CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

31 de agosto de 2011

Convite do IGHA

O Instituto Geográfico e Histórico convida para a posse da filósofa Rosa Mendonça de Brito. Parece estranho, mas não é. Na Casa de Bernardo Ramos, sua finalidade abrange uma gama respeitável no ramo das ciências, em consequência, possui bom número de especialistas. 


O evento ocorre na próxima sexta-feira, a partir das 19h30, no salão Dom Pedro II, na sede da instituição, situada a rua Bernardo Ramos, 117 – Centro Histórico de Manaus. O convite distribuído lembra que o traje é o passeio completo.
Diário do Amazonas, hoje

A nota publicada no Diário do Amazonas plus@d24am.com informa que a saudação a nova acadêmica será proferida pela professora Marilene Corrêa, recentemente empossada no Igha. No convite distribuído, todavia, a saudação estará a cabo do orador adjunto, historiador Abrahim Sena Baze.

30 de agosto de 2011

Academia da PMAM coronel Neper Alencar (1)

Coronel Neper Alencar (1918-1993) exerce, nos primeiros meses de 1960, a chefia da Casa Militar do governador Gilberto Mestrinho. Retorna ao quartel da praça da Polícia para assumir o subcomando da corporação, subordinado ao “coronel” Assis Peixoto (o último civil a comandar a PM do Amazonas), que a administra até 1962.

Coronel Neper Alencar (à esq.) acompanha o governador
Gilberto Mestrinho (à dir.), O Jornal, 28 jan.1960
Em janeiro de 1963, assume o governador Plínio Coelho, que mantém ao tenente-coronel Neper como subcomandante da PM. As graves mudanças políticas sucedidas no período, hoje registradas na memória do País, seguidamente aclaradas pelos estudiosos, alcançaram a Força Estadual do Amazonas. Apesar de todo o esforço daquele governante, o progresso policial militar era mínimo, seu efetivo seria da ordem de 200 homens.

Ao final desse ano, nosso homenageado foi convocado para o serviço no Palácio Rio Negro. Na sede do governo, ele assumiu a chefia da Casa Militar, permanecendo nessa função até final de junho de 1964. A justa causa de sua dispensa é obvia: o governador Plínio Coelho fora cassado pelo Regime Militar.

Antes de retornar a caserna, em março seguinte, para reassumir o subcomando, tenente-coronel Neper Alencar esteve à disposição da Secretaria do Interior e Justiça. Seu comandante era o major EB José Jorge Nardi que, ao ser exonerado em agosto de 1965, entregou-lhe este comando. Neper o exerceu em caráter efetivo até março de 1966.
Coronel Neper Alencar recebe os aspirantes Pedro Câmara, Pedro
Lustosa e Helcio Motta (a partir da esq.), O Jornal, 20 dez. 1962
A substituição foi realizada pelo capitão EB Hernany Guimarães Teixeira. Coube a este, em junho desse ano, incorporar a PM parte dos formandos do NPOR, do 27.º BC, entre os quais me incluo. O patrono da Academia seguiu por anos no exercício do subcomando, para ser mais justo até 5 de setembro de 1969, quando foi promovido a coronel (em decorrência do decreto 1.394/69), até então, este posto era privativo de oficial da reserva. Tornou-se, pois, o primeiro entre seus pares.

Dois detalhes: um, antes desta distinção, em 1967, esteve à disposição do gabinete do prefeito de Manaus, Paulo Pinto Nery; e foi, em curto período (1967-68), comandante da Guarda Territorial de Rondônia, antecessor da PM deste estado. Dois, embora tenha alcançado o derradeiro posto hierárquico, coronel Neper não realizara qualquer curso profissional. Muito simples: a obrigatoriedade formulada pela Inspetoria Geral da PMs não o alcançara.

No entanto, no ano seguinte, aceita frequentar o CAO (Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais), na Polícia Militar de São Paulo. O curso fora organizado notadamente para atender alguns desses casos sucedidos pelo País. Coronel Neper leva consigo o tenente-coronel Júlio Cordeiro, igualmente atingido pelas normas da Inspetoria. Naquele estado, ele conquista novas amizades, não somente dos colegas de farda, mas de dirigentes do Palmeiras, clube de futebol.

Normas da Inspetoria motivaram a PM local a modificar sua estrutura de comando. Dessa maneira, houve a mudança do subcomando para a chefia do Estado Maior, que foi entregue ao coronel Neper Alencar. Com isso, ele alcançou mais uma primazia: de ser o primeiro Chefe, nomeado em 9 de outubro de 1969.

Em dezembro de 1971, coronel Neper afasta-se da atividade no quartel da praça da Polícia. Nessa ocasião, fora nomeado subsecretario de Segurança, função que exerceu por dois anos. Exonerado, permanece disposicionado junto à referida secretaria até que, em dezembro de 1975, aceita assessorar a coordenadoria regional do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).

Penultimas notas: em abril de 1977, próximo de completar 36 anos de serviços, sem os acréscimos legais, ocorre sua transferência para a reserva. E, seis anos depois, é “reformado pela idade limite”, consoante os assentamentos do saudoso coronel Neper da Silveira Alencar. (segue)

29 de agosto de 2011

Academia da PMAM coronel Neper Alencar

Talvez eu tenha chegado com aquele atraso, pois há tempo os alunos-oficiais da Academia da Polícia Militar solicitam pela internet informações sobre o patrono daquele estabelecimento de formação superior. Aqui vai minha contribuição. Trata-se da primeira parte, logo concluo meu trabalho.
Ten-cel Neper Alencar,
O Jornal, 1964

Neper da Silveira Alencar, falecido coronel da Polícia Militar do Amazonas, nasceu em Manaus a 6 de junho de 1918 e aqui morreu em 7 de março de 1993, estando sepultado no cemitério São João Batista.


De cor branca, cabelos e olhos pretos, media 1,67m, mas devido sua estrutura física parecia ter mais altura. Neper era o terceiro filho do professor Abílio de Barros Alencar (já tratado em postagem anterior), “cuja inclinação era pelo magistério, ensinando matemática”, e de Judith da Silveira Alencar.
Ao tempo do serviço militar, o professor Abílio enviou o filho a Belém (PA), a fim de que este frequentasse o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (Cpor), gerido pelo Exército. Ao final de 1940, Neper concluiu o curso de infantaria. Sem prestar o estágio regulamentar, logo regressa a Manaus, e conquista uma vaga na Polícia Militar do Estado, então comandada pelo tenente-coronel PM José Rodrigues Pessoa.

