CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

28 de agosto de 2011

ACADEMIA DE POLÍCIA CORONEL NEPER ALENCAR (1)

O saudoso coronel Neper da Silveira Alencar é o patrono da Academia de Polícia Militar do Amazonas. Em nossos dias, os seus alunos-oficiais se empenham em resgatar a memória deste oficial, para isso têm buscado todos os canais, inclusive os da modernidade globalizada, ou seja, a internet.

Neste espaço, encontrei o apelo, que vou responder em dois tempos. O primeiro, reproduzindo duas páginas com o intuito de apresentar o “avô” da mencionada casa de formação policial militar – Abílio Alencar (1888–1953), que é o pai do coronel Neper Alencar.

E, qual a razão para esta minha homenagem? É que Abílio de Barros Alencar foi um competentíssimo mestre em matemática, além de graduado em Engenharia e Direito pela Universidade Livre de Manaus. É lamentável, mas o nome deste mestre batiza - somente -a Escola Municipal, para o ensino básico, situada na Rodovia Torqueto Tapajós, km 34.

O primeiro texto, de autoria do finado João Chrysostomo de Oliveira, foi escrito três dias após o falecimento do Matemático, portanto, repleto de emoções e amizades, mas verdadeiro e sincero, que foi publicado em O Jornal, de 6 de março de 1953.


Abílio de Barros Alencar

Na quase puerícia de seus 14 anos, chega Abílio de Barros Alencar com seus pais e irmãos procedente do Piauí, de onde era filho, para a outrora Terra da Promissão, como era considerado o Amazonas malfadado de hoje.
Filho de Benedito de Barros Alencar e de dona Rosalina Feitosa de Alencar, ambos naturais do Ceará, Abílio Alencar desde aquela pouca idade radicou-se no Amazonas, de tal modo, que se considerou natural desta terra como se os seus olhos se houvessem abertos, pela vez primeira, para o sol planiciário e para a grandeza do Rio Mar.

Enquanto seus pais e irmãos seguiram para Manacapuru, onde Benedito pontificou como ativo e eficiente advogado provisionado, e homem de notável ascendência intelectual entre os seus contemporâneos, o adolescente Abílio Alencar preferiu ficar em Manaus, mesmo em casa estranha, com o propósito nobre de estudar ainda que a conta de grandes sacrifícios.

Ginásio Amazonense, final século XIX
 Matriculando-se na antiga Escola Normal, vencendo todas as dificuldades, vai forjando o seu espírito sedento de saber em prélios intelectuais ao lado das brilhantes inteligências de Alice Brito Inglez, Isabel Freitas, Tristão de Sales e outros colegas, e recebendo as lições dos grandes mestres da época, como Sidou, Berredo, maestro [Joaquim] Franco e outros. Recebe o honroso diploma de professor normalista em 1908.
Em 1913, conquista o título de engenheiro pela Universidade [Livre] de Manaus. Nascem destes dois proveitosos cursos as suas grandes paixões: o magistério e a matemática. Consagra-se ao magistério de tal forma que desde a juventude só esta inclinação sublime polariza sua vida: conduzir, orientar, ensinar sobretudo a ciência dos números.


Moço ainda, projeta seu nome como um legítimo matemático. Faz concurso brilhante de aritmética para a antiga Escola Modelo, anexa à velha Escola Normal, para onde mais tarde é promovido.
Em 1927, bacharela-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela faculdade de então. Sem ir à Europa, à metrópole ou a outro centro mais adiantado do Brasil, Abílio Alencar atestou pela sua cultura e pelo seu saber que, nesta província humilde, também se forjam capacidades que podem ombrear vantajosamente com doutores que se jactam com sapiências aneladas e adquiridas em outros centros culturais de fora.

Como professor, tornou-se um matemático respeitado não só no Estado, mas no País inteiro, e em terras de além mar, colaborando nas mais conceituadas revistas do gênero, destacadamente na Revista Brasileira de Matemática e no Almanaque Bertrand, editado em Portugal, aos quais emprestava o brilho de sua pena de verdadeiro criador no campo da ciência dos números.

Como engenheiro, realiza notáveis e importantes trabalhos de agrimensura e perícias delicadas e difíceis, em que vence galhardamente. Como advogado, colaborou modestamente com causídico de renome no nosso fórum, dele recebendo os mais exaltadores encômios, que não o envaidecem e não o empolgam de modo a fazê-lo abraçar decisivamente a carreira, pois a sua paixão resume-se em uma só: o magistério.


