CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quinta-feira, junho 11, 2026

PMAM - CEARENSES NO COMANDO (2)

 A postagem expõe a segunda parte do trabalho sobre os oficiais nascidos no Ceará que estiveram no comando da Polícia Militar do Amazonas.

4. Camillo de Lellis Pacheco Amora - coronel PM graduado

19 outubro 1901 – 13 agosto 1902 (interino) 

Oriundo da capital cearense, onde nasceu em 15 de julho de 1863. Não há registro de quando desembarcou em Manaus, porém, sua iniciação maçônica ocorreu em 11 de dezembro de 1886, aos 23 anos, na Loja “Amazonas”. Dois anos depois, ingressou na Guarda Policial do Amazonas, como alferes (06 jul. 1888); e seguiram as promoções: tenente (29 ago. 1891); capitão (26 abr. 1892); major (1º nov. 1897) e tenente-coronel (29 out. 1898).

Algumas funções exercidas na corporação: capitão fiscal do 2º Batalhão (1897); ajudante de pessoa de governador Silvério Nery (1900 e 1904); comandante interino. Diversas atividades políticas: superintendente (prefeito) de Fonte Boa (1896-97); de Coari (1902); de Floriano Peixoto (1903 e 1905).

Casado com Raimunda Amora, era pai de Honorina e Marina Amora, nascidas na capital amazonense; estas jovens eram formadas em Odontologia pela antiga Universidade de Manaus, atual UFAM, e possuíam gabinete cirúrgico-dentário localizado na Praça dos Remédios, 5. Também se notabilizaram pelo ensino de piano e canto, diplomadas pela Escola Normal e Conservatório de Música do Amazonas.

Inexiste, todavia, foto e data do falecimento deste oficial nos arquivos da entidade. 

 

5. Pedro Vidal de Negreiros - capitão PM

07 outubro 1910 – 12 junho 1912 

Embora oficial intermediário, este capitão assumiu de fato o comando da corporação em face de um acontecimento marcial, que atingiu o governo do Estado. O episódio é conhecido na historiografia amazonense por “Bombardeio de Manaus”, ocorrido em 10 de outubro de 1910 (data singular: em 10.10.10). No entanto, a 7 desse mês o comandante titular foi reformado (diagnostico: arteriosclerose). Face à ausência do governador Antonio Bittencourt, a situação do Estado estava caótica, tanto que foi o desembargador Benjamin Rubim, no exercício do cargo de governador, que nomeou para o comando do Batalhão, em 28 de outubro, ao capitão Pedro Vidal de Negreiros.

Negreiros era natural do Ceará, filho de João Antônio e de Liberalina Barroso Vidal de Negreiros, nascido em 19 de maio de 1874. Foi incluído na Força amazonense como alferes em 08 out. 1896; tenente em 04 ago. 1898; capitão em 15 maio 1900. Tão logo assumiu o comando da corporação, foi promovido a tenente-coronel em 1º de novembro de 1910 e, finalmente, coronel enquanto exercia a chefia, em 26 de janeiro de 1911.

Deixou o comando no ano seguinte, mas permaneceu residindo em Manaus, onde veio a falecer aos 41 anos, em 30 de novembro de 1915. Encontra-se sepultado em jazigo existente na Quadra 09 e SP 7869 do cemitério São João Batista. 

6. José Onofre Cidade - coronel PM          

22 dezembro 1912 – 21 janeiro 1913 

Ilustre natural do Ceará, filho de José Joaquim Cidade Filho, nascido em 1875, a comandar a Polícia Militar do Amazonas, ainda que para tanto tenha promovido um festival de subversão da ordem. Sua inclusão na corporação aconteceu em 1896, na condição de soldado. Em 1899, foi promovido a 2º tenente; em 1903, 1º tenente; em 1908, capitão; em 1911, major; em 1912, tenente-coronel e coronel. Finalmente, agraciado com uma distinção incomum: funcionário público vitalício, em dezembro de 1912.

