CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

23 de agosto de 2011

Música e Poesia

Djalma Batista, A Crítica, 1956
Sob o título acima, o saudoso cientista Djalma Batista escreveu o artigo abaixo, no final de 1957 (O Jornal, 23 dez.) saudando as artes. E louvando igualmente os homens e as mulheres que galhardamente as produziam.   

Vale a pena assinalar, neste final de ano, que a poesia e a música tiveram uma rentrée auspiciosa em nossa capital.
Nada menos de cinco poetas estrearam em livro. E quando os poetas falam é preciso escutá-los, porque lhes pertence o segredo das previsões e por eles bradam os anseios coletivos.


A música, por seu turno, que de há muito se refugiara na garganta dos uirapurus e dos rouxinóis do rio Negro, ressurgiu triunfalmente, com o concerto recente do Coral João Gomes Júnior e da Orquestra Sinfônica do Amazonas, em organização.
Saudemos, quanto merece, o surto artístico, que representa, de certo, o prenúncio de melhores dias para a vida da inteligência no Amazonas!

Nunca nos faltaram poetas, e bons poetas, valendo citar, dos mais novos, Sebastião Norões, Oseas Martins, Áureo Mello, Djalma Passos e aquele inditoso Paulo Monteiro de Lima. Muitos outros existem, e aparecem constantemente nos suplementos domingueiros, mostrando que a chama tem estado sempre viva.
Não tínhamos tido, porém, o lançamento em livro de tantos quantos os deste ano, iniciando com os voos impressionantes do Pássaro de Cinza, de Farias de Carvalho, que é um artista inspirado, seguido pelos poemas de Antisthenes Pinto, em Sombra e Asfalto.

O que mais me impressionou foi a floração de uma autêntica poesia de maturidade, nos livros de Edmundo Canamari; Benjamin Sanches e Raimundo Ramos Coelho. Amigo dos três, que são todos de minha geração, não lhes conhecia as tendências poéticas e me regozijei deveras com a sua revelação, por traduzir aspectos que exaltam mais ainda a personalidade de cada um deles: Canamari, homem de estudos sérios e bem orientados; Sanches, industrial e comerciante devotado aos seus labores; Coelho, servidor da Justiça, fiel ao seu ofício, por uma herança honrosa.

Não seria justo dizer que os poetas estreantes são grandes e notáveis: não sou crítico literário, e abomino os elogios gratuitos e imoderados. Não seria justo, também, negar-lhe o mérito, denunciando esquírolas porventura existentes nos trabalhos divulgados.


Sou um homem sensível à beleza, e pude me comprazer com enleantes versos de Folhas d´alma, Argila e Vereda de sonhos, além dos dois volumes a que me referi anteriormente. Encontrei, neles, momentos de alta poesia, revelando uma inspiração que me emocionou e comoveu. E não há poesia onde falta a emoção.

Canamari verbera contra o “mundo estranho, sem flores e sem poesia... de angústia e tirania...”. É o tema social, preocupação de nossa época. Sanches, ao evocar os Sargaços, fala de “Gosto na mucosa do pensamento, - como saber de ontem que foi amanhã...”.
Pinto, na sua serenidade, acredita na Mãe eterna: “A mão que sinto – hirta sustém o mundo”. Coelho, que é legitimamente um passional, celebrando A Chuva, acha que “as gotas na janela, rutilando – lembram colar de lágrimas caídas – dos olhos tristes de u´a mulher chorando...”. Farias, na largueza de suas imagens, considera as mãos de Neruda “como pétalas da rosa branca universal da paz!”.

Repito: os poetas são precursores. Depois deles virão os romancistas (onde estão os fixadores da vida na Amazônia, que não publicam os seus romances?).
Temos tido, na verdade, na literatura regional, principalmente escritores descritivos e ensaístas. Precisamos urgentemente dos criadores.

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O que conseguiu, na noite de 23, no Teatro Amazonas, o maestro Nivaldo Santiago raia pelo milagre. Um grande coral, de quatro vozes mistas, e conjunto sinfônico, numa terra onde o estudo da música entrou para os currículos escolares, mas saiu do coração do povo, deram ao numeroso público que felizmente lá ocorreu a estranha sensação de que algo de novo e surpreendente estávamos assistindo!

Também não vou cair no louvor desmedido, mas é impossível calar diante daqueles artistas em potencial, que o maestro Santiago reuniu, estimulou e disciplinou. Houve números de uma beleza penetrante, como a Marta, de Moises Simons, que teve como solista Pedro S. Amorim, acompanhado pelo Coral e pela Orquestra.
A senhora Manoela Araújo tem uma voz melodiosa e cantou trechos de responsabilidade, com grande sucesso, agradando de verdade. Duas sopranos, inteiramente desconhecidas como tal, as senhoritas Francisca Bandeira e Cleomar Feitosa, se revelaram. Sobretudo o conjunto de vozes e sons foi a grata surpresa da noite que bem poderia ter sido de grande gala.

Estou certo de que a iniciativa de alto sentido artístico do maestro já não poderá fenecer. O povo julgou-a e lhe deu a consagração de suas palmas, que representam compreensão e solidariedade. O governo, que não é mais que um instrumento do povo, obedecerá à sua imposição, dando ao Coral e à Orquestra Sinfônica o apoio material de que precisam.

E o sonho de um amazonense idealista, que estudou na Itália, lutou em São Paulo, deixando tudo pela terra natal, já está sendo uma autêntica realidade a música, a divina música, que Carlos Gomes semeou em Belém e Joaquim Franco em Manaus, voltou a fazer parte do espírito da planície.

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Bendito ano de 1957, que se encerra com música e poesia!

hoje, o maestro Nivaldo Santiago mantém-se em atividade no interior de Minas Gerais.
o Coral João Gomes Junior segue organizado, sob a gerência da “soprano” Cleomar Feitosa.

Nota do postador: