CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quarta-feira, janeiro 24, 2024

CORAL "JOÃO GOMES JÚNIOR" DE MANAUS

O Coral, criado no Dia de São José (19 de março) de 1956, prossegue em atividade, sempre enlevando os assistentes de suas apresentações. Seu criador foi o saudoso Maestro Nivaldo Santiago, que contou com o apoio incondicional da Igreja católica na pessoa do reverendo cônego Walter Gonçalves, então vigário da Catedral de Nossa Senhora da Conceição, de Manaus.

Detalhe da Catedral de N. S. Conceição, em Manaus

Este texto pertence ao mencionado sacerdote, publicado em O Jornal (16 julho 1961), no qual esclarece a solenidade em que esta agremiação artística concede diploma de reconhecimento para diversas autoridades, em particular ao governador Gilberto Mestrinho. 

Recorte de O Jornal, 16 julho 1961

NO dia 13 do corrente, o coral João Gomes Junior que nasceu do Instituto Musical Santa Cecília, completou seu primeiro lustro de ação artística. O maestro Nivaldo de Oliveira Santiago à frente do grupo, perseverante e abnegado, apresentou à sociedade um programa variado e ameno. Foi mais de uma hora de enlevo e voos místicos aos páramos das musas, onde a Melodia espargiu lenitivo de prazer e de agitação irresistível transmitida à gente pelo turbilhão do século.

Ao intervalo maior, o organizador do instituto musical e, posteriormente, pai e fundador do coral João Gomes Junior, o impávido e vontadoso Nivaldo, descobrindo a grandeza de seu coração bem formado, agraciou com reconhecimento e estima, o Sr. Governador do Estado, o Secretário de Educação, e este pobre vigário, cuja presença, no instante, funcionou como sombra a destacar mais os dois homens públicos da administração amazonense. E não vai aqui nenhuma profissão de modéstia, mas apenas hierarquia de méritos. Num painel que deslumbra, as sombras concorrem também para o fascínio do conjunto.

Os três homenageados receberam da Sociedade Coral "João Gomes Júnior" o diploma de SÓCIO BENEMÉRITO. O Governador e o Secretário de Educação pelo apoio e incentivo que vêm dispensando ao grupo de cantores nas arrojadas iniciativas de fazer arte entre nós, e este humilde escrevinhador por ter, anos atrás, impedido o Maestro de ir embora, cantar e fazer cantar em outras plagas do Brasil, oferecendo-lhe, então, estímulo, casa, piano e mobília, para as atividades, iniciais, ali na (rua) Visconde de Mauá, num sobrado da Mitra e que serve, de muito, como sede das Obras Sociais da paróquia da Catedral.

Foi assim lançada a primeira pedra desse edifício artístico, erguido à custa de um labor pertinaz e que hoje todos admiram e aplaudem. Aqui a explicação de se encontrar este padre entre os homens de prestigio da ocasião. Símbolo da pedra que ficou escondida no alicerce da construção e que a lembrança agradecida do Maestro pretendeu mostrar ao público.

Grato, Nivaldo. Lamento não tenha o Gilberto participado pessoalmente da festa. Foi representado por esse jovial amigo que é o Desembargador Manuel Machado Barbuda, seu chefe de Gabinete. O meu comparecimento ao quinto aniversário do JOGOJÚ (sigla de João Gomes Júnior) obedeceu a um impulso íntimo: levar as minhas palmas ao triunfo de tantos esforços e penas; unir o meu sorriso e a minha alegria a quantos sorrisos e alegrias levantaram em apoteose o Coral João Gomes Junior com os 22 componentes e o seu maestro, no dia 13 de julho de 1961, no Teatro Amazonas.

sexta-feira, fevereiro 21, 2020

NIVALDO SANTIAGO: MAESTRO DAS ÁGUAS

Nivaldo Santiago, em
Jornal do Commercio

Vivendo em Minas Gerais, o maestro Nivaldo Santiago (1929-) marcou sua passagem pelo Amazonas, seu estado natal, com vibrante sucesso. Ainda no ano passado esteve em visita a Manaus, quando foi homenageado pelo Coral João Gomes Júnior, que lhe tem como criador, e outros corpos musicais.
Já postei sobre ele, e torno compartilhando reportagens publicadas pela imprensa local, em fevereiro de 1970, quando o “maestro das águas”, então servidor da Universidade do Pará, decidiu voltar. Com arrimo do governo, através da Fundação Cultural, e do Reitor da UA, Jauary Marinho, seu anseio foi concretizado.

