CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quinta-feira, novembro 30, 2017

PARÓQUIA DE EDUCANDOS (I)

Matriz de N. S. Perpétuo Socorro, c1947
Educandos, até então designado de Constantinópolis, tornou-se o primeiro bairro a ser constituído em paróquia, sob a proteção de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Visto que a ocupação católica da cidade partiu do Centro, onde surgiram as primeiras paróquias: Matriz, Remédios e São Sebastião.

Dom João da Mata, bispo do Amazonas entre 1941-47, foi o artífice deste predicado, entre tantas obras bem sucedidas de seu governo. A Casa da Criança é uma dessas que ainda segue aproveitada. Para estabelecer a paróquia educandense, o bispo aproveitou a ordenação do padre Antônio Plácido de Souza, em 1941.

Padre Antônio marcou o bairro de Educandos, pela sua capacidade de mestre de obras e produção de longo sermão nas missas dominicais. Capaz de respeitáveis empreendimentos, construiu a igreja que, obviamente modificada, ainda serve à comunidade. 

Dessa maneira, manteve-se à frente do paroquiato até sua morte em 1966, portanto, por exatos 25 anos. Em reconhecimento ao seu lavor, a cidade de Manaus marcou seu nome na ponte que liga o bairro ao Centro.

Um pouco mais dos primeiros passos da paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro retirei do Suplemento intitulado As festas jubilares, encartado em A Reação, extinto jornal católico, (1946).  

PARÓQUIA DE EDUCANDOS
Capa do Suplemento

Até 1941, o bairro operário de Educandos teve a sua vida religiosa ligada a da Paróquia dos Remédios, de que era Curato. Estendia-se, então, até ali, a jurisdição daquela Paróquia, atravessando o Igarapé do Educandos para do outro lado atingir a população operosa daquele extenso bairro.

A 16 de dezembro de 1941, no 1º ano de seu governo, D. João da Matta Andrade e Amaral, Bispo Diocesano, decretava a criação da Paróquia de N. S. do Perpétuo Socorro. Passava o antigo curato a constituir uma das paróquias da sede episcopal, tendo à sua frente, por provisão de 24 de dezembro do mesmo ano, como garantia de seu desenvolvimento, o Pe. Antônio Plácido de Sousa, sacerdote amazonense que, oriundo de família operária, se integraria ao meio para melhor desempenhar a sua tarefa de guia de almas. Fora feliz a escolha, ou antes, melhor e mais acertada não poderia ter sido.

Quem conheceu a pequena capelinha em ruínas e, mais tarde, viu surgir, no mesmo local, no alto, a ser divisada da cidade, a ampla e elegante matriz de N. S. do Perpétuo Socorro, com suas duas torres, toda em madeira, não pode deixar de erguer o seu voto de louvor a quem impulsionou essa transformação.

Hoje já está em andamento a construção da Matriz definitiva. A casa paroquial espaçosa, alta, descortinando lindo panorama da cidade de Manaus, já está concluída. Os braços da cruz e a capela-mor estão sendo agora erguidos.

Ali, os operários têm um exemplo no operário-chefe da turma: o Pe. Plácido, o vigário. O seu esforço é admirável. Auxiliado pela população traz, da “beira do rio”, as pedras que se empregam na construção. Fabrica ele próprio tijolos, trepa nos andaimes e, como um pedreiro qualquer, se dedica ao trabalho de dotar o bairro de Educandos de uma igreja ampla e moderna, que poderia figurar em qualquer capital. A despesa com a construção sobe a Cr$ 280.320,00.

OBRA SOCIAL - "CASA DO POBRE"
Na Semana da Pátria de 1943 foi aberta a “Casa do Pobre”, em Educandos. Ali funcionam, desde este tempo, sob a competente direção da Srta. Rosa Castelo Branco de Alencar, aulas regulares de Corte e Costura, Bordado a mão e à máquina e flores. Meninas e moças ali aprendem trabalhos manuais que constituirão um dote, tornando-as jovens prendadas. Isso muito pode contribuir para a economia de seu lar, sendo-lhes, futuramente, fonte de renda.

