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domingo, junho 16, 2019

ABILIO ALENCAR

Neper Alencar

Esta postagem vai em memória do saudoso coronel PM Neper da Silveira Alencar, patrono da Academia de Polícia Militar, e em lembrança de seu natalício (101 anos) completado dia 7 último. 

A publicação registra alguns dados do genitor deste oficial, Abílio Alencar que, oriundo do Piauí, foi emérito Professor em nossa cidade. 
Outro competente mestre é o autor – João Crisóstomo de Oliveira, e a publicação circulou em O Jornal, 6 de março de 1953, por ocasião da morte do homenageado.


Recorte do mencionado periódico





João Crisóstomo de Oliveira

Na quase puerícia de seus 14 anos, chega Abílio de Barros Alencar com seus pais e irmãos procedente do Piauí, de onde era filho, para a outrora Terra da Promissão como era considerado o Amazonas malfadado de hoje.
Filho de Benedito de Barros Alencar e de D. Rosalina Feitosa de Alencar, ambos naturais do Ceará, Abílio Alencar desde aquela pouca idade radicou-se no Amazonas de tal modo que se considerou natural desta Terra como se os seus olhos se houvessem aberto, pela vez primeira, para o sol planiciário e para a grandeza do Rio Mar. (...)

Matriculando-se na antiga Escola Normal, vencendo todas as dificuldades, vai forjando o seu espírito sedento de saber em prélios intelectivos ao lado das brilhantes inteligências de Alice Brito Inglez, Isabel Freitas, Tristão de Sales e outros colegas e recebendo as lições dos grandes mestres da época como Sidou, Berredo, maestro Franco e outros.
Recebe o honroso diploma de professor normalista em 1908. Em 1913, conquista o título de engenheiro pela Universidade do Manaus. Nascem destes dois proveitosos cursos as suas grandes paixões: o magistério e a matemática.
Consagra-se o magistério de tal forma que desde a juventude só esta inclinação sublime polariza sua vida: conduzir, orientar, ensinar, sobretudo a ciência dos números.
Moço ainda, projeta o seu nome como um legítimo matemático. Faz concurso brilhante de aritmética para a antiga Escola Modelo, anexa à velha Escola Normal, para onde mais tarde é promovido.
Em 1927, bacharela-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de então. (...)

Como professor, tornou-se um matemático respeitado não só no Estado, mas no país inteiro e em terras de além-mar, colaborando nas mais conceituadas revistas do gênero destacadamente na Revista Brasileira de Matemática e no Almanaque Bertrand, editado em Portugal, aos quais emprestava o brilho de sua pena de verdadeiro criador no campo da ciência dos números.
Como engenheiro, realiza notáveis e importantes trabalhos de agrimensura e perícias delicadas e difíceis, em que vence galhardamente.
Como advogado, colaborou modestamente com certo causídico de renome do nosso fórum, dele recebendo os mais exaltadores encômios que não o envaidecem e não o empolgam de modo a fazê-lo abraçar decisivamente a carreira, pois a sua paixão resume-se em uma só: o magistério. Unindo o seu destino, pelo laço do matrimônio, com D. Judith Pinheiro da Silveira, Abílio Alencar encontra nessa companheira lutadora e perseverante um grande estímulo para batalhar e vencer.

