CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quarta-feira, janeiro 24, 2024

CORAL "JOÃO GOMES JÚNIOR" DE MANAUS

O Coral, criado no Dia de São José (19 de março) de 1956, prossegue em atividade, sempre enlevando os assistentes de suas apresentações. Seu criador foi o saudoso Maestro Nivaldo Santiago, que contou com o apoio incondicional da Igreja católica na pessoa do reverendo cônego Walter Gonçalves, então vigário da Catedral de Nossa Senhora da Conceição, de Manaus.

Detalhe da Catedral de N. S. Conceição, em Manaus

Este texto pertence ao mencionado sacerdote, publicado em O Jornal (16 julho 1961), no qual esclarece a solenidade em que esta agremiação artística concede diploma de reconhecimento para diversas autoridades, em particular ao governador Gilberto Mestrinho. 

Recorte de O Jornal, 16 julho 1961

NO dia 13 do corrente, o coral João Gomes Junior que nasceu do Instituto Musical Santa Cecília, completou seu primeiro lustro de ação artística. O maestro Nivaldo de Oliveira Santiago à frente do grupo, perseverante e abnegado, apresentou à sociedade um programa variado e ameno. Foi mais de uma hora de enlevo e voos místicos aos páramos das musas, onde a Melodia espargiu lenitivo de prazer e de agitação irresistível transmitida à gente pelo turbilhão do século.

Ao intervalo maior, o organizador do instituto musical e, posteriormente, pai e fundador do coral João Gomes Junior, o impávido e vontadoso Nivaldo, descobrindo a grandeza de seu coração bem formado, agraciou com reconhecimento e estima, o Sr. Governador do Estado, o Secretário de Educação, e este pobre vigário, cuja presença, no instante, funcionou como sombra a destacar mais os dois homens públicos da administração amazonense. E não vai aqui nenhuma profissão de modéstia, mas apenas hierarquia de méritos. Num painel que deslumbra, as sombras concorrem também para o fascínio do conjunto.

Os três homenageados receberam da Sociedade Coral "João Gomes Júnior" o diploma de SÓCIO BENEMÉRITO. O Governador e o Secretário de Educação pelo apoio e incentivo que vêm dispensando ao grupo de cantores nas arrojadas iniciativas de fazer arte entre nós, e este humilde escrevinhador por ter, anos atrás, impedido o Maestro de ir embora, cantar e fazer cantar em outras plagas do Brasil, oferecendo-lhe, então, estímulo, casa, piano e mobília, para as atividades, iniciais, ali na (rua) Visconde de Mauá, num sobrado da Mitra e que serve, de muito, como sede das Obras Sociais da paróquia da Catedral.

Foi assim lançada a primeira pedra desse edifício artístico, erguido à custa de um labor pertinaz e que hoje todos admiram e aplaudem. Aqui a explicação de se encontrar este padre entre os homens de prestigio da ocasião. Símbolo da pedra que ficou escondida no alicerce da construção e que a lembrança agradecida do Maestro pretendeu mostrar ao público.

Grato, Nivaldo. Lamento não tenha o Gilberto participado pessoalmente da festa. Foi representado por esse jovial amigo que é o Desembargador Manuel Machado Barbuda, seu chefe de Gabinete. O meu comparecimento ao quinto aniversário do JOGOJÚ (sigla de João Gomes Júnior) obedeceu a um impulso íntimo: levar as minhas palmas ao triunfo de tantos esforços e penas; unir o meu sorriso e a minha alegria a quantos sorrisos e alegrias levantaram em apoteose o Coral João Gomes Junior com os 22 componentes e o seu maestro, no dia 13 de julho de 1961, no Teatro Amazonas.