São as alunas em nº de 80. As aulas, inteiramente grátis e o material, as mais das vezes, fornecido pela diretoria da Sala de Costura. (segue)

segunda-feira, março 21, 2016

BAIRRO DE EDUCANDOS

O extinto matutino A Gazeta, de propriedade de Artur Virgílio Filho (deputado federal), estava ligado ao então governador Gilberto Mestrinho (1959-1963). Nele pontificava o jornalista Ramayana de Chevalier, que servia ao governo dirigindo o Daspa (Departamento de Assistência ao Servidor Público do Amazonas). 

Recorte do matutino 


Chevalier dispunha de espaço privilegiado, o cabeçalho da primeira página, para escrever seus artigos, que podiam ser juras de amor ao governo e ataques aos adversários, como Plínio Coelho; também considerações sobre a política nacional, marcada pela vitória e a renúncia de Janio Quadros, em agosto de 1961. E outros temas, bem mais deleitosos na pena caliente deste saudoso periodista, nascido em Manaus, porém, “cobra” criado no Rio de Janeiro.


Para incrementar a propaganda do governo, A Gazeta abriu a coluna intitulada Governo do Povo. Nela circulavam pequenas notícias, muitas delas truncadas ou incompletas, sobre as atividade de Mestrinho.


Reproduzo duas notas, que dizem respeito ao bairro de Educandos, às vezes tratado por Constantinópolis. Aproveito para registrar que estudei no Machado de Assis antes da reforma citada. E que o Grupo na estrada, hoje avenida Leopoldo Péres, ainda se chama Monteiro de Souza.


A residência da minha família, à rua Inácio Guimarães, possibilitou-me conhecer ao Pedro Telles, latifundiário, cujo nome era repetido e temido na extensão do bairro. Seu advogado –Dr. Jauary Marinho– foi por anos, durante o Governo Militar, o segundo Reitor de nossa Universidade Federal (Ufam).

 
Rua Inácio Guimarães, atrás do Cine Vitória, vendo-se, ao alto, as torres
inacabadas da igreja de Educandos, 1961

Edição de 16 outubro 1961

Cumprindo mais um dos compromissos assumidos para com o nobre povo que o elegeu e que o retribui com uma popularidade que sobrepaira acima das intrigas e misérias da política, o governador Gilberto Mestrinho entregou ao Sr. Pedro Telles e ao Dr. Jauary Marinho a importância de 10 milhões de cruzeiros, com que o Estado do Amazonas compra, para posterior distribuição aos seus atuais ocupantes, as terras do bairro de Educandos.

Havia os que diziam que essa promessa do governador, fora fogo de demagogia em hora de eleição. Hoje esses negadores da boa-fé de Gilberto devem estar como porcos: com a cara na lama.

 

Edição de 17 outubro 1961

O Educandos sempre foi um bairro explorado pelos demagogos de hora de eleição. Poucos governos –e honra se faça a eles– se lembraram daquela parte de Manaus. Mas o Mestrinho entendeu que tudo que se fizesse por aquela gente, era pouco.

Pegou o velho Grupo [Escolar] Machado de Assis e modernizou-o. Ficou uma obra magnífica, de encher os olhos. Fez o mesmo naquele outro da subida da estrada de Constantinópolis. Mas ainda era pouco em matéria de educação, pois a garotada do bairro é imensa. E fez construir mais um Grupo, desta vez no meio de um Conjunto Educacional sem par em nosso Estado [acredito que se trata da EE Diana Pinheiro,  na av. Presidente Kennedy]