É necessário esclarecer que, então, o ingresso de oficial na Força Policial dependia exclusivamente de vaga; porém, para acolher ao tenente Neper, o interventor federal baixou o decreto-lei n.º 581, de 2 de junho de 1941, que, modificando artigos do Regulamento Interno, permitiu a inclusão deste oficial. A 30 de junho, este ingressou na PM, no posto de 2.º tenente.
Ten-cel José R. Pessoa

No entanto, como não cumprira o estágio básico do Cpor, em fevereiro de 1943, o jovem tenente foi apresentado ao 27.º BC. Nessa situação permaneceu até abril, quando então o tenente Neper Alencar voltou aos quadros da força estadual. Desfruta de uma ascensão meteórica, tanto que, em 1948, era promovido a capitão e alcança o posto de tenente-coronel, em 1954. Em julho deste ano, assume o subcomando da corporação.

No final de 1954 acontece eleição governamental, elegendo o trabalhista Plínio Coelho, que vence ao “cacique” Álvaro Maia e a velha oligarquia amazonense. Quando o eleito assume, em 31 de janeiro seguinte, encontra no comando interino da corporação ao elegante tenente-coronel Neper Alencar.

Aqui cabe uma digressão: o Amazonas vivia momentos angustiantes, de igual maneira a Força Policial. Plínio Ramos Coelho afirma isso em sua mensagem de posse, e, tratando da desta força, informa que a encontrou falida sob o comando estóico do coronel Neper Alencar. Como o Estado, toda a Força necessitava de reparos, de reorganização geral. Basta relembrar que sequer fardamento o pessoal possuía. Os vencimentos há meses havia "desertado".
Manaus, centro histórico, anos 1940
Dois meses depois, o governador PRC empossa no comando o coronel Cleto Veras, mas o tenente-coronel Neper foi recompensado, ao ser nomeado Assistente Militar do governador (função não bem definida).
Nessa condição permanece pelos cinco anos seguintes. Nos meses de janeiro de fevereiro de 1960, o governador Gilberto Mestrinho nomeia o patrono da Academia chefe da Casa Militar, então denominada de Gabinete Militar. Substituído nesta função, tenente-coronel Neper volta a assumir o subcomando da Polícia Militar do Estado. (segue)

28 de agosto de 2011

Academia de Polícia Militar do Amazonas

O saudoso coronel Neper da Silveira Alencar é o patrono da Academia de Polícia Militar do Amazonas. Em nossos dias, os seus alunos-oficiais se empenham em resgatar a memória deste oficial, para isso têm buscado todos os canais, inclusive os da modernidade globalizada, ou seja, a internet.

Neste espaço, encontrei o apelo, que vou responder em dois tempos. O primeiro, reproduzindo duas páginas com o intuito de apresentar o “avô” da mencionada casa de formação policial militar – Abílio Alencar (1888–1953), que é o pai do coronel Neper Alencar.

E, qual a razão para esta minha homenagem? É que Abílio de Barros Alencar foi um competentíssimo mestre em matemática, além de graduado em Engenharia e Direito pela Universidade Livre de Manaus. É lamentável, mas o nome deste mestre batiza - somente -a Escola Municipal, para o ensino básico, situada na Rodovia Torqueto Tapajós, km 34.

O primeiro texto, de autoria do finado João Chrysostomo de Oliveira, foi escrito três dias após o falecimento do Matemático, portanto, repleto de emoções e amizades, mas verdadeiro e sincero, que foi publicado em O Jornal, de 6 de março de 1953.


Abílio de Barros Alencar


Na quase puerícia de seus 14 anos, chega Abílio de Barros Alencar com seus pais e irmãos procedente do Piauí, de onde era filho, para a outrora Terra da Promissão, como era considerado o Amazonas malfadado de hoje.
Filho de Benedito de Barros Alencar e de dona Rosalina Feitosa de Alencar, ambos naturais do Ceará, Abílio Alencar desde aquela pouca idade radicou-se no Amazonas, de tal modo, que se considerou natural desta terra como se os seus olhos se houvessem abertos, pela vez primeira, para o sol planiciário e para a grandeza do Rio Mar.

Enquanto seus pais e irmãos seguiram para Manacapuru, onde Benedito pontificou como ativo e eficiente advogado provisionado, e homem de notável ascendência intelectual entre os seus contemporâneos, o adolescente Abílio Alencar preferiu ficar em Manaus, mesmo em casa estranha, com o propósito nobre de estudar ainda que a conta de grandes sacrifícios.
Ginásio Amazonense, final século XIX
 Matriculando-se na antiga Escola Normal, vencendo todas as dificuldades, vai forjando o seu espírito sedento de saber em prélios intelectuais ao lado das brilhantes inteligências de Alice Brito Inglez, Isabel Freitas, Tristão de Sales e outros colegas, e recebendo as lições dos grandes mestres da época, como Sidou, Berredo, maestro [Joaquim] Franco e outros. Recebe o honroso diploma de professor normalista em 1908.
Em 1913, conquista o título de engenheiro pela Universidade [Livre] de Manaus. Nascem destes dois proveitosos cursos as suas grandes paixões: o magistério e a matemática. Consagra-se ao magistério de tal forma que desde a juventude só esta inclinação sublime polariza sua vida: conduzir, orientar, ensinar sobretudo a ciência dos números.


Moço ainda, projeta seu nome como um legítimo matemático. Faz concurso brilhante de aritmética para a antiga Escola Modelo, anexa à velha Escola Normal, para onde mais tarde é promovido.
Em 1927, bacharela-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela faculdade de então. Sem ir à Europa, à metrópole ou a outro centro mais adiantado do Brasil, Abílio Alencar atestou pela sua cultura e pelo seu saber que, nesta província humilde, também se forjam capacidades que podem ombrear vantajosamente com doutores que se jactam com sapiências aneladas e adquiridas em outros centros culturais de fora.

Como professor, tornou-se um matemático respeitado não só no Estado, mas no País inteiro, e em terras de além mar, colaborando nas mais conceituadas revistas do gênero, destacadamente na Revista Brasileira de Matemática e no Almanaque Bertrand, editado em Portugal, aos quais emprestava o brilho de sua pena de verdadeiro criador no campo da ciência dos números.

Como engenheiro, realiza notáveis e importantes trabalhos de agrimensura e perícias delicadas e difíceis, em que vence galhardamente. Como advogado, colaborou modestamente com causídico de renome no nosso fórum, dele recebendo os mais exaltadores encômios, que não o envaidecem e não o empolgam de modo a fazê-lo abraçar decisivamente a carreira, pois a sua paixão resume-se em uma só: o magistério.


Unindo o seu destino, pelo laço do matrimônio, com dona Judith Pinheiro da Silveira, Abílio Alencar encontra nessa companheira, lutadora e perseverante, um grande estímulo para batalhar e vencer. Funda a antiga Escola Rui Barbosa; leciona na Universidade; no colégio N. S. Auxiliadora; na antiga Escola Municipal de Comercio, atual Sólon de Lucena, onde fez posteriormente brilhante concurso perante o interventor Nelson Melo, sendo homenageado como mestre competente, que dispensou a arguição.