sexta-feira, fevereiro 21, 2020

NIVALDO SANTIAGO: MAESTRO DAS ÁGUAS

Nivaldo Santiago, em
Jornal do Commercio

Vivendo em Minas Gerais, o maestro Nivaldo Santiago (1929-) marcou sua passagem pelo Amazonas, seu estado natal, com vibrante sucesso. Ainda no ano passado esteve em visita a Manaus, quando foi homenageado pelo Coral João Gomes Júnior, que lhe tem como criador, e outros corpos musicais.
Já postei sobre ele, e torno compartilhando reportagens publicadas pela imprensa local, em fevereiro de 1970, quando o “maestro das águas”, então servidor da Universidade do Pará, decidiu voltar. Com arrimo do governo, através da Fundação Cultural, e do Reitor da UA, Jauary Marinho, seu anseio foi concretizado.

Matéria sobre o maestro veiculada no Jornal do Commercio (14 fev. 1970)

Com sua opinião de que em Manaus, exatamente porque há apoio do Poder Público, se faz e se consome cultura muito mais acentuadamente que em muitas capitais brasileiras — Belém, por exemplo, onde vive ultimamente —, o maestro Nivaldo Santiago, musicista amazonense de renome paralelo ao de Arnaldo Rebelo, outro conterrâneo, assim deu início ao diálogo que ontem à tarde, na Fundação Cultural d0 Amazonas [FCA], manteve com a imprensa de Manaus que o ouviu inclusive sobre seus planos de retornar definitivamente a Manaus.E teve confirmada essa sua assertiva pelo diretor-superintendente da FCA, Dr. Elson Farias, que ato contínuo deu aos jornalistas e ao entrevistado os totais mais expressivos do movimento do Teatro Amazonas, em 1969: 106 funções e 35 mil presenças.
Nesse sentido, frisou maestro Nivaldo, a importância do advento daquela Fundação, assim como a contínua colaboração da imprensa manauara, agora com a participação da Televisão, motivando cada vez o maior interesse da parte da população pelas promoções culturais.

CULTURA MUSICAL
Falou-nos a seguir sobre o Curso de Cultura Musical que, no âmbito da Fundação Cultural, vai ministrar a partir de segunda-feira no Auditório Alberto Rangel, salientando que esse exemplo da FCA deveria ser seguido em todo o país ermo forma de aumentar o interesse geral pela cultura, no caso, a música.
O Curso de Cultura Musical, cujas inscrições já se encontram abertas na Biblioteca do Estado, terá 3 semanas de duração, com importante e fundamental exposição na primeira, (...)

CONDIÇÕES PARA FICAR
Discorrendo sobre todos recursos de que dispõe no Centro de Atividades Musicais, da Universidade do Pará, que dirige há sete anos, disse maestro Nivaldo Santiago de que necessitará de condições pelo menos iguais às que tem na capital paraense, para retornar a Manaus em caráter definitivo (presentemente veio passar um mês).
Confirmou o apoio integral que lhe pode dar a Fundação Cultural do Amazonas em caso de retorno e revelou haver apresentado um plano de trabalho ao Reitor Jauary Marinho para execução na Universidade do Amazonas. Dentro desse plano se situam, entre outras coisas, uma Escola Livre de Música e a orquestra e coral universitários, tudo funcionando isento de sentido acadêmico, ou seja, com objetividade e, consequentemente, proveitos totais.
“Agora confesso que desejo ardentemente servir ao meu Estado”, concluiu.

Reportagem de A Notícia, 12 de fevereiro de 1970



quinta-feira, fevereiro 20, 2020

FREI FULGÊNCIO E O CORAL JOÃO GOMES JR.

Frei Fulgêncio Monacelli
Quatro personagens estão reunidos nesse texto circulado no Jornal do Commercio, de 22 de fevereiro de 1970. Pela ordem, 1) pouquíssimo sei da autora, dona Camélia Oliveira; 2) o Coral continua operando e alegrando os admiradores do belo canto, sob a direção de uma das  fundadoras, Cleomar Feitosa; 3) frei Fulgêncio Monacelli (1938-), me assegurou um paroquiano de São Sebastião, onde o frade cumpriu sua escolha religiosa, seguiu para a Itália, donde é natural, para cuidados médicos. 4) a lembrança da nossa televisão pioneira: TV Ajuricaba (canal 38 VHF), do casal Kaled e Sadie Hauache.
  