Matéria sobre o maestro veiculada no Jornal do Commercio (14 fev. 1970)

Com sua opinião de que em Manaus, exatamente porque há apoio do Poder Público, se faz e se consome cultura muito mais acentuadamente que em muitas capitais brasileiras — Belém, por exemplo, onde vive ultimamente —, o maestro Nivaldo Santiago, musicista amazonense de renome paralelo ao de Arnaldo Rebelo, outro conterrâneo, assim deu início ao diálogo que ontem à tarde, na Fundação Cultural d0 Amazonas [FCA], manteve com a imprensa de Manaus que o ouviu inclusive sobre seus planos de retornar definitivamente a Manaus.E teve confirmada essa sua assertiva pelo diretor-superintendente da FCA, Dr. Elson Farias, que ato contínuo deu aos jornalistas e ao entrevistado os totais mais expressivos do movimento do Teatro Amazonas, em 1969: 106 funções e 35 mil presenças.
Nesse sentido, frisou maestro Nivaldo, a importância do advento daquela Fundação, assim como a contínua colaboração da imprensa manauara, agora com a participação da Televisão, motivando cada vez o maior interesse da parte da população pelas promoções culturais.

CULTURA MUSICAL
Falou-nos a seguir sobre o Curso de Cultura Musical que, no âmbito da Fundação Cultural, vai ministrar a partir de segunda-feira no Auditório Alberto Rangel, salientando que esse exemplo da FCA deveria ser seguido em todo o país ermo forma de aumentar o interesse geral pela cultura, no caso, a música.
O Curso de Cultura Musical, cujas inscrições já se encontram abertas na Biblioteca do Estado, terá 3 semanas de duração, com importante e fundamental exposição na primeira, (...)

CONDIÇÕES PARA FICAR
Discorrendo sobre todos recursos de que dispõe no Centro de Atividades Musicais, da Universidade do Pará, que dirige há sete anos, disse maestro Nivaldo Santiago de que necessitará de condições pelo menos iguais às que tem na capital paraense, para retornar a Manaus em caráter definitivo (presentemente veio passar um mês).
Confirmou o apoio integral que lhe pode dar a Fundação Cultural do Amazonas em caso de retorno e revelou haver apresentado um plano de trabalho ao Reitor Jauary Marinho para execução na Universidade do Amazonas. Dentro desse plano se situam, entre outras coisas, uma Escola Livre de Música e a orquestra e coral universitários, tudo funcionando isento de sentido acadêmico, ou seja, com objetividade e, consequentemente, proveitos totais.
“Agora confesso que desejo ardentemente servir ao meu Estado”, concluiu.

Reportagem de A Notícia, 12 de fevereiro de 1970



sexta-feira, setembro 27, 2019

CORAL JOÃO GOMES JUNIOR (4)

Nivaldo Santiago

Coincidência ou não, porém, menos de dois anos depois do movimento intitulado Clube da Madrugada (22 nov. 1954), desembarca em Manaus o maestro Nivaldo Santiago. 

Logo toma a batuta e empenha-se em criar um coral, ou seja, em movimentar a arte musical. Obtém o apoio da Igreja católica, que lhe cede uma sua dependência para os ensaios. Entre os mais de oitenta participantes do coral, são muitos os nomes lembrados na cidade, porque ligados à Igreja e integrantes da alta sociedade.

Na festa de São José de 1956, Santiago inaugurou o Coral João Gomes Junior, que ainda funciona, em homenagem ao maestro paulista, seu professor. Em nossos dias, além do maestro, residindo em Minas Gerais, apenas uma fundadora sobrevive para contar a história: Dagmar Feitosa.

Os primeiros ensaios ocorreram na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, após o que passou a operar no endereço citado na convocação, cuja publicação compartilho de O Jornal, 8 de abril de 1956. 
 
Recorte de O Jornal, 8 abril 1956


Do maestro Nivaldo de Oliveira Santiago, entusiasta e dedicado batalhador em prol do aprimoramento e formação de talentos musicais em nossa terra, recebemos a lista que abaixo publicamos, com o pedido de que todos que nela estiverem consignados, compareçam aos ensaios a serem realizados no instituto "Santa Cecilia", à rua Visconde de Mauá, 339, para que, destarte, possa ser concretizado o maravilhoso concerto, com o qual pretende brindar a sociedade manauara.

Os referidos ensaios obedecerão ao horário seguinte: barítonos e baixos – terças-feiras, às 17h15; tenores – terças-feiras, às 20h; sopranos – quintas-feiras, às 17h15; contraltos – sextas-feiras, às 17h15.