Dirigindo mais tarde a referida escola, batalha, com perseverança e denodo, pela conquista da federalização do estabelecimento, vitória que conseguiu para a alegria e conforto de quantos estudavam, à época, naquela casa de ensino comercial.
Na antiga Escola Normal, tornou-se o mestre de matemática competentíssimo e rigoroso no julgamento de seus discípulos, de modo que todos o olhavam com um misto de temor e estima, embora mais tarde se tornasse o mestre indulgente que todos nós conhecemos.

Dirigiu a antiga Diretoria de Instrução Pública, na ausência do titular efetivo, Dr. Beltrão, e, no governo Leopoldo Neves, já aposentado, voltou a dirigir o atual Departamento de Educação e Cultura, época em que tivemos ocasião de colaborar com o mestre amigo, que sempre pautou sua administração pela manutenção de uma liberalidade e demonstração de estima e compreensão para com todos. Sempre se nos demonstrava constrangido quando não podia atender a parte que o procurava, a quem tratava como uma criatura estimada da família. E assim não foi compreendido por seus pares e correligionários, afastando-se daquela repartição bastante desgostoso sem, no entanto, nunca dar demonstração de rancor ou animosidade a quem quer que seja.

Como chefe de família, tinha tal afetividade aos seus que era capaz dos maiores sacrifícios para que ninguém sofresse a menor privação, chegando ao ponto de, na época de maior atribulação de sua vida, quando a Carta de 1937 lhe corta a cátedra do Sólon de Lucena, deixando-o em situação quase desesperadora, seguir para o Rio de Janeiro enfrentando todos os obstáculos para dar assistência ao seu querido filho enfermo Euler, inteligência privilegiada, o seu grande sonho, o seu grande ideal que ele desejava ver concretizado com o ingresso de Euler na carreira diplomática, sonho que foi dilacerado com a morte prematura do jovem, que o deixa profundamente abalado. No Rio, leciona desenho no colégio Pritaneu, de Antóvila [Mourão] Vieira, para manter-se e sustentar os seus naquela angustiosa situação.
Instituto de Educação do Amazonas
 Ainda no desejo de amparar os seus, funda com sua filha Lea Antony o antigo Colégio Gustavo Capanema, atual Instituto com o mesmo nome, que permanece sob a direção da dinâmica professora. Lecionou matemática no antigo Ginásio Amazonense e constituiu-se o verdadeiro oráculo da juventude, no ensino particular daquela ciência.
Temos aí traços ligeiros da vida exuberante de Abílio de Barros Alencar, que a morte nos arrebatou a 25 de fevereiro, deixando todo o campo educacional do Amazonas enlutado, deixando principalmente o casarão do Instituto de Educação, onde ele pontificou por muitos anos, debaixo da pesada atmosfera da saudade, debaixo da angustiosa impressão do seu desaparecimento irreparável.

Solidarizando-nos sinceramente com a justa dor da família Abílio Alencar, apresentamos-lhe as nossas condolências de amigo, com estas palavras consoladoras: Abílio Alencar desapareceu no corpo, mas seu nome impoluto e as sua obra exuberante já o perenizam na memória e no tributo de gratidão de seus discípulos de escola e de exemplo honroso.

O segundo documento, transcrito parcialmente, encontra-se encartado no Dicionário Amazonense de Biografias: vultos do passado (1973), de Agnello Bittencourt.

O professor Abílio Alencar foi casado com dona Judith da Silveira Alencar, dama de exemplares virtudes. Do feliz enlace, nasceram os seguintes [8] filhos: Euler (falecido); Léa Alencar Antony; Neper da Silveira Alencar; Déa Alencar Assumpção; Viéte da Silveira Alencar; Otto da Silveira Alencar; Selma Alencar Acioly; e Maria Agnesi da Silveira Alencar.

Não consta ter publicado nenhum livro. Mas colaborava nos jornais de Manaus, em assuntos pedagógicos e motivos de sua especialidade. Era um notável charadista, mandando frequentes trabalhos para o afamado Almanaque Bertrand. Com o pseudônimo de Déa (nome de uma de suas filhas), manteve assídua correspondência com o matemático e escritor Malba Tahan.

Ponte Efigênio Salles

Agosto, 27



1929 – Inauguração da ponte Efigênio Salles, a primeira a ligar o bairro de Educandos ao Centro. Esta saga foi realizada pelo povo do bairro, então denominado de Constantinópolis. A família de Jacques Souza Lima foi a condutora da inciativa, precedida pela "estrada" aberta desde o alto do bairro, onde se encontra a igreja católica, até a ponte.
Contruída no governo de Efigênio Salles (1926-30), a ponte foi batizada com seu nome. Em nossos dias, com a reforma prosaminiana, apenas serve de decoração.

Fotos da família Souza Lima e publicadas no jornal A Hora (abaixo)


26 de agosto de 2011

Burle Marx em Manaus

Burle Marx, Jornal do
Commercio, 22 ago. 1971
Roberto Burle Marx (São Paulo 1909 – Rio 1994), que foi artista plástico e arquiteto-paisagista, com obras espalhadas pelo mundo, esteve em Manaus, talvez a única vez, há quarenta anos.


 Não tenho registro da finalidade de sua visita a Manaus, apenas que foi recepcionado na Academia Amazonense de Letras, onde dissertou sobre o "paisagismo em relação à região". O visitante foi saudado pelo próprio presidente, o acadêmico Djalma Batista.



Polícia Militar do Amazonas (XVII)

26 de agosto


1887 – O presidente provincial, coronel do Exército Conrado Jacob de Niemeyer, modifica a denominação da Guarda Policial (atual Polícia Militar do Amazonas) para Corpo Policial do Amazonas. Trata-se da primeira alteração na nomenclatura desta corporação ao longo de mais cento e setenta anos.
Ainda Manáos, capital da província do Amazonas, em 1865
Niemeyer foi empossado em 23 de março de 1887. Dois dias depois, efetuou a instalação da 2ª sessão da 18ª legislatura da Assembléia Legislativa Provincial, ocasião em que apresentou largo Relatório.
Neste documento, tratando da Guarda Policial, informou aos legisladores que, do exame verificado na escrituração desta, por solicitação do atual comandante, “foi ela trancada de ordem minha, tal era a balburdia em que se achava, impossibilitando a indispensável correção e melhora”.

Registrou mais, que foi responsabilizado por prevaricações encontradas o ex-comandante da Guarda Policial, Francisco Antonio Nepomuceno, “que mandei submeter a processo”.
Enfim, que a Guarda Policial ia de mal a pior, até seu armamento deve ser substituído, pois se encontra “estragado” e incompleto. Para encerrar, coronel Conrado de Niemyer (que é nome de avenida no Rio de Janeiro), informava aos deputados do pequeno número de praças, os quais, pelo continuado serviço de rondas, não têm tempo “para receberem a instrução profissional, muito desejável”.

Na ocasião, o presidente tomou duas "sábias" decisões: mudou o nome da Guarda e mandou que observasse o Regulamento n.º 57.

