CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, março 30, 2026

MEUS OITENTANOS (1)

 Fascículo 1

 

À beira das celebrações do meu Jubileu de Carvalho, sinto como se estivesse diante de uma grande parede da memória, expondo fotos antigas, e cada uma delas me coloca dentro de várias lembranças, como uma onda do mar que retorna para me tocar. Muitos projetos de vida nasceram em minha mente — feito passarinhos inquietos querendo voar —, porém, alguns voaram alto demais, não me deixando alcançá-los, outros não encontraram abrigo dentro do meu ser, inviabilizando o patrocínio próprio. Este, porém, pousa aqui bem sedimentado: contar, através do meu blog, a história do coronel Roberto, que é justamente a minha própria travessia por oito décadas de vida. Começo após o Dia de São José, 19 de março, santo que me acolheu no seminário de Manaus, e aproveito a mesma embalagem para celebrar também o centenário de Armando de Menezes, patrono generoso de tantas artes, por seu abrangente mecenato.

Nasci no bairro dos Educandos, na esquina da rua Inácio Guimarães com o beco São José, no dia 17 de junho de 1946, mês em que o céu de Manaus se vestia de bandeirolas, fogueiras e comidas típicas.

Sou fruto amadurecido da Segunda Guerra e de Manuel Mendoza — homem afeito às águas, nascido no lago Caballococha, às margens do rio Marañon, o nome do Rio Amazonas no país andino — e de Francisca Lima, filha de imigrantes cearenses e do lago Anveres nas cercanias do Careiro. Meu pai, por isso, era chamado de “peruano”. E posso dizer, sem exagero, que fui “hecho en Perú”, pois Manuel levou Francisca a Iquitos, onde se casaram e se instalaram. Mas o ventre grávido nos guiou de volta a Manaus, e ali, em junho, conheci a Luz.
Manaus, naquele tempo, respirava o alento da exploração da borracha que alimentava os Aliados em guerra — era um novo horizonte recém-aberto de pretensa prosperidade. O bairro de Constantinópolis — hoje Educandos — era uma periferia entre barrancos e igarapés, mas também absorvia promessas: o aeroporto de Ponta Pelada erguia-se como compromisso de futuro, fábricas surgiam tímidas, e no alto do bairro o vigário levantava a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro — templo onde minha família buscava consolo. Foi ali, no Instituto dos Educandos Artífices, transformado depois em Grupo Escolar Machado de Assis, que iniciei o curso primário.

O bairro, antes isolado, abriu-se ao mundo com a avenida Leopoldo Peres e a ponte Efigênio Salles. Ainda assim, a ligação com o centro era feita por catraias — conduzidas por braços que remavam como se movessem o próprio destino. Foi perto da Baixa da Égua — uma rua com um declive íngreme — que meu pai ergueu a sua Mercearia São José — casa de madeira com duas portas e uma varanda que se tornava palco de conversas. Minha avó, Victoria Malafaia, peruana, analfabeta, mas dotada de sabedoria incaica, quando emigrou de seu lugarejo em 1927, trouxera consigo dois filhos: Manuel e Francisco. Ali, ela, com seu portunhol limitadíssimo, dialogava sem ressalvas com Dona Neca, vizinha a cinco metros de distância. A filha dela, Maria Julia, ainda guarda memória viva no mesmo endereço.

Na mesma avenida morava tia Raimunda, com sua dezena de filhos, e o tio Manuel, dono de uma padaria simples e promissora. Ali eu buscava o pão doce antes de seguir ao Grupo Escolar. A energia elétrica chegava frágil — como um fino fio de esperança —, mas a água ainda era carregada em latas sobre cabeças, embaladas pela canção popular, eternizada na voz da cantora Marlene: “lata d’água na cabeça...”. Era o símbolo da resiliência e tenacidade daquele povo, descendentes de nordestinos, que vivia ali.

