CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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terça-feira, julho 28, 2026

AVENIDA EDUARDO RIBEIRO (2)

 Para o melhor entendimento, esclareço que o jornalista Ulisses Azevedo escreveu este texto em 1979, recordando seu tempo de jovem “de 30 anos atrás”. Desse modo, relembrou a situação na virada dos anos 1940. Azevedo tomou a avenida Eduardo Ribeiro como amostra, dissecando as diversas atividades e personalidades que por ali passaram. Lembro-me dela dos anos 1960, quando já dispunha somente parte do registrado pelo autor, cujo artigo foi publicado em A Crítica. Aqui vai a parte final.

 Passemos agora para o lado direito da Avenida. Em [19]49, salvo erro, o Morgado não estava mais com o Ponto Chic, ali na esquina já se situava a loja Credilar, que não era da Moto Importadora e sim do Charles Hamut, o mesmo Charles que fundou a Rádio Rio Mar; vinha o escritório da firma Freitas & Cia., a Casa Martins, a casa de modas de Madame Verdade, a Ourivesaria Biase, com o Zé discutindo futebol e o Zuílo lá nos fundos, na bancada. Minha amiga Thereza Biaze não trabalhava na Ourivesaria e sim na firma Oliveira Negreiros (aproveito a oportunidade para uma homenagem ao saudoso amigo Pedro Manuel de Oliveira Negreiros, o velho Manezinho). Depois do Biase, onde é a “Exposição”, ficava um bar-restaurante cujo nome não lembro. E o Salão da Messody Henriques, o primeiro salão de beleza de nossa cidade. Depois não me lembro o que era, a memória falha, para se deter na “Maranhense”, da Verónica e da Olivia, minha colega de turma do Ginásio Amazonense, turma de [19]42, e que não se chama Olívia, e sim Maria do Perpétuo Socorro. Depois da “Maranhense” os “Reservados São Paulo”, do Didier Monteiro e, na esquina, a padaria do Osvaldo Loyo.

 Agora o outro quarteirão, Saldanha Marinho/24 de Maio. Do lado esquerdo, não sei se em [19]49 ainda estava a Mercearia Central ou a Alfaiataria Avenida, do Antonio Sá Freitas, “Esquina da Elegância” (não estou fazendo pesquisa, apenas forçando a memória). O escritório do Homero Sá; onde é um banco, nos altos eram duas moradias, do Edgard Gama e Silva e do Dr. Álvaro Bandeira de Melo, no térreo a Nestlé, o Depósito Público, seguia-se o IAPI, a funilaria do Celani, a Singer (nos altos a Rádio Baré), o Saci Bazar, Confeitaria Avenida, Padaria Avenida e a marmoraria do Veronesse (costumava ir tomar uns tragos com a turma de lá, mas de nome, só me lembro do Bibi e do Pereira, que também era guarda de trânsito).

O muro ia até a esquina, tinha uma casa dentro e uma garagem. Do lado direito, o Cine Odeon, o velho prédio com o maior salão de espera que um cinema possa ter, cheio de colunas e de espelhos, com cadeiras de palinha; ao lado a “Casa de Chopp”, depois “boate Odeon”, hoje tudo incorporado ao Shopping Center; e o edifício do Foto Artístico. onde no térreo A Crítica foi fundada; ao lado o escritório do dr. Adriano Queiros, o prédio de “O Jornal” e “Diário da Tarde”; o “Jornal do Comércio”; depois um muro do terreno dos Agostinianos, atualmente o edifício “Cidade de Manaus”.

Avenida Eduardo Ribeiro de nosso tempo

Quarteirão da 24 de Maio/José Clemente. Do lado esquerdo a residência do Coqueiro Mendes, presidente da Câmara Municipal, hoje o edifício “Palácio do Comércio”; depois, terreno baldio, murado, até a esquina. Do lado direito, o velho prédio da Associação Amazonense de Imprensa, e lembro o mestre Aristophano Antony, um verdadeiro líder da classe, sempre ao lado de seus companheiros de jornal; vinha o prédio da Associação Amazonense de Professores e na esquina o Tribunal Regional Eleitoral, edifício construído na época da Ditadura para o Departamento das Municipalidades, já demolido.