Funda a antiga Escola Rui Barbosa, leciona em a Universidade, no colégio N. S. Auxiliadora, na antiga Escola Municipal de Comércio, atual Sólon de Lucena, onde fez posteriormente brilhante concurso perante o interventor Nelson de Melo, sendo homenageado como mestre competente que dispensou a arguição. Dirigindo mais tarde a referida Escola, batalha, com perseverança e denodo pela conquista da federalização do Estabelecimento, vitória que conseguiu para a alegria e conforto de quantos estudavam, à época, naquela casa de ensino comercial.
Na antiga Escola Normal, tornou-se o mestre de Matemática competentíssimo e rigoroso no julgamento de seus discípulos de modo que todos o olhavam com um misto de temor e estima, embora mais tarde se tornasse o mestre indulgente que todos nós conhecemos.
Dirigiu a antiga Diretoria de Instrução Pública, na ausência do titular efetivo, Dr. Beltrão e, no governo Leopoldo Neves, já aposentado, voltou a dirigir o atual Departamento de Educação e Cultural, época em que tivemos ocasião de colaborar com o mestre amigo, que sempre pautou a sua administração pela manutenção de uma liberalidade e demonstração de estima e compreensão para com todos. Sempre se nos demonstrava constrangido quando não podia atender a parte que o procurava, a quem tratava como uma criatura estimada da família. E assim não foi compreendido por seus pares e correligionários, afastando-se daquela repartição bastante desgostoso sem, no entanto, nunca dar demonstração de rancor ou animosidade a quem quer que seja.
Como chefe de família, tinha tal afetividade aos seus que era capaz dos maiores sacrifícios para que ninguém sofresse a menor privação, chegando ao ponto de, na época de maior atribulação de sua vida, quando a Carta de 37 lhe cortar a cátedra do Sólon de Lucena, deixando- o em situação quase desesperadora, seguir para o Rio de Janeiro enfrentando todos os obstáculos para dar assistência ao seu querido filho enfermo Euler, inteligência privilegiada, o seu grande sonho, o seu grande ideal que ele desejava ver concretizado com o ingresso de Euler na carreira diplomática, sonho que é dilacerado com a morte prematura do jovem, o que o deixa profundamente abalado. 
No Rio, leciona Desenho no colégio Pritaneu, de Antóvila Vieira [depois deputado federal pelo Amazonas] para manter-se e sustentar os seus naquela angustiosa situação.
Ainda no desejo de amparar os seus, funda com sua filha Léa Antony o antigo Colégio “Gustavo Capanema”, atual Instituto com o mesmo nome que permanece sob a direção da dinâmica professora.

Lecionou Matemática no antigo Ginásio Amazonense e constituiu-se o verdadeiro oráculo da juventude, no ensino particular daquela ciência.
Temos aí traços ligeiros da vida exuberante de Abílio de Barros Alencar que a morte nos arrebatou a 25 de fevereiro, deixando todo campo educacional do Amazonas enlutado, deixando principalmente o casarão do Instituto de Educação, onde ele pontificou por muitos anos, debaixo da pesada atmosfera da saudade, debaixo da angustiosa impressão do seu desaparecimento irreparável.
Solidarizando-nos sinceramente com a justa dor da família Abílio Alencar, apresentamos-lhe as nossas condolências de amigo, com estas palavras consoladoras: Abílio Alencar desapareceu no corpo, mas seu nome impoluto e a sua obra exuberante já o perenizaram na memória e no tributo de gratidão de seus discípulos de escola e do exemplo honroso. MANAUS, 28-2-53 

quinta-feira, junho 07, 2018

CORONEL NEPER ALENCAR - CENTENÁRIO (1)

Coronel Neper Alencar

Ainda em homenagem ao centenário do coronel Neper Alencar (1918-2018), que inaugurou a Galeria dos Chefes do Estado-Maior da PMAM. A ele que possui outros méritos: de ter sido o primeiro oficial R/2 a ingressar na corporação (1940) e ter sido o primeiro Coronel na ativa, promovido pouco antes de assumir a Chefia do Estado-Maior.
Esta repartição vai completar no próximo ano seu Cinquentenário, e já são 44 oficiais a seguir o fundador. Abaixo a relação, indicando o número de ordem, o posto e o nome do titular com a respectiva data da nomeação. Talvez sirva para os estudiosos, ou aqueles que desejarem elaborar as estatísticas e as considerações.  