A questão primordial que o conduziu ao comando teve início com a eleição regional, que elegeu Jonathas de Freitas Pedrosa (1848-1922), a tomar posse no primeiro dia de 1913. Os vencidos na eleição, as vivandeiras políticas bateram no portão do quartel da Praça da Polícia. Atendidas, conseguiram aliciar alguns oficiais que, descontentes por motivos que nunca faltam em quartel, fizeram acontecer. Escolhido pela oficialidade, Cidade constituiu um triunvirato – com os majores João Fragoso Monteiro e Amâncio Clementino Fernandes – que, a 22 de dezembro, assumiu o comando da Força Policial, e, seguidamente, escorraçou o governador Antônio Bittencourt, em fim de mandato.

A insurreição perdurou por 48 horas, com o estado “governado” pelos oficiais insubmissos. Movimentação judicial oportuna pôs fim ao movimento, porém, na Praça da Polícia, a corporação prosseguia sob o comando do rebelado coronel Onofre Cidade. Empossado, o governador Pedrosa obviamente deparou-se com a Força Policial desestabilizada, fracionada e sob enormes suspeitas. Logo, em 23 de janeiro, promoveu a reorganização da corporação, expurgando os elementos sediciosos e nomeando novo comandante. Coronel Onofre Cidade faleceu em sua residência, em Manaus, a 1º de dezembro de 1936, aos 61 anos.

terça-feira, junho 09, 2026

PMAM - CEARENSES NO COMANDO

 No curso desta pesquisa certa indiscrição me conectou ao número de comandantes nascidos na província, hoje Estado, do Ceará. Trata-se do maior número de oficiais oriundos do mesmo torrão até a implantação do Governo Militar (1964), e óbvio que, após a Democratização, predominam os amazonenses. Vamos aos eleitos – são 11 –, alguns com acentuados registros, outros nem tanto. Esclarecendo que o acervo corporativo guarda quase nada, em particular dos primeiros que sequer legaram suas fotografias. Exponho o nome, o posto militar e o período de comando. Farei três postagens. 

Afonso de Carvalho

1.       João José de Aguiar - civil

    19 maio - 26 de julho 1880    

                 

Em 19 de maio de 1880, consoante a Portaria 162, Aguiar foi nomeado “cidadão comissionado no posto de major” comandante da Guarda Policial do Amazonas. Na verdade, trata-se de capitão da Guarda Nacional, por isso constitui no primeiro paisano a exercer esta função na Polícia Militar do Amazonas. Episódio semelhante ocorreria oito décadas depois, com a nomeação do advogado Francisco de Assis Albuquerque Peixoto, cujo comando exerceu no triênio 1959-62. Quanto ao primeiro, a corporação quase nada registra a seu respeito, afinal o lapso de tempo na chefia perdura até 26 de julho, exatos 67 dias! Deveras curtíssimo. Pode ser um dos muitos voluntários da Guerra do Paraguai que foram enviados para o Norte, para serem empregados pelo governo provincial.

Um apontamento indica ter nascido na província do Ceará, em 16 de junho de 1840; em outra fonte, ter migrado para o Amazonas e aqui servido como “escrivão da recebedoria provincial”, antes de alcançar a primazia de comandar a Guarda. Mais detalhes: nesse ano de 1880, Aguiar exercia o mandato de vereador da capital e, nessa condição, assinou a Ata de inauguração da Santa Casa de Misericórdia, em 16 de maio. Dias antes de ser escolhido para o comando da Guarda.

Catando aqui e acolá, foi-me possível montar o seguinte quadro: o comandante Aguiar casou-se com Idalina Alves de Aguiar e teve os filhos: João, José, Carlos e Beatriz. Com a morte dele (possivelmente em Manaus), a viúva e os filhos passaram à condição de pensionistas do Montepio Provincial, benfeitoria depois mantida pelo Estado. Tanto que são encontrados na lista de beneficiários com a pensão mensal de 50$000 (cinquenta mil-réis), em maio de 1905.

 

2.      Antônio Nunes Sarmento - alferes da Guarda Policial

31 janeiro - 04 fevereiro 1882 (interino)

                                        

Natural de Fortaleza (CE), nascido em 1861, era filho de Porfirio Nunes Sarmento, e possuía cabelos pretos e media 61 polegadas, cerca de 1m55. Antes de ingressar na Guarda Policial prestou serviço militar, tendo “sentado praça” em 4 de setembro de 1879. Logo na semana seguinte foi promovido a 2º sargento e, em 24 de maio de 1880, alcançar a graduação seguinte.  Em 31 de janeiro de 1882, é nomeado alferes da Guarda Policial e “presta juramento”, ocasião em que “entra em exercício” e assume interinamente o comando da Guarda. Deixa o comando quatro dias depois. Recolhi duas notas: uma boa – seu casamento com Joana Batista de Paula Sarmento, em 26 de novembro do mesmo ano. Outra, péssima – em 15 de janeiro de 1883, quase ao completar um ano na corporação, foi “demitido por conveniência do serviço”.

 

3.      Raymundo Afonso de Carvalho - tenente-coronel PM

08 agosto 1892 – 23 julho 1896

 

Nascido em Fortaleza, em 7 de setembro de 1862, Afonso de Carvalho foi um dos tantos nordestinos vitoriosos no Amazonas. Ainda em na capital cearense, ingressou no Exército em 1880, sendo transferido para Manaus quatro anos depois, para servir como soldado do 3º Batalhão de Artilharia a pé. Licenciado da Força Terrestre, foi incluído no Corpo Policial (hoje PMAM) na vaga de alferes-secretário, em 1887. Não mais parou. Ainda major, foi nomeado comandante da corporação, quando prestou apoio incomensurável ao governador Eduardo Ribeiro (maranhense), em luta contra forças federais que buscavam sua deposição. Promovido a tenente-coronel em 13 de outubro de 1893, Afonso de Carvalho permaneceu no comando do batalhão policial.

Retirou-se de Manaus depois de comandar o Regimento Militar do Estado no governo de Eduardo Ribeiro (1892-96) e de exercer a superintendência (prefeitura) de Manaus (1895-96), antes de assumir este encargo, foi aposentado no posto de coronel; foi Provedor da Santa Casa de Misericórdia e presidente da Sociedade Beneficente Cearense e, ainda, comandante superior da Guarda Nacional (1901-02). Pertenceu à Loja “Esperança e Porvir”, tendo sido seu Venerável em 1897. Eleito deputado estadual foi, na condição de seu presidente, chefe do Poder Executivo (1907-08), sucedendo ao governador Constantino Nery. Morreu no Rio de Janeiro em data desconhecida. A despeito de tanto sucesso, Afonso de Carvalho ainda não auferiu qualquer reconhecimento da Polícia Militar do Amazonas.


segunda-feira, junho 08, 2026

FAST CLUBE - INAUGURAÇÃO

 Em 7 de julho de 1968 foi inaugurada a sede do Nacional Fast Clube, construída no então Boulevard Amazonas, hoje sede de uma igreja evangélica. O empreendimento causou admiração em Manaus pelo curto prazo cumprido na sua construção. A proeza coube ao saudoso Ezio Ferreira, que ainda dirigiu o Rio Negro Clube e exerceu o mandato de deputado federal. Concluindo, afirmo que estive presente à festa.

Recorte de A Crítica, 8 julho 1968


POMPOSA festa marcou ontem a inauguração da sede própria do Fast Clube. Às 17 horas, o governador do Estado que há 73 dias lançou a pedra fundamental da sede, presidiu a solenidade de inauguração da obra, perante autoridades civis, militares, representantes da Imprensa, do Rádio, do Clero e centenas de populares simpatizantes do clube tricolor.

— ESCUDO DE BRONZE

No salão de festas reuniram-se as autoridades sempre cercadas de centenas de populares. Enquanto todos assinavam seus nomes no Livro de Ouro, novos discursos surgiram saudando o feito fastiano. Um grupo de moradores do Boulevard Amazonas, simpatizantes do Fast Clube, aproveitou a ocasião para entregar ao presidente Ezio Ferreira o escudo do referido grêmio, trabalho em bronze.

— COQUETEL

Com um conjunto de música jovem executando números musicais, as autoridades acercaram-se da mesa para se servirem de frios e salgadinhos. Porém nem todas estavam servidas e centenas de populares tomaram conta do local e em poucos minutos a mesa, que era um mundo de frios nada mais apresentava senão pratos e bandejas vazias. Autoridades e dirigentes não levaram a mal o ocorrido, deixando por conta da satisfação que invadia cada torcedor pela inauguração da sede. 

domingo, junho 07, 2026

POLÍCIA MILITAR EM CHARGE

 Ao tempo em que o jornal A Crítica festejava os 30 anos de circulação, o chargista João Miranda aproveitou a Polícia Militar do Amazonas em seus trabalhos, obviamente observando a atuação dos policiais, nem sempre elogiosa. A postagem reproduz quatro dessas artes gráficas para melhor entendimento.

A Crítica, 4 abril 1979

Edição de 30 abril 1979

Edição de 19 maio 1979

Circulada em 19 abril 1979


POEMA DE DOMINGO (8)

 O tema - Cometa Halley - que prometia fazer uma passagem de primeira pelos céus, fez tantos programar, adotar seu nome para algum empreendimento, quiçá, nome de algum terráqueo, resultou em fiasco. O poema de Ulysses Bittencourt (1916-93) expressa a desventura. A postagem foi extraída da coluna do Clube da Madrugada inserida em A Crítica, 05 maio 1968.  

Ulysses Bittencourt


Distante e solitário em seu passeio universal,

O cometa de Halley mata o tédio

Sonhando em descansar um dia, como se possível fosse.

E viajando se distrai na escolha do local

Melhor para a hipótese.

Tem-se detido mais em nosso flutuante

Planeta,

Passando menos veloz; assesta seu olhar percepção

E dentre mares profundos, regiões saturadas de gente,

Vastos gelos eternos,

Vê do alto um grande trecho uno, igual e ameno

Talvez laje de jade verde estriado de amarelo e marrom,

Nem mais nem menos antigo reino mítico

Das Amazonas guerreiras, onde agora pessoas morenas

Vivem, pensam, convivem e tem direito a um fim,

que acabar também faz parte, acha o Cometa cansado.

Nem aos escritores Carlos Araújo Lima

E Affonso Romano de Sant'Anna

Nas alturas de Nova Friburgo permitiu ser apresentado;

Só uma fumacinha. Nem mesmo à querida amiga

Elza Assis Bastos, que o viu bem de perto

Em 1910, no Rio de Janeiro, deixou-se ver senão

Em pequena nuvem, embora continue ela com boa vista.

Na anterior passagem, o Cometa luminoso apavorou os

Terráqueos, passando longe, após duas guerras de extermínio. 

Mesmo assim atravessaram-no, pela cauda, com um artefato

Intrigado, prossegue em sua rota celeste,

Sem entender porque no meio de tanta vantagem divina

Homens disputem, se matem, firam, roubem, tenham medo,

Sem captar, da vida a força

O tempo breve e o sentido,

Nem o valor do privilégio. 


sábado, junho 06, 2026

ACIDENTE COM AVIÃO DA FAB

O fato aconteceu há quase 60 anos, na manhã de 21 de julho de 1968, quando um avião da Força Aérea chocou com a cruz existente na torre da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios. A postagem traz a pequena informação que o periódico consultado divulgou.  