Quarteira da José Clemente/ 10 de Julho. Do lado esquerdo, o Palácio da Justiça; lembrar fatos históricos é impossível neste registro; o mesmo acontecendo com o lado direito, fundos do Teatro Amazonas. Nada mudou nesse quarteirão, apenas os dois majestosos edifícios foram recuperados.

Quarteirão 10 de Julho: Monsenhor Coutinho. Lado esquerdo, na esquina, a residência do “seu” Cruz, pai do Raimundo, do Zé Arthur, do Miguel, do João Cruz, todos meus contemporâneos do Ginásio. Terreno baldio, murado, e o Ideal Clube, o mesmo prédio atual, na época presidido pelo saudoso Dr. Gama e Silva, que prestigiava a turma da radiofonia local. Do lado direito, onde foi o Siroco e hoje é moderno edifício, um terreno baldio, murado. Seguiam-se residências de gente importante, lembro apenas do Dr. Aristides Rocha e da família Roessing. Na esquina, o palacete da família Miranda Corrêa, uma coisa linda em estilo colonial, lembrando a época faustosa da borracha quando em Manaus se fabricavam cervejas gostosas (XPTO e Amazonense, em junho e no Natal a Yankee, cerveja escura). Demoliram o belíssimo palacete e, em seu lugar, está aquele espigão horroroso.

E ai terminava a Avenida, dando para a Praça Antonio Bittencourt, que o povo passou a chamar de Praça do Congresso, por ter sido ali o I Congresso Eucarístico de Manaus. Olhando para a Avenida, o Instituto de Educação do Amazonas, a despertar saudades e gratas recordações a dezenas de gerações. Dona Eunice Serrano Teles de Souza, dona Lila Borges de Sá, nomes que ficaram, entre outros distintos educadores, a merecer a lembrança imorredoura da juventude que ali estudou e aprendeu. No Instituto de Educação funcionou a Assembleia, que depois passou para o prédio da Biblioteca, retornou ao IEA, até conseguir local próprio no Palácio Rio Branco.

Desculpem o exagero das repetições. Onde, atual, ali, era, era. Foi apenas um roteiro de saudades, que pode ser percorrido por quem conheceu a Avenida de 30 Anos atrás. Num passeio de saudades e muitas recordações.

quinta-feira, setembro 26, 2024

NOTAS PARA A HISTÓRIA DA PMAM (1)

Dois tópicos destinados a endossar a história da PMAM, compartilhados de Relatórios da Interventoria Estadual, sob a administração de Álvaro Maia, tratada por Força Policial do Estado, referente aos anos de 1942-43 e 1943-44. A corporação, sob o comando do major EB Gentil Barbato, voltara a ocupar o icônico aquartelamento da praça da Polícia, depois de peregrinar por outros espaços, quando retornou às lides próprias do serviço. Ainda assim a situação era patética, pois a Escola Normal, destinada à formação de professoras, ocupava o andar de cima, enquanto os policiais abrigavam-se no andar térreo.

Quartel da PMAM em duas fases: anos 1940 e 1970

Outros detalhes: o stand anunciado foi projetado para aproveitar um terreno baldio, achavascado, no bairro da Cachoeirinha, antes da ligação deste com o de São Francisco. Pontos de referência: a atual EE Getúlio Vargas e o Instituto Adventista de Manaus.

Quase por certo, as oficinas de confecção de equipamentos devem ter funcionado na sede do antigo Piquete, à rua Dr. Machado, no bairro da Praça 14. Enfim, o cozimento das refeições passou a utilizar gás butano no comando de Assis Peixoto (1959-1961).

