CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, fevereiro 19, 2024

ANTHISTENES ANALISA BACELLAR


Enredado com a leitura de Suíte Crítica: estudos sobre a poesia de Luiz Bacellar, livro organizado por Allison Leão & Mariana Vieira, e editado em 2023, voltei aos meus papeis arquivados. Para meu gaudio, encontrei a análise que o falecido acadêmico Anthistenes Pinto elaborou sobre a poesia daquele poeta. A apreciação foi publicada no Jornal do Commercio, edição de 28 abr. 1974, aos vinte anos de criação do Clube da Madrugada.
Luiz Bacellar

Estamos diante de uma poesia rica de significados estéticos. Luiz Bacelar é o faber dessa matéria construída por sutilezas emotivas e artifícios verbais que a tornam, para muitos, um tanto inapreensível ao primeiro contacto. Surgiu de corpo inteiro na literatura amazonense ao ser laureado no Concurso de Poesia da Prefeitura Municipal do ex-Distrito Federal (1959), que premiou seu livro de estreia "Frauta de Barro" mediante parecer favorável da Comissão Julgadora constituída por Manuel Bandeira, Carlos Drumond de Andrade e José Paulo Moreira da Fonseca. A dificuldade encontrada na convivência com a sua poesia, decorre tranquilamente de ser o autor um poeta que exige de si mais do que lhe podem fornecer as meras circunstâncias do cotidiano poético, surgindo PARI PASSU a febre criadora de renovar palavras, de perquirição do ilógico no levantamento das possibilidades metafóricas de transformar o prosaico, a lágrima, o riso, o tédio, o gesto e o sonho, em versos que se instituem numa realidade proposta pelo artista.

O meu torpedo de tinta

que explode em versos singelos

-- vozes do povo, farelos

desta seara nunca extinta; 

Poesia fácil de entender, esta poderia ser a forma de classificá-la dentro do sistema -- um tanto quanto rígido, formal -- de comunicação poética do autor com a inteligência de um público exigente, cujo nível de sensibilidade se coloca numa escala fora dos sentidos comuns, por assim dizer, numa altura livre das interferências genuinamente epidérmicas. Mesmo assim, a quase totalidade do seu livro “Frauta de Barro” traz no seu bojo “as vozes do povo, farelos desta seara nunca extinta”; prevalecendo os temas simples do dia-a-dia poetizável sobre o jogo artificioso das imagens corroídas pela sarna do parnasianismo, cujos símbolos apanhados no celeiro comum das estrelas, servem apenas de equilíbrio na estrutura dos sonetos e poemas.

Jamais um poeta esteve tão fisicamente presente, com pés firmes nas ruas de sua comunidade, sentindo-a com tantas emoções, sensível ao toque do acordar exato com as vozes dos pregoeiros, integrado, finalmente, nos acontecimentos sociais que o circundam:

Há tanta angústia antiga em cada prédio;

em cada pedra, -- nua e gasta. E agora

em necessário pranto que demora,

o amargo verso vem como remédio

 

pelos sonhos frustrados de cada hora

da ingaia infância. Madurando o tédio

nos becos turvos, porque exige e pede-o

inquieta solidão que assiste e mora

 

em cada tronco e raiz, calçada e muro:

Chora-Vintém, o Pau-Não-Cessa. Impuro

se derrama em palor de luta morta

 

nas crinas tristes, no anguloso flanco:

memória e angústia fundem-se num branco

cavalo manco numa rua torta. 

O poeta que assim traduz seu conúbio com os limites do seu mundo externo, obviamente que fez à sua opção: estar umbilicalmente compromissado com os seus semelhantes, custe-lhe embora essa opção tropeços e desenganos ingênitos à natureza dos seres gerados do homem. Neste livro se incluem os primeiros mapeamentos de um espaço conquistado para receber as formas imutáveis de uma poesia que já nasceu madura, e que se faz no tempo com a mesma perseverança das ruas, prédios e telhados que urdem a solidão urbana dos seus temas prediletos. Não se pode mais ler o livro sem ligá-lo ao homem. Cada página sua revela o inefável dos mistérios que se dividem entre os bens do sangue e a rigorosa linguagem de amor que o poeta dedica aos objetos do seu cotidiano.

“Sol de Feira”, editado em 1973, dez anos depois do seu livro de estreia, escuda-se igualmente na chancela de um primeiro lugar (Prêmios Estado do Amazonas de 1968), em cujo relatório, o Conselho Estadual de Cultura depõe: “O poeta mostra neste livro que a poesia é tão fácil quanto a manga, o cacau, a tangerina, a melancia, a graviola, o maracujá, o murici, o fruta-pão”. E vai mais longe, pois enche seu cabaz (ou paneiro) de todas as espécies deparadas no caminho, para ofertá-las em sumo e canção aos famintos de corpo e espírito. São versos populares, e formam certamente ao lado daqueles que fazem hoje do cancioneiro popular, um veículo que aproxima a cultura do povo, numa constante permuta de costumes e sentimentos que o poeta refunde e transfigura.

Apesar das comparações eruditas, através das quais ele invoca os mitos gregos e a história asteca, seu emprego não tem de abusivo ou pedante, não chega, por isso, a constituir obstáculos “ao leitor comum”. Apesar do julgamento proferido pelo relator do prêmio, descobre-se em “Sol de Feira” uma poesia bastante laboratorial, erudita mesmo e até certo ponto distanciada do povo e de sua origem simples no pomolário amazônico, dando a impressão de ter sido modificado durante os cinco anos que mediaram de sua publicação. Seja, no entanto, válido arriscar que do ponto de vista técnico Luiz Bacelar, atingiu um nível bem acentuado, ombreando-se com o que existe de mais apurado na arte poética dos nossos dias. Prosseguindo na linha formal de “Frauta de Barro”, não se deteve o poeta diante das exigências dos rondós populares de “Sol de Feira”, afinando seu instrumento regional pelos acordes de Apolo e o capricho dos deuses astecas.

Conclusões: saboreou as frutas no pomar e fechou-se depois numa torre de marfim. Enriqueceu o volume de notas, sugestões musicais e um glossário dos pomos, mas, no contexto poemático propriamente dito, reduziu seu universo de audiências e uma pequena elite que, ao invés das frutas louvadas, prefere sempre a maçã, a pera e as uvas importadas. Assim, vejamos:

da bruta mata

na área trilhe

vens em perfume

grata vanilha

de parda fava

olente filha

em verde berço

de alada quilha

pólen de prata

fúlgida poalha

de brilhos magos

que o luar refrata

sobre a toalha

fria dos lagos

Salvo razões dessa ordem, a cargo naturalmente de uma crítica menos impressionista, presenciamos neste poeta uma experiência contínua no domínio do seu instrumento criador de belezas, com uma técnica pessoal sem dúvida merecedora dos aplausos que tem arrancado dos nossos melhores escritores.

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