CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

22 de agosto de 2011

Memorial Amazonense (LVII)

Agosto, 22

Biblioteca Pública do Amazonas, anos 60

1945 – Grave incêndio atingiu a Biblioteca Pública do Amazonas. O desastre, inolvidável, sucedeu na madrugada desse dia destruindo seu acervo. Já instalada onde hoje se encontra, no cruzamento da rua Barroso com a avenida Sete de Setembro, a Biblioteca e o Arquivo Público partilhavam o andar térreo do prédio. Ocupavam, respectivamente, o salão sul (av. Sete de Setembro) e o salão norte (rua Henrique Martins). Outra repartição ali estava instalada, a Assembleia Legislativa. Embora não estivesse em funcionamento, pois vigorava a ditadura do Estado Novo – ocupava “provisoriamente”, desde 1913, todo o andar superior.

Faltou pouco para este patrimônio cultural sucumbir completamente, porém, o destino interveio poupando alguns já raros livros e impressos. Diante do infortúnio, Manaus irmanou-se, tanto para combater as chamas quanto para recuperar o patrimônio. As descrições oferecem ampla visão desse empenho geral, a primeira provém do Boletim Interno da Polícia Militar (24 ago.), que detinha o dever de arrostar as chamas.

Ontem, o patrimônio cultural do Amazonas sofreu profundo golpe com um terrível incêndio que destruiu parte de um grande edifício do Estado, onde se achava localizada a Biblioteca do Estado. Esta lamentável ocorrência, que teve início pelas 3h da manhã, foi logo socorrida pelo Corpo de Bombeiros, além de alguns oficiais e praças da Força, com o intuito único de dominar a ação devastadora das chamas. Por um retardo da abertura da rede de águas, o incêndio tomou maior volume, entretanto, um esforço gigantesco por parte dos nossos bombeiros, bem como de alguns oficiais e praças da Força, conseguiram evitar a propagação das chamas às outras dependências do mesmo edifício.

Tanto entusiasmo arrebatou o comandante, a ponto de indultar a pena disciplinar “dos praças da Companhia de Bombeiros, bem como da companhia de metralhadoras do Batalhão”. Nominalmente, do cabo 339, Paulino Furtado de Araújo e do soldado 494, João Bento de Souza, da 1.ª Companhia de Fuzileiros.

Os bombeiros não puderam combater o fogaréu a contento, reconhece o comandante. Após o rescaldo, restaram para os policiais militares os encargos da segurança e da remoção dos entulhos. Isso mesmo. Foram designados 12 homens para, sob a orientação do diretor dos Serviços Técnicos do Estado, demolir as áreas do prédio irremediavelmente atingidas pelo fogo. Coube ao tenente Caetano Félix do Nascimento, que nos anos de 1954-55 seria comandante da Polícia Militar, a fiscalização desses serviços.

A destruição da biblioteca do Amazonas relevou outros personagens. O relator, não apenas do incêndio, mas da restauração do prédio e da montagem das coleções, foi seu diretor. Genesino Braga (Nascença e Vivência da Biblioteca do Amazonas. Belém: Gráfica Falangola, 1957), cronista de méritos indiscutíveis, inicia o capítulo Incêndio da Biblioteca Pública lembrando a queima de outra biblioteca, incluída em todos os compêndios. “Como no céu de Alexandria, no ano de 641 a.C., o céu de Manaus também se cobriu de grossos rolos de fumo, na madrugada de 22 de agosto de 1945”.

No andar superior funcionava a Assembleia Legislativa, onde mantinha seus arquivos, daí supor que, uma descarga elétrica “no velho quadro de eletricidade existente no andar superior do edifício”, tenha produzido o desastre. O fogo destruiu por completo todo “o patrimônio livresco, móveis e demais utensílios da Biblioteca Pública do Amazonas”.

Ao contrário do que proclamou o comandante dos Bombeiros, o cronista-diretor Braga fustiga: quando o alarme soou, não houve “as providências que se esperavam”, pois, para a “imediata debelação do incêndio, não havia água nas bocas do incêndio próximas ao local” e, bem pior, “os bombeiros, desapresados, não dispunham do mais primário material para o combate a incêndio de tão vastas proporções”.

Diante deste quadro: madrugada, sem água nos hidrantes e com bombeiros desaprestados, “toda a biblioteca foi destruída, não se conseguindo salvar sequer uma página de livro; e toda a ala direita do majestoso edifício veio ao chão, da cobertura ao soalho do piso inferior e deste à laje do porão, ficando de pé apenas as grossas paredes laterais, na sua obra de alvenaria, com grandes fendas de alto a baixo”.

Sem contestação, foi um dia aziago para a vida cultural do Estado. Restou, contudo, para os anais da Polícia Militar as palavras reconhecidas do cientista Djalma Batista (1916-1979), manifestadas em carta ao comandante da Força Policial do Amazonas:

A cidade de Manaus viveu na madrugada de anteontem um de seus dias mais trágicos, com o incêndio da Biblioteca Pública, por excelência a casa da cultura e do espírito. A violência com que lavrou o fogo foi tamanha, que a ameaça de generalizar-se a todo o quarteirão se tornou evidente. (...) O gesto de solidariedade e a ajuda prestimosa dos briosos militares me cativou extraordinariamente.

Biblioteca Pública em reforma no governo Mestrinho, anos 90

O grupo estava constituído dos sargentos Edson (do Serviço de Saúde) e Djalma Passos (depois oficial; Passos graduou-se pela Faculdade de Direito do Amazonas em 1955. Além de policial, foi professor de português. Como político, foi deputado federal e estadual, tendo presidido o PTB, até seu falecimento. Foi ainda diretor da extinta Guarda Civil e secretário de Estado do Interior e Justiça. Enfim, publicou diversos livros, entre estes, Poemas do tempo; As vozes amargas; Tempo e distância), e pelos soldados Antônio Nunes da Silva, Januário M. da Silva, Manoel Ribeiro, Maximiniano Belarmino e João Bento de Souza.

Em nossos dias, 66 anos depois, o governo estadual finaliza a mais nova reforma da centenária Biblioteca Pública.