CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sábado, outubro 24, 2026

ANIVERSÁRIOS DE MANAUS

Duas datas da mesma comemoração, a festa de Manaus que, há 40 anos, era mais de um centenário, hoje - neste 24 de outubro - passa de três centenários e meio. 

Recorte do Jornal do Commercio, 24 outubro 1986
     

Manaus, com o status de cidade, está completando hoje 138 anos. Agora tendo aproximadamente 1 milhão de habitantes, ela surgiu da fortaleza de São José do Rio Negro, construída em 1669 pelos portugueses para impedir a invasão dos espanhóis que desciam da Cordilheira dos Andes e, já se aproximavam da região. A história, porém, é mais antiga e remonta a 1639, quando Pedro Teixeira tomou posse da região amazônica em nome da Coroa Portuguesa. Em 22 de junho de 1657, uma tropa comandada pelo cabo Bento Maciel Parente partia de São Luís do Maranhão para o sertão amazônico. Segundo o historiador Mário Ypiranga Monteiro, essa tropa aliciaria perto de 300 índios, e foi o primeiro grupamento de "homens brancos" a fixar-se na área onde hoje é a capital amazonense. Antes deles, ocupavam secularmente a região, os índios Manáo, Bares e Mura.

Post da Prefeitura de Manaus


Manaus 357 anos 

                    editorial do Jornal do Commercio, hoje circulado 

Manaus completa 357 anos, nesse 24 de outubro, envolta por uma névoa de fumaça que contrasta com a grandeza de uma metrópole de mais de 2,3 milhões de habitantes. A imagem remete ao início do século 20, quando a cidade ainda dependia do porto e da lenha, mas hoje abriga um dos maiores poios industriais do país e desafia distâncias continentais para garantir abastecimento, emprego e renda.

Cercada pela floresta e ligada ao Brasil e ao mundo por rios, estradas e transporte aéreo, a capital amazonense construiu uma logística singular, sustentada pela resistência de sua população e pela força de sua economia. Seu Distrito Industrial, o comércio e a diversidade de seus moradores fazem de Manaus uma das grandes capitais brasileiras. Mas a fumaça das queimadas, trazida pelos ventos de municípios amazonenses e até de outros Estados, impõe uma dura realidade.

A poluição altera a rotina, ameaça a saúde e obriga mudanças na programação oficial do seu aniversário. A comemoração, desta vez, precisa ser mais reservada, porque não há festa que justifique expor a população a um ar de qualidade instável. Manaus resiste ao tempo, à geografia e aos desafios logísticos.

Aos 357 anos, merece celebrar sua história, mas também cobrar respostas efetivas para que a fumaça não se torne parte permanente de sua paisagem. 


sexta-feira, outubro 23, 2026

CENTRO DE MANAUS - 1986

 Nas eleições de 1986, quando o prefeito de Manaus era Manoel Ribeiro

Jornal do Commercio, 8 outubro 1986

 O projeto de urbanização do centro de Manaus, planejado pela Prefeitura, está sendo considerado “altamente autoritário” pelos comerciantes e empresários que trabalham nas ruas Dr. Moreira e Guilherme Moreira. Eles se sentem prejudicados pelas obras do calçadão e ontem disseram que deverão entrar com um mandado de segurança contra a Prefeitura. Para os comerciantes além de serem ilegais, as obras estão trazendo prejuízos ao comércio local. “Uma obra desse tipo — disse o proprietário do Hotel Floriano, na Dr. Moreira, Waldilson Cruz — não pode ser decidida arbitrariamente desse jeito, só porque o prefeito resolveu, de uma hora para outra, humanizar a cidade”. O principal medo do hoteleiro é com relação aos turistas. Ele acredita que a obra assustará parte da clientela, especialmente nos dias chuvosos, quando haverá possibilidade de muita lama no local. Os comerciantes foram unânimes em ironizar a postura do prefeito Manoel Ribeiro. Eles lembraram que durante a campanha eleitoral o prefeito de Manaus prometeu administrar a cidade ouvindo as comunidades.

quinta-feira, outubro 22, 2026

CAMPANHA ELEITORAL - 1986


 Ao folhear jornais locais publicados na campanha eleitoral de 1986, destaquei este recorte do Jornal do Commercio: a atuação do governador Gilberto Mestrinho, conhecido por professor e Boto Navegador, entre outras alcunhas, em favor de seu indicado – Amazonino Mendes, que venceu ao Artur Netto.  