O maestro pede o comparecimento dos:
Sopranos: Carmela Faraco, Cleomar Feitosa, Cibele Maria Oliveira, Dagmar Feitosa, Helena Amorim, ldalina M. Ferreira, lranir da Silva, Ivete Magalhães, Léa Norões, Lisete de Castro Lima, Maria dos Anjos Gonçalves, Maria de Nazaré Avelino, Maria de Nazaré Teixeira, Maria do Perpétuo Socorro, Myriam Moreira, Nilce Arnaud Ferreira, Olga Faraco, Maria Leda Vieiralves, Rosa Magali Carvalho, Tereza Maia, Tereza Santos, Terezinha de Jesus Soares, Neusa Ferreira, llza Garcia, Maria José Pereira, Zuleika Ferreira, Maria Lucia C. Lima, Joana de Carvalho, Maria Jerusalém e Nair Albuquerque Auzier. (30)
Contraltos: Amália de A. Guimarães, Davina Amanajás, Elvira Borges, Erminda Cantanhede, Eunice Carneiro, Georgina Brito, Léa Nery, Maria Augusta Xavier, Maria Auxiliadora Rodrigues, Maria José de Araújo Silva, Maria de Nazaré dos Santos, Maria Olivia Vieiralves, Leonilia Normando, Conceição C. de Oliveira, Maria José Ferreira, Marineia Barboza, Terezinha Alencar, Marlene Aguiar, Themis B. de Araújo, Aurélia Auzier, Marilia Auzier, Maria da Conceição Tavares. (21)
Tenores: Almir Silva, Carlos Fonseca, Djalma Henriques, Esmeraldo Bessa, George Tetenge, Hélio Barboza, Humberto Couto, Luiz Santos, Nelson Kizem, Rostand Bonfim, Wockman dos Reis. (11)
Barítonos e Baixos: Alberto Rebello, Carlos Augusto Carneiro, Djalma Melo, Fernando Leão, Geraldo Xavier, João S. Pinheiro, Joaquim dos Santos, Jorge de Medeiros, José Leorne Frota, Manuel Polari, Miguel Duarte, Nelson Franco de Sá, Norceu Santiago de Oliveira, Paulo Augusto da Silva, Roberto de A. Vale, Pedro Amorim, Ronald Botelho, Teodoro B. Assunção, Milton Kizem, João Brandão e Ary Pereira. (21)

quarta-feira, outubro 04, 2017

MAESTRO NIVALDO SANTIAGO (II)

A extinta REVISTA DE EDUCAÇÃO, elaborada pelos professores, surgiu no início de 1930. E com intervalos, como soe acontecer com tais publicações, prosperou ao menos até o final dos 1960.

Tanto que catei da revista nº 46 (Ano XIV), festejando o Natal de 1958, a crônica seguinte, escrita pelo maestro Nivaldo Santiago (1929-) que, pela “terceiridade” que usufrui, segue apenas ouvindo música no interior de Minas Gerais.

Este amazonense passou em Manaus algum tempo, o bastante para implantar algumas marcas, uma das quais ainda perdura. Trata-se do Coral João Gomes Júnior, que já ultrapassou seis décadas de atividades.

Sobre este regente postei, em 18.outubro.2010, Maestro Nivaldo Santiago. 

  

Necessidade de uma educação musical

“Creio na redenção do mal pela eterna beleza, e creio também na missão da arte”. 
G.B. Shaw, in
O dilema do médico.

Prof. N. Santiago


Pregar no deserto, é o que se poderia dizer a isto que venho jogando aos quatro ventos de nossa cidade há trinta e quatro meses: precisamos criar aqui, em Manaus, uma mentalidade artística; precisamos oferecer à nossa gente oportunidade de desenvolver seus pendores musicais; precisamos dar ao nosso povo — durante decênios abandonado — um meio de conhecer, apreciar e sentir as belezas da música; sim: há trinta e quatro meses.

Idealizei a criação de um Conservatório, no que tive preciosa ajuda do Sr. Cônego Walter Nogueira; seria o ponto de partida para uma futura Escola de Artes Cênicas e Musicais destinada a todas as pessoas de talentos e a oferecer espetáculos e audições para o povo e o povo precisa disso; é uma necessidade do espírito.

Mas, creio que nem tudo está perdido; alguma coisa já foi feita; porém, necessário que se leve mais a sério esta realidade que expus na primeira alínea.

Disse que nem tudo está perdido; explico-me: já possuímos algum movimento musical destinado a uma maior penetração das massas; basta citar: sob a direção do autor dessa crônica surgiram três agremiações corais sérias: o Coral "João Gomes Junior” — O Coral “Bialik" e, de recente organização, o “Orfeão do Comerciário” — sob o patrocínio do SESC.