Mandou construir um belíssimo campo de esportes em frente da Igreja. Construiu uma moderna subdelegacia de Polícia [hoje servindo a uma ONG, na avenida Leopoldo Péres], para conter os maus elementos e proteger as famílias do bairro. Mandou construir um mercado moderno e modelo [Dr. Jorge de Moraes, que foi prefeito de Manaus] e foi o Educandos um dos primeiros bairros a ter estendidas nas suas ruas a nova rede elétrica.


sexta-feira, março 18, 2016

BRIGUE "CONSTANTINÓPOLIS"

O festival folclórico do Amazonas teve início no palco do Estádio General Osório, hoje isolado e administrado pelo Colégio Militar de Manaus. Desfilavam diversas manifestações folclóricas, algumas das quais ainda se exibem no espetáculo montado no anfiteatro do Centro Cultural Povos da Amazônia (CCPA).

Uma das atrações de então era o Brigue, que, como o nome indica, reportava-se a uma lenda marítima. O bairro de Educandos que, por longa data, foi denominado de Constantinópolis (uma homenagem ao governador Constantino Nery), possuía ao menos dois desses grupos.

Os brincantes do brigue primavam pela vestimenta branca, claro, imitando o uniforme de marinheiros, cujo comandante portava espada, e os marujos conduziam a réplica de um navio.
Bem, uma das agremiações ensaiava na residência de seu “dono”, e o matutino O Jornal (edição de 9. jan. 1946), anunciava os ensaios.



Vem aí o "Brigue Constantinópolis"

Já tendo conseguido permissão legal do Dr. Chefe de Polícia, da Inspetoria Regional de Estatística, do antigo DEIP [Delegacia Estadual de Imprensa e Propaganda] e do representante da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, nesta capital, o festejado cordão carnavalesco denominado "Brigue Constantinópolis" ultima, neste momento, os ensaios, em sua sede, à rua Manoel Urbano, número 6, naquele bairro, para a realização de exibições públicas, durante a quadra da folia, que se aproxima, prenunciando-se grande sucesso, como aconteceu nos anos anteriores. 
O "Brigue Constantinopolis", que é constituído por um grupo de rapazes modestos mas distintos, de Constantinópolis, conta com cerca de 21 "marujos", "comandante" e "imediato", e representa, em suas encenações, uma lenda famosa do mar, qual seja a epopeia da Nau Catarineta, do folclore luso, tendo a dirigi-lo, entre nós, como representante maior de todo grupo, o Sr. José Maria Pereira, destacado elemento social do bairro em apreço. 
Os ensaios do "Brigue Constantinópolis" continuam, todas as noites, naquele endereço da rua Manoel Urbano, com grande assistência.

Em Educandos, ônibus Santa Cruz, em frente à igreja em construção 

 

domingo, outubro 25, 2015

PONTE DE EDUCANDOS

Lembro o aniversário de Manaus tão brilhantemente festejado com outro aniversário. Este, totalmente esquecido: dia 19 passado a Ponte Cônego Antonio Placido completou 40 ANOS. 
Bastante conhecida  pela ligação que permite entre o bairro de Educandos e o Centro da cidade.

Recorte do jornal A Notícia, 19 outubro 1975


Ponte Cônego Antonio Placido, após concluída
A Crítica, 20 outubro 1975
Recorte de A Crítica, 27 outubro 1975



terça-feira, agosto 18, 2015

LIVRO TOMBO DA PREFEITURA DE MANAUS (1)

Fac símile do mapa
Sacado do Relatório da Comissão Organizadora do Tombo dos Próprios do Município, mandado imprimir pelo prefeito Torreão Franco de Sá, em 1927. Trabalho ilustrado pelo Dr. Raimundo de Miranda Leão, com várias plantas, obviamente com os recursos da época. 