25 de agosto de 2011

Renúncia de J. Quadros: cinquentanos

Nessa data, há cinquentanos, Jânio da Silva Quadros, ou melhor Jânio Quadros, renunciava a presidência da República, escrevendo um bilhete de sete linhas para o presidente do Senado. A consequência desse ato conhecemos muito bem, outros até o vivenciaram de diversas formas.

Capa do opúsculo de Anísio Mello

Esta efeméride foi lembrada, nesta semana, pela revista Veja e pelo canal Globonews. Em ambos, foi explorada a trajetória do político, sua figura histriônica, além de seus bilhetinhos com que governava e da célebre fotografia em que Jânio demonstra com os pés sua indefinição.


No entanto, J. Quadros é pouco lembrado pela sua erudição e, quando ocorre, é para servir de chacota. Um amazonense, porém, tomou a iniciativa de analisar a obra poética de Jânio, em opúsculo (30p) publicado em São Paulo, em 1962 (2ª edição). E é com a vulgarização desta peça que relembro o cinquentenário da renúncia.

Foi sob o título - A face poética de Jânio, que Anísio Mello (1927-2010) analisou a poesia deste matogrossense. Convém assinalar que AM desembarcou em São Paulo na ocasião em que JQ governava o estado.

O opúsculo tem prefácio de Jorge Medauar, que registra a magreza da obra, em razão do pequeno número de poemas de autoria de JQuadros. Mas que “o objetivo da obra de Anísio Mello há de ter sido este de proclamar o senhor Jânio Quadros como um político melhor dotado, porque apurou sua sensibilidade, fazendo-se poeta”.

Esta produção de AM foi divulgada originalmente para os leitores de Correio do Norte (jornal quinzenal de sua propriedade, editado em SP), “para os que se interessam por literatura, independentemente da política adotada pelo nosso poeta”. E Anísio Mello finaliza, “admiramos a facilidade do manejo da língua portuguesa falada e escrita por Jânio”.

A capa, apesar de haver indicação no corpo da publicação, pertence ao autor, artista plástico e poeta, além de outras habilidades com as artes. “Assim é Jânio Quadros: um só homem, sentindo as emoções e querendo interpretá-las por setenta milhões de brasileiros [população de então], com seu imenso coração de poeta”. E, conhecedor da arte, Anísio Mello consagra: “ só os poetas podem sentir as emoções do povo”.

24 de agosto de 2011

Memorial Amazonense (LVIII)

Agosto, 24



1901 – Fundação da Loja maçônica Esperança e Harmonia, na cidade de Itacoatiara (AM), a segunda neste município.


1932 – Diante da cidade de Itacoatiara (AM) ocorreu um enfrentamento entre barcos regionais artilhados, que tomou a alcunha de Batalha Naval de Itacoatiara. Essa história tem ligação com a revolução constitucionalista, em São Paulo. Os rebeldes, adeptos da revolução paulista, partiram da fortaleza de Óbidos (PA), depois que artilharam os navios Jaguaribe e Andirá.
Jornal Correio do Norte, abril 1961
Intentavam alcançar Manaus (AM), porque Belém (PA) encontrava-se sob a intervenção de Magalhães Barata. A caminho da capital amazonense, assaltaram a cidade de Parintins (AM). O obstáculo seguinte era Itacoatiara, cujo prefeito, Gonzaga Tavares Pinheiro, era capitão da PM. Convém esclarecer que a Polícia Militar do Amazonas encontrava-se desativada.

Assim, a defesa da "Velha Serpa" teve recursos do pessoal do 27º Batalhão de Caçadores, de Manaus. A tropa legalista também se deslocou em barcos regionais: BaipendiIngá. Primeiro chegaram os revoltosos, ao encontro destes seguiu o capitão Gonzaga e o vigário da cidade, padre Joaquim Pereira. Este oficial, como estratégia, manteve longo diálogo com os adversários, esperando como aconteceu a chegada de reforços.
Aconteceu, então, o encontro das forças, em pleno rio Amazonas. Ao final, foram a pique os navios dos revoltosos, encerrando-se de maneira dramática a ameaça de invasão.

23 de agosto de 2011

Música e Poesia

Djalma Batista, A Crítica, 1956
Sob o título acima, o saudoso cientista Djalma Batista escreveu o artigo abaixo, no final de 1957 (O Jornal, 23 dez.) saudando as artes. E louvando igualmente os homens e as mulheres que galhardamente as produziam.   

Vale a pena assinalar, neste final de ano, que a poesia e a música tiveram uma rentrée auspiciosa em nossa capital.
Nada menos de cinco poetas estrearam em livro. E quando os poetas falam é preciso escutá-los, porque lhes pertence o segredo das previsões e por eles bradam os anseios coletivos.


A música, por seu turno, que de há muito se refugiara na garganta dos uirapurus e dos rouxinóis do rio Negro, ressurgiu triunfalmente, com o concerto recente do Coral João Gomes Júnior e da Orquestra Sinfônica do Amazonas, em organização.
Saudemos, quanto merece, o surto artístico, que representa, de certo, o prenúncio de melhores dias para a vida da inteligência no Amazonas!

Nunca nos faltaram poetas, e bons poetas, valendo citar, dos mais novos, Sebastião Norões, Oseas Martins, Áureo Mello, Djalma Passos e aquele inditoso Paulo Monteiro de Lima. Muitos outros existem, e aparecem constantemente nos suplementos domingueiros, mostrando que a chama tem estado sempre viva.
Não tínhamos tido, porém, o lançamento em livro de tantos quantos os deste ano, iniciando com os voos impressionantes do Pássaro de Cinza, de Farias de Carvalho, que é um artista inspirado, seguido pelos poemas de Antisthenes Pinto, em Sombra e Asfalto.

O que mais me impressionou foi a floração de uma autêntica poesia de maturidade, nos livros de Edmundo Canamari; Benjamin Sanches e Raimundo Ramos Coelho. Amigo dos três, que são todos de minha geração, não lhes conhecia as tendências poéticas e me regozijei deveras com a sua revelação, por traduzir aspectos que exaltam mais ainda a personalidade de cada um deles: Canamari, homem de estudos sérios e bem orientados; Sanches, industrial e comerciante devotado aos seus labores; Coelho, servidor da Justiça, fiel ao seu ofício, por uma herança honrosa.

Não seria justo dizer que os poetas estreantes são grandes e notáveis: não sou crítico literário, e abomino os elogios gratuitos e imoderados. Não seria justo, também, negar-lhe o mérito, denunciando esquírolas porventura existentes nos trabalhos divulgados.


Sou um homem sensível à beleza, e pude me comprazer com enleantes versos de Folhas d´alma, Argila e Vereda de sonhos, além dos dois volumes a que me referi anteriormente. Encontrei, neles, momentos de alta poesia, revelando uma inspiração que me emocionou e comoveu. E não há poesia onde falta a emoção.