Temos cm organização, a nossa pequena orquestra cujo futuro depende de sério apoio que lhe deem os poderes governamentais e o povo; máxime do primeiro.

Ouvimos em seis de setembro pp. uma concentração orfeônica congregando alunos secundaristas de diversos colégios, num total de mais de seiscentos figurantes tratava-se de uma homenagem à Pátria, comemorando sua Independência, e, ao mesmo tempo, uma experiência orfeônica demostrando a capacidade de nossa juventude — capacidade de realização, apreciação e valorização da música de conjunto como manifestação de um sentimento coletivo; houve sacrifício da parte daqueles alunos —é, evidente; mas quando lhes disse que se tratava de um motivo patriótico, todos se animavam. 

Contudo houve, como sempre e em qualquer lugar um espírito medíocre a menoscabar aquele trabalho; mas é natural; é espirito medíocre incapaz.

A espírito assim, costumo enviar por telegrama esta sentença de um pensador francês: “La critique est aisée, l’art difficile”, esperando que saiba o sentido sem consultar o léxico. Vamos cantar o amor de missa terra.”

Durante a execução vi lágrimas em rostos anciãos, maduros, adolescentes e juvenis; dias após, uma jovem — bem jovem — vinha me falar de olhos úmidos: "Professor, nós cantamos bem? Eu gostei tanto!"

Valeu a concentração orfeônica por uma experiência.

Assim, repito, alguma coisa já se fez; a semente está lançada vamos regar o terreno; preciso que brote, cresça, floresça e frutifique. Não podemos ficar inativos ante a maravilhosa possibilidade de dar às criaturas que nos cercam um pouco de música que lhes suavize as agruras da vida diária; a música tem grande alcance, grande poder: nós o olvidamos.

Apraz-me lembrar aqui o que escreveu o musicólogo Kurt Pahlen em sua História Universal da Música — recente publicação da Cia. Melhoramentos: “Houve na história humana há muito tempo — longas épocas em que a música se achava no centro da vida. E... eram tempos felizes!”


Leitor: esta crônica é um convite ao trabalho pela música em nosso Estado. 

terça-feira, abril 26, 2016

CORAL JOÃO GOMES JUNIOR

Maestro Nivaldo e o Coral
O autor deste texto, extraído do matutino A Crítica (14 abril 1956), era o então repórter Jorge Tufic, que se iniciava nas lides jornalísticas e se preparava para o grande salto, o de poeta consagrado em Manaus. Seu artigo homenageava a outro artista, ao maestro Nivaldo Santiago, que acabara de fundar o Coral João Gomes Junior, que ele tratou como o estabelecimento de um conservatório.

Temos um Conservatório



Jorge Tufic


MANAUS tem a honra de hospedar um verdadeiro maestro. Que aqui veio para cumprir a espinhosa missão de, arrostando com as maiores dificuldades, fundar um Conservatório de Música. Maestro Nivaldo é um desses espíritos que, coroados pelo próprio destino de realizar uma obra grandiosa, com muito de loucos, naturalmente, nada há que lhes dificulte o mister.

E assim foi que recebemos, dias passados, a notícia alvissareira: fundara-se o “Instituto Musical Santa Cecília”. Estão, por isso, de parabéns todos aqueles que se dedicam ou admiram a divina arte. Pois o Instituto, com suas portas abertas, recebe e aprimora talentos, Maestro Nivaldo cujos conhecimentos ainda mais se aprofundam, mercê de uma cultura musical bem formada, através de estudos e ensaios consecutivos, não se ponha em dúvida a sua capacidade de trabalho, que reconhecemos altamente profícuo.
Nivaldo Santiago, em out. 2010
Pelo menos foi essa a impressão que tivemos, levados que fomos a conhecer o artista. A palestra que mantivemos, numa atmosfera agradável e serena, o que dela lucramos, a lição de entusiasmo e perseverança que aprendemos, tudo isto ainda perdura, indelével, em nossa memória.

A brevidade do espaço, porém, impede um possível extravasamento da nossa parte. Damos apenas os parabéns desta coluna, ao maestro e seus auxiliares.

Lá encontrareis também a senhora Neuza Ferreira, que vos há de ser útil e atenciosa. Nesta terra em que poucos são os que se voltam para as coisas da Beleza, meu caro Nivaldo, é com o mais vivo interesse que as jovens vocações musicais do Amazonas recebem a boa nova. Porque em verdade era esta a sua aspiração máxima. Era este o seu desejo. Que se fundasse um Conservatório, e o mesmo estivesse ao alcance de suas mãos.