Nº 35 CONSTANTINÓPOLIS


(Ex-Educandos)

Situado na foz do igarapé da Cachoeirinha, margem esquerda, onde funcionou o antigo Instituto de Educandos Artífices, depois Instituto de Artes e Ofícios, ocupando uma área de 130.693m2, cedido pelo Governo do Estado para patrimônio do Município, em virtude do Decreto nº 520, de 26 de setembro de 1901, baixado pelo Governo do Estado e referendado pela Lei nº 370, de 14 de outubro do referido ano.

Em 1901, o superintendente Dr. Arthur Cezar Moreira de Araujo manda proceder a abertura das ruas deste subúrbio e dividir em lotes os seus quarteirões, ficando reservado ao Estado o prédio por ele construído na parte alta.

A 22 de julho de 1907, o superintendente interino Coronel [GN] José da Costa Monteiro Tapajós baixa o Decreto nº 67 dando a este subúrbio a denominação de Constantinópolis.
A 26 de setembro do mesmo ano contrata com o Dr. Gastão da Cunha Lobão os serviços de melhoramentos e embelezamento das ruas deste bairro.

Em 1908, a Intendência Municipal dá neste bairro as denominações de Boulevard Sá Peixoto à rua marginal; Tavares Bastos à praça onde se acha o próprio do Estado; Delcidio do Amaral e Manoel Urbano às ruas leste-oeste; Monsenhor Amâncio de Miranda e Inocêncio de Araújo às ruas norte-sul.

sábado, julho 18, 2015

POLÍTICA EM EDUCANDOS

Pe. Plácido
Em 1950, num comício no bairro de Educandos, então conhecido por Constantinópolis, ocorreu um desentendimento, semelhante a velha piada do bêbado que atazana o candidato. Nessa noite, a polícia interferiu, dando motivação a notícia fantasiosa que segue, sacada do melhor jornal da cidade.

Para melhor entender, nesse ano a disputa pelo governo do Estado era travada por Álvaro Maia, que afinal venceu, e Severiano Nunes. O tabloide, defensor de Maia, como facilmente se pode notar noticiou um episódio inverossímil.


4 TIROS DE FUZIL CONTRA O PEITO DE UM SACERDOTE (*)
O padre Antonio Plácido vítima dos udenistas

Caso dos mais revoltantes registrou-se à noite de domingo último, no populoso bairro de Constantinopolis, quando ali se realizava um minguado comício da União Democrática Nacional, facção político-partidária que já faliu completamente no seio acertado da opinião popular, pelas atitudes sórdidas e antidemocráticas de seus desenfreados líderes.
Horas tantas da noite daquele dia, o povo daquele laborioso bairro, que acompanha para toda o libertador Alvaro Maia, revoltando-se com os ataques indignos que os udenistas vinham lançando contra a Frente Libertadora, começou a vaiar os oradores da "eterna bandalheira" e a dar vivas estrondosas ao ínclito senador da libertação.
Como costumeiramente acontece, logo foi convocado a Polícia Civil do Estado que, cumprindo ordens absurdas de seus chefes, começou a ameaçar o povo, de baioneta calada, como se o povo ordeiro de Constantinopolis, fosse uma massa de criminosos vis e pestilentos.
Em dado momento, um pobre cidadão, velho já de idade, porém com liberdade de consciência, resolveu dar um viva ao senador Álvaro Maia e bastou isso para que os beleguins da Polícia, assalariado do governo nefando que infelizmente domina o Amazonas e o infelicita às raias do absurdo, desse ordens para que os seus subordinados agissem conte a o referido cidadão, silenciando-o de qualquer maneira.
Naturalmente procurando livrar-se da sanha iniseravel dos algozes da coletividade amazonense, torpes perseguidores e infelizes tripudiadores das liberdades públicas e individuais, o pobre ancião pediu ao socorro à alma boa e caridosa do padre Antonio Plácido, paróco da igreja de Constantinopolis.
Cumprindo um velho mandamento do Divino Mestre, padre Plácido, que nunca negou abrigo aliviador a quem quer que seja, recolheu na casa de Deus o referido cidadão, livrando-o assim da fúria desenfreada dos policiais, principalmente do indigno, nojento, maltrapilho, burro, ofensor da moral alheia, indivíduo que ja bateu em sua própria mãe, portanto, desclassificado, Geraldo Dias. Tudo parecia acalmar-se com a atitude generosa e humana do padre Plácido, quando os beleguins udenistas detonaram por 4 vezes os seus fuzis, sobre o benquisto sacerdote da Igreja de Cristo, num verdadeiro sacrilégio e num virulento ataque à própria Casa de Deus, já que mencionado sacerdote reside ali.
Felizmente nenhuma das balas atingiu o alvo desejado pelos da "eterna bandalheira". Felizmente aconteceu isso e o padre Placido esta para contar a verdade dos fatos, depois que pediu providências às autoridades federais.