Unindo o seu destino, pelo laço do matrimônio, com dona Judith Pinheiro da Silveira, Abílio Alencar encontra nessa companheira, lutadora e perseverante, um grande estímulo para batalhar e vencer. Funda a antiga Escola Rui Barbosa; leciona na Universidade; no colégio N. S. Auxiliadora; na antiga Escola Municipal de Comercio, atual Sólon de Lucena, onde fez posteriormente brilhante concurso perante o interventor Nelson Melo, sendo homenageado como mestre competente, que dispensou a arguição.

Dirigindo mais tarde a referida escola, batalha, com perseverança e denodo, pela conquista da federalização do estabelecimento, vitória que conseguiu para a alegria e conforto de quantos estudavam, à época, naquela casa de ensino comercial.
Na antiga Escola Normal, tornou-se o mestre de matemática competentíssimo e rigoroso no julgamento de seus discípulos, de modo que todos o olhavam com um misto de temor e estima, embora mais tarde se tornasse o mestre indulgente que todos nós conhecemos.

Dirigiu a antiga Diretoria de Instrução Pública, na ausência do titular efetivo, Dr. Beltrão, e, no governo Leopoldo Neves, já aposentado, voltou a dirigir o atual Departamento de Educação e Cultura, época em que tivemos ocasião de colaborar com o mestre amigo, que sempre pautou sua administração pela manutenção de uma liberalidade e demonstração de estima e compreensão para com todos. Sempre se nos demonstrava constrangido quando não podia atender a parte que o procurava, a quem tratava como uma criatura estimada da família. E assim não foi compreendido por seus pares e correligionários, afastando-se daquela repartição bastante desgostoso sem, no entanto, nunca dar demonstração de rancor ou animosidade a quem quer que seja.

Como chefe de família, tinha tal afetividade aos seus que era capaz dos maiores sacrifícios para que ninguém sofresse a menor privação, chegando ao ponto de, na época de maior atribulação de sua vida, quando a Carta de 1937 lhe corta a cátedra do Sólon de Lucena, deixando-o em situação quase desesperadora, seguir para o Rio de Janeiro enfrentando todos os obstáculos para dar assistência ao seu querido filho enfermo Euler, inteligência privilegiada, o seu grande sonho, o seu grande ideal que ele desejava ver concretizado com o ingresso de Euler na carreira diplomática, sonho que foi dilacerado com a morte prematura do jovem, que o deixa profundamente abalado. No Rio, leciona desenho no colégio Pritaneu, de Antóvila [Mourão] Vieira, para manter-se e sustentar os seus naquela angustiosa situação.
Instituto de Educação do Amazonas
 Ainda no desejo de amparar os seus, funda com sua filha Lea Antony o antigo Colégio Gustavo Capanema, atual Instituto com o mesmo nome, que permanece sob a direção da dinâmica professora. Lecionou matemática no antigo Ginásio Amazonense e constituiu-se o verdadeiro oráculo da juventude, no ensino particular daquela ciência.
Temos aí traços ligeiros da vida exuberante de Abílio de Barros Alencar, que a morte nos arrebatou a 25 de fevereiro, deixando todo o campo educacional do Amazonas enlutado, deixando principalmente o casarão do Instituto de Educação, onde ele pontificou por muitos anos, debaixo da pesada atmosfera da saudade, debaixo da angustiosa impressão do seu desaparecimento irreparável.

Solidarizando-nos sinceramente com a justa dor da família Abílio Alencar, apresentamos-lhe as nossas condolências de amigo, com estas palavras consoladoras: Abílio Alencar desapareceu no corpo, mas seu nome impoluto e as sua obra exuberante já o perenizam na memória e no tributo de gratidão de seus discípulos de escola e de exemplo honroso.
O segundo documento, transcrito parcialmente, encontra-se encartado no Dicionário Amazonense de Biografias: vultos do passado (1973), de Agnello Bittencourt.

O professor Abílio Alencar foi casado com dona Judith da Silveira Alencar, dama de exemplares virtudes. Do feliz enlace, nasceram os seguintes [8] filhos: Euler (falecido); Léa Alencar Antony; Neper da Silveira Alencar; Déa Alencar Assumpção; Viéte da Silveira Alencar; Otto da Silveira Alencar; Selma Alencar Acioly; e Maria Agnesi da Silveira Alencar.

Não consta ter publicado nenhum livro. Mas colaborava nos jornais de Manaus, em assuntos pedagógicos e motivos de sua especialidade. Era um notável charadista, mandando frequentes trabalhos para o afamado Almanaque Bertrand. Com o pseudônimo de Déa (nome de uma de suas filhas), manteve assídua correspondência com o matemático e escritor Malba Tahan.