Jornal A Crítica, 22 julho 1968

O ERRO 

UM ERRO de cálculo do major piloto Leal Soares, foi quase fatal ao “mini jato” da FAB, de prefixo TF:7-1307, que no sábado último improvisara uma rasante nas imediações da Praça dos Remédios. O avião, na descida, bateu numa cruz ao alto da torre da igreja dos Remédios, danificando-a parcialmente, enquanto que a parte da asa atingida foi projetada ao meio da rua Leovegildo Coelho, sobre um automóvel Simca.

O jato a muito custo conseguiu atingir o aeroporto, onde o major Leal Soares e o tenente Cavalcante tentaram uma aterrissagem quase forçada, de vez que o aparelho pendia demasiadamente para o lado da asa quebrada.


sexta-feira, junho 05, 2026

PAVILHÃO UNIVERSAL

 Este monumento da cidade já andou por ceca a meca; inaugurado na praça da Matriz, em frente ao Banco do Brasil, ali viu passar a Manaus de ontem. A reforma do prefeito Teixeirão deportou o Pavilhão. Agora ele se encontra no entroncamento em frente ao antigo Hotel Amazonas. Todavia, acabo de encontrar este registro,aqui postado, em que o Pavilhão esteve na área em frente à EE Ribeiro da Cunha. 

Recorte de A Crítica, 30 abril 1979

A Empresa Amazonense de Turismo — EMAMTUR —pretende instalar uma Escola Cultural no Pavilhão onde funcionou a coordenação do carnaval deste ano, na Praça do Grupo Escolar Ribeiro da Cunha. Ainda este mês também poderão ser inauguradas as primeiras lojas do Centro de Artesanato, que está sendo construído no Reservatório do Mocó (antiga Caixa d'água).

O presidente Italo Bianco disse ontem que o abandono do pavilhão vinha em decorrência dele ter assumido recente a direção da EMAMTUR. No entanto, ele já manteve contato com o governador do Estado e ficou acertado que o Pavilhão, que foi instalado pela Prefeitura, ficará totalmente sob a direção da EMAMTUR.

Pretende Italo Bianco realizar atividades culturais e de turismo.

— Não temos ainda um projeto definitivo. Mas, o pavilhão será aproveitado para desenvolver uma série de opções turísticas e culturais, similares a uma Escola Cultural.

A Empresa Amazonense de Turismo também está voltada para o Centro Artesanal. Prometeu o Italo Bianco entregar ainda este mês as primeiras lojas. As obras já foram reiniciadas.

— Estou bastante empenhado para inaugurar as primeiras lojas do Centro Artesanal ainda este mês. Já conseguimos apoio integral do governador José Lindoso. Talvez inauguremos as primeiras lojas e depois o restaurante.


terça-feira, junho 02, 2026

SEMINÁRIO SÃO JOSÉ DE MANAUS (2)

 Reunidos hoje, quatro ex-seminaristas - Ludolfo, Vital, Encarnação e eu - visitamos o Seminário atual, porque somos oriundos daquele que existiu no cruzamento das ruas Emilio Moreira e Ramos Ferreira, na Praça 14. O Reitor padre Pedro nos recebeu e nos levou a conhecer as nova instalações. Voltei a prometer a mim e ao Seminário uma publicação de sua história.

Contei aos colegas que Manoel Bessa Filho, que foi sacerdote, porém, falecido Juiz de Direito, acolheu uma crônica que escrevi em complemento a dele - Alma Mater -, e tive o privilégio de vê-la publicada em seu livro Jornal Velho (2001). 

Transcrição

28 maio 1998

Roberto Mendonça

 

Nossa última crônica mereceu um “fax”, cujos principais tópicos transcrevo.Começou assim: “Ao Manoel Bessa Filho, autor de Alma Mater”, e continuou:

“A minha saudação de quase padre do Seminário São José. Verdade mesmo é que na quinta-feira [21 maio], sem atentar para a efeméride, li sua crônica. E obviamente me senti recompensado. Aliás, perdoado em parte do pecado que acolhi sobre os ombros, ao prometer na posse como membro do IGHA [Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas] escrever a história do SSJ [Seminário São José]. Não desprezei o projeto, mas o tempo nos impõe... Não compareci ao café regional, porque não fui alcançado com o convite. Pouco importa, o SSJ vive comigo onde cheguei no ano de 1956, pelas mãos do cônego Antônio Plácido de Souza, vigário de Constantinópolis, aquele que fazia rima de ‘peito das moças com buzina de automóvel’.