Em 1948, no mesmo mês de junho — como se fosse um paradigma —, nasceu meu irmão Henrique Antônio, batizado também pela folhinha, o calendário religioso. A vida seguia uma rotina tranquila, sem nenhum descompasso, com a ajuda da nossa babá, Luzia. Mas, em 1950, ano da Copa do Mundo no Brasil, meu pai decidiu arriscar-se no Rio de Janeiro, atendendo ao chamado do irmão Francisco. Vendeu o comércio e embarcamos no vapor Almirante Alexandrino, rumo à Capital Federal. Assim começou a segunda travessia da minha história, como quem troca o leito de um rio por outro, sem saber ainda para onde as águas nos levariam.

domingo, abril 28, 2024

INSTITUTO VACINOGÊNICO: MANAUS 1906

A postagem reproduz a notícia sobre a inauguração do escudo municipal no futuro Instituto Vacinogênico (destinado à produção de vacinas e à própria vacinação como forma de combater doenças infecciosas), instituição sanitária muito em voga no início do século 19. Não há notícia de quanto durou este estabelecimento, e até se funcionou. O prefeito Adolpho Lisboa, também comandante da Polícia Militar estadual, por demais esquisito, não compareceu, apesar de que haveria uma solenidade na Vila Operária com seu nome, construída no hoje bairro de Aparecida.

Brasão do município de Manaus

Há outras citações sobre o personagem – Victor Derbés, cônsul francês na cidade, e construtor da Vila Operária. Registros que permitem assegurar que obteve boa acolhida do governante municipal, tanto que, além do empreendimento no citado bairro, recebeu da municipalidade um lote de terras no bairro de Constantinópolis (hoje Educandos) para a construção de vila operária semelhante. 

Notícia circulada no Jornal do Commercio, 
22 novembro 1906

Realizaram-se ontem, às 7 ¹/² horas da manhã, as cerimônias de que demos notícia, inaugurando-se o escudo municipal na fachada do edifício em que vai ser instalado o Instituto Vacinogênico desta cidade, e, sendo em seguida, colocada a primeira pedra do sexto grupo da “Vila Operária Adolpho Lisboa”, no Plano Inclinado. O ato foi presidido pelo dr. Thaumaturgo Vaz, secretário do Município e representante do exmo. sr. coronel Adolpho Lisboa, digno superintendente desta capital.

Da solenidade da colocação da pedra, lavrou-se a competente ata, que foi assinada por todos os presentes. No cofre depositado sob a referida pedra foram encerrados os exemplares dos jornais do dia e diversas moedas brasileiras, francesas, chilenas e argentinas. Falou, por essa ocasião, o dr. Thaumaturgo Vaz, o qual, em nome do coronel Superintendente de Manaus, disse que sua exa. sentia-se feliz pelo auspicioso acontecimento que marcava um grande melhoramento à cidade, para o engrandecimento da qual não poupava esforços, trabalhando sem cessar no sentido de rodear os seus munícipes de todos os benefícios e confortos.

Estiveram presentes na bela festa, entre avultado número de pessoas, cujos nomes não nos foi possível reter, os dr. Thaumaturgo Vaz, representando o sr. coronel Adolpho Lisboa; dr. João Carlos Antony, chefe da seção de Obras da Municipalidade; dr. Theogenes Beltrão, chefe do Serviço Sanitário do Município; coronel Avelino Rodrigues, diretor-geral da Secretaria Municipal; cônsul francês, mr. Victor Derbés, construtor da “Vila Operária”, e tenente-coronel [Guarda Nacional] Henrique Rubim, pelo JORNAL [do Commercio].

Mr. Victor Derbés ofereceu aos convidados um Iunch, bebendo, por essa ocasião, o sr. cônsul francês pela felicidade do ilustre superintendente Adolpho Lisboa, de quem disse ser amigo dos seus compatriotas e grande auxiliador dos estrangeiros que aqui vêm trabalhar. Esse brinde foi correspondido pelo representante de s. exa. que em frases eloquentes agradeceu as lisonjeiras palavras do sr. cônsul, saudando, por sua vez, em nome do município de Manaus e de seu superintendente, à Pátria Francesa.

domingo, maio 16, 2021

TRÂNSITO EM MANAUS

 Em trabalho para o Batalhão de Policiamento de Trânsito (BPTran) recolhi de jornal local esta imagem, que mostra um ônibus construído de madeira, em uso na capital, e a exposição das mazelas do transporte coletivo, que segue assombrando os usuários. Fato ocorrido há quase 50 anos.
 

Edição do Jornal do Commercio,
em 7 nov. 1971

Ônibus sem nenhuma condição de conforto, esquema de viagens que repousa no mais intolerável descaso; todos esses ingredientes têm um só significado: Constantinópolis Transporte Coletivos, empresa concessionária da linha de veículos do bairro de Educandos.

