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1 de agosto de 2011

Crimes que abalaram Manaus

Tenho sido instado pelo acadêmico Cláudio Chaves a realizar uma pesquisa sobre crimes que abalaram Manaus. Ele próprio me lembrou alguns, e destes, detalhes preciosos.

Para facilitar a elaboração do trabalho, relacionamos os dez mais. Vou aqui recordar três deles, em ordem cronológica: o “suicídio” de Eduardo Ribeiro (1900); a morte da “santa” Etelvina (1901) e o caso Delmo Pereira (1952).
Túmulo de Eduardo
Ribeiro

Apesar do primeiro não estar arrolado como crime, o desaparecimento do respeitado político segue um mistério, apontando para certo mandante.
O caso Delmo Pereira tem hoje um novo capítulo escrito, com o lançamento do livro de Durango Duarte.

Sobre a “santa” Etelvina, reproduzo um trabalho do historiador Júlio Uchoa (da Associação Amazonense de Imprensa), divulgado no Jornal do Commercio, de 15 jan. 1956, em sua coluna Homens, Coisas e Fatos.

Escrevemos, em 1947, algumas notas sobre Etelvina de Alencar, jovem nordestina de 17 anos de idade, sacrificada às mãos de um conterrâneo seu, o qual se deixara dominar por estranha e mórbida paixão. Isso em princípio de 1901.

Descreveu o doloroso acontecimento, de extraordinária repercussão em todo o País, um inspirado bardo popular que enfeixou, em um folheto, sua magnífica produção. Muitos anos volvidos após sua divulgação, caiu sob nossas vistas um exemplar desse livrinho.

E, foi assim que ao historiador forneceu o poeta os elementos indispensáveis à elaboração do citado trabalho, conservando aquele, desta feita, como da vez anterior, o mesmo sentido trágico e humano dado por este à sua impressionante narrativa.

Filha de Cosme José de Alencar e Antonia Rosalina de Alencar, Etelvina nasceu em Boa Vista do Icó (CE), em 1884, vindo para Manaus em companhia de sua genitora, já então viúva, e de três irmãs, sendo uma destas casada. Desta capital se transportou a família à Colônia “Campos Sales”, inaugurada dois anos antes, onde se ia dedicar aos labores agrícolas.

Na colônia, Etelvina veio a conhecer o colono de nome José que logo a primeira vista por ela se apaixonou, seguindo-se o ajuste de casamento. Cedo, porém, a desilusão: a jovem fez saber a José [que] não mais desejava casar–se com ele, desfazendo-se, deste modo, os compromissos assumidos anteriormente.

Grande abalo produziu no espírito de José o rompimento do noivado. Meio pequeno, constituído como que de uma família, a notícia provocou sensação. Houve mesmo quem afirmasse que Etelvina possuía três namorados: Antonio, Estevam e Henrique. Tudo isso ouvira José e dando crédito às intrigas que lhe contavam, jurou vingar-se, não só da ex-namorada, mas, igualmente, dos três rapazes que imaginava causadores de sua infelicidade. E tudo planejou, fria e demoradamente.
Capela e cruzeiro do cemitério
Veio à cidade, onde adquiriu um rifle e farta munição. Mataria a todos, dissera ele a amigos. Estávamos em março de 1901.

E, assim, aconteceu. Mal entrava na área da colônia, alveja a tiros a Estevam, que descuidado não esperava a agressão; ao primeiro disparo ele corre, procurando se desvincilhar do assassino; um segundo tiro, porém, prostou-o sem vida. Mais adiante, estava Henrique, com quem José trava violenta luta corporal; subjugado o adversário, abateu-o a tiro. Um pobre caboclo, que dormia à sombra de uma árvore próximo à casa da administração, é a terceira vítima da fúria sanguinária do celerado.

Cometidos os três crimes, José se dirige à residência de Etelvina, e, valendo-se do coice do rifle pôs abaixo a porta da casa. Nessa ocasião, aparece-lhe Versoli, administrador da colônia, que procura interceptar a entrada d o criminoso, sendo morto, por este.
Suspeitando das intenções do bandido, a moça tenta fugir, no que é obstada por ele, que conseguiu alcançá-la e “quase nua, pés descalços, em camisão” (diz o poeta), a desventurada Etelvina é arrastada para a densa floresta que se estendia às proximidades da casa.

Infrutíferas foram as buscas nos primeiros dias. E, somente a 8 de março, é encontrado o local em que se consumara o derradeiro ato do imenso drama, misto de amor e ódio. Os urubus, em grupos simétricos, voejavam alto, sinal evidente de que lauto fora o repasto. E, ali, o quadro pungente que a todos estarreceu: duas caveiras se defrontavam, numa evocação sinistra dos últimos instantes, de pavor e de alucinação, que viveram aquelas duas criaturas. O rifle, entre os dois esqueletos, explicava a cena final: José matara a infeliz Etelvina, suicidando-se, a seguir.

Repousam os restos mortais de Etelvina de Alencar, ou “santa Etelvina”, como é por todos reverenciada, no cemitério de São João, em sepultura perpetuada por lei municipal n.º 233, de 30 de agosto de 1901, à sombra do jazigo que o Povo Amazonense ergueu à sua memória.
E, desde antão as visitas ao seu túmulo se sucedem, ininterruptamente, durante o dia: são os devotos da meiga “santinha” que ali vão levar suas oblatas, ou acender um círio votivo pelo atendimento às suas súplicas e orações...