Possuía apenas 10 anos, e com essa idade, como saber de vocação sacerdotal? Certo mesmo, é que estudei, estudei todo o seminário menor... fui educado na melhor das escolas de Manaus. Talvez por isso compreendia quando as pessoas me viam como um jovem correto, de princípios religiosos e familiares. Enfim, era um bom casamento, e foram três, até o presente.

Houve um momento extravagante na vida: a substituição da batina pela farda militar. Diria que a permuta ocorreu na forma literal, quando o graduado me determinou que tirasse a roupa para os exames físicos. Mas o constrangimento foi superado, e pude aventurar-me como oficial da Polícia Militar, em uma quadra da vida nacional movida a “ordem unida”. Então, foi a sopa no mel. Mas, e o Seminário?

Ainda voltei lá, mesmo depois de fardado com o caqui da Polícia. Aquela casa me deixava leve, me permitia recolher como ex-votos as questões profissionais que me assacavam. Recordava então dos Poemas para Rezar do padre Michel Quoist [1921-97] (desculpe se claudico com a memória), que rezava missa depois de ler os jornais, para orar pelos problemas sociais que a cidade produz.

A casa da rua Emílio Moreira, 601, gerou muitos filhos: o padre Onias Bento, contemporâneo de Tiago e Pinto. O padre Puga Barbosa, cujo pai, Nicanor Puga, foi maestro da Banda da Polícia Militar O padre Luiz Souza, meu colega da turma de 1956. Os advogados Raimundo Melo, João Bosco Pereira e Miguel Langbeck. Alguns chegaram ao judiciário, Ary Brandão de Oliveira, na Justiça Federal, e Cristóvão Alencar, na Promotoria Pública local. O médico e ex-prefeito de Boca do Acre, José de Oliveira Costa, cujo irmão Antonio Costa, foi coronel comandante do Corpo de Bombeiros do Acre. Há ainda o empresário Flaviano Guimarães e o professor da UA [UFAM], que foi candidato a governador pelo PT, Osvaldo Gomes Coelho.

Grato pelas palavras saídas do homem que aprendeu a lição da vida sacerdotal. Que se atualiza a cada dia, a cada gesto, a cada desafio, e fez gravar com vivo fogo na reminiscência da Cidade da Barra de São José do Rio Negro que o sesquicentenário do Seminário do mesmo santo vive e se perpetua.

Ab imo pectore 

Roberto Mendonça 

Obs. O Manoel Roberto é hoje coronel reformado da PM, membro de nosso IGHA, um dos maiores pesquisadores nacionais sobre “Canudos”. E o latinório final quer dizer: “do fundo do peito, ou do coração”. Obrigado, Mané Roberto, ab imo pectore, também.

segunda-feira, junho 01, 2026

MEUS OITENTANOS (5)

 FASCÍCULO 5 

Ao retornar à casa paterna, percebi minhas dificuldades de relacionamento com o sexo feminino. Para quem havia passado a adolescência exclusivamente entre rapazes, faltava-me habilidade para encetar uma conversa afetiva com as garotas. Todavia, tive um aprendizado célere, muito por iniciativa delas. Eu tinha consciência de que não tinha muitos predicados, mas sabia que o respeito que me dedicavam provinha de ser o único adolescente no nosso bairro com o curso médio completo e, ademais, havia o fato de ter estudado em colégio de padres, onde o ensino era respeitável. Assim, os namoricos foram se sucedendo, naquele tempo estimulados pelos recados portados por amigas ou parentes. Há uma sessão de bons episódios vividos nessa fase da vida.