Além de tudo isso, a empresa possui veículos em número não suficiente, que prejudica o seu péssimo funcionamento quando algum tem de ir para o conserto.

Às terças-feiras, e quando há jogo de futebol, a determinação dos dirigentes é de colocar os veículos no itinerário da rua Luís Antony. E que se lixe quem procurar um desses veículos nas paradas do centro da cidade, principalmente à noite, problema que já vem sendo veemente reclamado e combatido.

Agora só resta uma esperança para os habitantes do bairro do Educandos, que vêm sendo vítimas do abuso e alheamento aos seus problemas por parte dessa empresa de veículos coletivos: medidas imediatas que, por certo, serão tomadas pelo novo secretário de Segurança, o coronel José Jorge Nardi de Souza. 

quarta-feira, fevereiro 19, 2020

CORPO DE BOMBEIROS MUNICIPAIS (1952)

Capa do livro

Julgava ter esgotado as informações sobre a trajetória dos Bombeiros Militares em Manaus, quando publiquei, em 2013, Bombeiros do Amazonas: retrospectiva 1876-1998. No entanto, dias desses, vasculhando o Arquivo Público, recolhi da Mensagem governamental de 1952, rubricada pelo governador Álvaro Maia, o texto sobre o assunto.
Algumas notas contidas na peça veem corroborar o quanto eu publicara no livro: como o envio do tenente Edmundo Monteiro e o sargento Francisco Carneiro da Silva e dois cabos ao Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. A ajuda da Comissão de Estradas de Rodagem do Amazonas (CERA), depois Departamento, que findou como “Deram”. Ajuda das Forças Armadas e do público no combate ao fogo. Enfim, o estado falimentar dos Bombeiros Municipais.

CORPO DE BOMBEIROS

O CORPO DE BOMBEIROS, entregue aos cuidados e pago pela Prefeitura, está praticamente extinto em Manaus: restam os oficiais e algumas praças, estas em ocupações civis. Capital de 100.000 habitantes, com usinas e bairros operários, onde avultam casas de madeira e palha, precisa reorganizar urgentemente o seu CORPO DE BOMBEIROS, ora sem maquinários, sem mangueiras, sem quartel apropriado.
Pretende o Governo comissionar dois oficiais para estudarem, no Rio ou qualquer cidade mais próxima, a organização moderna do CORPO DE BOMBEIROS; já iniciou entendimentos preliminares com as companhias de seguro contra o fogo; autorizou, por medida de emergência e pelas dificuldades financeiras do Estado e da Prefeitura, a aquisição de três máquinas extintoras, pagas pela Comissão de Estradas de Rodagem [Cera], para seu serviço e auxílio em qualquer emergência.
Em dois grandes incêndios, que devoraram casas comerciais às ruas Marcílio Dias e Henrique Martins, conseguiu-se debelar o fogo, após enormes prejuízos, mediante conjugação de esforços das Forças do Exército e Polícia, da Guarda Civil, das mangueiras da Manáos Harbour e de populares.
O último e mais pavoroso incêndio ocorrido em Manaus, o de maiores proporções e o que produziu mais vultuosos prejuízos, foi, sem nenhuma dúvida, que aconteceu no bairro de Constantinópolis [atual Educandos].  

sábado, maio 18, 2019

EFEMÉRIDES FAMILIARES


As datas quase coincidem, nesses dois momentos da vida humana – nascimento e morte – que se cruzam na mesma família. Numa direção, lembramos a morte aos 98 anos de José Manuel Mendoza, ocorrida há cinco anos. Noutra, a comemoração dos deleitosos Setentanos de Ivo Manuel Barbosa Lima, em Santos-SP.

Manuel Mendoza
Hoje (18), lembra a morte de Manuel Mendoza, meu genitor, nascido no Peru e que, ao se casar com Francisca Lima, anverense – do lago, aportuguesou o sobrenome para inaugurar uma nova dinastia de Mendonça na região amazônica. Viveu bastante para, depois de dois casamentos e oito filhos, “entregar a alma ao Criador”. E, certamente o fez com méritos, pois era “católico, apostólico, romano” praticante.
Meu irmão Renato recomendou: “vamos aproveitar para elevar nossas orações a Deus, e que o mantenha iluminado pela luz divina; pedir-lhe proteção para nossos caminhos, assim como ele fez na primavera de nossas vidas”.

