CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quinta-feira, janeiro 02, 2025

MANAUS: O JORNAL & DIÁRIO DA TARDE

Em 30 de outubro de 1930, surgiu em Manaus O Jornal (conhecido pelas iniciais OJ), matutino que liderou a imprensa amazonense durante décadas. Fundado por Henrique Archer Pinto, funcionava em prédio próprio na avenida Eduardo Ribeiro. Rivalizando com o Jornal do Comércio, do velho Vicente Reis, cuja redação ficava praticamente ao lado do OJ na mesma avenida. Segundo o saudoso professor Mário Ypiranga, Henrique e Vicente não se davam bem. O Jornal, no entanto, detinha a maior tiragem, disponho dos melhores jornalistas e a melhor impressão - à rotativa.

Reprodução de foto realizada pelo
autor do post - Ed Lincon

Essa liderança era conhecida por um jingle que rodava nas rádios de Manaus nos anos 1940 e 50: “Só acredito, só posso acreditar, se O Jornal de Manaus confirmar. Olha O Jornal!... O Jornal de Manaus…” Esse matutino detinha uma força junto ao público, permitindo eleger políticos e influenciar os governantes. Promovia concursos públicos, tal como uma espécie de loteria intitulada “Concurso de Palpites”, e também as sensacionais corridas ciclistas e pedestres, além do Festival Folclórico e os concursos de Rainha do Carnaval.

Em 1932, Henrique criou o vespertino intitulado Diário da Tarde, com seis páginas diárias e oito aos domingos, enquanto o OJ circulava com oito páginas diárias e doze ou dezesseis aos domingos. Por sua redação passaram jornalistas como Philippe Daou, Milton Cordeiro, Almir Diniz, Ajuricaba de Menezes, Irisaldo Godot, Ulisses Paes de Azevedo, Ana Maria, Heliandro Maia e tantos outros.

Recorte da primeira página do vespertino

Com o falecimento de Henrique Archer Pinto, assumiu a direção do OJ seu filho Aguinaldo, com a morte deste em 1956, e¸ posteriormente do seu irmão Aloisio, assume a viúva de Aguinaldo, dona Maria de Lourdes Archer Pinto, em 1961, que ascendeu ao cargo após ganhar a questão na Justiça.

Todavia, a derrocada se acentuava, em particular com o episódio que ocorreu no início da década de 1970, em função da saída dos jornalistas de Daou e Milton (para cuidar da instalação da TV Amazonas em 1972), e Ulisses Paes e outros, autênticos esteios do matutino. Maria de Lourdes (Betina) restou praticamente isolada no comando e direção do OJ. Era muita atividade para ela realizar, devido sua inexperiência. As dificuldades acumularam-se e não havia solução nenhuma. A redação e a oficina foram esvaziando aos poucos. O material usado prejudicava a impressão devido ao uso intenso e o desgaste, devido a inexistência de manutenção ou renovação. Mais grave, começou a atrasar o pagamento dos funcionários. De outro modo, os concorrentes melhoravam as suas redações e oficinas com impressão no sistema “Off Set”. assim, o OJ foi aos poucos perdendo a liderança da imprensa amazonense.

Breve melhoria ainda aconteceu em 1972, quando o Grupo TAA assumiu a direção de OJ, realizando enorme investimento que permitiu contratar novos profissionais e adquirir novos materiais. Desse modo, a tiragem aumentou, os anunciantes, que haviam abandonado as páginas, voltaram, e o pagamento dos funcionários foi normalizado. Todavia, menos de um ano depois, o grupo se desfez e a direção voltou a Lourdes Archer Pinto, que se viu novamente em “maus lençóis”, fazendo extremo esforço para manter O Jornal em circulação. O então INPS (Instituto Nacional de Previdência Social) cobrava uma dívida vultosa, acumulada durante muitos anos. Na tentativa de quitar o débito, alguns bens foram penhorados. E mais uma ruína: em outubro de 1975, o Diário da Tarde do grupo deixa de circular definitivamente.

A redação ficou reduzida a três funcionários: o secretário, o subsecretário e um repórter esportivo, que se desdobravam para gerenciar O Jornal. Dos dez linotipistas restaram seis, e de cinco máquinas de impressão funcionavam apenas duas, depois, uma, a outra parou por falta de manutenção. Os anunciantes simplesmente sumiram e os poucos exemplares eram destinados aos órgãos oficiais. E o desastre foi se acumulando: o material para impressão começou a faltar, o papel era conseguido utilizando tocos de bobina; o pagamento era realizado através de vales; e os poucos funcionários decidiram faltar ao trabalho. Por fim, os anúncios pertenciam aos amigos que apenas desejavam ajudar.