Recortado do Jornal do Commercio,
22 fev. 1970


Camélia Cantanhede Marques de Oliveira

Aquela noite esplêndida de sábado passado, dia quatorze deste, em que o Coral “João Gomes” se apresentou na Televisão Ajuricaba, sob a regência do grande maestro frei Fulgêncio, foi um prazer imenso em assistirmos tão belo espetáculo, aquele coral magistralmente ensaiado, composto de vozes masculinas e femininas, tão bem compenetrado em agradar o exigente público manauara que, realmente, ficou satisfeito com sua bela apresentação, tendo obtido retumbante sucesso. O conjunto irmanado, comungou da mesma fé e da mesma alegria de seu esforçado regente.
Parabenizamos o boníssimo dirigente do Coral, que a pedido dos telespectadores do Canal 38, cantou com invulgar brilhantismo a Ave Maria de Schubert, dando-nos assim um verdadeiro pão de espírito; creia frei Fulgêncio que os telespectadores da querida Televisão Ajuricaba lhe aplaudiram com euforia. O genial tenor esteve admirável chegando a emocionar-nos. O maestro, na verdade, foi extraordinário ao cantar a Ave Maria, esta música de grande efeito. Frei Fulgêncio sentia o que estava cantando, transformando em verdadeira beleza aqueles sons maviosos e sonoros. O regente do coral revelou qualidade de grande conhecedor música e bel canto.
Nunca é demais dizer: que frei Fulgêncio é de um poder indescritível, inspirando-nos para a meditação e a fé. Finalmente, o Coral “João Gomes” sabiamente dirigido por aquele humilde e culto frei, esteve à altura, salientando-se a voz maviosa de Dagmar Feitosa, que alcançou o mais retumbante êxito.
Foi realmente maravilhoso o programa da Televisão sábado passado, agradando plenamente admiradores do belo canto e arte musical, deixando-nos as mais gratas recordações... Esperamos que voltem novamente.
Queremos parabenizar o aplaudido conjunto Coral “João Gomes” na pessoa de frei Fulgêncio, bem como a Ajuricaba, por essa sublime oportunidade. Receba querido casal KaIed e Sadie “aquele abraço” amigo, por trazerem até nossos lares o fascinante Coral “JOÃO GOMES” e FREI FULGÊNCIO.

sexta-feira, setembro 27, 2019

CORAL JOÃO GOMES JUNIOR (4)

Nivaldo Santiago

Coincidência ou não, porém, menos de dois anos depois do movimento intitulado Clube da Madrugada (22 nov. 1954), desembarca em Manaus o maestro Nivaldo Santiago. 

Logo toma a batuta e empenha-se em criar um coral, ou seja, em movimentar a arte musical. Obtém o apoio da Igreja católica, que lhe cede uma sua dependência para os ensaios. Entre os mais de oitenta participantes do coral, são muitos os nomes lembrados na cidade, porque ligados à Igreja e integrantes da alta sociedade.

Na festa de São José de 1956, Santiago inaugurou o Coral João Gomes Junior, que ainda funciona, em homenagem ao maestro paulista, seu professor. Em nossos dias, além do maestro, residindo em Minas Gerais, apenas uma fundadora sobrevive para contar a história: Dagmar Feitosa.

Os primeiros ensaios ocorreram na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, após o que passou a operar no endereço citado na convocação, cuja publicação compartilho de O Jornal, 8 de abril de 1956. 
 
