CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sexta-feira, julho 27, 2012

Dia do patrono dos motoristas


Anteontem 25, foi o Dia de São Cristóvão, ou do patrono dos motoristas e, com mais detalhe, dos taxistas. A festa religiosa foi explosiva, tanto foram os fogos de artificio que saudaram o santo, despertando a cidade, em plena tarde. A festa teve a presença e a benção do bispo auxiliar, Dom Pasqualotto, nos veículos em carreata ou, melhor dizer, em procissão.  

Acentuo isso, porque estando a uma boa distância do evento, fiquei intrigado com o show pirotécnico. Em seguida, diante da TV, assistindo ao jornal local, fui informado do motivo de tanto foguetório.

A mesma edição fez destaque de mais uma morte de taxista. Trata-se do oitavo profissional do volante sacrificado neste ano. Isso, obviamente, acentuou a ira dos colegas, que a cada crime reivindicam mais segurança ao poder executivo. Quase sempre sem retorno.

Lembro até que um motorista de Manaus lançou, para se defender, uma gaiola plástica ou coisa parecida, no interior do taxi. Vi isso na TV. Mas, volto a São Cristóvão. O santo que deve olhar pelos seus patronados, mas que parece ter cochilado algumas vezes.

No dia imediato, li nos matutinos que um “suspeito” (apesar da confissão, sempre é suspeito) fora preso e recolhido ao Distrito. E que cerca de 500 taxistas cercaram a carceragem, ameaçando invadir o local para justiçar o preso. E, assim, vingar o colega.

Esse ataque de “justiça” me fez lembrar o caso emblemático, acontecido no centro da nossa cidade, há 60 anos. O caso Delmo Pereira. Falo do estudante, que assaltou a serraria da família, mas, tentando esconder o mal feito,  acabou por matar o chofer de praça (taxista, de hoje). Preso o criminoso, foi conduzido em ambulância para exames médicos. No caminho, os colegas do morto, mancomunados com o motorista da ambulância, sequestraram o Delmo e fizeram “justiça”.

Quando esse princípio vai deixar de existir, especialmente nessa classe? Sempre que um taxista é morto, ocorre uma caçada ao criminoso, com ou sem a polícia, mas sempre com arma de fogo apoiando. Enterrado o morto, os gritos ainda são ouvidos, mas acabam por silenciar, até que outra tragédia semelhante seja contabilizada.

O legislativo federal prepara-se para discutir e aprovar o novo Código Penal. Haverá algum dispositivo que reprima este tipo de vindita? Certo. Se há leis e há quem as aplique, por que esse barbarismo se mantém?

Enfim, diante de mais essa demonstração de barbárie, creio que Dom Pasqualotto rezou em vão. São Cristóvão, que não tem culpa desse pecado, rogai por nós!


quarta-feira, agosto 17, 2011

Caso Delmo Pereira (1)

Capa do Caso Delmo Pereira
Sandra, uma quase-cunhada, me consulta sobre o livro Caso Delmo Pereira, a obra que narra “o crime mais famoso de Manaus”. Ainda, solicita-me uma opinião sobre o trabalho, lembrando que alcançou, embora pré-adolescente, os desdobramentos desses crimes. Crimes, ela lembra, pois o assassinato de Delmo aconteceu em decorrência de outro, praticado pelo desventurado jovem. Em forma direta: em 1952, Delmo matou a um chofer de praça (hoje taxista), daí a vindita da classe motorizada.


Durango Duarte é o autor. O mesmo que produziu Manaus: entre o passado e o presente, em trabalho gráfico de qualidade, destacando os pontos históricos e alguns turísticos da capital amazonense. As fotos, atualizados pelo processo photoshopiano, bem demonstram a evolução da cidade. É lamentável que, em nossos dias, a gestão municipal não tenha correspondido, contribuindo para o descaso da cidade outrora “sorriso”.

Duarte voltou a empregar a mesma técnica em Caso Delmo Pereira: o crime mais famoso de Manaus (editado pela Mídia Ponto Comm, 376p, R$ 79,90), cujo lançamento ocorreu no início do mês. O livro, inegavelmente, possui qualidade gráfica e editorial impressionante. Nesse aspecto, a publicação tem nosso louvor.

No entanto, quanto ao texto, sim, não há texto. Somente a Introdução, no mais vê-se aquele exercício primário do control cê e vê. As páginas estão preenchidas pelos jornais da empresa Archer Pinto – O Jornal e Diário da Tarde, copiados de cabo a rabo. Nem sequer o autor teve a delicadeza de citar os demais periódicos de Manaus: Jornal do Commercio; A Crítica; A Gazeta; A Tarde.

A despeito da bela apresentação, tanto do papel quanto da reprodução, nada mais se encontra nas páginas do Caso Delmo. Quanto desperdício de tempo e recursos, em razão de que se esperava uma releitura do delito “mais famoso de Manaus”.