Contudo, o dia fatídico chegou: em 14 de fevereiro de 1977, às vésperas do Carnaval, a então CEM (Companhia de Eletricidade de Manaus), cortou o fornecimento de energia. Findava assim, triste e melancólico O Jornal, definitivamente fora de circulação. O prédio e os equipamentos foram penhorados para pagamentos de dívidas. Enfim, o prédio foi demolido em outubro de 1980, e, em nossos dias, no local funciona uma agência do banco Santander.

(*) A postagem e a ilustração pertencem ao Ed Lincon, estudioso da história de Manaus, tendo no prelo uma viagem pelos cinemas da Capital. Segue copiando com sua aptidão artística as fotos mais representativas de Manaus. 

domingo, novembro 17, 2024

POESIA DO DOMINGO

 

SOMBRAS

Quase ao chegar ao fim da longa caminhada

O corpo combalido, as pálpebras descidas,

Deus não me permitiu volver o olhar à estrada,

Para rever ao longe, as sendas percorridas...

 

Mas, tenho na memória as emoções sentidas,

No firme palmilhar da vida prolongada

As horas de alegrias e de emoções vividas,

Os momentos de dor, de lágrimas salgadas...

 

Os cânticos de amor ao sol da primavera,

A ilusão fugaz de posse da quimera

Aurida no dulçor de uns lábios de mulher...

 

As sombras do passado unem-se as do presente

A que fui condenado inapelavelmente

Na sábia decisão de Deus que assim quer...

 

O Jornal, 30 outubro 1969

A Poesia deste domingo é de autoria de Joaquim Antonio da Rocha Andrade, mais conhecido por JARA, que nasceu em Belém do Pará, porém, levado para Portugal ali completou a formação escolar. Quando retornou ao Brasil, passou pelo Rio de Janeiro, onde se iniciou no jornalismo. Em seguida, buscou o Norte começando em Sena Madureira-AC, a escala seguinte e definitiva foi Manaus, onde viveu a vida nos jornais. Começou nos jornais de Archer Pinto, e o restante dos subsídios incumbem a André Jobim, em “Velhos Tempos”.

Trabalhou também no Jornal do Povo, de Machado e Silva; Correio de Notícias, de Isaias Lima Verde, ao lado de Emiliano Marinho Filho, Abdul Rayol de Sá Peixoto, nós [André Jobim], Bento e Pedro Amorim, ao tempo da campanha de Severiano Nunes [derrotado] para governo do Estado; em A Gazeta, do Dr. Avelino Pereira; depois, na fase de fundação de A Crítica, de Humberto Calderaro, passando em definitivo, em 1951, para esse jornal, tendo em Calderaro um amigo e protetor, não esquecendo os demais amigos de O Jornal e Diário da Tarde e Jornal do Commercio. É dono de uma “Taça de Prata” como reconhecimento de A Crítica pelos seus relevantes serviços prestados àquele jornal, onde 14 anos trabalhou...

quinta-feira, outubro 24, 2024

PMAM NA XV CORRIDA ARCHER PINTO:1969

 Quatro décadas e cinco anos atrás, em vez do Halloween, a verdadeira festa acontecia na avenida Eduardo Ribeiro, em frente à sede de O Jornal e Diário da Tarde, onde começava e terminava a Corrida Pedestre Archer Pinto. Naquele ano, durante a realização da XV competição, a Polícia Militar do Amazonas contou com 18 atletas inscritos. A equipe se destacou ao vencer tanto na classificação por grupos quanto com o desempenho individual de Jurandir Ferreira.
Título do matutino promotor

O evento ocorreu em 31 de outubro de 1969, festejando a fundação dos extintos periódicos, sob a presidência da então dirigente da organização jornalística: Maria de Lourdes Archer Pinto.

Inscrição de atletas da PMAM

Resultado da competição (acima)
premiação (abaixo)

 


domingo, setembro 15, 2024

POESIA PARA O DOMINGO

 Houve um tempo – somente os idosos se lembram - em que os jornais publicavam com assiduidade poemas de indistintos autores. Em datas comemorativas, a produção aumentava. Até os domingos serviam para uma coluna mais apurada, como a que compartilho de O Jornal, edição de 29 de janeiro de 1956.