Recorte de O Jornal, 8 abril 1956


Do maestro Nivaldo de Oliveira Santiago, entusiasta e dedicado batalhador em prol do aprimoramento e formação de talentos musicais em nossa terra, recebemos a lista que abaixo publicamos, com o pedido de que todos que nela estiverem consignados, compareçam aos ensaios a serem realizados no instituto "Santa Cecilia", à rua Visconde de Mauá, 339, para que, destarte, possa ser concretizado o maravilhoso concerto, com o qual pretende brindar a sociedade manauara.

Os referidos ensaios obedecerão ao horário seguinte: barítonos e baixos – terças-feiras, às 17h15; tenores – terças-feiras, às 20h; sopranos – quintas-feiras, às 17h15; contraltos – sextas-feiras, às 17h15.

O maestro pede o comparecimento dos:
Sopranos: Carmela Faraco, Cleomar Feitosa, Cibele Maria Oliveira, Dagmar Feitosa, Helena Amorim, ldalina M. Ferreira, lranir da Silva, Ivete Magalhães, Léa Norões, Lisete de Castro Lima, Maria dos Anjos Gonçalves, Maria de Nazaré Avelino, Maria de Nazaré Teixeira, Maria do Perpétuo Socorro, Myriam Moreira, Nilce Arnaud Ferreira, Olga Faraco, Maria Leda Vieiralves, Rosa Magali Carvalho, Tereza Maia, Tereza Santos, Terezinha de Jesus Soares, Neusa Ferreira, llza Garcia, Maria José Pereira, Zuleika Ferreira, Maria Lucia C. Lima, Joana de Carvalho, Maria Jerusalém e Nair Albuquerque Auzier. (30)
Contraltos: Amália de A. Guimarães, Davina Amanajás, Elvira Borges, Erminda Cantanhede, Eunice Carneiro, Georgina Brito, Léa Nery, Maria Augusta Xavier, Maria Auxiliadora Rodrigues, Maria José de Araújo Silva, Maria de Nazaré dos Santos, Maria Olivia Vieiralves, Leonilia Normando, Conceição C. de Oliveira, Maria José Ferreira, Marineia Barboza, Terezinha Alencar, Marlene Aguiar, Themis B. de Araújo, Aurélia Auzier, Marilia Auzier, Maria da Conceição Tavares. (21)
Tenores: Almir Silva, Carlos Fonseca, Djalma Henriques, Esmeraldo Bessa, George Tetenge, Hélio Barboza, Humberto Couto, Luiz Santos, Nelson Kizem, Rostand Bonfim, Wockman dos Reis. (11)
Barítonos e Baixos: Alberto Rebello, Carlos Augusto Carneiro, Djalma Melo, Fernando Leão, Geraldo Xavier, João S. Pinheiro, Joaquim dos Santos, Jorge de Medeiros, José Leorne Frota, Manuel Polari, Miguel Duarte, Nelson Franco de Sá, Norceu Santiago de Oliveira, Paulo Augusto da Silva, Roberto de A. Vale, Pedro Amorim, Ronald Botelho, Teodoro B. Assunção, Milton Kizem, João Brandão e Ary Pereira. (21)

quarta-feira, outubro 04, 2017

MAESTRO NIVALDO SANTIAGO (II)

A extinta REVISTA DE EDUCAÇÃO, elaborada pelos professores, surgiu no início de 1930. E com intervalos, como soe acontecer com tais publicações, prosperou ao menos até o final dos 1960.

Tanto que catei da revista nº 46 (Ano XIV), festejando o Natal de 1958, a crônica seguinte, escrita pelo maestro Nivaldo Santiago (1929-) que, pela “terceiridade” que usufrui, segue apenas ouvindo música no interior de Minas Gerais.

Este amazonense passou em Manaus algum tempo, o bastante para implantar algumas marcas, uma das quais ainda perdura. Trata-se do Coral João Gomes Júnior, que já ultrapassou seis décadas de atividades.