Acerca da vivência dele, escrevemos, eu e o mano Renato, o livro Entre duas viagens (2017).

***
Ivo Manuel (à esquerda) com o autor, saboreando o escocês 

Amanhã (19), festeja-se o aniversário de Ivo Manuel Barbosa Lima, meu primo materno. Não se trata de uma data qualquer, trata-se de seus SETENTANOS. Nasceu no bairro de Constantinópolis (hoje Educandos), mas residente em Santos (SP) há décadas, quando seu pai – Manuel Barbosa – dirigia a Padaria NS das Graças, edificada na “cabeceira” da Baixa da Égua. De frente para a baía do rio Negro. Portanto, Ivo é um homem chibata, desses nascidos unicamente em Manaus. Parabéns, primo.

Que são setenta anos, quando se vai viver outro tanto? Tencionei abraçá-lo por ocasião dessa festa. Para isso, preparei o fato e a fala, porém esqueci da passagem aérea. Esqueci que moramos longe, que aquele mesmo rio Negro que embelezava a manhã vista do sobrado de sua casa, nos afasta impiedosamente. Que nos obriga a unicamente pensar nos bons e poucos momentos de convívio, quando trocamos um papo. Assim é melhor, pois a cada visita há o que conversar e atualizar sobre a tribo, de preferência animado por aquele escocês.

Votos de sucesso com a família e com os amigos, magnifica conexão que nos anima a enfrentar as travancas da vida. Que venham mais SETENTA!

sexta-feira, maio 03, 2019

OS COLETIVOS DE MANAUS


Alguns detalhes para a história do transporte coletivo de Manaus, em particular do bairro de Educandos, sacados do matutino A Crítica, de março de 1969, portanto, há 50 anos. 

Os primeiros ônibus eram de madeira, adaptados ao tamanho do chassi. Autenticas esquisitices, mas funcionavam. Para atender exigência municipal, os proprietários foram obrigados a constituir empresa, daí o surgimento, por exemplo, da Constantinópolis Transportes Coletivos.
Recorte de A Crítica, 1º março 1969
Esta empresa, pois, foi incentivada a importar os coletivos de duralumínio, aposentando os de madeira. Esse fato foi noticiado pelo matutino de Calderaro, na edição de 1º de março de 1969.

Outro pequeno detalhe: a IMESA Veículos Ltda., revendedora Ford, possuía a agência na rua Marechal Deodoro e oficinas na rua Silva Ramos. Posteriormente, mudou-se para a av. Constantino Nery, próximo ao Vivaldão, hoje Arena da Amazônia. Contudo, em nossos dias, a firma encontra-se desativada e o edifício abriga uma loja do grupo Baianos.
 
Parte da mencionada notícia
O velho e populoso bairro de Educandos vai também possuir ônibus modernos. A Constantinópolis Transportes Coletivos que o serve há anos, acaba de adquirir dez novos e modernos transportes, que chegarão de São Paulo dentro de mais trinta dias.Seus principais sócios, Júlio Nogueira, Agenor de Souza Segadilha e José Maria de Souza Martins, entregaram ontem ao gerente da IMESA o cheque no valor de 48 milhões, de cruzeiros antigos, que totalizaram 96 milhões para a aquisição de dez ônibus metálicos, carroceira em Duralumínio, marca Striulli, montados em chassi Ford, série F600. Cada ônibus atenderá confortavelmente a 33 passageiros sentados.
O gerente da IMESA, que aparece recebendo o cheque da Constantinópolis, seguirá hoje à tarde para São Paulo de onde trará os ônibus que chegarão a Manaus em princípio de abril. Naquela data, a empresa retirará da linha de Educandos os “cavalos de pau” que servem o bairro desde 1952, e que já prestaram valioso serviço àquela população.Antes, corriam avulsos agrupando-se numa só empresa, que vem dando todo esforço no sentido de melhor servir cada vez mais os moradores de Educandos e, por consequência, a Zona Franca de Manaus.

quinta-feira, julho 26, 2018

CONSTANTINÓPOLIS


Nascido em Constantinópolis, estava eu às vésperas de completar sete anos quando o texto abaixo compartilhado circulou no vespertino Diário da Tarde (18 janeiro 1953). Lido por esses dias, mais de sessenta anos depois, fiquei imaginando o lugar desgraçado, infeliz onde nasci. Só havia misérias, infortúnios, se acreditar na descrição do jornalismo de antanho.

Recorte do referido vespertino
Não há uma indicação de bem-estar, da presença de qualquer organismo que proporcionasse um bom final de semana. Nem a igreja do padre Antonio Plácido, nem a igreja Batista de (que ainda conserva) Constantinópolis, tão pouco o cine Vitória ou a Usina Labor, menos ainda a beira do rio Negro e do igarapé de Educandos serviam de atenuantes. Nada. Somente aflições.
Ainda não havia o consumo de drogas, longe do nível de nossos dias, a cachaça seria essa desgraça para os homens e, para as mulheres, a prostituição. Acredito que o jornalista (não identificado, como era praxe da época) escreveu a matéria para cumprir a pauta, com interesse da empresa Archer Pinto, quem sabe, em atingir algum governante, ou todos.
Sorte grande, creio hoje, ter eu escapado desse inferno, se existiu nessa dimensão.


Bairro que congrega milhares de gente humilde; um pedaço esquecido de Manaus que ainda espera a proteção dos poderes públicos; trincheira onde permanece um exército de trabalhadores pelo engrandecimento desta terra infeliz — Constantinópolis possui, como os demais bairros de Manaus, a sua própria vida, os seus próprios problemas e amarga também o sofrimento e a miséria. (...)
Presa fácil dos caçadores de votos; gente humilde e ignorante que se deixa levar pelos demagogos, ambiciosos — aquela gente de Constantinópolis, sempre se apresentou como fator indiscutível na organização da sociedade amazonense, trabalhando nas mais difíceis tarefas; sendo ela aquela que, jamais se negou a lidar com o trabalho mais sacrificado das fábricas e das usinas, ou a exercer outras tarefas também medíocres, mas sempre honradas; mas mesmo assim nunca foi olhado com a consideração que merece; nunca recebeu o amparo de que necessita, e daí os mais desprimorosos conceitos que se lhe fazem.
Ali permanece uma infância infeliz, que não sentindo a assistência necessária, é obrigada a enveredar pela senda do crime e da prostituição. Bairro populoso, sustentáculo de nossa economia porque dali saem os homens que lidam nos mais duros trabalhos; bairro essencialmente operário, Constantinópolis carece de mais escolas e é merecedor de melhor sorte. Embora seja um dos mais populosos bairros de Manaus, ainda não compreenderam os poderes públicos que Constantinópolis já necessita de um hospital. Ao contrário, desassistido e pobre, doentio na sua maioria, aquele povo não dispõem nem ao menos de postos médicos onde possa se socorrer nos casos mais urgentes.

Sem um policiamento rigoroso; carecendo de luz e de água; sem ao menos uma feira onde comprar o alimento; com suas ruas e becos sempre em completa escuridão –Constantinópolis se transformou em campo aberto à ação dos criminosos, dos ladrões audaciosos, que assaltam em plena via pública ou chegam ao ponto de arrombarem residências, porque lhe falta a vigilância policial. A esta, porém, façamos justiça, não cabe exclusiva culpa porque aqueles becos em completa escuridão se apresentam como armadilhas traiçoeiras, onde o crime se verifica, e o criminoso se acoberta, sendo difícil por isto mesmo a proteção policial.
Ali sim, é que se verifica a deficiência assistencial em que vive a infância do Amazonas. Aquelas prostitutas em corpo de meninas, são o efeito da desorganização em que vivemos. Elas, sem a proteção necessária, sem o chamamento ao caminho do bem, sem os recursos indispensáveis para o convívio num meio mais elevado, se transformam então em vítimas pela hipocrisia da chamada “alta sociedade” e de repasto aos instintos bestiais dos “bonitões” e endinheirados. Isoladas no seu próprio ambiente, como a uma barreira imposta ao desenvolvimento social pelos preconceitos e pelo seu estado de pobreza, são forçadas então a seguir o destino de todas as jovens infelizes e desassistidas, ignorantes e necessitadas – a prostituição. (...)
Filhos que não conhecem pais; meninos ignorantes que não veem uma esperança de melhores dias; juventude forcada a seguir o caminho do crime; bairro infeliz sem um hospital, becos escuros que são verdadeiras armadilhas; povo desprezado e sempre ludibriado pelos políticos despudorados, são os complementos desse quadro entristecedor que se denomina Constantinópolis: expressão maior de miséria e sofrimento.