Canamari verbera contra o “mundo estranho, sem flores e sem poesia... de angústia e tirania...”. É o tema social, preocupação de nossa época. Sanches, ao evocar os Sargaços, fala de “Gosto na mucosa do pensamento, - como saber de ontem que foi amanhã...”.
Pinto, na sua serenidade, acredita na Mãe eterna: “A mão que sinto – hirta sustém o mundo”. Coelho, que é legitimamente um passional, celebrando A Chuva, acha que “as gotas na janela, rutilando – lembram colar de lágrimas caídas – dos olhos tristes de u´a mulher chorando...”. Farias, na largueza de suas imagens, considera as mãos de Neruda “como pétalas da rosa branca universal da paz!”.

Repito: os poetas são precursores. Depois deles virão os romancistas (onde estão os fixadores da vida na Amazônia, que não publicam os seus romances?).
Temos tido, na verdade, na literatura regional, principalmente escritores descritivos e ensaístas. Precisamos urgentemente dos criadores.

- o –

O que conseguiu, na noite de 23, no Teatro Amazonas, o maestro Nivaldo Santiago raia pelo milagre. Um grande coral, de quatro vozes mistas, e conjunto sinfônico, numa terra onde o estudo da música entrou para os currículos escolares, mas saiu do coração do povo, deram ao numeroso público que felizmente lá ocorreu a estranha sensação de que algo de novo e surpreendente estávamos assistindo!

Também não vou cair no louvor desmedido, mas é impossível calar diante daqueles artistas em potencial, que o maestro Santiago reuniu, estimulou e disciplinou. Houve números de uma beleza penetrante, como a Marta, de Moises Simons, que teve como solista Pedro S. Amorim, acompanhado pelo Coral e pela Orquestra.
A senhora Manoela Araújo tem uma voz melodiosa e cantou trechos de responsabilidade, com grande sucesso, agradando de verdade. Duas sopranos, inteiramente desconhecidas como tal, as senhoritas Francisca Bandeira e Cleomar Feitosa, se revelaram. Sobretudo o conjunto de vozes e sons foi a grata surpresa da noite que bem poderia ter sido de grande gala.

Estou certo de que a iniciativa de alto sentido artístico do maestro já não poderá fenecer. O povo julgou-a e lhe deu a consagração de suas palmas, que representam compreensão e solidariedade. O governo, que não é mais que um instrumento do povo, obedecerá à sua imposição, dando ao Coral e à Orquestra Sinfônica o apoio material de que precisam.

E o sonho de um amazonense idealista, que estudou na Itália, lutou em São Paulo, deixando tudo pela terra natal, já está sendo uma autêntica realidade a música, a divina música, que Carlos Gomes semeou em Belém e Joaquim Franco em Manaus, voltou a fazer parte do espírito da planície.

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Bendito ano de 1957, que se encerra com música e poesia!

hoje, o maestro Nivaldo Santiago mantém-se em atividade no interior de Minas Gerais.
o Coral João Gomes Junior segue organizado, sob a gerência da “soprano” Cleomar Feitosa.

Nota do postador:

22 de agosto de 2011

Memorial Amazonense (LVII)

Agosto, 22

Biblioteca Pública do Amazonas, anos 60

1945 – Grave incêndio atingiu a Biblioteca Pública do Amazonas. O desastre, inolvidável, sucedeu na madrugada desse dia destruindo seu acervo. Já instalada onde hoje se encontra, no cruzamento da rua Barroso com a avenida Sete de Setembro, a Biblioteca e o Arquivo Público partilhavam o andar térreo do prédio. Ocupavam, respectivamente, o salão sul (av. Sete de Setembro) e o salão norte (rua Henrique Martins). Outra repartição ali estava instalada, a Assembleia Legislativa. Embora não estivesse em funcionamento, pois vigorava a ditadura do Estado Novo – ocupava “provisoriamente”, desde 1913, todo o andar superior.

Faltou pouco para este patrimônio cultural sucumbir completamente, porém, o destino interveio poupando alguns já raros livros e impressos. Diante do infortúnio, Manaus irmanou-se, tanto para combater as chamas quanto para recuperar o patrimônio. As descrições oferecem ampla visão desse empenho geral, a primeira provém do Boletim Interno da Polícia Militar (24 ago.), que detinha o dever de arrostar as chamas.

Ontem, o patrimônio cultural do Amazonas sofreu profundo golpe com um terrível incêndio que destruiu parte de um grande edifício do Estado, onde se achava localizada a Biblioteca do Estado. Esta lamentável ocorrência, que teve início pelas 3h da manhã, foi logo socorrida pelo Corpo de Bombeiros, além de alguns oficiais e praças da Força, com o intuito único de dominar a ação devastadora das chamas. Por um retardo da abertura da rede de águas, o incêndio tomou maior volume, entretanto, um esforço gigantesco por parte dos nossos bombeiros, bem como de alguns oficiais e praças da Força, conseguiram evitar a propagação das chamas às outras dependências do mesmo edifício.

Tanto entusiasmo arrebatou o comandante, a ponto de indultar a pena disciplinar “dos praças da Companhia de Bombeiros, bem como da companhia de metralhadoras do Batalhão”. Nominalmente, do cabo 339, Paulino Furtado de Araújo e do soldado 494, João Bento de Souza, da 1.ª Companhia de Fuzileiros.

Os bombeiros não puderam combater o fogaréu a contento, reconhece o comandante. Após o rescaldo, restaram para os policiais militares os encargos da segurança e da remoção dos entulhos. Isso mesmo. Foram designados 12 homens para, sob a orientação do diretor dos Serviços Técnicos do Estado, demolir as áreas do prédio irremediavelmente atingidas pelo fogo. Coube ao tenente Caetano Félix do Nascimento, que nos anos de 1954-55 seria comandante da Polícia Militar, a fiscalização desses serviços.

A destruição da biblioteca do Amazonas relevou outros personagens. O relator, não apenas do incêndio, mas da restauração do prédio e da montagem das coleções, foi seu diretor. Genesino Braga (Nascença e Vivência da Biblioteca do Amazonas. Belém: Gráfica Falangola, 1957), cronista de méritos indiscutíveis, inicia o capítulo Incêndio da Biblioteca Pública lembrando a queima de outra biblioteca, incluída em todos os compêndios. “Como no céu de Alexandria, no ano de 641 a.C., o céu de Manaus também se cobriu de grossos rolos de fumo, na madrugada de 22 de agosto de 1945”.

No andar superior funcionava a Assembleia Legislativa, onde mantinha seus arquivos, daí supor que, uma descarga elétrica “no velho quadro de eletricidade existente no andar superior do edifício”, tenha produzido o desastre. O fogo destruiu por completo todo “o patrimônio livresco, móveis e demais utensílios da Biblioteca Pública do Amazonas”.