(*) O Jornal, 12 de setembro de 1950 

domingo, junho 21, 2015

RUA INÁCIO GUIMARÃES | EDUCANDOS

Estou bastante ligado a esta artéria, pois foi no cruzamento dela com o Beco São José que eu nasci. Ali, onde meus pais haviam estabelecido a Mercearia São José. Aconteceu em 1946. Recentemente voltei a circular por ela em busca de antigos moradores. A razão é que preparo uma retrospectiva sobre meu pai – Manuel Mendonça, também conhecido por “peruano”, falecido ano passado aos 98 anos.


Algumas fotos foram recolhidas do site sobre o bairro, e pertencem ao Inaldo Aragão.


 






quinta-feira, novembro 01, 2012

PARÓQUIA DE EDUCANDOS

Pe. Plácido, no palanque da
igreja de madeira,
antes da atual, 1942
Este bairro marcou em diversas oportunidades e formas sua presença na evolução de Manaus: a denominação, proveniente da escola dos educandos artífices; a mudança de nome para Constantinópolis, que não colou; pela “estrada”, hoje avenida Leopoldo Peres, aberta pelos moradores; pela presença do padre Antônio Plácido e suas metáforas, nem sempre religiosas; pela exuberância da Baixa da Égua; pelo cine Vitória e outros canais de diversão, estes pouco condizentes com a tradicional família educandense, os “inferninhos”.

Dom João da Matta
Para lembrar a instalação da paróquia de Educandos, sob a proteção de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e, óbvio, pequeno relato da história do bairro, reproduzo o texto encartado no Suplemento, comemorativo das festas jubilares da Diocese de Manaus, em 1946. Nesse ano e na vizinhança dessa igreja, eu nasci.

Até 1941, o bairro operário de Educandos teve a sua vida religiosa ligada à da paróquia dos Remédios, de que era curato. Estendia-se, então, até ali, a jurisdição daquela paróquia, atravessando o igarapé de Educandos para, do outro lado, atingir a população operosa daquele extenso bairro.

sábado, maio 19, 2012

Mudança de nome de ruas


Mário Ypiranga
Reproduzo artigo muito oportuno do escritor Mario Ypiranga Monteiro (1909-94), no qual, este clamava contra a identificação de nossos logradouros. Nele, recriminava as distintas maneiras utilizadas para a designação de nossos caminhos. Ao tempo, lembrava o articulista, recorriam-se aos santos. Agora, não é novidade, aos políticos de plantão e suas árvores genealógicas. Tanto os ascendentes quanto os descendentes servem para “proteger” os espaços alcançados e dominados.

Lastimoso que as palavras do finado Mário Ypiranga tenham sido lançadas ao vento: em nossos dias, o administrador e outros “puxas” embirram para que seu venerável nome substitua a designação da secular rua Recife, assim como, Calderaro em substituição a rua Paraíba, quando se sabe que cada uma dessas “existe de segres”.