Sobre este regente postei, em 18.outubro.2010, Maestro Nivaldo Santiago. 

  

Necessidade de uma educação musical

“Creio na redenção do mal pela eterna beleza, e creio também na missão da arte”. 
G.B. Shaw, in
O dilema do médico.

Prof. N. Santiago


Pregar no deserto, é o que se poderia dizer a isto que venho jogando aos quatro ventos de nossa cidade há trinta e quatro meses: precisamos criar aqui, em Manaus, uma mentalidade artística; precisamos oferecer à nossa gente oportunidade de desenvolver seus pendores musicais; precisamos dar ao nosso povo — durante decênios abandonado — um meio de conhecer, apreciar e sentir as belezas da música; sim: há trinta e quatro meses.

Idealizei a criação de um Conservatório, no que tive preciosa ajuda do Sr. Cônego Walter Nogueira; seria o ponto de partida para uma futura Escola de Artes Cênicas e Musicais destinada a todas as pessoas de talentos e a oferecer espetáculos e audições para o povo e o povo precisa disso; é uma necessidade do espírito.

Mas, creio que nem tudo está perdido; alguma coisa já foi feita; porém, necessário que se leve mais a sério esta realidade que expus na primeira alínea.

Disse que nem tudo está perdido; explico-me: já possuímos algum movimento musical destinado a uma maior penetração das massas; basta citar: sob a direção do autor dessa crônica surgiram três agremiações corais sérias: o Coral "João Gomes Junior” — O Coral “Bialik" e, de recente organização, o “Orfeão do Comerciário” — sob o patrocínio do SESC.

Temos cm organização, a nossa pequena orquestra cujo futuro depende de sério apoio que lhe deem os poderes governamentais e o povo; máxime do primeiro.

Ouvimos em seis de setembro pp. uma concentração orfeônica congregando alunos secundaristas de diversos colégios, num total de mais de seiscentos figurantes tratava-se de uma homenagem à Pátria, comemorando sua Independência, e, ao mesmo tempo, uma experiência orfeônica demostrando a capacidade de nossa juventude — capacidade de realização, apreciação e valorização da música de conjunto como manifestação de um sentimento coletivo; houve sacrifício da parte daqueles alunos —é, evidente; mas quando lhes disse que se tratava de um motivo patriótico, todos se animavam. 

Contudo houve, como sempre e em qualquer lugar um espírito medíocre a menoscabar aquele trabalho; mas é natural; é espirito medíocre incapaz.

A espírito assim, costumo enviar por telegrama esta sentença de um pensador francês: “La critique est aisée, l’art difficile”, esperando que saiba o sentido sem consultar o léxico. Vamos cantar o amor de missa terra.”

Durante a execução vi lágrimas em rostos anciãos, maduros, adolescentes e juvenis; dias após, uma jovem — bem jovem — vinha me falar de olhos úmidos: "Professor, nós cantamos bem? Eu gostei tanto!"

Valeu a concentração orfeônica por uma experiência.

Assim, repito, alguma coisa já se fez; a semente está lançada vamos regar o terreno; preciso que brote, cresça, floresça e frutifique. Não podemos ficar inativos ante a maravilhosa possibilidade de dar às criaturas que nos cercam um pouco de música que lhes suavize as agruras da vida diária; a música tem grande alcance, grande poder: nós o olvidamos.

Apraz-me lembrar aqui o que escreveu o musicólogo Kurt Pahlen em sua História Universal da Música — recente publicação da Cia. Melhoramentos: “Houve na história humana há muito tempo — longas épocas em que a música se achava no centro da vida. E... eram tempos felizes!”