Em resumo: ainda há um sobrevivente dos suspeitos encarcerados, no caso o empresário Cirilo “Batará” Anunciação, outros devem existir. Pensei encontrá-los ou aos seus descendentes nas páginas. Afinal, a leitura dos jornais e do texto do processo torna-se repetitiva e enfadonha, revelando pouquíssima percepção aos nascidos hoje.
Caso Delmo Pereira, contracapa

Enfim, estimada Sandra, não aconselho você a adquirir o Caso Delmo; é preferível sacar da poupança mais uns trocados, exatos R$ 120,00, para adquirir o Manaus: entre o passado e o presente, nas livrarias Valer ou Saraiva.

segunda-feira, agosto 01, 2011

CRIMES QUE ABALARAM MANAUS

Tenho sido instado pelo acadêmico Cláudio Chaves a realizar uma pesquisa sobre crimes que abalaram Manaus. Ele próprio me lembrou alguns, e destes, detalhes preciosos.
Para facilitar a elaboração do trabalho, relacionamos os dez mais. Vou aqui recordar três deles, em ordem cronológica: o “suicídio” de Eduardo Ribeiro (1900); a morte da “santa” Etelvina (1901) e o caso Delmo Pereira (1952).
Túmulo de Eduardo
Ribeiro

Apesar do primeiro não estar arrolado como crime, o desaparecimento do respeitado político segue um mistério, apontando para certo mandante. O caso Delmo Pereira tem hoje um novo capítulo escrito, com o lançamento do livro de Durango Duarte.

Sobre a “santa” Etelvina, reproduzo um trabalho do historiador Júlio Uchoa (da Associação Amazonense de Imprensa), divulgado no Jornal do Commercio, de 15 jan. 1956, em sua coluna Homens, Coisas e Fatos.

Escrevemos, em 1947, algumas notas sobre Etelvina de Alencar, jovem nordestina de 17 anos de idade, sacrificada às mãos de um conterrâneo seu, o qual se deixara dominar por estranha e mórbida paixão. Isso em princípio de 1901.
Descreveu o doloroso acontecimento, de extraordinária repercussão em todo o País, um inspirado bardo popular que enfeixou, em um folheto, sua magnífica produção. Muitos anos volvidos após sua divulgação, caiu sob nossas vistas um exemplar desse livrinho.
E, foi assim que ao historiador forneceu o poeta os elementos indispensáveis à elaboração do citado trabalho, conservando aquele, desta feita, como da vez anterior, o mesmo sentido trágico e humano dado por este à sua impressionante narrativa.

Filha de Cosme José de Alencar e Antonia Rosalina de Alencar, Etelvina nasceu em Boa Vista do Icó (CE), em 1884, vindo para Manaus em companhia de sua genitora, já então viúva, e de três irmãs, sendo uma destas casada. Desta capital se transportou a família à Colônia “Campos Sales”, inaugurada dois anos antes, onde se ia dedicar aos labores agrícolas.
Na colônia, Etelvina veio a conhecer o colono de nome José que logo a primeira vista por ela se apaixonou, seguindo-se o ajuste de casamento. Cedo, porém, a desilusão: a jovem fez saber a José [que] não mais desejava casar–se com ele, desfazendo-se, deste modo, os compromissos assumidos anteriormente.

Grande abalo produziu no espírito de José o rompimento do noivado. Meio pequeno, constituído como que de uma família, a notícia provocou sensação. Houve mesmo quem afirmasse que Etelvina possuía três namorados: Antonio, Estevam e Henrique. Tudo isso ouvira José e dando crédito às intrigas que lhe contavam, jurou vingar-se, não só da ex-namorada, mas, igualmente, dos três rapazes que imaginava causadores de sua infelicidade. E tudo planejou, fria e demoradamente. 
Capela e Cruzeiro do cemitério
Veio à cidade, onde adquiriu um rifle e farta munição. Mataria a todos, dissera ele a amigos. Estávamos em março de 1901.
E, assim, aconteceu. Mal entrava na área da colônia, alveja a tiros a Estevam, que descuidado não esperava a agressão; ao primeiro disparo ele corre, procurando se desvincilhar do assassino; um segundo tiro, porém, prostou-o sem vida. Mais adiante, estava Henrique, com quem José trava violenta luta corporal; subjugado o adversário, abateu-o a tiro. Um pobre caboclo, que dormia à sombra de uma árvore próximo à casa da administração, é a terceira vítima da fúria sanguinária do celerado.

Cometidos os três crimes, José se dirige à residência de Etelvina, e, valendo-se do coice do rifle pôs abaixo a porta da casa. Nessa ocasião, aparece-lhe Versoli, administrador da colônia, que procura interceptar a entrada d o criminoso, sendo morto, por este.
Suspeitando das intenções do bandido, a moça tenta fugir, no que é obstada por ele, que conseguiu alcançá-la e “quase nua, pés descalços, em camisão” (diz o poeta), a desventurada Etelvina é arrastada para a densa floresta que se estendia às proximidades da casa.