Alquimista 

 01 outubro 1986

Em campanha para fazer de Amazonino Mendes seu sucessor, o governador do Amazonas, Gilberto Mestrinho, diz que está apenas aquecendo as pernas para o próximo pleito majoritário, que espera enfrentar em maio do ano que vem. Ele acha que, nesse mês, estará disputando uma vaga de senador: Fábio Lucena, atual senador e candidato a uma das duas vagas disponíveis, se eleito vai renunciar ao mandato conquistado em 1982, juntamente com seus dois suplentes. O TSE deve marcar eleição para preencher esta vaga. Como Lucena é o favorito nas pesquisas, em 56 por cento de preferência, Mestrinho tem razão ao andar dizendo: — Estou pronto para a outra.

Será ele o candidato.

quarta-feira, outubro 21, 2026

CAMPANHA ELEITORAL

Estamos meio assombrados com a evolução da atual campanha eleitoral, em que os blocos de candidatos estão se digladiando de forma violenta, utilizando principalmente os meios virtuais. Recentemente, ao folhear jornais locais publicados há quarenta anos, ou seja, de 1986, destaquei recortes dessas edições para ilustrar esta postagem. Recordo que era período eleitoral, com a peleja pelo governo entre Amazonino Mendes (vencedor) e Arthur Netto. Assim como na corrida atual — em que Salazar apelidou Aziz de "capivara" —; na campanha de 1986 Amazonino comparou Arthur a um “curupira”. Também postei fotos de jovens candidatos, uns vitoriosos, outros, nem tanto, com destaque para o senador reeleito Plínio Valério.



Plínio Valerio - Jornal do
Commercio
- 1º outubro 1986


Jornal do Commercio, 1º outubro 1986

terça-feira, outubro 20, 2026

POLÍTICA DA FUMAÇA


Renato Mendonça

20.10.2026

 

Há momentos em que a fumaça deixa de ser apenas matéria suspensa no ar e passa a ocupar também o pensamento coletivo. O Norte do Brasil atravessa um desses momentos de reflexão. O céu escurecido não encobre apenas rios, florestas e cidades; obscurece igualmente a capacidade de discernir entre causa e consequência, entre acidente e intenção nefasta, entre fatalidade e projeto de destruição.

Enquanto a névoa cinzenta cobre a verdejante Amazônia, erguem-se perguntas inevitáveis: quem se beneficia quando a floresta arde? Quais os ramos empresariais podem se locupletar com essa ação? Os focos de calor vêm sendo monitorados por órgãos federais desde os primeiros meses do ano. A devastação acumulou milhões de hectares consumidos pelo fogo, mas a intensificação repentina — após o primeiro turno das eleições — das queimadas transformou a tragédia ambiental em algo maior que um desastre ecológico. Como toda grande fogueira, essa também projeta sombras políticas.

Não é a floresta que decide incendiar-se. Não são os rios que escolhem evaporar sob o calor das chamas. O fogo tem mãos criminosas. Possui combustível econômico e, muitas vezes, motivação ideológica. Por trás de cada coluna de fumaça há interesses que raramente aparecem nas fotografias aéreas divulgadas nos telejornais.

A floresta tornou-se, há décadas, um território onde se confrontam duas visões de mundo. De um lado, a compreensão de que a Amazônia constitui um patrimônio estratégico, ecológico e humano. De outro lado, a lógica predatória que enxerga árvores como obstáculos, rios como entraves burocráticos e a própria natureza como uma mercadoria provisória à espera de conversão em lucro. Isso já foi objeto no governo passado — vamos passar a boiada!

Nessa lógica, o fogo funciona como um corretor imobiliário primitivo. As chamas abrem caminho para a expansão de pastagens, valorizam terras apropriadas ilegalmente e preparam o terreno para atividades que prosperam na ausência do Estado. Onde a floresta desaparece, frequentemente surgem cercas e gados. Onde surgem cercas, aparecem títulos agrários, e ali alguém lucra. A Amazônia possui uma estranha capacidade de revelar o caráter dos homens e das ideologias. Alguns enxergam um organismo vivo e complexo, um pulmão do universo, que integra a soberania nacional; outros contemplam apenas como um balanço patrimonial ainda não explorado. E há um oportunista candidato à presidência que enxerga como uma matéria mercantil. 