sábado, maio 26, 2018

CONSTANTINÓPOLIS - 1952

O acidente parece ter sido grave, porém, sabe como é, a imprensa faz aquele alarde. Nesse caso, sequer ofereceu o local preciso do desastre causado pelo ônibus Silva, apenas que na Estrada de Constantinópolis. Em nossos dias, bairro de Educandos e, para os "novinhos", a estrada é a avenida Leopoldo Peres. Longa artéria, com subida e descida. A reportagem também não informa se o ônibus dirigia-se ao Centro ou, ao contrário, retornava.


Diário da Tarde, 8 de julho de 1952
Um único detalhe que pode permitir a localização: os nomes dos saudosos proprietários das casas atingidas, uma delas de nº 1248: Mustafá Meristenio e Luiz Gonzaga Bezerra.
A reportagem compartilhei do Diário da Tarde (8 julho 1952). Nesta data, eu morava na rua Inácio Guimarães, onde dez dias depois minha mãe - gravemente enferma - viria a falecer, e o Cine Vitória estava em obras. 

domingo, outubro 30, 2011

PONTES DE MANAUS (3/4)

Após as quatro pontes construídas no governo de Eduardo Ribeiro, decorreram mais de três décadas até que o governo do Amazonas edificasse uma nova ponte. Ocorreu no governo de Efigênio Salles (1926-1930). Trata-se de outra ponte romana de pequeno porte (menos de duzentos metros), que serviu para extinguir o insulamento do bairro de Constantinópolis (agora Educandos).

Mas a história desta ponte tem outro componente, a própria comunidade, sob a liderança de Jacques Souza Lima, Júlio Barbosa e Pedro Telles, que fundam a Sociedade Esportiva de Constantinópolis. Isto e tudo sobre o bairro de Educandos quem melhor narra é o jornalista Cláudio Amazonas.

Detalhe do jornal comemorativo, editado por Cláudio Amazonas,
vendo-se o governador Efigênio Salles
Sucede que os moradores do bairro somente se ligavam com o centro de Manaus utilizando as catraias. O governo, exigido pelos lideres, negociou a seguinte empreitada: a Sociedade Esportiva se encarregaria de abrir a “estrada” de Constantinópolis (agora av. Leopoldo Péres) e o governo, da ponte necessária para atravessar o igarapé da Cachoeirinha.

A ponte (à esq.) e a Baixa da Égua, na inauguração, no
jornal comemorativo de Cláudio Amazonas
Assim, utilizando pás, enxadas e facões (terçados), e partindo do Alto, os moradores ultrapassaram a Baixa da Égua, seguiram com a picada em direção ao bairro da Cachoeirinha. Limparam, para isso, a “estrada” de 20m de largura e 1550m de extensão, consumiram 608 dias (pouco mais de um ano e oito meses) na obra.

Conforme acordado, o governo fez construir uma ponte romana sobre o igarapé. A engenharia buscou as margens mais próximas, encontrando no local denominado de Pancada.

A ponte, projetada e construída pelo engenheiro Antonio Rodrigues Vieira Junior, e iniciada em 1927, foi inaugurada dois depois com o nome do governador. Seguiu servindo ao tráfego de veículos e pedestres até a construção da ponte JK, em 1958.


Atualmente, com a remodelação do local, esta ponte foi desativada, servindo apenas de decoração.
* *  *

Somente duas décadas depois, em 1948, os sãoraimundenses, carinhosamente alcunhados de “bucheiros”, foram libertos pela construção de uma ponte, que permitia o tráfego rodoviário com o centro de Manaus.
Esta edificação leva o nome de Eurico Gaspar Dutra, então presidente da República, e a homenagem ocorreu pelo incentivo financeiro disposto pela União. Na esfera estadual, que seguia sem recursos, era governador, Leopoldo Neves, mais conhecido pelo apelido familiar de Pudico.


A ligação ocorreu no igarapé do Franco, depois de passar pelo bairro da Glória, já na av. Leopoldo Neves (hoje, injustamente mudada para Kako Caminha). Em nossos dias, ainda devido a recuperação urbanística de Manaus, segue atendendo o trânsito no sentido bairro-centro.  (segue).