1)   Coronel Neper da Silveira Alencar – 09/10/1969
2)   Tenente-coronel Flávio Augusto da Silva Rebello – 14/09/1970
3)   Coronel Neper da Silveira Alencar – 12/01/1971
4)   Tenente-coronel Helcio Rodrigues Motta – 10/10/1971
5)   Major Pedro Câmara – 25/02/1972
6)   Major Laurindo Lopes de Souza – 11/07/1972
7)   Tenente-coronel Helcio Rodrigues Motta – 07/08/1972
8)   Tenente-coronel Flávio Augusto da Silva Rebello – 05/02/1973
9)   Coronel Helcio Rodrigues Motta – 29/06/1976
10)Coronel Pedro Câmara – 01/03/1983
11)Coronel Osório Fonseca Neto – 20/03/1987
12)Coronel Romeu Pimenta de Medeiros Filho – 26/04/1989
13)Coronel Mael Rodrigues de Sá – 28/06/1989
14)Coronel Ruy Freire de Carvalho – 07/05/1991
15)Coronel Nazareno de Melo Benfica – 03/01/1992
16)Coronel Alfredo Assante Dias – 29/04/1992
17)Coronel Edson de Lima Matias – 23/10/1992
18)Coronel Nazareno de Melo Benfica – 28/12/1992
19)Coronel Odorico Alfaia Filho – 02/01/1995
20)Coronel Wilde de Azevedo Bentes – 01/03/1996
21)Coronel Edson Pereira do Nascimento – 17/10/1996
22)Coronel Wilde de Azevedo Bentes – 07/04/1997
23)Coronel Antonio Alfredo Rego da Matta – 24/04/1997
24)Coronel José Francisco Bonates Correa – 1º/01/1999
25)Coronel Francisco das Chagas Gomes Pereira – 05/03/1999
26)Coronel Eber Bessa Rebello – 04/05/2000
27)Coronel Júlio Cesar Lemos de Almeida – 19/04/2001
28)Coronel José Bernardo da Encarnação Neto – 16/08/2002
29)Coronel Ary Renato Oliveira da Silva – 02/01/2003
30)Coronel James Pedrosa Castelo Branco – 05/05/2003
31)Coronel Edson Paulo Ramos – 15/03/2005
32)Coronel Francisco das Chagas Gomes Pereira – 07/04/2005
33)Coronel Emiliano Marques de Freitas – 05/04/2006
34)Coronel José Bernardo da Encarnação Neto – 1º/11/2007
35)Coronel Raimundo Ribeiro de Oliveira Filho – 1º/02/2008
36)Coronel Hiltomar Jaime Regis – 07/01/2010
37)Coronel Herbert Campos de Araújo – 28/03/2011
38)Coronel Elielcio George Catete Chaves – 27/04/2012
39)Coronel Rommell Paulo Pereira da Silva – 05/12/2013
40)Coronel Marcos Cesar Moreira da Silva – 04/09/2014
41)Coronel Domingos Savio de Souza – 21/01/2015
42)Coronel Lindomar Gonçalves de Vasconcelos – 02/10/2015
43)Coronel Domingos Savio de Souza – 19/05/2016
44)  Coronel Júlio Sergio Costa do Nascimento – 04/10/2017

terça-feira, junho 09, 2015

CENTENÁRIO DO IGHA (3)

Em 1927, centenário da instalação dos cursos jurídicos no Brasil e o primeiro decênio da fundação do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), a Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais de Manaus utilizou a sede desta agremiação para a formatura. A solenidade ocorreu em 11 de agosto, e a turma, composta de 16 bacharéis, teve como paraninfo o Dr. Waldemar Pedrosa, catedrático de Direito Penal da mesma faculdade.  
Capa da publicação

Este mestre proferiu a alocução intitulada No Limiar da Vida Social, que foi publicada no ano seguinte pelos Armazéns Palácio Real, cujo exemplar integra a biblioteca Genesino Braga, da Academia Amazonense de Letras.

A turma de bacharéis estava assim constituída (por ordem alfabética), e com indicação do Estado natal:

Abílio de Barros Alencar – Piauí | Antonio Felipe Domingos Uchoa – Ceará | Antonio Krichanã da Silva – Amazonas | Esron Wolff da Silva – Maranhão | Francisco Xavier de Oliveira Galvão – Amazonas | Hugo Silva – Ceará | João Pereira Machado Junior – Amazonas | João Rodrigues Coelho – Pará | João Teixeira de Moraes – Piauí |José Arrais de Alencar – Ceará | José Farias Gesta – Amazonas | José Francisco Monteiro Junior – Amazonas | Manoel Afonso dos Santos Junior – Alagoas | Maximiliano da Trindade Filho – Amazonas | Paulino Pedreira – Bahia | Raimundo Arthur Meninéa – Amazonas


A seguir, reproduzo (em três partes) o discurso proferido pelo paraninfo. 

Exmo. SR. DR. PRESIDENTE DO ESTADO
Exmo.
SR. DR. PREFEITO MUNICIPAL
DIGNÍSSIMO REPRESENTANTE DO CLERO
Exmas. SENHORAS E SENHORITAS
                              MEUS SENHORES                                                 _
Exmo. Sr. Dr. DIRETOR DA FACULDADE
MEUS CAROS COLEGAS DE CONGREGAÇÃO
SENHORES BACHARÉIS.