Caveira de Burro

Jornal do Commercio, 15 de junho de 1975

Para quem como eu familiarizou-se com a história pitoresca das ruas de Manaus (Roteiro Histórico de Manaus, 1969), a alusão e a crítica a certas incongruências não mais admira.
Certa feita um matutino trouxe observação oportuna do edil Damião Ribeiro à anarquia reinante na nomenclatura de certas ruas. O fato não é novo, certamente, mas acreditamos que depois de 1930 para cá a confusão se generalizou de tal maneira que ruas de Manaus existem de que não mais se sabe o nome real, à carência de placas elucidativas. As placas modernas sempre foram um problema pela estupidez com que foram organizadas, sem histórico.

Por exemplo, aquele vereador fazia referência às ruas, trechos da de Belém (rua de Marciano Armond); de Leonardo Malcher (de Governador Bacelar); beco da Paciência (rua Universal); bairro da Raiz (de Santo Agostinho); rua de Nhamundá  (de Barbosa Rodrigues) e rua de Japurá (do Professor Rayol).
Ponte Cônego Plácido, que liga Educandos ao centro
O mau vezo de dar-se nome de santos (às vezes cassados) a ruas e bairros é um fenômeno psicológico que foge a nossa preocupação, mas ao mesmo que os diabólicos promotores de transferências de nomes respeitassem a tradição avoenga, quando ela existe de segres. O bairro dos Tocos, onde nasci, foi idiotamente denominado de Aparecida quando com um pouquinho de senso, respeitando a religião, poderia ficar Nossa Senhora Aparecida dos Tocos, a exemplo da Nossa Senhora do Ó (Portugal), Nossa Senhora de Copacabana ou São José de Apipucos, onde reside o meu excelente amigo Gilberto Freyre, e quejandas toponimais. Respeitava-se a tradição e reverenciava-se o patrono ou matavam-se dois coelhos com uma porrada.

Assim, Santo Agostinho da Raiz (ah! o velho igarapé da Raiz onde tomei muito banho) ficaria tão bom como São Geraldo dos Bilhares, sem que ninguém viesse a especular se São Geraldo era dado às caraboias (sic) ou o venerável Santo Agostinho, a quem sempre leio e admiro pela coragem de confessar-se publicamente, tivesse tomado algum banho no local ou tomado chá-de-raiz.

Me assustam esses criadores de situações novas e difíceis para a história da cidade. A bagunça é tal para os lados da Prefeitura e tal a carência de espírito nacionalista, que até estrangeiros a quem nada devemos e que nem sabem se Manaus existe, frequentam a onomástica urbana numa concorrência aos bons filhos da terra ou a brasileiros outros que aqui pelejaram e a quem se vem cometendo injustiças clamorosas com o esquecimento. Cândido é quem chamou de Kennedy e Roosevelt a rua e praça da cidade, apunhalando pelas costas a história nossa.

Quando é que se vai colocar um paradeiro a esse quadro negativo? Quando é que vai aparecer alguém que tome a pelo endireitar essa casa de Orates? Das plantas de Manaus então nem se fala! É aquela garapa! Nomes adulterados, nomes incompletos, nomes ilegíveis, nomes em duplicata, triplicata, quadriplicata, um inferno para o historiador, para o serviço postal, para todo mundo.        

Outro dia houve um desaguisado a respeito do nome a ser dado à ponte nova sobre o igarapé da Cachoeirinha de Manaus, mais conhecido por igarapé dos Educandos. Concorrentes póstumos foram o Cônego Plácido, o meu bom e querido amigo Cônego Plácido, amazonense que dizia haver dinamizado o bairro de Constantinópolis, embora em prejuízo da memória do Dr. Jacques de Sousa Lima, o verdadeiro dinamizador daquele trecho com João Brígido; e o meu caro companheiro de escotismo Ramayana de Chevalier.