Ao contrário do que proclamou o comandante dos Bombeiros, o cronista-diretor Braga fustiga: quando o alarme soou, não houve “as providências que se esperavam”, pois, para a “imediata debelação do incêndio, não havia água nas bocas do incêndio próximas ao local” e, bem pior, “os bombeiros, desapresados, não dispunham do mais primário material para o combate a incêndio de tão vastas proporções”.

Diante deste quadro: madrugada, sem água nos hidrantes e com bombeiros desaprestados, “toda a biblioteca foi destruída, não se conseguindo salvar sequer uma página de livro; e toda a ala direita do majestoso edifício veio ao chão, da cobertura ao soalho do piso inferior e deste à laje do porão, ficando de pé apenas as grossas paredes laterais, na sua obra de alvenaria, com grandes fendas de alto a baixo”.

Sem contestação, foi um dia aziago para a vida cultural do Estado. Restou, contudo, para os anais da Polícia Militar as palavras reconhecidas do cientista Djalma Batista (1916-1979), manifestadas em carta ao comandante da Força Policial do Amazonas:

A cidade de Manaus viveu na madrugada de anteontem um de seus dias mais trágicos, com o incêndio da Biblioteca Pública, por excelência a casa da cultura e do espírito. A violência com que lavrou o fogo foi tamanha, que a ameaça de generalizar-se a todo o quarteirão se tornou evidente. (...) O gesto de solidariedade e a ajuda prestimosa dos briosos militares me cativou extraordinariamente.

Biblioteca Pública em reforma no governo Mestrinho, anos 90

O grupo estava constituído dos sargentos Edson (do Serviço de Saúde) e Djalma Passos (depois oficial; Passos graduou-se pela Faculdade de Direito do Amazonas em 1955. Além de policial, foi professor de português. Como político, foi deputado federal e estadual, tendo presidido o PTB, até seu falecimento. Foi ainda diretor da extinta Guarda Civil e secretário de Estado do Interior e Justiça. Enfim, publicou diversos livros, entre estes, Poemas do tempo; As vozes amargas; Tempo e distância), e pelos soldados Antônio Nunes da Silva, Januário M. da Silva, Manoel Ribeiro, Maximiniano Belarmino e João Bento de Souza.

Em nossos dias, 66 anos depois, o governo estadual finaliza a mais nova reforma da centenária Biblioteca Pública.

20 de agosto de 2011

Óscar Ramos - Quando a vontade impera


Óscar Ramos
Óscar Ramos, nascido em Itacoatiara, em 1938, depois de conquistar prêmios no País e no Exterior, atualmente chefia o Departamento de Cinema da Secretaria de Estado da Cultura. É candidatíssimo para ocupar a cadeira 17 da Academia Amazonense de Letras. 
Em sua homenagem, transcrevo deste a crônica publicada no Jornal do Commercio, em 20 jan. 1959.

Quando a vontade impera


- É rápido. Vamos aqui. Somente o tempo de comprar umas cuecas. Gostas de peixe?... Ótimo. Então vais almoçar uma peixada comigo, lá em casa.
Isso dizia o meu amigo, ainda freando o carro, depois de minha alegação de que estava com pressa. Hesitei. As refeições em sua casa, regadas com bom vinho português, são demoradas e absorventes. Tinha dormido mal a noite anterior e tencionava tirar uma sesta logo após o almoço.

Ir à peixada era renunciar à sesta. Continuei hesitando. Mas só por momentos. Entre a gororoba do restaurante e a peixada, decidi por esta última em sacrifício do sono atrasado.

Entrei com o amigo no magazine. Pelos vistos, parecia ser freguês habitual da casa pois assim o demonstrou o gerente que se adiantou risonho para o atender.

- Quer-me embrulhar seis cuecas nº 70, por favor?
- Meu caro, cuecas nº 70 não temos. Mas acabamos de receber uns paletós, última moda no Rio. Quer ver?
- Não. Não quero ver. Quero cuecas nº 70.
- É... De fato estamos com falta de cuecas desse número. Mas o senhor não quer dar uma olhada nuns blusões que acabam de chegar?
- Não, meu amigo. Eu quero cuecas nº 70. Cuecas nº 70, ouviu? Mas se tiver de modificar essa minha vontade, não desejo nem paletós, nem blusões. Arranje-me aquela “dona boa” que está no caixa. Palavra de honra que a troco pelas cuecas.

Não esperou a resposta do homenzinho, que ficou meio aparvalhado com tirada tão abrupta. Agarrou-me pelo braço e puxou-me para fora, enquanto a “dona boa” nos acompanhava com olhares ternos a despeito de sua cotação tão baixa.

Já no carro, ponderei. C´os diabos! A mulher vale mais que seis cuecas!
- Aquele sujeito é um imbecil, -- vociferou o meu amigo, sem prestar atenção ao que eu dizia. Não me admira nada se qualquer dia me oferecer lixa nº 1. Toda vez é isto. Sujeito chato!...

A peixada estava ótima e o vinho maravilhoso. Abordamos vários assuntos com a eloqüência que o “Gatão” nos ia inspirando. Discutimos política e futebol. Comentamos o super-super campeonato carioca. Fizemos brindes ao Vasco. Os assuntos tornavam-se mais complexos e nós mais à vontade para discuti-los à medida que as garrafas de “Gatão” eram esvaziadas.

Então vieram à baila os métodos modernos de educação. O meu amigo concordava com eles. Ainda era partidário do marmeleiro e da palmatória. Nada melhor para quebrar um complexo de adolescente que o marmeleiro. E fez a apologia dos modos que seus pais usaram para o educar:
- Aquilo sim, é que era educação. Reflexos condicionados, meu velho, - dizia, espetando o dedo no ar. No duro. Reflexos condicionados. Senão vê só: Safadeza... marmeleiro aplicado filosoficamente no fundo das costas... Dor... Que fazíamos para evitar a dor, naqueles nossos bons tempos?... Evitar as tolices. Não é isso mesmo? Mas a peixada está ótima, nas achas?...

E naquele seu entusiasmo “macro-felínico” levantou o pediu mais peixe à sua senhora, uma verdadeira santa, que ouvia a conversa sem comentar.
- Não, não tem mais, meu bem. Experimente o filé que está ótimo.
- Lá vem você, querida!... Já parece o homem da loja. Eu não quero filé. Quero cuecas nº 70!!!

18 de agosto de 2011

Nova Igreja Batista

A peça teatral A Bela e a Fera vai ser encenada nos dias 20 e 21 de agosto (neste final de semana), e você não pode perder. Em uma hora, drama, música e dança transportam você para onde mistério, humor e aventura, em fortes cores, contam a maior história de amor de todos os tempos.