 

Recorte do referido periódico

 

SERENATA

 

A avenida, silente, iluminada,

Está deserta. E um trovador, apenas,

Evocando a evidência de Mecenas.

Modula estrofes de amor à sua amada.

 

Ela que em níveo leito está deitada,

Lembrando Aspásia na formosa Atenas,

Aromas trescalando de açucenas.

Tremente, abre a janela, apaixonada

 

E na amplidão da noite tão imensa,

A lua branca lá no céu fulgura,

Qual se fora de luz hóstia suspensa.

 

O trovador, de crença a alma constela,

Que do seu peito, em mística figura,

Nasce a canção de amor mais pura e bela.

 

 

A  PA R T ID A

 

Parti, chorando, em busca de outro norte,

Naquela tarde clara de setembro...

E agitado fiquei, membro por membro,

Quando um triste anexim pintou-me a sorte.

 

Passou-se o tempo. E hoje, inda me lembro

— Esquecer quem há-de a emoção mais forte? --

Da formosa Raquel -- seu belo porte —

Imagem viva que jamais deslembro.

 

Raquel, quando eu parti, chorara tanto

Que eu vi nos olhos seus de uma fonte amara

Cair torrentes de um dorido pranto.

 

Longa tristeza. Tão cruel martírio!

O anexim cumpriu-se. E com a dor ficara

Roxa saudade, como um roxo lírio.

 

O Jornal,

29 de janeiro de 1956  

sábado, abril 08, 2023

POEMAS DE SÁBADO

A poesia deste sábado da Semana Santa é de autoria de Paula e Souza, potiguar de nascimento, porém consolidado na capital amazonense onde exerceu a profissão e se fez respeitado na literatura. Este recorte compartilhei de O Jornal (10 junho 1958), que na folha dominical oferecia Poesia aos leitores.





sábado, março 12, 2022

ANÚNCIOS DO ANO 1962

Apenas os dotados de mais de 70 anos puderam apreciar estas propagandas (como se enunciava então) nos jornais da época circulados em dezembro: A Gazeta | A Crítica | Jornal do Commercio | O Jornal e o Diário da Tarde.







segunda-feira, abril 20, 2020

EMPRESA ARCHER PINTO: NOTAS


Quando a comunicação estava restrita a jornais e rádio, a família Archer Pinto inaugurou em Manaus, na década de 1940, sua empresa jornalística, composta inicialmente de O Jornal e o Diário da Tarde. A sede central estava na Capital Federal, de onde emanava o material para divulgação. Logo constituiu a preferência dos leitores, tanto que o periódico criou o slogan: “O matutino de maior circulação no Amazonas”.
Desenho da fachada do prédio
elaborado por Moacir Andrade,
veja assinatura
Em 1954, a empresa inaugurou a rádio Rio Mar, em ondas médias e curtas, com amplo alcance, não apenas no estado. Alguns anos adiante, esta foi adquirida pela Igreja católica que a segue dirigindo, porém, unicamente em FM.
Para harmonizar a empresa, os irmãos Archer Pinto decidiram construir uma sede de padrão para abrigar o jornal e a rádio. O edifício ocuparia um endereço na avenida Eduardo Ribeiro. Apesar de a matéria de O Jornal (domingo, 29 julho 1956) prometer a inauguração para novembro seguinte, não creio que aconteceu. Posto que as instalações dos Diários (como eram designados) não passaram do casarão antigo, ou está é a recordação que nos acompanha, consultado Ed Lincon, manauara de fina memória.
De fato, funcionavam na mencionada avenida, ao lado dos Associados, ou seja, do Jornal do Commercio e a Rádio Baré. Todavia, com a declínio dos Diários, primeiro desapareceu o vespertino (outubro 1975), em seguida seu parceiro (fevereiro 1977). Por fim, o prédio em 1980, transformado em agência bancária, primeiro do Real, agora do Santander.
A postagem compartilha a nota “oficial” da empresa, realçando o entusiasmo do editorialista, assim como a assinatura do falecido artista plástico Moacir Andrade, que então iniciava a vida como desenhista de plantas.

Recorte da capa do mencionado periódico 

No interesse de oferecer instalações condignas para os Diários da empresa, que superiormente dirige – O JORNAL e DIÁRIO DA TARDE —, e para os estúdios da ZYB-20 e da nova estação ondas curtas da Rio Mar [emissora de rádio, hoje pertencente à Igreja católica, operando em FM], da qual é um dos sócios, - o jornalista Aguinaldo Archer Pinto, numa iniciativa arrojada, está fazendo construir na avenida Eduardo Ribeiro, “a sala de visitas de Manaus”, em frente ao prédio onde temos localizadas nossa redação e oficinas, um edifício moderno, que contará com três andares.