Estão-lhes, portanto, abertos os horizontes da música. 

terça-feira, agosto 23, 2011

Música e Poesia

Djalma Batista, A Crítica, 1956
Sob o título acima, o saudoso cientista Djalma Batista escreveu o artigo abaixo, no final de 1957 (O Jornal, 23 dez.) saudando as artes. E louvando igualmente os homens e as mulheres que galhardamente as produziam.   

Vale a pena assinalar, neste final de ano, que a poesia e a música tiveram uma rentrée auspiciosa em nossa capital.
Nada menos de cinco poetas estrearam em livro. E quando os poetas falam é preciso escutá-los, porque lhes pertence o segredo das previsões e por eles bradam os anseios coletivos.


A música, por seu turno, que de há muito se refugiara na garganta dos uirapurus e dos rouxinóis do rio Negro, ressurgiu triunfalmente, com o concerto recente do Coral João Gomes Júnior e da Orquestra Sinfônica do Amazonas, em organização.
Saudemos, quanto merece, o surto artístico, que representa, de certo, o prenúncio de melhores dias para a vida da inteligência no Amazonas!

Nunca nos faltaram poetas, e bons poetas, valendo citar, dos mais novos, Sebastião Norões, Oseas Martins, Áureo Mello, Djalma Passos e aquele inditoso Paulo Monteiro de Lima. Muitos outros existem, e aparecem constantemente nos suplementos domingueiros, mostrando que a chama tem estado sempre viva.
Não tínhamos tido, porém, o lançamento em livro de tantos quantos os deste ano, iniciando com os voos impressionantes do Pássaro de Cinza, de Farias de Carvalho, que é um artista inspirado, seguido pelos poemas de Antisthenes Pinto, em Sombra e Asfalto.

O que mais me impressionou foi a floração de uma autêntica poesia de maturidade, nos livros de Edmundo Canamari; Benjamin Sanches e Raimundo Ramos Coelho. Amigo dos três, que são todos de minha geração, não lhes conhecia as tendências poéticas e me regozijei deveras com a sua revelação, por traduzir aspectos que exaltam mais ainda a personalidade de cada um deles: Canamari, homem de estudos sérios e bem orientados; Sanches, industrial e comerciante devotado aos seus labores; Coelho, servidor da Justiça, fiel ao seu ofício, por uma herança honrosa.

Não seria justo dizer que os poetas estreantes são grandes e notáveis: não sou crítico literário, e abomino os elogios gratuitos e imoderados. Não seria justo, também, negar-lhe o mérito, denunciando esquírolas porventura existentes nos trabalhos divulgados.


Sou um homem sensível à beleza, e pude me comprazer com enleantes versos de Folhas d´alma, Argila e Vereda de sonhos, além dos dois volumes a que me referi anteriormente. Encontrei, neles, momentos de alta poesia, revelando uma inspiração que me emocionou e comoveu. E não há poesia onde falta a emoção.

Canamari verbera contra o “mundo estranho, sem flores e sem poesia... de angústia e tirania...”. É o tema social, preocupação de nossa época. Sanches, ao evocar os Sargaços, fala de “Gosto na mucosa do pensamento, - como saber de ontem que foi amanhã...”.
Pinto, na sua serenidade, acredita na Mãe eterna: “A mão que sinto – hirta sustém o mundo”. Coelho, que é legitimamente um passional, celebrando A Chuva, acha que “as gotas na janela, rutilando – lembram colar de lágrimas caídas – dos olhos tristes de u´a mulher chorando...”. Farias, na largueza de suas imagens, considera as mãos de Neruda “como pétalas da rosa branca universal da paz!”.

Repito: os poetas são precursores. Depois deles virão os romancistas (onde estão os fixadores da vida na Amazônia, que não publicam os seus romances?).
Temos tido, na verdade, na literatura regional, principalmente escritores descritivos e ensaístas. Precisamos urgentemente dos criadores.

- o –

O que conseguiu, na noite de 23, no Teatro Amazonas, o maestro Nivaldo Santiago raia pelo milagre. Um grande coral, de quatro vozes mistas, e conjunto sinfônico, numa terra onde o estudo da música entrou para os currículos escolares, mas saiu do coração do povo, deram ao numeroso público que felizmente lá ocorreu a estranha sensação de que algo de novo e surpreendente estávamos assistindo!