Leitor: esta crônica é um convite ao trabalho pela música em nosso Estado. 

terça-feira, abril 26, 2016

CORAL JOÃO GOMES JUNIOR

Maestro Nivaldo e o Coral
O autor deste texto, extraído do matutino A Crítica (14 abril 1956), era o então repórter Jorge Tufic, que se iniciava nas lides jornalísticas e se preparava para o grande salto, o de poeta consagrado em Manaus. Seu artigo homenageava a outro artista, ao maestro Nivaldo Santiago, que acabara de fundar o Coral João Gomes Junior, que ele tratou como o estabelecimento de um conservatório.

Temos um Conservatório



Jorge Tufic


MANAUS tem a honra de hospedar um verdadeiro maestro. Que aqui veio para cumprir a espinhosa missão de, arrostando com as maiores dificuldades, fundar um Conservatório de Música. Maestro Nivaldo é um desses espíritos que, coroados pelo próprio destino de realizar uma obra grandiosa, com muito de loucos, naturalmente, nada há que lhes dificulte o mister.

E assim foi que recebemos, dias passados, a notícia alvissareira: fundara-se o “Instituto Musical Santa Cecília”. Estão, por isso, de parabéns todos aqueles que se dedicam ou admiram a divina arte. Pois o Instituto, com suas portas abertas, recebe e aprimora talentos, Maestro Nivaldo cujos conhecimentos ainda mais se aprofundam, mercê de uma cultura musical bem formada, através de estudos e ensaios consecutivos, não se ponha em dúvida a sua capacidade de trabalho, que reconhecemos altamente profícuo.
Nivaldo Santiago, em out. 2010
Pelo menos foi essa a impressão que tivemos, levados que fomos a conhecer o artista. A palestra que mantivemos, numa atmosfera agradável e serena, o que dela lucramos, a lição de entusiasmo e perseverança que aprendemos, tudo isto ainda perdura, indelével, em nossa memória.

A brevidade do espaço, porém, impede um possível extravasamento da nossa parte. Damos apenas os parabéns desta coluna, ao maestro e seus auxiliares.

Lá encontrareis também a senhora Neuza Ferreira, que vos há de ser útil e atenciosa. Nesta terra em que poucos são os que se voltam para as coisas da Beleza, meu caro Nivaldo, é com o mais vivo interesse que as jovens vocações musicais do Amazonas recebem a boa nova. Porque em verdade era esta a sua aspiração máxima. Era este o seu desejo. Que se fundasse um Conservatório, e o mesmo estivesse ao alcance de suas mãos.


Estão-lhes, portanto, abertos os horizontes da música. 

terça-feira, março 05, 2013

CASA DE ADRIANO JORGE: ÁLBUM



O registro de hoje mostra algumas fotos da Academia Amazonense de Letras, ao tempo em que eram presidentes Péricles Moraes e Djalma Batista. De certo, a escolha de imortais era bem mais tranquila do que as últimas processadas na Casa de Adriano Jorge.
 A substituição do poeta Luiz Bacellar tem dado dor de cabeça aos dirigentes e tema para notícias de jornais e de outros meios de comunicação, especialmente as redes sociais.
As fotografias, na ordem de apresentação, 1) o presidente Péricles Moraes e o secretário padre Nonato Pinheiro, na direção de sessão, em 1952; 2) o mesmo presidente empossando o acadêmico padre Pereira Neto, em janeiro de 1956; 3) no jubileu de prata da AAL, a assembléia com destaque para o major PM Jarbas Rocha, o ex-governador Plínio Coelho e o doutor Couto Lopes; em uma poltrona, o acadêmico José Lindoso; 4) o Coral João Gomes Junior prestigiando a mesma solenidade, em 1968, (à dir. a solista Dagmar Feitosa, atual dirigente do coral); e 5) o presidente Djalma Batista recebe cumprimentos do governador Danilo Areosa (1967-71).






terça-feira, agosto 23, 2011

Música e Poesia

Djalma Batista, A Crítica, 1956
Sob o título acima, o saudoso cientista Djalma Batista escreveu o artigo abaixo, no final de 1957 (O Jornal, 23 dez.) saudando as artes. E louvando igualmente os homens e as mulheres que galhardamente as produziam.   