ROTATIVA
Nesse edifício, será montada (andar térreo) a nova impressora rotativa, da afamada marca alemã M.A.N. —, para atender as exigências da tiragem, dia a dia maior, de nossos Diários. Essa máquina, no gênero e em sua classe, a última palavra era matéria da eficiência e facilidade de comando, tem capacidade para imprimir 12 mil jornais numa hora, o que bem demonstra que a nossa empresa, dentro de pouco tempo (a montagem da rotativa será iniciada no próximo mês), estará perfeitamente em condições da atender aos reclamos de seus leitores, inclusive do interior do Estado e Territórios Federais vizinhos, oferecendo-lhes edições ampliadas e, graficamente, melhor confeccionadas.

ESTAÇÃO DE ONDAS CURTAS
No segundo pavimento, serão instalados os estúdios e a administração da Rio Mar, cujo novo transmissor de sete e meio quilowatts na antena (ondas de 31 metros, 9.695 quilociclos), já foi adquirido da conceituada e reputada marca Phillips, por intermédio de seus agentes, nesta praça, Braga & Cia.
Os novos transmissores da “mais ouvida” serão inaugurados no dia 15 de novembro deste ano, quando a Rio Mar completa dois anos de existência.
Por testemunho eloquente, indesmentível do arrojo, da capacidade de trabalho e realização, do interesse dos dirigentes da Rio Mar em oferecer ao povo amazonense, e à nação brasileira sempre o que há de melhor em matéria da radiofonia".
Obtendo a liderança do metiê, logo após os primeiros meses de seu funcionamento, pela boa qualidade de sua programação e pelas suas gigantescas e incomparáveis realizações, a Rio Mar se viu forçada a alargar o seu raio de operações para, dessa forma, através de campanhas memoráveis, destemidas, corajosas.
Já dispondo de aparelhagem de Frequência  Modulada [FM], para reportagem volantes; moderno estúdio de gravações de discos, inclusive long-play [LP], pela eficiente aparelhagem profissional REK-O-KUT; tudo Isso, aliado sus seus bons programas musicais, humorísticos, completas resenhas esportivas, magníficos informativos sobre os acontecimentos do estrangeiro, do país e do Estado, — elevou a Rio Mar à posição de grandeza e prestígio em que hoje se encontra.
Esse fato maravilhoso, não pertence à direção da Rio Mar, à cuja frente se encontra Charles Hamu, ladeado por Aguinaldo e Aloysio Archer Pinto. Pertence, isto sim, ao povo do Amazonas, pois foi para servi-lo, que se buscou a nova estação de ondas curtas, pela qual todos poderão ouvir a programação selecionada, variada, surpreendente e altamente moderna da Rio Mar.
Na sua nova sede, no edifício da avenida Eduardo Ribeiro, contará a Rio Mar com requisitos mais exigentes da técnica moderna e foram projetados por organização especializada do Sul do país.
Outra coisa, porém, é mais importante: operando em duas ondas — média e curta—, a Rio Mar apresentará programações distintas, variadas, atendendo, assim, a todos os gostos e preferências. Serão, portanto, duas estações em funcionamento, oferecendo defesa permanente aos interesses do povo e, igualmente, linhas de programas diferentes e bem diversas.
Cumprindo todo esse esforço, realizando todo esse corajoso empreendimento, os dirigentes da Rio Mar só desejam uma coisa: oferecer o melhor para um povo que, desde o aparecimento da emissora, lhe tem dado integral apoio, estimulando-os para novos embates, a favor da grandeza da radiofonia cabocla.

O NOVO EDIFÍCIO
O novo edifício de que falamos, e que receberá a nova impressora rotativa de nossos Diários e os novos estúdios da Rio Mar, estão sendo construídos, com toda a técnica, esmero e cuidado, pela conceituada empresa Sociedade de Obras Limitada, dirigida com proficiência e zelo pelo nosso amigo Joaquim Cunha.
O clichê que ilustra este registro, mostra-nos a fachada do referido prédio, pelo qual nossos leitores poderão aquilatar do quanto será enriquecido o patrimônio da cidade, com a sua próxima inauguração.

sábado, outubro 29, 2016

TV MANAUARA

Penso que raro é o amazonense hoje que viu falar deste empreendimento. A instalação da primeira emissora de TV em Manaus, intitulada de Manauara.