Rua Amazonas, 29 - Morro,
casa da família

 Certa ocasião, fui “convidado” para efetuar a pintura da casa da dona Hilda — uma enfermeira que tinha uma linda filha, Graça, de 15 anos —, que residia ao lado dos irmãos. Na hora do almoço, sentado à mesa, ocorreu-me um desacerto com o irmão dela, Marivaldo. Este, em ofensiva vingativa, atirou-me um carretel de esparadrapo vazio e me provocou um corte no supercílio. O problema não foi apenas curar o ferimento, mas criar uma explicação em casa e para a vizinhança.

Em outra oportunidade, aconteceu quando namorava a jovem Rosendalva do bairro de São Lázaro — muito próximo do Morro da Liberdade —, e lá meu irmão Antônio também frequentava. O percurso era realizado a pé, percorrendo uma íngreme ladeira de terra. Certa noite, ao chegar à praça da Igreja antes dele, percebi alguns jovens se articulando para promover um susto aos namoradores de fora. Quando meu irmão chegou, alertei-o sobre a minha suspeita e combinamos caminhar normalmente até a “cabeça” da ladeira. Ao atingirmos esse ponto, foi uma de “pernas para que te quero”, uma desenfreada corrida noturna até em casa. — Fácil para quem conhecia o trajeto e todos os buracos no chão de terra batida, mesmo pouco iluminado.

Narrando mais um fato:  a minha primeira namorada chamava-se Glória, simpática jovem da minha faixa etária. O nosso caso de amor seguia bem até que levei o primeiro “chifre”, quando a doce amada se interessou pelo vizinho, o xará Roberto. Quando ele arrumou outra namorada, perdoei a Glória e resolvi ficar com ela até meu ingresso na Polícia Militar. Nessa época, o chamego estava restrito a “amassos” prudentes, pelo temor de uma gravidez, pois o uso da pílula anticoncepcional estava em fase incipiente.

No ano de 1965, partindo do Morro da Liberdade, ia até o NPOR (27° BC) em condução militar. Havia um certo contratempo em usar um veículo do Exército, o que me levou a aceitar o convite do cabo Osmar da Silva, integrante do corpo administrativo do Núcleo militar, para residir em seu quitinete. Explico a residência: era apenas um quarto de uma estância de madeira nas proximidades do quartel. Ele era alfaiate e vestia-se bem. Aproveitando-me da sua cordialidade, passei a usar suas roupas. Não desconfiei de sua solteirice, até que numa noite, fui convidado a me deitar ao seu lado, e percebi sua homossexualidade. No dia seguinte, depois do expediente, voltei para casa. Porém, acabei entendendo sua opção sexual, mas combinei que cada qual teria sua liberdade, sem laços afetivos. Ali, para mim, era mais prático, residindo no bairro de São Jorge, próximo ao quartel. Essa proximidade possibilitou ao colega do NPOR, Osório Fonseca, me dar carona numa sexta-feira — 3 de junho de 1966 —, com a aprazível notícia de que eu havia sido nomeado oficial da Polícia Militar. O Diário Oficial do dia anterior havia publicado o decreto 512, nomeando-me ao posto de 2º Tenente da Polícia Militar, assim como a metade da turma Ajuricaba.             

Ingresso da turma 1966 na PMAM, posando na
Praça da Polícia. Autor assinalado. 

Osório orientou-me a comparecer ao quartel da Praça da Polícia na segunda-feira, dia 6 de junho, indicando o Café do Pina como ponto de encontro da turma. Confesso que passei o final de semana cheio de dúvidas e inquietações: seria verdade? Respondi a mim mesmo: se for, está ótimo, estou ocupado com algo que havia aprendido. Mas, se for um trote, que desventura. Acreditando na veracidade da informação, no dia marcado, vestido com a domingueira, após deixar o ônibus, caminhei em direção ao ponto indicado. Ao cruzar a Praça da Polícia, fui me esgueirando pelas árvores buscando os companheiros, até que... lá estavam eles. Após reunidos, adentramos no até então desprezível aquartelamento, de onde eu saí 30 anos depois.