Também não vou cair no louvor desmedido, mas é impossível calar diante daqueles artistas em potencial, que o maestro Santiago reuniu, estimulou e disciplinou. Houve números de uma beleza penetrante, como a Marta, de Moises Simons, que teve como solista Pedro S. Amorim, acompanhado pelo Coral e pela Orquestra.
A senhora Manoela Araújo tem uma voz melodiosa e cantou trechos de responsabilidade, com grande sucesso, agradando de verdade. Duas sopranos, inteiramente desconhecidas como tal, as senhoritas Francisca Bandeira e Cleomar Feitosa, se revelaram. Sobretudo o conjunto de vozes e sons foi a grata surpresa da noite que bem poderia ter sido de grande gala.

Estou certo de que a iniciativa de alto sentido artístico do maestro já não poderá fenecer. O povo julgou-a e lhe deu a consagração de suas palmas, que representam compreensão e solidariedade. O governo, que não é mais que um instrumento do povo, obedecerá à sua imposição, dando ao Coral e à Orquestra Sinfônica o apoio material de que precisam.

E o sonho de um amazonense idealista, que estudou na Itália, lutou em São Paulo, deixando tudo pela terra natal, já está sendo uma autêntica realidade a música, a divina música, que Carlos Gomes semeou em Belém e Joaquim Franco em Manaus, voltou a fazer parte do espírito da planície.

-o-

Bendito ano de 1957, que se encerra com música e poesia!

hoje, o maestro Nivaldo Santiago mantém-se em atividade no interior de Minas Gerais.
o Coral João Gomes Junior segue organizado, sob a gerência da “soprano” Cleomar Feitosa.

Nota do postador:

quinta-feira, novembro 18, 2010

MAESTRO NIVALDO SANTIAGO


Coral João Gomes Junior, regência do maestro Nivaldo Santiago

O programa  apresentado hoje pelo Coral João Gomes Junior cumpriu três partes bem distintas: na primeira, o maestro Nivaldo Santiago, fundador deste grupo, fez a regência. Na segunda, foi apresentado um video com indicações dos personagens que povoam o livro sobre o coral. Na terceira, o maestro Eli Soares, atual regente, conduziu o concerto com apresentação de um repertório clássico, acompanhado dos solistas Maria Augusta Bacellar, Priscila Vianna e Humberto Vieira.
Após a realização deste programa, o acadêmico Elson Farias, autor de Coral João Gomes Junior: uma aventura musical no Amazonas, passou a autografar o livro.

Nivaldo Santiago  havia completado a sua formação musical, quando desistiu de uma bolsa de estudos no Canadá para formar este coral. A Manaus dos 1950 era de uma grave pobreza. Mas aquele corajoso músico decidiu enfrentar.
Em seu discurso de agradecimentos, lembrou os quantos emprestaram ajuda ao empreendimento, dos governantes às pessoas simples, mas decididas. Alguns ainda coralistas atuantes.
Um desses colaboradores foi o padre Luiz Ruas. A participação deste sacerdote se fazia pelo jornal, onde suas publicações repercutiam. Amigo de Nivaldo Santiago, L. Ruas acreditou no amigo e seu projeto, e pode sentir com prazer a explosão musical produzida por esses abnegados coralistas.

Maestro Nivaldo Santiago, em Manaus
A 23 de abril de 1961, padre Ruas abriu o verbo em O Jornal e,  sob o título: Em torno de uma reportagem cínica, defendeu o Estado e seu amigo Nivaldo Santiago. Por outro lado, rebateu com fortaleza a reportagem cínica, publicada em O Cruzeiro, uma revista semanal já desaparecida, que vez ou outra cobrava para publicar.
Escrevo estas linhas no sentido de um protesto. Está claro que o meu protesto não vai sanar o mal que foi feito. Mas fica o meu protesto. E muito satisfeito eu ficaria se soubesse que ele teria despertado alguém ou alguns, pelo menos aqueles que se empenham verdadeiramente no seguimento do nível cultural do nosso Estado. Refiro-me aos homens de letra e de artes do Amazonas e, em particular, Manaus.

A “terra defraudada” de que falava Araújo Lima referindo-se ao Amazonas ou à Amazônia parece continuar no cumprimento do seu destino. Agora, porém, a defraudação toma novos rumos. Quando o Amazonas surgiu aos olhos dos aventureiros famintos de riquezas o roubo se processou nos tesouros de seu solo. A borracha encheu a mão de muitos de dinheiro que saindo daqui foram gastá-lo ou empregá-lo em outros lugares. (...)