Como sempre, os espetáculos da Nova Igreja Batista são um presente para você e toda sua família.
Horários:
Sábado (dia 20) 19h30
Domingo (dia 21) 17h e 19h30
Entrada franca.
Endereço:
Nova Igreja Batista – Av. Torquato Tapajós – próximo à saída da Cidade Nova

Nota: Bom chegar com antecedência, para desfrutar de um bom lugar. Existe um espaçoso estacionamento. E para outras informações: http://www.nib.org.br/

17 de agosto de 2011

Lançamento de livro (VII)

No próximo sábado, ocorre o lançamento do livro Globalização e Empresariado: estudo sobre a Zona Franca de Manaus (tese de doutorado) de Marcelo Seráfico.



O Estado (Secretaria de Estado da Cultura e Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) e o Município (ManausCult e Conselho Municipal de Política Cultural), patrocinadores do evento, convidam para este encontro no IGHA.
Data: 20 de agosto
Local: IGHA – Rua Bernardo Ramos, 117 – Centro
Horário: 10h30
Traje: Esporte

Caso Delmo Pereira (1)

Capa do Caso Delmo Pereira
Sandra, uma quase-cunhada, me consulta sobre o livro Caso Delmo Pereira, a obra que narra “o crime mais famoso de Manaus”. Ainda, solicita-me uma opinião sobre o trabalho, lembrando que alcançou, embora pré-adolescente, os desdobramentos desses crimes. Crimes, ela lembra, pois o assassinato de Delmo aconteceu em decorrência de outro, praticado pelo desventurado jovem. Em forma direta: em 1952, Delmo matou a um chofer de praça (hoje taxista), daí a vindita da classe motorizada.


Durango Duarte é o autor. O mesmo que produziu Manaus: entre o passado e o presente, em trabalho gráfico de qualidade, destacando os pontos históricos e alguns turísticos da capital amazonense. As fotos, atualizados pelo processo photoshopiano, bem demonstram a evolução da cidade. É lamentável que, em nossos dias, a gestão municipal não tenha correspondido, contribuindo para o descaso da cidade outrora “sorriso”.

Duarte voltou a empregar a mesma técnica em Caso Delmo Pereira: o crime mais famoso de Manaus (editado pela Mídia Ponto Comm, 376p, R$ 79,90), cujo lançamento ocorreu no início do mês. O livro, inegavelmente, possui qualidade gráfica e editorial impressionante. Nesse aspecto, a publicação tem nosso louvor.

No entanto, quanto ao texto, sim, não há texto. Somente a Introdução, no mais vê-se aquele exercício primário do control cê e vê. As páginas estão preenchidas pelos jornais da empresa Archer Pinto – O Jornal e Diário da Tarde, copiados de cabo a rabo. Nem sequer o autor teve a delicadeza de citar os demais periódicos de Manaus: Jornal do Commercio; A Crítica; A Gazeta; A Tarde.

A despeito da bela apresentação, tanto do papel quanto da reprodução, nada mais se encontra nas páginas do Caso Delmo. Quanto desperdício de tempo e recursos, em razão de que se esperava uma releitura do delito “mais famoso de Manaus”.

Em resumo: ainda há um sobrevivente dos suspeitos encarcerados, no caso o empresário Cirilo “Batará” Anunciação, outros devem existir. Pensei encontrá-los ou aos seus descendentes nas páginas. Afinal, a leitura dos jornais e do texto do processo torna-se repetitiva e enfadonha, revelando pouquíssima percepção aos nascidos hoje.
Caso Delmo Pereira, contracapa

Enfim, estimada Sandra, não aconselho você a adquirir o Caso Delmo; é preferível sacar da poupança mais uns trocados, exatos R$ 120,00, para adquirir o Manaus: entre o passado e o presente, nas livrarias Valer ou Saraiva.

15 de agosto de 2011

Dia dos pais

Roberto (à esq.) e Diego, em São Paulo
Aproveito a oportunidade para agradecer aos meus. Embora não tenha programada aquela festa, fiquei de algum modo maravilhado com os votos filiais.


O almoço em casa, reunindo apenas o Diego e a Sofia, contou com o serviço da churrascaria da esquina. Nesta, enquanto enfrentava a fila, vi casa cheia e cada vez mais comensais chegando, e pude observar o regozijo, o contentamento com a festa. Afinal, nada como a festa na casa dos outros. Mas, se esta casa de carne estava repleta, no retorno observei que as casas de alimentação efetivamente bombaram.


A noite, recebi telefonemas de Brasília: da neta Emanuelle, em nome da família; e da filha Gabriela, cuidando dos seus gordinhos. Também saudei pelo fone ao meu pai que, nos seus saudáveis 95 anos e da capital paulista, me retribuiu os votos com uma singela prece. Amém.

13 de agosto de 2011

Memórias Amazonenses (LV)

Agosto, 13

1877 – Assume o comando da Guarda Policial do Amazonas, o tenente José Leonilio Guedes, que foi comissionado como major comandante. Não se tem definição sobre a origem ou a corporação deste oficial.


Nesse sentido, a galeria dos ex-comandantes da Polícia Militar do Amazonas segue apresentando embaraços. Ora pela inexistência de fotografias, ora pela ausência de dados consolidados.

Tenente Leonilio substituiu ao tenente (reformado do Exército) Severino Eusébio Cordeiro, que assumiu em maio de 1876. Nesta data ocorreu a reimplantação da Guarda Policial, depois que esta desapareceu no final de 1850. Tudo quanto se encontra nos assentamentos deste comandante, vai a seguir: logo no mês imediato, visita as cidades de Itacoatiara e Parintins. Em dezembro, tem dispensa de sete dias para tratar da saúde. Em ambos os impedimentos, o comandante foi substituído pelo capitão Francisco Soares Raposo, incluído na Guarda nessa data.

Em fevereiro seguinte, o tenente Leonilio foi exonerado do comando “por conveniência do serviço público”, sendo substituído pelo major (reformado do Exército) Silvério José Nery. Em março, o capitão Raposo deixa a corporação. Não se tem registro de onde vieram nem para onde foram esses oficiais.

1956 – Major Cleto Veras, comandante da Policia Militar do Amazonas, efetua a implantação do policiamento tipo Cosme e Damião. Foi um sucesso, obtendo esplendida acolhida e reconhecimento pela cidade. As duplas passaram a atuar no dia 25 de agosto.
Diário da Tarde, Manaus, 11 ago. 1956
A importância desse serviço estendeu na Cidade por cerca de quinze anos, até que o policiamento motorizado o tornasse ultrapassado. Isso aconteceu com a criação da Rádio Patrulha, em 1972.
No entanto, o coronel Antonio Guedes Brandão, quando comandante-geral (1992-94), por exigência ou indicação da comunidade, o Cosme e Damião voltou a operar, estando em nossos dias, apesar dos pesares, zelando pelo centro da capital.
Dupla de Cosme e Damião, 1956 (acima), e
em nossos dias

11 de agosto de 2011

Lançamento de Igapó

Capa do livro Igapó
Ontem, na Livraria Saraiva Megastore, ocorreu o lançamento do livro póstumo de Anísio Mello, Igapó, em 2.ª edição, promovida pela Editora Valer (302p. R$ 40,00). A apresentação do trabalho, que reproduz estórias e lendas da Amazônia, foi feita pelo filho do autor, Mello Júnior.