Candidatos fortes e bem apadrinhados, não há que ver, e todos merecedores de homenagem dessa natureza. Mas parece que os padrinhos se esqueceram de duas coisas: primeiro que existe na Prefeitura de Manaus um projeto muito antigo para a construção daquela ponte, como também para a ponte sobre o igarapé do Teiu, dito de São Raimundo Nonato; segundo, há uma lei federal não revogada, proibindo em todo o território nacional duplicidade de nomenclaturas, toponímias de caráter público.

Se a coisa for pra-valer, o falecido Rama [Ramayana de Chevalier] perderá, pois já foi contemplado em vida com uma rua. E se a nossa colenda Câmara levar a sério o trabalho de revisão dos nomes de ruas, praças, jardins etc., seu Getúlio [Vargas] e outros nababos vão ficar no singular, dando a vez para a memorização de gente a quem o Amazonas deve e muito.
Isto porque em Manaus o que mais ocorre é essa indisciplina. Apesar de que me estafei para escrever a histórias das ruas e demais logradouros públicos desta minha leal cidade, não há uma simpatia pela ordem neste sujeito.
Rua Paraíba, 1970, em direção ao Parque Dez
Qualquer cidadão dá nome a um beco, um bairro nascente, sem que a Câmara se ajuíze da irregularidade, quando essa confunde com a cumplicidade. Às vezes, nomes ridículos, fesceninos, ou cheirando a novelas, como é o caso do Coroado.
Quando é que se pretende acabar com essa anarquia? Bairro Alvorada existem dois! Mas eu creio que o pior problema é o da avenida de Constantino Nery. Na realidade não deveria existir nem este nem o nome João Coelho. A avenida, estrada antigamente, de Epaminondas, para homenagear aquele presidente dinâmico que a mandou rasgar até para além de Flores, isto é, naquele tempo até o bairro da Cachoeira Grande, chamado também de Flores. Esclarecemos que já existe uma homenagem a Constantino Nery, em Constantinópolis, embora este houvesse mandado ampliar a estrada de Epaminondas.
Avenida Constantino Nery, em 1970 (acima) e 2003.


O fato mais ridículo que se conhece e que diz respeito à carência de cultura de certos administradores aconteceu no governo Arthur Reis [1964-67]: ele exigiu que algumas ruas dos bairros de São Francisco-Petrópolis recebessem nomes de presidentes da província. Foi o suficiente para que a colônia dos “puxas” destrambelhasse e andasse catando nomes aí, atordoada e inepta. O resultado é que um cidadão cujo nome completo já estava honrado, aparece noutra rua com a abreviatura! Duas ruas com um mesmo nome porque o raio do pesquisador não dava às gatas, sem saber como descascar o abacaxi.

E as plantas de Manaus? A melhorzinha dos últimos anos é a traçada pelo meu mano, Dr. Aluizio Brasil, não fosse prejudicada pela má leitura de certas ruas. A última, que se apregoa trabalho aerofotogramétrico deixa muito a desejar. E a coisa não para, não se resolve nada, enquanto muito se fala em projetos de urbanismo, alguns tão velhos que já caducaram pela novidade.

Prega-se a urbanização da cidade e todos os dias registro o vandalismo da canalha contra a paisagem, o fogo devorando árvores de sombras e até de frutos. Não há uma lei proibitiva do corte de árvores! Mete-se o machado à revelia e vem falar-se patrioticamente em Dia da Árvore!

Todos os dias surgem cochichos, numa proliferação de cogumelos. Até em frente do Palácio Rio Negro! Ameaça à saúde pública, ameaça aos nossos foros de civilizados. O historiador que cuida do processo histórico da cidade, vê, anota e arquiva.
Manaus cresce em sentido vertical, mas as plantas residenciais continuam naquele asfixiante três por três; a vidraçaria continua sendo implantada por arquitetos que só entendem de arquitetura e não de climatologia;
trágico desafio ao prolongamento da
existência numa cidade chantada em área de baixa pressão, escassas possibilidades de ventilação, forno do futuro. Os flutuantes começam de aparecer nos igarapés centrais numa imitação suburrana.