Detalhe do Relatório subscrito por Álvaro Maia, em 1943

(...) Quanto ao seu aprovisionamento atual, os gêneros são adquiridos sob concorrência pública, preparando-se as rações pelo sistema administrativo, do que resulta, além de não pequena economia, o controle direto, que liberta a Corporação de dependências estranhas. É feito pelo pessoal da Força o serviço do corte de lenha, que é o combustível usado nos fogões. Adquire-se a forragem, parte sob concorrência e parte por administração, com reais benefícios para o comércio local, sendo o capim produzido na própria Invernada.

Por circunstâncias decorrentes da situação em que se acha o Brasil, apresenta deficiências o suprimento de fardas às praças da Força, o mesmo acontecendo quanto ao calçado. Providências, porém, foram já determinadas pelo Governo para remediar essas faltas e outras, a que alude o relatório do comandante da Força, tenente-coronel Gentil João Barbato, dedicado e cuidadoso para com tudo que respeita à milicia estadual.

A Interventoria resolveu aproveitar a sugestão apresentada no relatório do comandante, em relação à montagem de uma enfermaria com todo o material que lhe inere e, com ela, a instalação de uma farmácia e de uma sala adequada para pequenas intervenções cirúrgicas.

Em 31 de dezembro do ano findo, o efetivo da Força Policial do Estado se representava por 28 oficiais e 423 praças.


domingo, janeiro 08, 2023

EDIFÍCIOS CONSERVADOS EM MANAUS

 

Sentido horário: Palácio Rio Branco | Sede do Luso Sporting Clube |
Vila Ninita, anexo do Palácio Rio Negro | Instituto de Educação
do Amazonas | Academia Amazonense de Letras |
Casa 22 Paulista (fotos de Gunter Engel) 

terça-feira, maio 03, 2022

FORÇA POLICIAL DO ESTADO: 1941-42

 Algumas informações sobre a Força Estadual prestada pelo Interventor Federal, Álvaro Maia, relativo ao ano de 1941, sendo comandante da corporação o major EB Gentil João Barbato.

Capa do folheto 

Consoante a promessa do meu relatório passado, já fiz regressar ao seu antigo quartel da praça João Pessoa [atual Heliodoro Balbi] a Força Policial do Estado, apesar de não se achar ela ainda comodamente alojada ali, em virtude de continuar ocupando parte do edifício o Instituto de Educação.

Quanto ao seu aprovisionamento atual, os gêneros são adquiridos sob concorrência pública, preparando-se as rações pelo sistema administrativo, do que resulta, além de não pequena economia, o controle direto, que liberta a Corporação de dependências estranhas.

É feito pelo pessoal da Força o serviço do corte de lenha, que é o combustível usado nos fogões. Adquire-se a forragem, parte sob concorrência e parte por administração, com reais benefícios para o comércio local, sendo o capim produzido na própria Invernada [atual quartel do CPM, rua Dr. Machado].

Por circunstâncias decorrentes da situação em que se acha o Brasil, apresenta deficiências o suprimento de fardas às praças da Força, o mesmo acontecendo quanto ao calçado. Providências, porém, foram já determinadas pelo Governo para remediar essas faltas e outras, a que alude o relatório do comandante da Força, tenente-coronel Gentil João Barbato, dedicado e cuidadoso para com tudo que respeita à milícia estadual.

A Interventoria resolveu aproveitar a sugestão apresentada no relatório do comandante, em relação à montagem de uma enfermaria com todo o material que lhe inere e, com ela, a instalação de uma farmácia e de uma sala adequada para pequenas intervenções cirúrgicas.

Em 31 de dezembro do ano findo, o efetivo da Força Policial do Estado se representava por 28 oficiais e 423 praças. 

domingo, dezembro 01, 2019

COLÉGIO ESTADUAL DO AMAZONAS: 150 ANOS


O Colégio Amazonense Dom Pedro II, instalado à avenida Sete de Setembro, quando de seu centenário (1969) era conhecido por Colégio Estadual do Amazonas. É facilmente reconhecido, não somente por sua localização central na cidade, mas pela exuberante formação de jovens concludentes do ensino médio. Para os finalistas deste ano, a festa possui dupla emoção, pois se trata da celebração do sesquicentenário – 150 anos – do Estadual.
A direção empenha-se ao máximo, pois iniciadas em março passado, ainda não foram encerradas.

Todavia, esta postagem recolhi do noticiário do jornal A Crítica (28 novembro 1969), quando este matutino anunciava o início dos festejos centenários do CEA.

Centenário do CEA, jornal A Crítica, 26 nov. 1969

Um desfile pelas principais ruas da cidade, com representações dos colégios de grau médio abriu, ontem, os festejos comemorativos ao 1° Centenário do Colégio Estadual do Amazonas [CEA]. Às 13 horas, no pátio externo do CEA, o professor Nobre Leão proferiu uma palestra, focalizando aspectos históricos do estabelecimento, seguindo-se a inauguração da exposição de pintura e fotografias.
Às 20 horas, finalmente, o professor Farias de Carvalho discursou brilhantemente sobre o papel histórico do CEA e sua significação sociocultural. Sem qualquer interrupção nas provas que estão sendo realizadas, a programação de aniversário do Colégio Estadual terá prosseguimento, hoje, a partir das 16 horas, com um torneio interno de futebol de salão, a ser disputado entre as equipes (alunos e professores) do IEA [Instituto de Educação do Amazonas] contra o CEA.
Às 20 horas, também no CEA, será realizada a Noite do Cinema Jovem, incluindo a exibição de dois filmes premiados de Roberto Kahané, assim como dois outros curtas-metragens de cineastas paulistas, apresentados em Manaus, por ocasião do 1° Festival Norte de Cinema Brasileiro.

sábado, fevereiro 27, 2016

AGNELLO BITTENCOURT (1876-1975)

João Crisostomo de Oliveira
Com o título – AGNELLO BITTENCOURT: o Historiador da Cultura e Educação do Amazonas, o saudoso professor João Crisóstomo de Oliveira produziu um folheto em que organiza as notas sobre a Educação no Amazonas, cedidas gentilmente por Bittencourt.

A seguir, as explicações necessárias; o texto completo virá em partes.

O professor AGNELLO BITTENCOURT, falecido já às portas dos cem anos, viveu sempre para o ensino, do ensino e pelo o ensino. O seu ideal sempre foi construir pela educação, sempre foi desenvolver pela cultura, sempre foi fazer crescer sua terra e sua gente pela sinergia dessas duas forças que se completam: educação e cultura. Educador por excelência, a sua presença era uma página de educação e professor por vocação, a sua palavra era um tratado da cultura e educação. 
O seu excelente e raro livro Corografia do Amazonas é o atestado evidente do quanto o digno educador amava a sua terra e a sua gente, fazendo-a bem conhecida e estudada e discutindo e equacionando todos os seus problemas de desenvolvimento e ainda escrevendo nove capítulos importantes de sua história. 
Se Agnello Bittencourt tivesse sido, como devia, cercado de uma equipe de assessores e pesquisadores em gabinete bem aparelhado, ele teria escrito para o nosso deleite e conforto a mais completa História do Amazonas, e a mais fundamentada Geografia do Amazonas. A sua Corografia, ele chegou a refundi-la e atualizá-la, ficando a mesma entregue ao IBGE, no censo de 1940, entidade que não tomou o menor interesse em publicar tão importante tratado. 
Desejando certa vez escrever um trabalho que evidenciasse a grande influência cultural do antigo Ginásio Pedro II e da antiga Escola Normal, sobretudo pela atuação dos seus mestres luminares vencedores em célebres e ruidosos concursos, escrevi ao Mestre sobre as possibilidades dos seus subsídios para tão momentoso assunto. 
Bem diferente dos historiadores avarentos, ciumentos e monopolistas em posição de eternos donos da verdade, não respondeu com proverbial "estude e pesquise como eu tenho feito até agora", mas com prontidão enviou a "papa feita": um repositório primoroso de anotações históricas sobre a evolução cultural de nossa terra através dos pródromos  educacionais e influência cultural dos nossos mais importantes estabelecimentos de ensino, dizendo ainda mais paternalmente: "são seus, faça uso deles como se fosse sua própria criação". Longe de mim tal parasitismo mesmo com a nobre doação. 
Guardei como uma relíquia o precioso documentário que agora desejo passar aos leitores com as mesmas palavras do querido e saudoso Mestre: "São suas, façam dele o uso que quiserem", mas sem querer ser o pai da criança... 
O trabalho que, embora em forma de notas e apontamentos, encerra uma riqueza de informações que só poderíamos encontrar em fontes inatingíveis e documentos inalcançáveis ou desaparecidos. 
Sigamos a trilha do mestre encontraremos esteiras de luzes que nos esclarecem muitos fatos de nossa história educacional-cultural. Exploremos os veios e arranquemos as pepitas que muitos desejariam esconder para dizer: "Está tudo errado: Não é assim, mas os documentos que TENHO dizem o contrário". 
Estudando os apanhados do Mestre, aprendamos a lição de liberdade de educador em não guardar segredos para os seus discípulos. 
Honra e gratidão ao Mestre 
Em 28.05.1981 

domingo, outubro 28, 2012

ARTHUR NETTO: HOMENAGEM

A eleição de hoje voltou a consagrar Arthur Virgílio Netto. Em Manaus, derrotando os caciques de tantas tribos do Pê. Pois é, o povo ao elegê-lo, despachou tantos partidos políticos coligados para o “balatal”. A vitória também foi nacional, pois ele alcançou o maior índice (65,95%) de votos entre os eleitos, neste 2º turno.

Para homenagear ao conterrâneo, vou reproduzir nota de jornal que informava a consagração do melhor aluno. Trata-se certamente de sua primeira conquista: o sucesso no exame de admissão. Aquele desaparecido vestibular que atormentava os concludentes da 5ª série primária, que buscavam alcançar o curso ginasial. Hoje, apenas os que desfrutam da “terceira idade” se lembram dessa barreira.
Jornal do Commercio, 23
dezembro 1956
Pois bem. Arthur Virgílio Neto, disputando vaga no Instituto de Educação do Amazonas (IEA), obteve o primeiro lugar, entre mais de 500 concorrentes. Aconteceu em dezembro de 1956 e o vitorioso possuía 11 anos. 

O jovem Arthur Virgílio Neto classificou-se, nos exames de admissão ao curso ginasial, realizado no IEA, em primeiro lugar. (...) durante o curso primário, no GE Princesa Isabel, ocupou as mais destacadas posições entre seus companheiros, dirigindo, inclusive, o jornal oficial do referido estabelecimento.

A vitória de Arthur Virgílio Neto, sem dúvida, merece registro especial, acentuando-se a nota geral do moço aprovado: 9,6.

Ainda sobre o sucesso de hoje, que lembra aquele de 24 anos passados, quando AN derrotou os grandes tuxauas locais: Gilberto Mestrinho e Amazonino Mendes. O sucesso deste domingo possui outra dimensão, porquanto, não foram apenas os “patrões” desta zona que tomaram o rumo do seringal; Arthur Netto “surrou” os morubixabas federais, o ex-presidente Lula e a presidente Dilma Rousseff.  

Parabéns, e sucesso para Manaus.

domingo, outubro 16, 2011

L. RUAS, OITENTANOS (2)

Outra homenagem aos 80 anos de nascimento do padre-poeta Luiz Ruas, que completaria em 28 de novembro. Entre 1957 e 58, o homenageado exercitou sua aptidão jornalística em A Crítica. Escrevia a coluna às vezes diária, intitulada Ronda dos Fatos.

Padre Luiz Ruas
Como o título deixa entender, L. Ruas articulava de tudo quanto a cidade de Manaus reclamava ou exibia. Reproduzia também acontecimentos nacionais, posto que era ávido leitor de jornais e revistas nacionais. Lembrando aos de hoje que esses periódicos chegavam a Manaus com dias de atraso.

Para homenagear o Dia do Professor, ontem comemorado, reescrevo a crônica de L. Ruas, tema de sua Ronda. Ele falava com propriedade, pois foi durante a vida um professor de várias gerações.

15 de outubro de 1957

No dia consagrado aos professores não me ocorrem os que já exercem o magistério ou os que já exerceram por muitos anos e por muitos heroísmos, mas me vêm à lembrança aqueles que se preparam para exercê-lo. Digamos aquelas que se preparam porque a maioria dos professores de escola primária são professoras. E é até bom que seja assim. Se a escola, o jardim da infância, o grupo escolar são uma continuação da família convém que a criança continue a experimentar aí os carinhos maternos e aquela peculiar energia materna o que encontrará com facilidade nas professoras algumas ou muitas das quais além do tirocínio de mestras já exerceram o de mãe.

Todas as manhãs encontro-me com elas. Alegres. Rindo. Conversando animadamente aos grupos de três, de quatro, de duas, raramente, sós, elas se encaminham sob a luz auripurpúrea do sol nascente, sobraçando os livros e os cadernos de pontos, metidas na jovial saia azul e blusa branca, nos pés uns sapatinhos pretos que me evocam imediatamente as sapatilhas de balé ou de um balé irrequieto, desmedido, garantia de que dançam nos corredores do Instituto de Educação, nas salas de aula, das carteiras para o quadro negro, na animação dos recreios.
L. Ruas (à dir. em pé), na Academia de Letras, na posse de Jorge Tufic 
Não sei se todas elas, as morenas, as louras, as da primeira série ou as da quarta, as que têm os cabelos curtos, as que usam rabos de cavalo, não sei, só sei que elas estão conscientes da grande missão que as espera.
A mocidade tem um jeito especial de encarar as coisas mais difíceis e mais árduas da vida. Há certa audácia na confiança que ela deposita em suas próprias forças. Para alguns desinformados esta confiança quase absoluta pode parecer petulância ou mesmo leviandade. Geralmente não se trata nem de uma coisa nem de outra. Não é nem petulância nem leviandade. É o jeito mesmo da mocidade.

Esta certa despreocupação, este otimismo exagerado, esta alegria oportuna é importuna, tudo isso é a mocidade. As pessoas mais velhas, os que já travaram a luta impiedosa da vida ou que já sofreram os ataques da existência, os que carregam em sua pele as cicatrizes do mundo e, de suas ciladas, exasperam-se ao ver o modo trêfego dos inexperientes moços. Às vezes vai nesta zanga muito amor. É que essas pessoas mais velhas querem impedir que os moços caíam nas mesmas armadilhas nas quais afinal de contas, mais cedo ou mais tarde, todos cairemos, inclusive os moços e as crianças que muito amamos.

Justamente por isso não posso fazer um juízo certo sobre as nossas futuras professoras e sobre o conhecimento que elas têm da importância do trabalho que daqui a uns poucos anos elas terão em sua frente e em suas mãos. Não só da importância, mas também da fadiga, da canseira, dos suores, das decepções, das tristezas.

Não sou um técnico no assunto, mas sei que o curso das nossas professorandas não corresponde mais às necessidades da pedagogia moderna. Sei também que o curso atual não está correspondendo nem mesmo às necessidades da pedagogia antiga. Poderia citar fatos. Não faço porque sei que a culpa não é dos daqui de casa. Pelo menos toda a culpa. O grande mal ou a causa do grande mal está mais longe, está nesta ausência absoluta de outras escolas superiores.

A mocinha é filha de pais pobres. Os pais pobres da mocinha não possuem somente a mocinha possuem mais futuras mocinhas e futuros rapazinhos. Dia a dia a vida se torna mais difícil. É preciso arranjar um meio de vida para a mocinha pelo menos se sustentar e aliviar os pais na manutenção da casa e na criação dos irmãozinhos.

A mocinha terminou o curso primário. Mas com o curso primário somente não se consegue um bom emprego. No máximo se consegue ficar enjaulada atrás de um balcão de loja. É preciso ter um diploma de curso superior. E a mocinha corre os olhos pela paisagem circundante. Um deserto. Só há um oásis surgindo ao longe de portas escancaradas: o Instituto de Educação. No mínimo dentro de quatro ou cinco anos a mocinha terá uma cadeira que lhe dará certa independência não só em relação aos pais mas, quem sabe, casamento hoje em dia é coisa tão difícil, em relação ao futuro marido.

Então ela ouve, mais ou menos como Joana d’Arc, vozes do alto, de baixo, de dentro e de fora que lhe ordenam: Em frente, marche! E a mocinha não duvida. De passos certos e firmes ela caminha para as escadarias que lhe darão preparação de vida.

Há, porém, o caso menos necessitante e não menos doloroso da outra mocinha. Se os pais não são tão pobres e nem possuem muitos filhos. O emprego do pai e as costurinhas da mãe dão para viverem mais ou menos com certa comodidade. Não há urgência precisa da mocinha cavar um emprego e a mocinha gostaria mesmo de cursar medicina ou filosofia ou talvez química industrial. Gostaria de fazer um curso universitário.

Então ela faz a inspeção do terreno. A mesma inspeção da mocinha pretendente e chegará à mesma conclusão. No quarto imenso ela vislumbra somente a questão das portas abertas. Ouve as vozes que, de repente não são mais as vozes da necessidade ignorância, mas da necessidade cultural; a ordem porém é a mesma: “Em frente, marche”. E aí vai a mocinha rumo as escadarias que lhe darão uma culturazinha mais elevada.

Aí ela se encontra com a primeira mocinha e todos os dias quando o sol ainda é aquela mistura de amarelo de cor gostosa, as duas, rindo, cantando e conversando alegremente, sobraçando os livros, de saia azul marinho e blusa branca onde está gravado nas duas letras I e E, mas de um comum para vocações tão diversas, elas seguem para as mesmas escadarias que absolutamente não justificam sua vida embora as alimente com leite e café, de pão e de saber.

Agora me respondam os responsáveis pelo assunto: essas mocinhas podem ter interesse nos estudos? Essas mocinhas poderão no futuro serem professoras cem por cento professoras? Como exercerão o magistério essas duas mocinhas? Como um sacerdócio? Quem pode exigir dessas mocinhas amor a uma vocação que não é a delas? Quem pode exigir dessas mocinhas que se imolem diariamente sobre uma pilha de cadernos por corrigir? Quem poderá exigir que amanhã essas mocinhas se entreguem ao exílio no interior? Quem?

E, no entanto, tudo isso será exigido de vocês, minhas caras professorandas. E, depois de amanhã, quando, a gosto ou contragosto, as crianças com suas peraltices houverem pintado de branco os cabelos de vocês; desenhado rugas nos rostos de vocês; quando os vossos rins não se dobrarem mais de tanto levantar meninos caídos nas brincadeiras de manja nos recreios dos grupos escolares; quando, reunirem vocês todas num salão quase vazio dos homens importantes que vocês à custa de caminhadas ao sol quente e à chuva e cheio de saudosas recordações; quando reunirem vocês todas num salão para homenagearem o professor, no dia do professor, vocês carregarão no mais escondido e secreto recanto de suas almas a tristeza de um eco de vozes distantes que encaminharam os passos de vocês para um caminho que, absolutamente, não devia ser o de vocês.