A memória da Amazônia também guarda cicatrizes. Em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, o país assistiu ao chamado Dia do Fogo, quando propriedades rurais no Pará foram associadas a uma mobilização coordenada de queimadas que chocou o mundo. Mais do que um episódio criminal, aquele acontecimento revelou algo perturbador: a floresta não queima apenas pela ação do fogo, mas também pela combustão das ideias. Antes das chamas, costumam haver discursos que relativizam a destruição, enfraquecem a fiscalização e transformam criminosos ambientais em supostos pioneiros do progresso. O fogo raramente nasce sozinho; ele costuma ser precedido por uma atmosfera de permissividade ou favorecimento.

Também não pode ser ignorada a dimensão política da fumaça. Em tempos de polarização extrema, a tragédia converte-se rapidamente em instrumento de disputa. Imagens de destruição circulam pelas redes sociais como munição eleitoral. A dor coletiva transforma-se em propaganda política. A floresta queima e, simultaneamente, alimenta máquinas de engajamento — vemos em muitas redes bolsonaristas.

Contudo, reduzir o fenômeno a uma simples conspiração política seria insuficiente. O dinheiro continua sendo um combustível mais estável que qualquer ideologia. Em muitas situações, a ambição fala mais alto que a militância. O lucro imediato continua sendo o idioma preferencial daqueles que enxergam a floresta como mercadoria descartável. Mas os números das multas, os embargos e as prisões revelam apenas uma parte dessa tragédia. Existe uma contabilidade invisível que jamais aparece nos relatórios oficiais. Ela está nos pulmões das crianças, nos idosos que passam noites inteiras sem conseguir respirar, nos trabalhadores que atravessam a cidade sob um céu que parece permanentemente um entardecer.

Dias atrás, minha irmã Sônia, moradora do bairro dos Educandos em Manaus, relatou dificuldades respiratórias provocadas pela fumaça que dominava a cidade. Naquele instante, a discussão deixou de ser estatística. Tornou-se sanitária: busquei a reflexão. Toda nuvem de cinza possui rostos escondidos em seu interior. Talvez aí resida a dimensão mais perversa desse drama. Os que provocam ou estimulam a destruição respiram raramente o ar das vítimas — estão morando em outros centros ou outros países. As consequências distribuem-se socialmente de maneira desigual. O lucro concentra-se com os endinheirados; o sofrimento, não — fica todo para o proletariado.

Ao observar a Amazônia coberta por uma densa fumaça, torna-se impossível não perceber a ironia histórica. Os autoproclamados defensores da pátria — aqueles que militam no conservadorismo de direita e querem o poder — frequentemente demonstram disposição para vender justamente aquilo que torna o país singular diante do mundo. A floresta converte-se em moeda. A soberania transforma-se em slogan falso. O patriotismo, apenas em estratégia de marketing.

A fumaça que hoje cobre o Norte não é apenas resultado da combustão da madeira. É também a fumaça produzida pela ganância, pela irresponsabilidade e pelo fanatismo político. Ela sobe das árvores queimadas, mas nasce muito antes delas: nasce quando o lucro vale mais que a vida, quando a ambição vale mais que o futuro e quando o poder vale mais que o próprio país.

A tragédia contemporânea possui ainda outra camada. Enquanto brigadistas combatem incêndios na floresta, exércitos digitais se aproveitam para fomentar a guerra nas redes sociais. Fotografias de Manaus sob a fumaça e imagens da devastação passaram a circular massivamente como instrumentos de ataque político. É irrelevante a complexidade do fenômeno ou a multiplicidade de fatores envolvidos; a dor coletiva é convertida em material de propaganda. A fumaça torna-se argumento, a destruição transforma-se em conteúdo e o sofrimento da população converte-se em combustível para a polarização.

Nesse cenário, alguns grupos vinculados ao bolsonarismo procuram atribuir ao governo atual a responsabilidade pelas queimadas, ignorando tanto as investigações em curso quanto os interesses econômicos historicamente associados ao avanço da destruição ambiental. A floresta arde no mundo real, mas também nas trincheiras virtuais, onde a verdade é frequentemente a primeira vítima.

A cinza que cai sobre a Amazônia não é apenas resíduo vegetal. É o pó de uma consciência nacional que, agremiações políticas — factualmente, grupos ligados ao bolsonarismo —, parecem ter decidido incendiar o amanhã para lucrar no presente.

segunda-feira, outubro 19, 2026

MEUS OITENTANOS (22)

 

FASCÍCULO 22

         1981

A aventura prosseguiu com a viagem à capital peruana. Com o apoio funcional de um parente que trabalhava na Cruzeiro, adquiri passagens com desconto na condição de nacional. O vendedor aconselhou que eu falasse o mínimo possível para não ser identificado, não transportasse encomendas de terceiros e carregasse um agasalho, já que o inverno de Lima prometia chegar. No aeroporto de Iquitos – Francisco Secada Vignetta, inaugurado em 1979, embarquei no DC-3 ou 4 da Faucett Perú; ao tomar assento junto à janela aproveitei a paisagem para notar a transformação da selva em serras enevoadas dos Andes e, finalmente, as praias do Pacífico. Um amigo da família me recepcionou no aeroporto Jorge Chavez, na província do Callao, no domingo (26), antevéspera das “Fiestas Patrias”; e próximo do almoço ao chegar à casa onde me hospedei. Estava frio; o anfitrião, atencioso, ofereceu-me de imediato um copo de “leche del tigre”. A mim e ao jovem cicerone Carlos, que de pronto bebeu um largo gole; achei curioso um drinque temperado, contendo até cebola. Olhei para o Carlos e vendo sua desenvoltura, não duvidei, bebi ainda que com parcimônia. Não houve como escapar: a pimenta brotou por todos os poros e afugentou o frio. Desse modo, conheci o ceviche. Esclareço que o coquetel inicial nada mais era que o caldo desse prato.

Aeroporto de Iquitos (acima)
Bairro do Callao, onde se localiza o aeroporto
de Lima (abaixo)



Antes de deixar Lima, repassei algumas recordações aos amigos; porém, uma delas me afligiu: três jovens desejavam a única revista masculina Ele & Ela que dispunha. Resolvi aplicar uma solução salomônica: partilhei-a em três partes. Ao embarcar no aeroporto Jorge Chavez, fui assaz assediado para levar encomendas, mas, lembrando-me do conselho, cerrei os ouvidos. Em Iquitos, providenciei a passagem para Manaus, enquanto me despedia de tia Laura e dos primos Gil e Pepe e das primas Lita e Laurita. Meu filho Roberto havia permanecido em Tabatinga e, como não tivemos contato, eu desconhecia sua situação até o pouso do avião da Cruzeiro em Tabatinga. Ocupando o assento da janela, observava o embarque dos passageiros e, para meu prazer, vejo o filho na fila de embarque. Um amigo havia presenteado o garoto com a passagem. No dia seguinte ao desembarque em Manaus, compareci ao quartel para efetuar os registros de praxe; nessa ocasião soube que a corporação estava sob novo comando desde 04 de agosto.

O tenente-coronel EB Guilherme Vieira assumira a chefia, sendo o oitavo ocupante do cargo desde 1964. Aproveito para avaliar o desempenho da corporação, considerando a subordinação à Força Terrestre por quase vinte anos. O problema, entretanto, tinha contornos mais amplos: o movimento militar já dava sinais de enfraquecimento, indicando um distanciamento do Poder; como consequência, faltavam iniciativas no quartel, que passou a cumprir apenas rotinas. Para enredar ainda mais, no ano seguinte estavam marcadas as eleições para governador. Frente a esse cenário, o coronel Guilherme buscou se adaptar – desconhecia a região e os atores políticos locais – precisando formar uma equipe de oficiais que lhe oferecesse suporte. O comandante passou a residir em uma casa reservada à Polícia Militar, situada no Conjunto dos Secretários, próximo à rua Paraíba.

Entre as negociações imobiliárias que conduzi, comprei um apartamento no Conjunto ICA Paraíba, onde passei a morar, nas imediações da residência do comandante. Comecei esse processo vendendo a casa do Tiradentes, que ainda não estava totalmente quitada, mas situada fora do eixo central da cidade, distante do quartel central e de outros dois já existentes no bairro de Petrópolis. Além disso, a casa revelou-se excessivamente grande para um homem “solteiro”. Não me lembro se anunciei a venda, guardo apenas a lembrança do corretor Pantoja que, depois da negociação, tornou-se meu amigo. Ele tocou toda a transação, em 1981, a ponto de sequer ter conhecido pessoalmente o comprador. Sabendo de minha situação financeira, Pantoja propôs-me, em 1982, a compra de uma casa no Conjunto Santos Dumont, empreendimento erguido em 1980 que ainda carecia de infraestrutura básica, localizado na avenida Torquato Tapajós. O imóvel situava-se no cruzamento das ruas Comandante Theofilo Matos, 31, e Comandante Paulo Lasmar. Realizei esse negócio diretamente com a proprietária Elba Carvalho, solteira e funcionária do Tribunal de Contas, que demonstrou grande interesse no comprador, que renderia um casamento. Nesse endereço, ainda que por pouco tempo, passei a residir com a CVC.

domingo, outubro 18, 2026

POESIA DOMINICAL (49)

São dois poemas centenários de Jonas da Silva (1880-1947), circulados no Pathé Journal, inaugurado em 1921 em Manaus. As obras ilustram a edição de Natal de 1922, segundo ano de existência do periódico.

