows, peças de teatro, seminários, palestras, entre outras coisas.
Fachada do cine Eden reparada pelo Prosamim, 2011
O empresário disse ainda que no “novo” cinema somente seriam exibidos filmes clássicos ou produções direcionadas ao público jovem.
Atrasos na conclusão das obras, e a espera pela chegada dos equipamentos de projeção, fizeram com que a inauguração do “novo” Cine Teatro Guarany acontecesse somente a 21 de junho de 1989, com lançamento do filme A Princesa Xuxa e os Trapalhões.

Apesar de promover duas sessões diárias, às 16h e às 20h, e exibir filmes de boa qualidade, a nova sala não teve uma carreira muito longa. No entanto, teve que apelar: a 27 de setembro de 1990, promove pela primeira vez, no palco desta sala, uma sessão de sexo explícito através da comédia erótica Aluga-se moças.

O anúncio desta casa aparece em jornais até 1º de outubro de 1990. Mas, segundo seu proprietário, a mesma ainda continuou funcionando apenas como teatro, apresentando peças, palestras e outros eventos artísticos até o início de 1991, quando o prédio foi arrendado pela Caixa Econômica Federal para efetuar o pagamento do PIS.

Depois abrigou no local até março de 1999, a sede da Igreja Viva.

Após amargar um longo período de ruínas e abandono, em agosto de 2009, o prédio do antigo cine teve apenas sua fachada restaurada pelo projeto Prosamim, do governo Eduardo Braga (2007-2010). Mesmo não funcionando mais com casa de espetáculos, a reforma recuperou o nome original do prédio: Cine Eden.
Marinho também argumentava que o Veneza só se tornaria viável, se fosse transformado em três pequenos cinemas, com 200 lugares cada. Mas, segundo o próprio, o custo seria muito alto porque teria de colocar mais seis projetores para um prédio que não lhe pertencia. O advento do vídeo-cassete que começava a ganhar popularidade, também concorreu para esvaziar os cinemas da cidade.
Em 5 de janeiro de 1977, o polêmico filme O Exorcista finalmente iria entrar em cartaz, no cine Veneza. Chegava com atraso de quase cinco anos, motivado principalmente pela Censura, que se recusava liberá-lo pelas fortes cenas “diabólicas”. Com ingressos a dezesseis cruzeiros, a estréia em Manaus restou marcada por grande tumulto e tentativas de invasão da casa de espetáculos.
“Ainda não deu para entender qual é a do pessoal do Veneza, com essa exigência de só entrar no cinema com sapatos. O cinema é deles, mas o tipo de calçado que convém à gente ninguém tem nada com isso. Imaginem se os caras se associam com alguma fábrica de calçados e querem que a gente só passe a entrar com aquele tipo de sapatos, ou calças, ou... bem deixa pra lá. Mas censura de vestiário não”.

“Na terça-feira à noite, o Cine Veneza cometeu mais um desrespeito ao público. A película “La Calandria” está totalmente danificada e a sessão foi interrompida seis vezes. Quando a exibição era retomada nunca estava na mesma cena, e sim vários minutos à frente, o que deixou o público revoltado”.

Fachada do cine Eden, em reparos, 2010