Vale a pena assinalar, neste final de ano, que a poesia e a música tiveram uma rentrée auspiciosa em nossa capital.
Nada menos de cinco poetas estrearam em livro. E quando os poetas falam é preciso escutá-los, porque lhes pertence o segredo das previsões e por eles bradam os anseios coletivos.


A música, por seu turno, que de há muito se refugiara na garganta dos uirapurus e dos rouxinóis do rio Negro, ressurgiu triunfalmente, com o concerto recente do Coral João Gomes Júnior e da Orquestra Sinfônica do Amazonas, em organização.
Saudemos, quanto merece, o surto artístico, que representa, de certo, o prenúncio de melhores dias para a vida da inteligência no Amazonas!

Nunca nos faltaram poetas, e bons poetas, valendo citar, dos mais novos, Sebastião Norões, Oseas Martins, Áureo Mello, Djalma Passos e aquele inditoso Paulo Monteiro de Lima. Muitos outros existem, e aparecem constantemente nos suplementos domingueiros, mostrando que a chama tem estado sempre viva.
Não tínhamos tido, porém, o lançamento em livro de tantos quantos os deste ano, iniciando com os voos impressionantes do Pássaro de Cinza, de Farias de Carvalho, que é um artista inspirado, seguido pelos poemas de Antisthenes Pinto, em Sombra e Asfalto.

O que mais me impressionou foi a floração de uma autêntica poesia de maturidade, nos livros de Edmundo Canamari; Benjamin Sanches e Raimundo Ramos Coelho. Amigo dos três, que são todos de minha geração, não lhes conhecia as tendências poéticas e me regozijei deveras com a sua revelação, por traduzir aspectos que exaltam mais ainda a personalidade de cada um deles: Canamari, homem de estudos sérios e bem orientados; Sanches, industrial e comerciante devotado aos seus labores; Coelho, servidor da Justiça, fiel ao seu ofício, por uma herança honrosa.

Não seria justo dizer que os poetas estreantes são grandes e notáveis: não sou crítico literário, e abomino os elogios gratuitos e imoderados. Não seria justo, também, negar-lhe o mérito, denunciando esquírolas porventura existentes nos trabalhos divulgados.


Sou um homem sensível à beleza, e pude me comprazer com enleantes versos de Folhas d´alma, Argila e Vereda de sonhos, além dos dois volumes a que me referi anteriormente. Encontrei, neles, momentos de alta poesia, revelando uma inspiração que me emocionou e comoveu. E não há poesia onde falta a emoção.

Canamari verbera contra o “mundo estranho, sem flores e sem poesia... de angústia e tirania...”. É o tema social, preocupação de nossa época. Sanches, ao evocar os Sargaços, fala de “Gosto na mucosa do pensamento, - como saber de ontem que foi amanhã...”.
Pinto, na sua serenidade, acredita na Mãe eterna: “A mão que sinto – hirta sustém o mundo”. Coelho, que é legitimamente um passional, celebrando A Chuva, acha que “as gotas na janela, rutilando – lembram colar de lágrimas caídas – dos olhos tristes de u´a mulher chorando...”. Farias, na largueza de suas imagens, considera as mãos de Neruda “como pétalas da rosa branca universal da paz!”.

Repito: os poetas são precursores. Depois deles virão os romancistas (onde estão os fixadores da vida na Amazônia, que não publicam os seus romances?).
Temos tido, na verdade, na literatura regional, principalmente escritores descritivos e ensaístas. Precisamos urgentemente dos criadores.

- o –

O que conseguiu, na noite de 23, no Teatro Amazonas, o maestro Nivaldo Santiago raia pelo milagre. Um grande coral, de quatro vozes mistas, e conjunto sinfônico, numa terra onde o estudo da música entrou para os currículos escolares, mas saiu do coração do povo, deram ao numeroso público que felizmente lá ocorreu a estranha sensação de que algo de novo e surpreendente estávamos assistindo!