QUIZESTES empanar O brilho desta festa, na qual ressoam, com os hinos da vossa vitória, os carrilhões da Pátria a anunciarem, alvissareiros, os fastos gloriosos de sua vida jurídica, impondo ao mais humilde de vossos mestres o honroso encargo de paraninfar o ato simbólico do vosso bacharelato.

Se houvésseis ensurdecido às vozes de vossos corações, para atenderdes mais aos ditames de vossas consciências, teríeis, de certo, agora, enchendo de fulgores esta solenidade, a palavra mágica e erudita de quem, favorecido dos esplendores do talento e das luzes da experiência, que é a verdadeira sabedoria, melhor dissesse dos vossos triunfos, e qual almenara radiosa, maior resplendor projetasse na estrada ampla de vosso porvir...

Surdos, porém, ao veredito da razão, nada vos demoveu do pendor por aquele que entendestes que aos entusiasmos de vossa juventude e à fé ardente em vossos destinos promissores, devia juntar o ardor da mocidade do seu espirito no dar-vos o adeus da vida estudantina, nesta hora alta e clara de nossa civilização, em que o Brasil comemora a data do centenário de seus cursos jurídicos!Glória, pois, aos nossos maiores de 1827, que ansiando pela cristalização das forças mentais que animavam a mocidade da Pátria, com elas lançaram a pedra fundamental da formação da consciência jurídica do Brasil!

Honra a José Feliciano Fernandes Pinheiro, visconde de S. Leopoldo, que referendou a áurea lei de 11 de agosto de 1827, que instituiu os cursos de S. Paulo e de Olinda, "dois centros de irradiação da cultura jurídica brasileira,” fanais que iluminaram a plêiade de nossos primeiros genuínos juristas, parlamentares, diplomatas, estadistas e sociólogos!

Hosanas a Cotegipe, a Sinimbú, a Souza Franco, a Zacharias, a Nabuco, primeiros revérberos daquelas fontes luminosas e que depois constituíram constelações fulgurantes do segundo império!

Mérito aos luzeiros de nossos primeiros avanços, que difundiram os raios de seu saber na estratificação das doutrinas e dos princípios que formam a nossa cultura jurídica, uma das mais respeitáveis da América e, quiçá, do mundo!

Glória a Tobias Barreto, a Martins Junior e a Silvio Romero, os juristas-filósofos que libertaram o espírito da mocidade de então, dos postulados da velha escola, desvendando-lhe a verdade do realismo científico! 

Glória a Teixeira de Freitas, a Lafayette, a Carlos de Carvalho, a Lacerda de Almeida, a Coelho Rodrigues e a Andrade Figueira, os nossos insignes civilistas!

Glória a Pedro Lessa e a Viveiros de Castro, "sacerdotes da Justiça e da Virtude!”

Glória a Rui Barbosa, símbolo da grandeza moral e intelectual da Pátria!

Ânimo aos joalheiros que vão, no afã de nossos dias, trabalhando em incrustações lavoradas, as custosas joias que enriquecem o tesouro de nosso patrimônio mental!

Eia a Clóvis Bevilaqua, a Eduardo Espinola, a Pontes de Miranda, a Carvalho de Mendonça, a Rodrigo Octavio e a Jorge Americano!

Sus aos romeiros que, há um lustro, transpunham convosco os umbrais dos templos do Direito, trazendo no peito a fé ardente de uma aspiração justa, e acalentando na mente o devaneio de um sonho que tem hoje entreabertas de luz e se converte em esplendida realidade!

Coragem a vós, que partis agora, armados cavaleiros do Direito, a caminho da vida intensa de amanhã, entre o torvelinho das paixões humanas e o trono soberano da Justiça!

Como me sorri, agora, em vossa companhia de alpinistas do direito, relancear a senda percorrida através da jornada grandiosa que acabais de vencer ...  (segue)

domingo, agosto 28, 2011

ACADEMIA DE POLÍCIA CORONEL NEPER ALENCAR (1)

O saudoso coronel Neper da Silveira Alencar é o patrono da Academia de Polícia Militar do Amazonas. Em nossos dias, os seus alunos-oficiais se empenham em resgatar a memória deste oficial, para isso têm buscado todos os canais, inclusive os da modernidade globalizada, ou seja, a internet.