Amanhã, quando a história ocupar-se desses maus administradores, aparecerá quem se insurja, esquecidos eles de que os homens públicos devem satisfações ao presente e que seus atos serão julgados pela posteridade.

Nota: agradeço ao colecionador Ed Lincon a cessão deste recorte.

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Memórias amazonenses

Fevereiro, 29

1908 – A faixa de terra que circunda o igarapé da Cachoeirinha, no bairro de Educandos, então denominado de Constantinópolis, sofre marcante reurbanização. A artéria no alto do barranco toma a denominação de boulevard Sá Peixoto; a paralela, que tem de referência o provincial Instituto dos Educandos Artífices, hoje EE Machado de Assis, e o saudoso dancing União Atlética de Constantinópolis, do Alonso, o Marreteiro, intitula-se rua Amâncio de Miranda.

Facsimile da firma de Sá Peixoto

O primeiro homenageado era o então senador Antônio Gonçalves Pereira de Sá Peixoto, que marcou a vida política do Estado. Nascido em 1869 no Rio de Janeiro, então capital imperial, ao concluir a Faculdade de Direito de São Paulo, foi nomeado juiz federal na seção do Amazonas. Aqui desembarcou ao tempo do governo de Eduardo Ribeiro. Logo foi nomeado professor em colégios estaduais.

Em 1893, foi eleito intendente (vereador) e, sendo presidente, exerceu a superintendência (prefeito) de Manaus. No ano seguinte, era deputado federal, quando exerceu o magistério na Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro.  Em 1897, foi eleito deputado estadual e dois anos depois voltava à Câmara Federal. E, senador em 1905, para concluir o mandato do senador pelo Amazonas, almirante Costa Azevedo.

No entanto, em 1908 foi eleito vice-governador do coronel Antônio Bittencourt. O período foi de desavença entre ambos, resultando no episódio dantesco do Bombardeio de Manaus, em outubro de 1910. Encerrado este mandato em 1912, foi no ano seguinte nomeado desembargador do Tribunal do Amazonas, aos 44 anos.

Apesar de afastado de cargo eletivo, porém, a partir desta posição no judiciário, Sá Peixoto continuou exercendo sua forte influência. A Academia Amazonense de Letras o conduziu a Cadeira 6, sucedendo a um fundador, J. Mendonça Lima. Faleceu em Belém (PA), aos 79 anos, em 1948.
Facsimile da assinatura do padre Amâncio de Miranda
 
O outro homenageado era o cônego Raimundo Amâncio de Miranda (1848-1901). Nascido em Manaus, de família pobre, teve no bispo do Pará, Dom Macedo Costa, assistência para alcançar o sacerdócio, servindo à Igreja em Belém.

Em 1888, era vice-presidente da província do Amazonas e, nessa condição, exerceu a presidência por escassos 20 dias, enquanto o novo titular aqui desembarcava. Talvez na ocasião tenha sido professor do Liceu Amazonense, o estabelecimento que antecede o Ginásio Amazonense, e também dirigiu a Instrução Pública. São poucas as referências sobre este sacerdote.

domingo, agosto 28, 2011

Ponte Efigênio Salles

Agosto, 27



1929 – Inauguração da ponte Efigênio Salles, a primeira a ligar o bairro de Educandos ao Centro. Esta saga foi realizada pelo povo do bairro, então denominado de Constantinópolis. A família de Jacques Souza Lima foi a condutora da inciativa, precedida pela "estrada" aberta desde o alto do bairro, onde se encontra a igreja católica, até a ponte.
Contruída no governo de Efigênio Salles (1926-30), a ponte foi batizada com seu nome. Em nossos dias, com a reforma prosaminiana, apenas serve de decoração.

Fotos da família Souza Lima e publicadas no jornal A Hora (abaixo)