Também não vou cair no louvor desmedido, mas é impossível calar diante daqueles artistas em potencial, que o maestro Santiago reuniu, estimulou e disciplinou. Houve números de uma beleza penetrante, como a Marta, de Moises Simons, que teve como solista Pedro S. Amorim, acompanhado pelo Coral e pela Orquestra.
A senhora Manoela Araújo tem uma voz melodiosa e cantou trechos de responsabilidade, com grande sucesso, agradando de verdade. Duas sopranos, inteiramente desconhecidas como tal, as senhoritas Francisca Bandeira e Cleomar Feitosa, se revelaram. Sobretudo o conjunto de vozes e sons foi a grata surpresa da noite que bem poderia ter sido de grande gala.

Estou certo de que a iniciativa de alto sentido artístico do maestro já não poderá fenecer. O povo julgou-a e lhe deu a consagração de suas palmas, que representam compreensão e solidariedade. O governo, que não é mais que um instrumento do povo, obedecerá à sua imposição, dando ao Coral e à Orquestra Sinfônica o apoio material de que precisam.

E o sonho de um amazonense idealista, que estudou na Itália, lutou em São Paulo, deixando tudo pela terra natal, já está sendo uma autêntica realidade a música, a divina música, que Carlos Gomes semeou em Belém e Joaquim Franco em Manaus, voltou a fazer parte do espírito da planície.

-o-

Bendito ano de 1957, que se encerra com música e poesia!

hoje, o maestro Nivaldo Santiago mantém-se em atividade no interior de Minas Gerais.
o Coral João Gomes Junior segue organizado, sob a gerência da “soprano” Cleomar Feitosa.

Nota do postador:

quinta-feira, julho 28, 2011

Academia Amazonense de Letras (VI)

Para comemorar o Dia do Escritor, acontecido em 25 de julho, a Casa de Adriano Jorge realizou hoje a noite uma sessão especial. A mesa diretiva esteve sob a presidência do acadêmico José Braga, do secretário-geral Almir Diniz e do diretor de edições Marcus Barros.

Além dos citados, ocuparam a mesa o escritor José Carlos Gentili, presidente da Academia de Letras de Brasília; Marcílio Luís Reinaux, presidente da Academia Brasileira de Cerimonial e Protocolo; Geraldo dos Anjos, presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, e o acadêmico Cláudio Chaves, presidente da Academia Amazonense de Medicina.

Compareceram à cerimônia os acadêmicos Abrahim Baze; Francisco Gomes; Armando de Menezes; Arlindo Porto; Moacir Andrade; Jorge Tufic; Rosa Mendonça; Carmen Novoa; Max Carphentier e Elson Farias.

A abertura do evento ocorreu com a execução (poucos cantaram) do Hino do Amazonas, de autoria do poeta Jorge Tufic, pelo Coral João Gomes Junior. Em seguida, ocupou a tribuna o ex-presidente da Casa, Elson Farias,  para a saudação oficial.

Na  sequência, foi entregue o título de Sócio Correspondente ao presidente da Academia de Letras de Brasília, que usou da tribuna para os agradecimentos, ocasião em que efetuou uma sucinta aula sobre a história do Amazonas.
Os livros lançados


Para fazer o lançamento das obras editadas pela Academia falou o acadêmico Marcus Barros, diretor de edições. Finalmente, emprestando mais beleza ao evento, o Coral João Gomes Junior efetuou uma apresentação especial, homenageando os escritores amazonenses, encerrando com um trecho da ópera Carmen, de Bizet, que despertou vivas manifestações da plateia.

Os livros foram ofertados aos presentes, que puderam receber autógrafos dos autores Jorge Tufic e Rosa Mendonça, seguido de um coquetel na sala Mario Ypiranga.