Neste espaço, encontrei o apelo, que vou responder em dois tempos. O primeiro, reproduzindo duas páginas com o intuito de apresentar o “avô” da mencionada casa de formação policial militar – Abílio Alencar (1888–1953), que é o pai do coronel Neper Alencar.

E, qual a razão para esta minha homenagem? É que Abílio de Barros Alencar foi um competentíssimo mestre em matemática, além de graduado em Engenharia e Direito pela Universidade Livre de Manaus. É lamentável, mas o nome deste mestre batiza - somente -a Escola Municipal, para o ensino básico, situada na Rodovia Torqueto Tapajós, km 34.

O primeiro texto, de autoria do finado João Chrysostomo de Oliveira, foi escrito três dias após o falecimento do Matemático, portanto, repleto de emoções e amizades, mas verdadeiro e sincero, que foi publicado em O Jornal, de 6 de março de 1953.


Abílio de Barros Alencar

Na quase puerícia de seus 14 anos, chega Abílio de Barros Alencar com seus pais e irmãos procedente do Piauí, de onde era filho, para a outrora Terra da Promissão, como era considerado o Amazonas malfadado de hoje.
Filho de Benedito de Barros Alencar e de dona Rosalina Feitosa de Alencar, ambos naturais do Ceará, Abílio Alencar desde aquela pouca idade radicou-se no Amazonas, de tal modo, que se considerou natural desta terra como se os seus olhos se houvessem abertos, pela vez primeira, para o sol planiciário e para a grandeza do Rio Mar.

Enquanto seus pais e irmãos seguiram para Manacapuru, onde Benedito pontificou como ativo e eficiente advogado provisionado, e homem de notável ascendência intelectual entre os seus contemporâneos, o adolescente Abílio Alencar preferiu ficar em Manaus, mesmo em casa estranha, com o propósito nobre de estudar ainda que a conta de grandes sacrifícios.

Ginásio Amazonense, final século XIX
 Matriculando-se na antiga Escola Normal, vencendo todas as dificuldades, vai forjando o seu espírito sedento de saber em prélios intelectuais ao lado das brilhantes inteligências de Alice Brito Inglez, Isabel Freitas, Tristão de Sales e outros colegas, e recebendo as lições dos grandes mestres da época, como Sidou, Berredo, maestro [Joaquim] Franco e outros. Recebe o honroso diploma de professor normalista em 1908.
Em 1913, conquista o título de engenheiro pela Universidade [Livre] de Manaus. Nascem destes dois proveitosos cursos as suas grandes paixões: o magistério e a matemática. Consagra-se ao magistério de tal forma que desde a juventude só esta inclinação sublime polariza sua vida: conduzir, orientar, ensinar sobretudo a ciência dos números.


Moço ainda, projeta seu nome como um legítimo matemático. Faz concurso brilhante de aritmética para a antiga Escola Modelo, anexa à velha Escola Normal, para onde mais tarde é promovido.
Em 1927, bacharela-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela faculdade de então. Sem ir à Europa, à metrópole ou a outro centro mais adiantado do Brasil, Abílio Alencar atestou pela sua cultura e pelo seu saber que, nesta província humilde, também se forjam capacidades que podem ombrear vantajosamente com doutores que se jactam com sapiências aneladas e adquiridas em outros centros culturais de fora.

Como professor, tornou-se um matemático respeitado não só no Estado, mas no País inteiro, e em terras de além mar, colaborando nas mais conceituadas revistas do gênero, destacadamente na Revista Brasileira de Matemática e no Almanaque Bertrand, editado em Portugal, aos quais emprestava o brilho de sua pena de verdadeiro criador no campo da ciência dos números.

Como engenheiro, realiza notáveis e importantes trabalhos de agrimensura e perícias delicadas e difíceis, em que vence galhardamente. Como advogado, colaborou modestamente com causídico de renome no nosso fórum, dele recebendo os mais exaltadores encômios, que não o envaidecem e não o empolgam de modo a fazê-lo abraçar decisivamente a carreira, pois a sua paixão resume-se em uma só: o magistério.


Unindo o seu destino, pelo laço do matrimônio, com dona Judith Pinheiro da Silveira, Abílio Alencar encontra nessa companheira, lutadora e perseverante, um grande estímulo para batalhar e vencer. Funda a antiga Escola Rui Barbosa; leciona na Universidade; no colégio N. S. Auxiliadora; na antiga Escola Municipal de Comercio, atual Sólon de Lucena, onde fez posteriormente brilhante concurso perante o interventor Nelson Melo, sendo homenageado como mestre competente, que dispensou a arguição.

Dirigindo mais tarde a referida escola, batalha, com perseverança e denodo, pela conquista da federalização do estabelecimento, vitória que conseguiu para a alegria e conforto de quantos estudavam, à época, naquela casa de ensino comercial.
Na antiga Escola Normal, tornou-se o mestre de matemática competentíssimo e rigoroso no julgamento de seus discípulos, de modo que todos o olhavam com um misto de temor e estima, embora mais tarde se tornasse o mestre indulgente que todos nós conhecemos.

Dirigiu a antiga Diretoria de Instrução Pública, na ausência do titular efetivo, Dr. Beltrão, e, no governo Leopoldo Neves, já aposentado, voltou a dirigir o atual Departamento de Educação e Cultura, época em que tivemos ocasião de colaborar com o mestre amigo, que sempre pautou sua administração pela manutenção de uma liberalidade e demonstração de estima e compreensão para com todos. Sempre se nos demonstrava constrangido quando não podia atender a parte que o procurava, a quem tratava como uma criatura estimada da família. E assim não foi compreendido por seus pares e correligionários, afastando-se daquela repartição bastante desgostoso sem, no entanto, nunca dar demonstração de rancor ou animosidade a quem quer que seja.

Como chefe de família, tinha tal afetividade aos seus que era capaz dos maiores sacrifícios para que ninguém sofresse a menor privação, chegando ao ponto de, na época de maior atribulação de sua vida, quando a Carta de 1937 lhe corta a cátedra do Sólon de Lucena, deixando-o em situação quase desesperadora, seguir para o Rio de Janeiro enfrentando todos os obstáculos para dar assistência ao seu querido filho enfermo Euler, inteligência privilegiada, o seu grande sonho, o seu grande ideal que ele desejava ver concretizado com o ingresso de Euler na carreira diplomática, sonho que foi dilacerado com a morte prematura do jovem, que o deixa profundamente abalado. No Rio, leciona desenho no colégio Pritaneu, de Antóvila [Mourão] Vieira, para manter-se e sustentar os seus naquela angustiosa situação.
Instituto de Educação do Amazonas
 Ainda no desejo de amparar os seus, funda com sua filha Lea Antony o antigo Colégio Gustavo Capanema, atual Instituto com o mesmo nome, que permanece sob a direção da dinâmica professora. Lecionou matemática no antigo Ginásio Amazonense e constituiu-se o verdadeiro oráculo da juventude, no ensino particular daquela ciência.
Temos aí traços ligeiros da vida exuberante de Abílio de Barros Alencar, que a morte nos arrebatou a 25 de fevereiro, deixando todo o campo educacional do Amazonas enlutado, deixando principalmente o casarão do Instituto de Educação, onde ele pontificou por muitos anos, debaixo da pesada atmosfera da saudade, debaixo da angustiosa impressão do seu desaparecimento irreparável.

Solidarizando-nos sinceramente com a justa dor da família Abílio Alencar, apresentamos-lhe as nossas condolências de amigo, com estas palavras consoladoras: Abílio Alencar desapareceu no corpo, mas seu nome impoluto e as sua obra exuberante já o perenizam na memória e no tributo de gratidão de seus discípulos de escola e de exemplo honroso.
O segundo documento, transcrito parcialmente, encontra-se encartado no Dicionário Amazonense de Biografias: vultos do passado (1973), de Agnello Bittencourt.

O professor Abílio Alencar foi casado com dona Judith da Silveira Alencar, dama de exemplares virtudes. Do feliz enlace, nasceram os seguintes [8] filhos: Euler (falecido); Léa Alencar Antony; Neper da Silveira Alencar; Déa Alencar Assumpção; Viéte da Silveira Alencar; Otto da Silveira Alencar; Selma Alencar Acioly; e Maria Agnesi da Silveira Alencar.

Não consta ter publicado nenhum livro. Mas colaborava nos jornais de Manaus, em assuntos pedagógicos e motivos de sua especialidade. Era um notável charadista, mandando frequentes trabalhos para o afamado Almanaque Bertrand. Com o pseudônimo de Déa (nome de uma de suas filhas), manteve assídua correspondência com o matemático e escritor Malba Tahan.