Este diminuto registro foi garimpado em O Jornal, de abril de 1966, portanto, há exatos 50 anos. Como é do conhecimento geral, a história da televisão no Amazonas começa em 1969, com a TV Ajuricaba. 

Recorte de O Jornal

Inaugurada a TV Manauara Em solenidade que contou com a presença do Governador Arthur Reis e de sua esposa, senhora Graziela da Silva Reis, presidente da Legião Brasileira de Assistência, do coronel [PM] Themistocles Trigueiro, Chefe da Casa Militar e Chefe de Polícia, de nossa diretora, jornalista Maria de Lourdes Archer Pinto, autoridades e pessoas convidadas, foi inaugurada a tarde de ontem a TV Manauara, empreendimento que orgulhece o nosso Estado, pelas perspectivas que nos oferece.
Desde ontem já existem os telespectadores amazonenses, que encontram na televisão Manauara momento de prazer.
Os flagrantes mostram o Sr. Ataliba Santos, diretor-geral da TV Manauara, quando discursava perante as autoridades, e a Primeira Dama do Estudo, dona Graziela da Silva Reis, quando cortava a fita simbólica, inaugurando a televisão amazonense 

quinta-feira, outubro 13, 2016

FACULDADE DE FARMÁCIA E ODONTOLOGIA


Recorte do periódico.
A Universidade Livre de Manaus data de 1909. Não durou muito. Entre as faculdades que a integravam, restou por algumas décadas a Faculdade de Farmácia e Odontologia. Bastante sabido, a Faculdade de Direito foi a única que se manteve ativa, fazendo a transição para a Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

A de Odontologia estava atuante em 1937, ainda que aguardando o reconhecimento federal. Funcionou em um prédio existente ao fundo da igreja dos Remédios, hoje anexado ao templo católico.

Esta postagem reproduz essa notícia, transcrita de O Jornal, de 28 de setembro de 1937.  


O progresso da Faculdade de Farmácia e Odontologia  

Desde muito que a nossa Faculdade de Farmácia e Odontologia, cuja existência vai para mais de vinte anos, vem em luta constante para merecer justos favores que pleiteia junto ao Governo Federal, que é o seu reconhecimento, trabalho esse que se encontra, em vias de aprovação graças aos esforços de seu diretor, Dr. Raymundo Sá Antunes, e da ação patriótica do Dr. Álvaro Maia, governador do Estado, e da bancada amazonense no Congresso Nacional.

A Faculdade de Farmácia e Odontologia deste Estado, conforme tivemos ocasião de observar na visita que acabamos de fazer, funciona em edifício próprio doado pelo Estado, possuindo excelentes gabinetes de clínica odontológica, histologia e de química, dispondo, também, de um corpo docente composto de profissionais competentes que são os professores Drs. Raymundo Sá Antunes, dentista (diretor); médicos: Francisco Donizeti Gondim, Conte Telles, Vivaldo Lima, Kronge Perdigão, Fulgêncio Vidal; dentistas: Raymundo Nogueira, Freitas Pinto, Alcides Câmara, Carneiro Leão; farmacêuticos: Vicente Telles, Marciano Armond e Vicente Araújo.

Como se vê, melhor não poderia ser a atuação da Faculdade de Farmácia e Odontologia de Manaus, para alcançar o seu reconhecimento, porquanto, dispõe de todo o aparelhamento preciso, quer material quer pessoal, especialmente no seu corpo docente, que se compõe de profissionais de reconhecida competência e capacidade e que são justamente as melhores recomendações para o seu bom nome e merecer, assim, toda a atenção dos poderes competentes que certamente não negarão apoio e auxílio.

Aí estão as provas, os frutos proveitosos e eficientes, representados em numerosos e excelentes gabinetes dentários particulares, sempre cheios de clientes; nos postos de assistência dentária infantil e de adultos, mantidos pela Faculdade com os seus parcos recursos; pelo Estado e pela Prefeitura Municipal, para onde afluem, diariamente, centenas de pessoas pobres, gabinetes esses que funcionam regularmente sob a direção e assistência de profissionais competentes; grande número de farmacêuticos que prestam relevantes serviços em várias farmácias e gabinetes de química nesta cidade, todos diplomados pela Faculdade de Farmácia e Odontologia de Manaus.