Falo daqueles que têm ficado, embora muitas vezes lutando com feracidade e heroísmo contra as tentações dos grandes centros culturais onde fervilham as “panelinhas” que se outorgam o direito de determinar e impor valores que se colocam em relevo à custa de certas condições. Falo daqueles que têm acreditado nas possibilidades da inteligência amazonense e por conseqüência, numa cultura e numa arte amazonense, que hão de se impor daqui mesmo sem precisar pedir a bênção dos donos da cultura brasileira nem se integrar num outro qualquer campo cultural e artístico. É neste sentido que falo da nova cultura do Amazonas. (...)

E, ultimamente, a reforma do Teatro Amazonas, obra grandiosa do Governador, vem confirmar de maneira deslumbrante o que afirmamos. Porque a reforma do Teatro mais do que o valor real do empreendimento se reveste, para mim, de um significativo valor simbólico. Um governo que se volta para a arte e se preocupa com os valores artísticos de um povo é realmente um governo que sabe o que está fazendo. Entre esses testemunhos autênticos da nova cultura amazonense há uma iniciativa que merece especial relevo.

É a obra do maestro Nivaldo Santiago. Nivaldo chegou a Manaus há uns dez anos, podemos dizer, só com a cara e a coragem. Um músico querendo fazer música no Amazonas, quando já não se pensava aqui em coisas dessa espécie. Na época em que o Nivaldo chegou, uma atmosfera de descrença, um ceticismo doloroso e sombrio, fundamentado na realidade de um Estado colocado levianamente à beira de uma desagregação sócio-político-econômico, tomava conta de todos os espíritos.

Ainda ninguém acreditava que o Amazonas pudesse reconquistar o equilíbrio. Falar em cultura artística na ocasião era um luxo ou não passava de estroinice. Este foi o ambiente que Nivaldo encontrou em Manaus vindo da Europa e do Sul do País. Dava para qualquer um arrumar de novo as malas e escorregar Brasil abaixo para o Rio ou São Paulo. Mas o Nivaldo é um desses privilegiados da loucura artística. Não pensou, não mediu, não calculou. Ele tinha vindo para fazer música. E começou.

Ano após ano, meses após meses, dias após dias, o Nivaldo, sem dinheiro, sem meios, com um piano e uma sala velha na [rua] Visconde de Mauá, escondido na sua toca, sem se preocupar quase com a sua subsistência, coadjuvado por uns poucos da mesma espécie dele, começou um coral, o João Gomes Junior. “É preciso que a semente morra primeiro.” E a semente esteve realmente sepultada, quase apodrecida entre as quatro paredes mofentas do irrisório Conservatório da Visconde de Mauá, em boa hora cedido ao jovem músico pelo cônego Walter Nogueira, de acordo com Dom Alberto Ramos.
Foi ali que a semente morreu e viu rebentar viridentes suas primeiras folhinhas tenras. Depois todos sabem, vingou. Atualmente a planta regada com o suor e lágrimas do Nivaldo e de seus cantores, esses jovens heróicos, já está taludinha. Seu tronco já está firme. Já há esperança de flores e de frutos. Pois bem, nessa altura dos acontecimentos surge uma reportagem safada por todos os títulos. Para roubar todos os méritos desses jovens. Para passar uma esponja num passado de lutas e sofrimentos e se apossar dos trabalhos realizados. Impudicamente. Torpemente. Cinicamente. Qualquer explicação para o caso não é explicação.

O fato não passa de uma tentativa de espertalhões. E a revista O Cruzeiro é o responsável por isso. Mas a coisa não parou por aí não. Eles conseguiram matar dois coelhos numa só cajadada. Também o trabalho governamental foi atingido pelos finórios. Reforma do Teatro, Coral João Gomes Junior, tudo iniciativa de O Cruzeiro. O Amazonas é uma terra de bobocas. Se não fosse O Cruzeiro, não havia coral e, certamente, o Teatro já seria um montão de ruínas. Já vi muito cinismo na minha vida, mas tanto assim, não.


Agora eu pergunto o que foi que esses mocinhos de O Cruzeiro fizeram pelo Teatro e pelo Coral? Nada, meus amigos. Nada. Não. Fizeram uma reportagem a cores no valor de três milhões de cruzeiros. Nivaldo, os seus sacrifícios, o seu suor, as suas lágrimas, suas vigílias, seu trabalho, seu esforço, sua luta, sua fome, seus e de seus cantores foram vendidos por três milhões de cruzeiros? Não.


Tenho certeza que você não os vendeu. Você não os vendeu porque sabe do que se trata e porque sabe o que está fazendo. Atualmente você faz parte da cultura do Amazonas e você não venderia essa cultura pela bagatela de umas fotografias coloridas que roubam, que exploram, que avançam no alheio. (...)