Júnior foi muito feliz em sua explanação ao descrever a saga do pai e de como foi montado este livro. Anísio Mello, o autor, recolheu de diversas fontes o conteúdo de seu Igapó. Fartamente ilustrado, “os traços de J. Lanzellotti, um dos mais completos ilustradores de nosso país, constante da primeira edição, reconhece Sérgio Pereira, que elaborou a orelha do Igapó.

Reproduzo abaixo uma página em tributo ao multiartista Anísio Mello.

O jabuti e a onça

Um jabuti e uma aranha fizeram uma espécie de sociedade e moravam juntos. O jabuti, tendo matado uma anta, estava ocupado em cortar a carne, quando apareceu uma onça.
- Ó jabuti - disse ela - que é que você está fazendo?
- Matei uma anta e estou preparando a carne - respondeu o jabuti.
- Eu vou ajudar você - disse a onça. E imediatamente começou a ajudar a ela mesma, comendo a carne, com grande desgosto do jabuti.
Este disse então à onça:
- Estou com muita sede e vou buscar alguma água. Aranha, continue a guardar a carne em casa...

O jabuti andou uma pequena distância, molhou-se no orvalho e voltou.
- Onde encontrou água? - perguntou a onça. - Eu também estou com sede...
- Vai nesta direção - disse o jabuti, indicando com o dedo. - A água está precisamente embaixo do sol. Vai muito direito, seguindo sol e encontrarás a água.

Ilustração de J. Lanzellotti
A onça andou, andou, mas não encontrou água; assim, desapontada, voltou para acabar com a carne da anta, porém o jabuti e a aranha, enquanto a onça estava ausente, apressaram-se guardando toda a carne na casa da aranha, deixando somente os ossos para a onça.
(Informa o autor que a lenda foi extraída de Charles Frederick Hartt. Os mitos amazônicos da tartaruga. Recife: Arquivo Público Estadual, 1952)

10 de agosto de 2011

João Nogueira da Mata (1909-1991)

Agosto, 10
João Nogueira da Mata

1991 – Morreu em Manaus, João Nogueira da Mata, que teve acentuada participação em vários segmentos da história do Amazonas.
Nascido no bairro da Cachoeirinha, em 1909, no mesmo ano em que nascia Ramayana de Chevalier. Tive oportunidade de ocupar uma Quarta Literária (bem-sucedida realização da Livraria Valer) para lembrar o centenário dos dois manauenses.

Recordo apenas, de João Nogueira da Mata, sua passagem pela educação, com professor do Colégio Dom Bosco, entidade que acaba de completar 90 anos de produção.

No campo político, Nogueira da Mata foi em duas ocasiões o Interventor Federal do Amazonas, ou seja, apesar do nome estranho, fora o chefe do Poder Executivo na época da ditadura Vargas. Além de ter representado o Amazonas na câmara federal.

Enfim, como homem do pensamento, conhecedor das questões amazônicas, produziu uma sucessão de livros. Em quase duas dezenas, publicados sem grandes recursos, basta apreciar a editoração dos mesmos, não deixou de exercitar sua competência com a poesia. Lamentavelmente, nunca mais se viu uma reedição.

Lembro ainda que alcançou a honra acadêmica, empossado na cadeira 6, de Adriano Jorge, sucedendo a José Jorge Caravalhal na Academia Amazonense de Letras.

Hoje, completam-se 20 anos de seu desaparecimento, pois faleceu em 1991.
Para melhor compreender o desempenho de João Nogueira da Mata, recomendo o documentário produzido pelo programa Documentos da Amazônia, da Amazonsat. E dois outros sítios devem ser explorados: o Blog do Rocha e http://www.marcelodamata.blogspot.com/

9 de agosto de 2011

Lançamento de livro (VI)

A Editora Valer e a Livraria Saraiva MegaStore realizam no próximo dia 10 de agosto mais uma edição do projeto Encontro com a Palavra. Na ocasião será lançada a segunda edição do livro Igapó – ­estórias e lendas da Amazônia, do saudoso escritor Anísio Mello.
O evento será uma reunião de amigos e leitores deste grande escritor e artista falecido em 2010. Anísio Mello Júnior é o convidado para conversar com o público sobre o conteúdo do livro e o legado deixado por seu pai.
O evento acontece na Livraria Saraiva do Manauara Shopping, às 19h30, com entrada franca.

7 de agosto de 2011

A poesia no judiciário

Revista Época, 8 ago 2011
Na semana passada, assistimos em vários jornais nacionais a notícia de que a poesia tentara a sorte no Judiciário. Ou seja, um delegado em Brasília versejou ao concluir o inquérito. Não teve acolhida sua manifestação, recebendo da corregedoria policial a reprimenda. Era melhor fazer poesia com outros temas e em outros sítios.


Leitura vai e vem, eis que encontro uma crônica de nosso conhecido poeta Jorge Tufic sobre o tema, a poesia no judiciário. Vou transcrevê-la apenas acrescentando que a retirei de seu mais recente trabalho: O Sonho de Tibério, editado pela Academia Amazonense de Letras, no mês passado.


Lá está sob o título Apelação cívil.



Lá um dia, ao regressar de uma viagem ao Recife, traz-me o poeta Virgílio Maia a cópia de um voto do juiz José Maria Lucena (relator), favorável à pensão de Soldado da Borracha a um certo apelante cujo nome não aparece no texto, citando, como argumento, um capítulo de meu poema Cordelim de Alfarrábios, que assim termina:
Apenas tu, seringueiro, / movido pela esperança / de ajudar sendo ajudado, / perdeste força e trabalho, / mais vida do que dinheiro; / foste igual à seringueira / que tu sangraste sangrando / pelas estradas do acaso, / e ao final do teu destino / morreste soldado raso.

Este voto do juiz é chancelado pelo Tribunal Regional Federal da 5.ª Região, e a apelação tem o número 95199-CE. No caso ora em exame - conclui o relator - o apelante fora reconhecido Soldado da Borracha através de sentença proferida em Ação Declaratória promovida perante a 6.ª Vara da Justiça Federal do Ceará.
Lembra-me o episódio de uma pendência, também judicial, que tive com a Prefeitura Municipal de Manaus, estando eu condenado a pagar um imposto no valor presumível quarenta vezes maior do que o do próprio imóvel. Nos três primeiros dias que decorreram do prazo concedido para o recurso, vi-me perdido.
Já nem sabia o que fazer. Descobri, então, que não era um juiz que assinava a notificação, e sim, uma juíza. Daí a lembrança de fazer minha defesa em versos, fechando o caminho da autoridade no caso de uma resposta que não fosse, também, rimada e metrificada.

O processo foi arquivado.