Ainda para melhor demonstrarmos o grau de adiantamento e progresso de nossa Escola de Farmácia e Odontologia, basta ver o clichê acima, mostrando uma aula de anatomia prática, do curso de odontologia, regida pelo Dr. Conte Telles, fato que constitui grande melhoramento, pois que, poucas faculdades de Odontologia, mesmo reconhecidas pelo Governo Federal, possuem anfiteatro para essas aulas.


Estamos certo que diante de tais melhoramentos dentro em breve a Faculdade de Farmácia e Odontologia de Manaus, merecerá reconhecimento do Governo Federal. 

sábado, abril 30, 2016

TÓPICO PARA O CENTENÁRIO DO IGHA

Antonio Loureiro e
Zemaria Pinto
Ao completar seu quadragésimo aniversário, o IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) recebeu de um antigo associado – Agnelo Bittencourt – o artigo que aqui se reproduz. O articulista elaborada um sucinto retrospecto desta agremiação.
Escrito no Rio de Janeiro, com data de 25 de março de 1957, foi estampado em página especial de O Jornal, circulado em Manaus no domingo, 28 de abril daquele ano.
Às vésperas de seu centenário, o IGHA tem por presidente o dr. Antonio Loureiro (foto)


INSTITUTO GEOGRÁFICO E HISTÓRICO DO AMAZONAS

Agnelo Bittencourt


Completa hoje 40 anos de utilíssima existência o nosso Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, pois foi a 25 de março de 1917 que teve lugar a sua instalação festiva, sendo governador de Estado o saudoso Dr. Pedro de Alcântara Bacellar, que presidiu a sessão e se fez um grande animador do novel Sodalício.
Estiveram presentes à cerimônia, como era natural, muitas autoridades, pessoas gradas e gente do povo, segundo o nosso testemunho e o noticiário dos jornais da época. Como homenagem à memória dos muitos que não mais existem, mas tomaram parte nas alegrias do momento, lembramos, apenas, os que nos ocorrem: dom Irineu Joffily (bispo), des. Hamilton Mourão, drs. Alfredo Augusto da Matta, Vivaldo Lima, Manoel Francisco Machado (barão do Solimões), Manuel de Miranda Simões, Alcides Bahia, Pedro Luiz Simpsom, Alexandre de Carvalho Leal, Astrolábio Passos, Francisco Pedro de Araújo Filho, Armando  Barbuda, Plácido Serrano Pinto de Andrade, Elviro Dantas Cavalcante, professores Raimundo de Carvalho Palhano, Vicente Telles de Souza, José Estevão, coronéis [Guarda Nacional] Antonio C. R. Bittencourt, José Cardoso Ramalho Júnior, Adrião N. Ribeiro, padre José Thomaz de Menezes, capitão Sérgio Pessoa Filho, drs. João Batista de Faria e Souza, João Henrique dos Santos e major Lobato de Farias.

Devidamente eleitos, pela Assembléia Geral, segundo os Estatutos já aprovados pelo Governo do Estado, a primeira Diretoria do Instituto foi assim constituída: Coronel Bernardo de Azevedo de Silva Ramos, presidente; D. Irineu Jofily, 1º vice-presidente; Dr. Antonio Ayres de Almeida Freitas, 2º vice-presidente; prof. Agnelo Bittencourt, 1º secretário; Coronel Henrique Rubim, 2º secretário, e coronel Antonio C. R. Bittencourt, tesoureiro.

Pelo Decreto nº 1191, de 18 de abril 1917, o governo do Estado cedeu ao Instituto o usufruto perpétuo dos prédios nº 19 e 20 de sua propriedade, situados na antiga rua São Vicente (hoje Bernardo Ramos), onde funciona, e pela Lei de nº 897, de 24 de agosto do mesmo ano, foi reconhecido de utilidade pública.

Desde logo, o Instituto começou a formar suas preciosas coleções preparando mostruários, arquivo, biblioteca e publicações, além de constantes reuniões festivas de caráter cultural e cívico. Raro era o mês em que, ali, não se fizessem conferências, exposições, aulas e homenagens à memória de homens notáveis e a visitantes ilustres.