Já chega de defraudadores. Que estes fatos nos sirvam de lição.

Coral João Gomes Junior

Hoje, no começo da noite, o Coral João Gomes Junior receberá substancial e merecida homenagem. A festa será realizada no Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos (Icbeu) e consta do programa o lançamento de livro de Elson Farias, a melhor música do coral e a presença de seu fundador, maestro Nivaldo Santiago.
O cinquentenário do Coral, no Teatro Amazonas
O grupo musical que já comemorou seu cinquentenário em 2006, está hoje sob a direção de Cleomar Feitoza (uma das fundadoras). A trajetória do grupo está revelada pelo acadêmico Elson Farias, no "Coral João Gomes Junior: uma aventura musical no Amazonas".
Acreditando na participção de alguma forma dessa aventura, transcrevo uma crônica do falecido padre Luiz Ruas (1931-2000), onde ele estimulava os "aventureiros", o maestro Nivaldo e convocava o povo ao Teatro Amazonas para a música.

Festival de Arte

Mais uma vez o Instituto Musical Santa Cecília vai oferecer ao público um festival de arte do Coral João Gomes Júnior. Hoje, à noite, o Teatro Amazonas estará vivendo um dos mais altos momentos artísticos de 1957. Digo isso e, à primeira vista, pode parecer com alguma coisa de semelhante à primeira qualidade das latas de manteiga. Não sei se o leitor já reparou que todas as manteigas são de primeira qualidade. (...)
Sem querer, lembrei-me agora mesmo de uma crônica que escrevi há muito tempo quando o Instituto estava sendo inaugurado, estava apenas nascendo e, no Teatro Amazonas, realizou o seu primeiro festival. Quando terminou o recital senti um alívio e uma espécie de euforia. Vi que estavam engatinhando, vi que estavam tentando caminhar, vi que um grande esforço fora feito e um esforço feito em um sentido de realizar arte autêntica.
Padre Luiz Ruas
E não tive dúvida. Na primeira oportunidade escrevi uma crônica na qual eu dizia aquilo que eu sentira. Os defeitos e as qualidades. Claro que eu falava como um simples espectador e não como crítico musical. Falava como alguém que se esforça para ver o que há de bom em tudo e ver tudo com objetividade dentro dos meus limites.
Escrevi a crônica e, confesso, tive receio de magoar, pois, até então, todas as notícias publicadas nos jornais haviam sido simplesmente elogiosas. No entanto, fazia ressalvas, tecia observações que não davam para fazer inchar muito. Pois um ou dois dias mais tarde tive oportunidade de me encontrar com o maestro Nivaldo. E ele, a primeira coisa que me disse foi:

- Li seu artigo. Foi o que li de melhor sobre a nossa apresentação.

Percebi então claramente que o maestro era alguém que estava querendo fazer coisa séria. Que ele não era um enfatuado e que tinha coragem de enfrentar uma crítica séria e construtiva. E isso é o que há de mais importante especialmente em nosso meio pequeno onde os críticos não têm boa acolhida. Ou melhor, onde a crítica está circunscrita aos confins de um punhado de elogios fáceis e rotineiros.
Pois vi logo que o maestro não era um desses que supõem que tudo aqui sai de suas entranhas é o que há de mais perfeito. É intocável. Percebi que Nivaldo Santiago estava consciente do caminho que se estende à sua frente. E que para continuá-lo está disposto a enfrentar tudo inclusive a indiferença e a apatia que nos domina aliadas a uma subcultura artística. Ou fruto dela.

Não fora isso, e o que daria crédito a este moço para apresentar o ousado programa que tenho aqui diante de mim? Se não fosse esta tomada de posição diante da arte e diante da sua arte, que coisa lhe haveria de dar forças para empreender mais esta iniciativa, a da orquestra sinfônica, a Orquestra Sinfônica do Amazonas? (...)
Agora uma coisa que pode parecer chocante: uma das finalidades deste festival é arranjar dinheiro. Dinheiro, sim. Dinheiro para fazer arte. Dinheiro para o belo. É preciso adquirir instrumentos. É preciso pagar os artistas. Compreendes, leitor?

Se não chegaste a compreender aconselho-te a ires ao Teatro Amazonas hoje à noite. E depois de ouvirdes Palestrina, Puccini, Handel, Villa Lobos ficarás convencido de que esta é, fora de qualquer roteiro de propaganda, manteiga de primeira qualidade.
O texto foi publicado em Ronda dos Fatos, em A Crítica, 23 dez. 1957. Mais de cincoenta anos depois, a festa de logo mais comprova a visão do padre Ruas.