Infrutíferas foram as buscas nos primeiros dias. E, somente a 8 de março, é encontrado o local em que se consumara o derradeiro ato do imenso drama, misto de amor e ódio. Os urubus, em grupos simétricos, voejavam alto, sinal evidente de que lauto fora o repasto. E, ali, o quadro pungente que a todos estarreceu: duas caveiras se defrontavam, numa evocação sinistra dos últimos instantes, de pavor e de alucinação, que viveram aquelas duas criaturas. O rifle, entre os dois esqueletos, explicava a cena final: José matara a infeliz Etelvina, suicidando-se, a seguir.

Repousam os restos mortais de Etelvina de Alencar, ou “santa Etelvina”, como é por todos reverenciada, no cemitério de São João, em sepultura perpetuada por lei municipal n.º 233, de 30 de agosto de 1901, à sombra do jazigo que o Povo Amazonense ergueu à sua memória.
E, desde antão as visitas ao seu túmulo se sucedem, ininterruptamente, durante o dia: são os devotos da meiga “santinha” que ali vão levar suas oblatas, ou acender um círio votivo pelo atendimento às suas súplicas e orações...

domingo, julho 24, 2011

CONVITE

Caso Delmo: o crime mais famoso de Manaus, livro produzido pelo publicitário Durango Duarte, tem lançamento marcado para a segunda-feira, 1.º de agosto. O evento ocorre na Livraria Saraiva Megastore , a partir das 19h.

Durango tem se dedicado a escrever a história do Amazonas, subsidiado pelas melhores e, às vezes, exclusivas imagens. Dispõe de equipe competente, que vem contribuindo sobremaneira para o sucesso de suas iniciativas.

O jovem Delmo Pereira promoveu em 1952, na pacata cidade de Manaus, com sua atitude marginal e, na sequência, por seu brutal assassinato, verdadeira agitação. O crime em si já despertou emoções, mas o julgamento dos “choferes de praça”, os matadores, expandiu o rebuliço na capital.

Apenas para ilustrar: no ano seguinte, os colegas do colégio promoveram vasta manifestação ao “mártir” Delmo Pereira (veja ilustração).

O Jornal, Manaus, 31 janeiro 1953

terça-feira, março 01, 2011

DELMO PEREIRA (Final)

Março, 1º

1953 - Encerrado o julgamento dos matadores do estudante Delmo Pereira, os jornais do dia publicaram um bizarro placar.

Consultei O Jornal, que abriu a primeira página com o resumo geral. Somou os anos aplicados aos condenados e chegou ao espaçoso intervalo de 367 anos. Destacou o homem que serviu de “escrivão” (Cesário) durante o crime e o que serviu de “julgador” (Cruz). Indicou o mais apenado, Carioca, com 30 anos de prisão.

Manaus, 1º março 1953.
Repito: o cronista Simão Pessoa fará este mês o lançamento de seu livro sobre o caso Delmo Pereira. Assim, encerro com essa postagem a lembrança de tão malfadado momento de Manaus.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

DELMO PEREIRA

Fevereiro 1953

Cruz no local do crime.
O Jornal, 6 jul. 1952
Manaus passou todo esse mês de olhos no Tribunal do Júri, que funcionava no prédio do próprio Tribunal, na av. Eduardo Ribeiro (hoje Centro Cultural). Nos grandes julgamentos, o espaço sempre foi pequeno para acolher os assistentes. Tantos os profissionais quanto os curiosos. Naquela ocasião, todo esse interesse se devia ao julgamento dos assassinos do estudante Delmo Pereira.

Delmo, filho do dono da Serraria dos Pereira, na Colônia Oliveira Machado, havia morto um taxista quando investiu contra o próprio estabelecimento do pai. Essa historia é longa e cheia de atropelos. Ocorrera um ano antes, agravando-se quando os choferes (termo de época) o “justiçaram”.


Presos os matadores, passaram pelo processo criminal e, enfim, foram a julgamento. As páginas dos periódicos sempre com as últimas informações. E os melhores advogados da Cidade se enfrentando, os da acusação feita pelo promotor Adriano de Queiroz, depois apoiado pelo criminalista carioca Celso Nascimento. A defesa estava composta dos advogados Nonato de Castro, Manuel Barbuda e Milton Ascensi. Conduziu o julgamento o juiz Ernesto Roessing.

Ainda em julho de 1952, a reportagem de Afonso de Carvalho (O Jornal) revelava a devoção ao “santo” Delmo. Assim como ocorrera com “santa” Etelvina. No local da morte de estudante-mártir (na acepção dos colegas ginasianos) apareceu uma cruz. Teria sido o pagamento de algum milagre, aventa o cronista.
Não devo me aprofundar neste caso por razões óbvias. O tema acaba de ser dissecado pelo ensaísta e cronista Simão Pessoa. Aos seguidores do Blog do Simão Pessoa foi anunciado o lançamento do livro sobre a morte de Delmo Pereira, para após o carnaval. Estou aguardando.

Dr. Celso Nascimento (à dir.). O Jornal, 14 fev. 1953
Ao final do julgamento, alguns acusados foram absolvidos, mas a maioria voltou para a Penitenciária.