Nenhuma data patriótica deixava de ser comemorada, sempre com o sentido de exaltação de que tanto precisam as gerações novas. Dentre tantas solenidades que o instituto realizou, recordamos, tão somente, por falta de espaço, apenas as seguintes, umas comemorativas, outras de recepções e conferências:

·      Sessão em homenagem à memória do Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira e sobre o abolicionismo, em 13-05-1919.
·      Idem, em 07-09-1922, celebrando o 1º Centenário da Independência Nacional.
·      Idem, conferência da profª. Eulália Barroso Ramos sobre a necessidade da implantação da língua Esperanto, em 02-07-1933.
·      Idem, em memória de Theodore Roosevelt, ex-presidente dos Estados Unidos da América, em presença do Cônsul desse País e da Comissão científica norte-americana que nos visitava, em 16-05-1924.
·      Idem, em memória do Coronel Bernardo Ramos, ex-presidente do Instituto, em 05-04-1931.
·      Idem, conferência do comandante Braz Dias de Aguiar, chefe da Comissão Demarcadora de Limites do Setor Norte, sob o título “Cinco Anos de Demarcação”, em 05-11-1935.
·      Idem, homenagem à memória de Carlos Gomes, no transcurso do 1º Centenário do seu nascimento, em julho de 1936.
·      Idem, por motivo do falecimento do cientista italiano Guglielmo Marconi, em26-06-1937, sessão em conjunto com o Consulado da Itália, em 21-08-1937.
·      Idem, em memória de Aureliano Cândido Tavares Bastos, à passagem do centenário de nascimento, 20-04-1939.
·      Idem, à memória de Irineu Evangelista de Souza, visconde de Cairu, no cinquentenário do seu falecimento, sessão em 13-02-1941.
·      Idem, pelo 4º Centenário do descobrimento do rio Amazonas, em 12-02-1940.
·     Idem, no transcorrer do centenário de nascimento do botânico e etnólogo brasileiro, Barbosa Rodrigues, que tantos anos viveu em Manaus, em 23-06-1942.                                                                                                                                                                                                                                                    

A essas festas não faltavam o apoio oficial, nem brilhantes oradores e assistência.
Para o Arquivo do Instituto, entrou, aos poucos, um acervo bem valioso. Lá, estão documentos seculares referentes a fatos da nossa evolução política.
Convém não esquecer, na riqueza desse Arquivo, a coleção de jornais e revistas que se editaram, quer no regime imperial, quer no republicano, desde a Estrela do Amazonas (1852) até 1946, coleção adquirida pelo Instituto, aos herdeiros do saudoso sócio, o amazonense João Batista de Faria e Souza. No citado Arquivo entraram e, lá, devem estar autógrafos não menos valiosos, inclusive um Parecer do Conselheiro Rui Barbosa; bem assim, dois “Livros de Atas”, autênticos, sendo o mais antigo, de janeiro de 1852, no qual se encontram o Têrmo da Instalação da Província do Amazonas; o do lançamento da pedra fundamental da Igreja da Matriz desta capital; o da libertação dos escravos, de 10 de julho de 1884; o da Ponte de Ferro da Cachoeirinha etc. etc.
Há, ainda, uma autobiografia inédita de Pedro Luiz Símpson, autor da Grammatica da Língua Brasílica, de 1876.
Na biblioteca, que pensamos possuir mais de dois mil volumes, há obras verdadeiramente raras e, por isso, de um valor inestimável. Lembramos, entre outras, as seguintes:
História Natural, de Caio Plínio Segundo. Madrid, dois grossos volumes, traduzida para o espanhol, ed. 1624;
            Paradisos, de Ludivici Blossi, Antuérpia, 1632;
Compendi Historici. Affonso Loschi, Vicenza, 1668;
Memórias para a História que compreende o governo del rey d. João 1º. Lisboa, quatro grossos volumes, 1746.
       
Não menos admirável, pela abundância e raridade é a sessão etnográfica, que enche um salão contendo objetos indígenas, de ornato, caça, pesca, trabalho, guerra, religião etc. A nosso ver, o mais interessante e singular desse mundo selvícola é a coleção de machados de pedra, em geral de diorito. Cerca de 130 exemplares, de formas e tamanhos diferentes, e atribuidos a tribos algumas já desaparecidas, há mais de um século, como podemos constatar nas listas que encontramos em Barbosa Rodrigues, Araújo Amazonas e outros.
É, possivelmente, a maior coleção do Brasil. Onde estariam semelhantes peças, se não fosse a coleta do Instituto? E, sem dúvida, um ótimo elemento entregue às investigações de etnólogos empenhados na descoberta da origem das tribos que vieram ocupar a Amazônia, antes da Descoberta.
Em mostruários diversos, ali estão blocos de pedras, vidros contendo areias, terras, argilas, sementes, resinas, óleos. Mais além, couros e peles, coleção de madeiras, fibras, borracha.
Convém que o Instituto não pare, na sua coletânea, nos seus estudos e na conservação desse precioso acervo das riquezas, naturais e espirituais da Hiléia. É um dever dos governos e, particularmente, de cada um de nós, homens de pensamento e de ação, pela grandeza da Amazônia.
O Instituto tem tido, como presidente, desde sua fundação, os seguintes sócios: coronel [GN] Bernardo Ramos (por dois triênios), coronel [GN] Antonio Clemente Ribeiro Bittencourt, prof. Agnelo Bittencourt (durante quatro triênios), dr. Alfredo Augusto da Matta, dr. Franklin Washington da Silva e Almeida, des. Anísio Jobim e, atualmente, o prof. Mário Ypiranga Monteiro.
Na relação dos secretários, que mais trabalharam pelo desenvolvimento e renome da instituição, é de justiça salientar os professores Arthur Cezar Ferreira Reis e Paulo Eleutério Alvares da Silva, não só organizado o Arquivo, como realizando conferências e colaborando assíduamente na Revista. Ficaram memoráveis as aulas de História do Amazonas, que o primeiro proporcionou à mocidade estudiosa de nossa terra, trabalho esse que depois, foi publicado acrescido de novos e importantes capítulos sobre a matéria.           
Na lista dos Governadores do Estado, no interregno de 40 anos da vida do Instituto, devemos distinguir a valiosa cooperação de Pedro Alcântara Bacelar e Álvaro Maia, como do Interventor general Nelson Mello, sendo aqueles declarados Beneméritos, e, este, Presidente de Honra.
O Instituto sempre viveu em aperturas financeiras, isto é, sem fontes de recursos para manter a publicação de sua Revista e manter um porteiro-zelador (que, por isso, era mesquinhamente pago) nas subvenções do Estado (Cr$ 300,00 mensais) e do Município (igual quantia) não davam para aquisição de material de expediente e de conservação dos mostruários. Por muitas vezes, a Diretoria fê-lo à sua custa.
Registrem-se, porém, dois ou três vultosos auxílios do Governo da União, obtidos por iniciativa do saudoso orador perpétuo do Instituto, Dr. Vivaldo Palma Lima, quando Deputado Federal pelo Amazonas, na última legislatura.
Esses auxílios permitiram que o atual presidente, prof. Mário Ypiranga, ampliasse o prédio, cujas obras se acham inacabadas, na esperança de um novo e urgente impulso.
O Instituto precisa sair do período de estagnação em que se encontra, recuperando o fio de sua brilhante finalidade, pois, ninguém deve desconhecer o papel que os estudos geográficos e históricos desempenham na comunhão social, no bem-estar dos povos adiantados. Faz-se, cada vez mais útil, para a amplificação da cultura, a existência de museus, arquivos e bibliotecas, nos quais se possam haurir conhecimentos sôbre o que foi e o que é em relação à Natureza e ao Homem. Completam as escolas no enriquecimento da inteligência.

Uma cidade que não possua centros nos quais se aninhem as ciências e as artes, o comércio e as indústrias, os bons costumes e o civismo, não se honra a sí própria, não dá ensanchas ao progresso. O Instituto precisa de amparo. Ajudem o seu Presidente, que é um amazonense ilustre e compreensivo, publicista e membro da Academia Amazonense de Letras.
Está operando proveitosamente em Manaus o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, que tem à sua frente o dinâmico historiógrafo prof. Arthur Reis. Acaba esse nosso coestaduano de soerguer do abandono em que se encontrava o outrora renomado Museu Goeldi (Museu Paraense). Aplausos têm surgido, em louvor dessa providência salvadora. A Entidade, de vivas e esplêndidas tradições, resurge e retoma seu destino cultural.

Após entendimentos com o Governo do Estado e com a sociedade responsável pelo nosso Instituto, de um lado; de outro, com aquele Professor, e tudo se conseguirá. É oportuno lembrar, repetindo Samuel Smiles, que, para a prática de uma boa ação, “convém imediatamente dar o primeiro passo, e estará conquistada a metade da vitória”.

Trata-se de um Sodalício que é, nos termos dos seus estatutos (Decreto nº 1.190, de 17 de abril de 1917), como a nossa Academia Amazonense de Letras, um patrimônio do Estado e uma sentinela avançada da nossa civilização.