Pathé Journal nº 63, 25 dezembro 1922

Hoje, por ser domingo, eu de casa não saio,

Dando trégua ao labor, às lutas, à canseira:

Falo ao Alberto, o meu, não o Alberto Oliveira,

Proíbo-lhe o “foot-ball”, a rua, o “papagaio”.

 

-- “É nesta rua aqui, só na Treze de Maio”

Diz-me a Jandira – “Não! que é medonha a soalheira

(E os aviões de papel, uns, com a nossa bandeira,

Cruzam no ar, uns de “banda”, uns de “centro” e uns de “raio”...)

 

Ouço em cochicho os três e vem a pequenita,

É a caçula, é a que manda, é a que impera, é a realeza.

-- Ora deixe, papai, me diz a Sulamita;

 

Fosse a “mamãe deixava!” —Ó Força, Ó Tempestade!

Ó... essa razão final, que mata de tristeza,

                Ó argumento cruel que mata de saudade!... 

sábado, outubro 17, 2026

OLÍMPICO CLUBE

 O Olímpico Clube completa hoje, 17 de outubro, 88 anos de existência. Apesar de ter abandonado a prática do futebol, a agremiação segue com sua atividade social; com sua estimada e carnavalesca Kamelia. A foto que ilustra esta postagem foi extraída da coluna Bau Velho, de autoria do saudoso Carlos Zamith, circulada em A Crítica (19 outubro 1986).

 

A foto foi realizada quando Gilberto Mestrinho, ao centro,
era prefeito de Manaus (1956-58)

        Presto minha homenagem hoje, ao Olímpico Clube, fundado a 17 de outubro de 1938 (48 anos) ali no portão da residência nº 233, da José Clemente, bem ao lado do Caldeira, um bar frequentado por gente boa. Ali morava o despachante Eduardo Nogueira, mais conhecido por Dudu, e um dia, um grupo de rapazes que estavam insatisfeitos com o Rio Negro, decidiram fundar uma outra agremiação desportiva. Primeiro como Albatroz, depois como Olímpico Clube, denominação que recebeu exatamente no dia 17 de outubro de 1938, numa reunião bem movimentada, presidida pelo dr. Luiz da Cunha Costa, e secretariada por Armando Carneiro Barbosa.

O nome da nova agremiação – OLÍMPICO CLUB, foi aclamado por unanimidade. Presentes estavam, ainda, os sócios Gama e Silva, eleito tesoureiro, Hugo Guimarães, Jacques Levy, Raul Rocha da Silva, Candido Cumarú (Candú), Juin) Marques da Silva, Milton Monteiro, Osaki Soares, Manoel da Costa Novo, Antonio Maria Dias dos Santos, Joaquim Esteves, João Ricardo de Araújo, Salvio Miranda Corrêa, Adair Marques, Vicente Cetraro, Almir e Moacir Marques, Lezenildo Barreto (Gasolina), Mário Miranda, Ademar Marques, Arnóbio Valente, Tomaz de Carvalho, Dudu Nogueira e outros que mesmo ausentes foram considerados fundadores do clube.

        Carlos Zamith (parte do texto do colunista) 

sexta-feira, outubro 16, 2026

ELEIÇÕES NO AMAZONAS - 1958

 Para as eleições de 1958, naquela em que Gilberto Mestrinho (1928-2006) foi eleito para exercer seu primeiro mandato de governador, o acadêmico Ramayana de Chevalier (1909-72) escreveu a crônica aqui postada, analisando os políticos e suas manias. Circulada no Jornal do Commercio, em 25 de setembro de 1958, próxima de completar 70 anos, a análise de Chevalier continua presente, faltou-lhe observar – obviamente, por inexistir – o emprego da internet. Aquela eleição, em turno único, aconteceu em 3 de outubro (sexta-feira) e, por se tratar de contagem manual, a proclamação do resultado – por vários motivos – estendia-se por semanas.
Ramayana de Chevalier

ALEGRIA

Quando Frederico Nietzsche, do fundo de sua caverna lôbrega, afirmava que Jesus só pregava o amor ao próximo porque não conhecia a democracia, estava em transe de iluminação. A democracia é irmã gêmea da demagogia e esta, filha dileta do diabo.

O político profissional tudo promete, certo de que irá se manter com um milésimo do prometido. Sorri, como as figuras torvas do submundo parisiense: de esgar. Aperta mãos com a solicitude dos carteiros. Tira o chapéu quando o usa, como um mágico do palco, para que surja dele uma surpresa. E, nos comícios, alteia a voz com ênfase, numa coleção abjeta de lugares comuns que todas as bocas mentirosas já repetiram; inflama os olhos; suspende o dedo em riste como se agitasse um látego; submete-se a uma falsa atitude humilde, como se fora um servente obscuro da grande massa eleitoral. 

Quando ele defende uma tese social, quando está do lado do povo, aconselhando-o, pregando, doutrinando, então é feliz. Pode ser sincero. O seu entusiasmo é contagiante, é quase puro, é vivo e ardente. Sem o povo, ele falseia e mente, intriga e infama, apedreja e gargalha, cospe nas tradições e rasga os cânones mais nobres da espécie.

O político profissional é uma pobre criatura que tem que se defender do seu maior inimigo: o eleitor inconsciente. Este é o verdugo e a vítima. Sente-se enorme às vésperas do pleito, como sabe que é um verme, no resto do tempo. E quando não possui a consciência cívica, gloriosa e alta, que lhe empresta o poder seletivo, o condão de escolher, então rasteja e sacode-se como um chacal. Pretende escravizar moralmente o político, como este o maneja socialmente. O eleitor inconsciente só vê uma coisa às vésperas do pleito: o seu interesse. Insinua, difama, toma dinheiro, ou empavona-se em chefete, procura dirigir o candidato, absorver-lhe a atenção, empolgar-lhe a atividade, arrastá-lo para si como um joguete sem vontade e sem critério. E engendra despesas imaginárias como um Einstein, inventa contas como um botequineiro.

Disse-me o meu amigo Ruy Araújo, brilhante candidato a deputado federal, que, se fossem verdadeiros os livros de fichas eleitorais que apresentam esses forjadores de fantasmas, o eleitorado amazonense seria maior que o de São Paulo. Se o político profissional é algo de sórdido, o eleitor profissional é muito mais sujo. E chato. 

No fundo, ele vota num interesse, não vota num homem. E alicia a opinião do povo humilde, com a esperteza de uma víbora. Tenho alergias por estes sacripantas. O seu contato me é nefasto. Creio no povo, modesto e bom, que enche este mundo. Se os pleitos eleitorais se passassem com elevação, sem arreganhos, sem cachaça e sem demagogia, então valia a pena tentar-se a defesa de uma tese social, de uma doutrina política sadia. 

Quando vejo um desses eleitores profissionais aproximando-se de mim, arrogante ou de sorriso número cinco a tiracolo, tenho vontade de mandá-lo para o lugar aonde Pilatos mandou o inventor do sabonete. 

Tenho uma invencível vontade de trabalhar pela minha gente, de dar de mim pelos humildes do nosso Estado. Mas o processo me constrange. Gostaria que tudo se passasse entre pessoas conscientes, entre almas compreensíveis, entre vocações patrióticas definitivas. Se, para ser político, é preciso abdicar de tudo isso, então já não contem comigo. Sou alérgico ao cinismo.


quinta-feira, outubro 15, 2026

MEUS OITENTANOS (21)



Fascículo 21 

 1981

Ingressei naquele novo ano com a vida profissional em acentuado declínio, visto que, apesar de integrado numa seção do comando-geral, me encontrava no “corredor”, no jargão militar. E, na vida sentimental, ocorria outra turbulência. Fui transferido para os Bombeiros, porém, a maior complicação foi me desentender com o comandante-geral – coronel Wilson Raizer; o episódio mais grave foi minha presença na inauguração do quartel em Itacoatiara acompanhado de funcionárias civis. Em coisa nenhuma prosperou minha explicação: agi na condição de divorciado, disse-lhe; todavia, o comandante era evangélico convicto, por isso, não adiantaram minhas explicações. Outro disparate: Raizer costumava visitar a residência dos oficiais; quando comunicou a visita à minha família, reagi de forma descortês, ao cancelar a recepção alegando minha formação católica.  E mais. O inferno prosperava na Auditória, com a demanda que poderia me excluir da Polícia Militar. Para agravar, outra adversidade: a família de meu pai mudou-se da residência no Tiradentes para a rua Urucará, 1181-B, na Cachoeirinha, subúrbio com amplos recursos e ocupar uma casa que, apesar de geminada, dispunha de mais conforto. Intentei me manter na minha casa, para isso contratei alguns reparos, o principal foi a construção de mais um quarto, que não passou dos alicerces.

A bordo do catamarã, era
julho, e fazia friagem

Para usufruir as férias de julho, consegui com o governo passagens de barco para Tabatinga; segui em companhia do meu filho Roberto.  Saiu numa quarta-feira a excursão, que durou uma semana, pois era a viagem experimental do protótipo de embarcação, tipo catamarã, encomendado pelo governo Lindoso, e carecia conhecer o beiradão. Além da maleta, ao embarcar, reuni dois livros e os quatro jornais diários. Acomodado em um beliche, viajava com mais privacidade. E o catamarã subiu o rio Solimões, demorando-se em cada sede municipal, a fim de exibir a embarcação. A cada dia, após o café, com os mesmos jornais, me abancava na popa do barco, onde plagiava a leitura. Mas sempre se achegava um passageiro pedindo emprestado o jornal, para ler seu horóscopo; afastava-se sorridente com o diário, para logo voltar tristonho me recriminando pela desatualização do matutino. Passei aquela semana sem conhecer qualquer notícia do país, dada a inviabilidade de sintonizar o rádio – o único meio de comunicação – naquele fim de mundo.

Durante o trajeto conheci um negociante de Tabatinga que, muito prestativo, nos acolheu – a mim e meu filho Roberto – ao final da viagem. Ao atingir a cidade de Benjamin Constant, entrei em contato com a guarnição policial local, que me prestou uma acolhida calorosa. Afinal, na semana seguinte, ao atravessar o rio Solimões, desembarquei em Tabatinga. Decidi alcançar Iquitos, no Peru, na transição entre o Solimões e o Marañon – rio considerado a cabeceira do rio Amazonas – e consultei meu amigo, que me informou tratar-se de uma viagem efetuada apenas pela FAP (Força Aérea Peruana) em hidroavião. E me repassou instruções: não existe horário fixo – os voos chegam e partem imediatamente; o embarque ocorre no flutuante em Santa Rosa, já em território peruano na margem oposta; o pagamento é realizado nesse próprio flutuante e é obrigatório esperar ali pela chegada da aeronave. Enquanto aguardava o transporte, comi e bebi à vontade, como os demais passageiros. O avião chegou cerca das quatro horas da tarde, o embarque foi rápido e, após a decolagem, a tripulação informou ser impossível chegar em Iquitos. No ar, começou nova aventura para eu alcançar a pátria de meus antecessores peruanos. 

Roberto filho (à esq.) na travessia de Benjamin
Constant para Tabatinga, com direito à "segurança"

    O problema não estava em alcançar Iquitos, mas na proibição de aquela aeronave pousar – única alternativa – no lago Moronacocha, em razão da cor escura da sua superfície; o toque era autorizado até às dezessete horas, informou a tripulação. No entanto, passageiros brasileiros, estimulados pelos aperitivos, tentaram subornar aos militares, oferecendo uma contribuição coletiva. Nada feito. Pouco depois o avião aterrissou no leito do rio Marañón, próximo ao ancoradouro de um pelotão do Exército, que nos conduziu de lancha até a cidade de Pebas, então um lugarejo “perdido na selva”, desprovido de local para acomodar aproximadamente vinte passageiros e, para resumir a penúria, a energia elétrica foi desligada às 22 horas. Dormi bem, em razão do meu estado etílico e do silêncio que tomou a cidade; não reclamei do colchão, nem das carapanãs (mosquitos). De manhã, fui cobrado pela hospedagem; felizmente o cruzeiro (moeda brasileira) estava valendo bastante no câmbio. Até paguei a parte de um brasileiro que – sem grana – seguia a Iquitos para “aventurar a vida”. Enfim, cerca das 10 horas, o hidroavião de fabricação canadense me apresentou à cidade dos meus precursores.

domingo, outubro 11, 2026

POEMA DOMINICAL (55)

 

Circulado em Jornal do Commercio, 28 março 1955


            Senti de perto, bem de perto

o drama dilacerante de tua vida.

Acompanhei, no silêncio prolongado

de minha dor,

a noite angustiosa, sem alvoradas,

que cercara os teus últimos dias!

O teu destino se fizera um látego

e te suplicou

impiedosamente...

Mas, como foste grande em teu padecimento!

Como soubeste contar as tuas lágrimas

que deveriam queimar tua face pálida,

transfigurada pelo sofrimento...

Acompanhei teus dias sem sol,

tuas noites sem estrelas...

Senti a angústia de teu isolamento...

No entanto, volvendo o olhar

às brumas do passado,

a esse passado de sonhos e de rosas

eu te revejo, na tortura

de uma evocação comovida,

como sendo a nota musical

de pompeante alegria, que se fora,

para nunca mais voltar!...

 

Eras alegria!

A alegria de muitos corações!

Flor que desabrochou entre carinhos

– como um sonho de ternura –

Eras a flor da bondade,

eras a flor da alegria...

 

Teus dias de luz,

teus dias de festa!

Tudo fugira como por encanto!...

Porém, o teu sorriso costumado

jamais deixara de aflorar aos teus lábios

sentidos!

Foste grande! Foi grande e inquietador

teu estoicismo. Eis porque tu tiveste

a serenidade quase angélica

quando a hora final do alto te acenou

e tranquila a Jesus tua vida deste

na tragédia da dor!...

sábado, outubro 10, 2026

PRINCÍPES JAPONESES EM MANAUS

Na comemoração do cinquentenário da imigração japonesa na Amazônia, estiveram em Manaus os príncipes herdeiros Akihito e Michiko, quando visitaram as colônias japonesas das rodovias AM-010 e AM-070. Era junho de 1978, e eu estava no comando da Companhia de Rádio Patrulha, por isso, fui incluído no forte esquema de segurança. Segui com a comitiva para a colônia no km. 14 da Manaus-Manacapuru, quando a viagem começava com a travessia por balsa até o porto de Cacau Pirera. Nunca esqueci a atitude de reverência prestada pelos japoneses mais idosos, sempre de cabeça baixa, sem olhar diretamente o príncipe. 

Recorte de A Crítica, 24 junho 1978


Com a preocupação de não serem divulgados os horários, o príncipe Akihito e a princesa Michiko do Japão iniciam às primeiras horas da tarde de hoje a última etapa da visita oficial ao Brasil, passando cerca de 20 horas em Manaus. A atividade mais demorada que os príncipes herdeiros deverão cumprir nesta capital será o encontro de 30 minutos com a comunidade japonesa no Parque de Exposição da Estrada “Manaus – Itacoatiara” à altura do km 14 ainda na tarde de hoje.

Akihito e Michiko estão sendo esperados procedentes de Belém com uma comitiva de 26 membros e um cuidado especial quanto ao esquema de segurança, principalmente durante o encontro com membros da colônia japonesa, quando a exemplo do que ocorreu em Salvador os príncipes podem ser tentados a quebrarem o protocolo.

De acordo com a programação elaborada eles recebem os cumprimentos ainda no aeroporto internacional “Eduardo Gomes” seguindo então para o Tropical Hotel, na praia da Ponta Negra e dali para o Palácio Rio Negro onde serão recebidos pelo governador Henoch Reis. Do Palácio seguem para o quilômetro 14 da estrada “Manaus-Itacoatiara”, onde está instalado o Parque de Exposição da Colônia Japonesa. À noite, Akihito e Michiko serão recepcionados pelo governo estadual com um jantar no Tropical Hotel.

Ali estão previstos dois pronunciamentos: o do governador Henoch Reis saudando os hóspedes reais e destacando a contribuição japonesa para o desenvolvimento da região; e do príncipe herdeiro do Japão. Amanhã está prevista uma visito ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia — INPA, onde os príncipes poderão tomar contato com as experiências realizadas pelos técnicos do órgão envolvendo aspectos peculiares da região tanto em fauna como em flora. O viveiro do peixe-boi, espécie em extinção, será a atração principal. Akihito e Michiko ainda retornem ao hotel para depois, então, dirigirem-se ao aeroporto partindo com destino aos Estados Unidos. 

Anúncio do BASA circulado no Jornal do Commercio,
25 junho 1978

 

PMAM EM MANACAPURU

 

A evolução do policiamento no município de Manacapuru: em 1966, por decreto de 2 de junho, foi estabelecido o efetivo de um oficial, um cabo e quatro soldados, chamado de "destacamento", quase sempre conduzido por oficial ou sargento da reserva. Em julho de 1978, foi criada a 3ª Companhia Independente, cujo primeiro comandante foi o capitão Ronaldo Toledano, que assumiu em 28 de agosto daquele ano. No entanto, para a construção do quartel, a municipalidade doou um terreno dois anos antes, em setembro de 1976. Hoje, a cidade abriga o 9º Batalhão de Polícia Militar, localizado a avenida Manoel Urbano, bairro da Terra Preta.

Nota circulada em Jornal do Commercio, 26 setembro 1976