No dia seguinte, visitei a alfaiataria da corporação para as medidas do fardamento, que logo foi confeccionado em caqui — uma cor que alcunhávamos de “cor de burro quando foge” — e logo conheci o quartel do Piquete, na rua Dr. Machado, uma construção centenária. A publicação do boletim me classificou para a Companhia de Comando e Serviços, ao lado do tenente Ilmar Faria, sob comando do capitão Pedro Lustosa. Prontamente reservei uma cama e um armário no alojamento, e dessa maneira abandonei o muquifo de São Jorge e passei a residir no centro de Manaus.

Experimentei inovações comportamentais, algumas estranhas para mim, como receber continência de idosos praças, com idade para ser meu pai, e por todos eles ser tratado por senhor. Afinal, aos 20 anos, eu me constituía em um dos mais jovens policiais, diante da escassa procura pela polícia “meganha”. Ao final do mês, recebi o primeiro salário — 90 mil cruzeiros —, julguei-me um marajá. No mês seguinte, fui nomeado comandante do Pelotão de Choque — criado por deliberação interna e logo desaparecido, o primeiro existente na PM. Estranhei a minha escolha devido à minha pequena estatura e porte físico franzino — 1,63m e 49kg. Considerava-me incompatível diante de corpulentos subordinados. No desfile do Dia da Pátria, assemelhava-me a mascote do pelotão, inclusive portando uma pistola cedida pelo comandante. O mês de setembro daquele ano me trouxe notícia alvissareira: o governador Arthur Reis aprovou o código de vencimentos, elevando o soldo da tropa: passei a receber 300 mil cruzeiros mensais, três vezes mais do que recebia ao ingressar.

Na condição de comandante do Pelotão de Choque, no final de setembro fui designado delegado especial da Ilha da Marchantaria — uma porção de terra que hoje integra o município de Iranduba, defronte a Manaus, e está sujeita ao alagamento pelo rio Solimões. Recebi a incumbência de proteger o rebanho bovino do senhor José (Zeca) Nascimento, destinado a abastecer a cidade. Tornei-me tenente responsável pelo gado que, vindo do período de estiagem, devastava as roças e os pomares dos moradores. Regressei da ilha após quinze dias e retomei as atividades da caserna, cujo dia começava com o desfile matinal na área externa, contornando a praça e passando diante do Colégio Estadual do Amazonas, no qual havia alunos de ambos os sexos. As alunas rapidamente notaram a nova leva de oficiais, mas foi na praça Ribeiro Junior, atrás do quartel, que encontrei a namorada Maria das Graças Souza, que residia no Edifício Lilac com a mãe Edna e a irmã Mary, o genitor era comerciante em Porto Velho.

Aquele setembro foi de fato marcante, quando Manaus recebeu o integrante da Jovem Guarda, Roberto Carlos. Fui escalado para garantir a condução do cantor pela cidade. A chegada ocorreu no aeroporto de Ponta Pelada – hoje Base Aérea de Manaus – sob espantoso entusiasmo dos fãs. O antigo campo de pouso obrigava os passageiros a caminhar até o local de desembarque. Por isso, aguardei o cantor à porta que, vendo a multidão, me pediu em rápido diálogo que o protegesse devido à deficiência de seu membro inferior. Naquela noite, ele cantou no Circo Americano, na Praça 14, e no Cheik Clube.

Recorte de folheto comemorativo
dos meus 70 anos

No final do ano, celebrei as principais conquistas: o ingresso e a moradia no quartel, além do namoro com a jovem Graça Souza. O ano novo, 1967, já mostrava certo incremento na corporação em razão das ações do Governo Militar. Em fevereiro, obteve vagas para cursos no Rio de Janeiro; fui designado para o de manutenção de armamentos, cuja escola funcionava em Deodoro, subúrbio carioca. Essa opção trouxe à lembrança a minha guia de sorte. Com a matrícula encaminhada, restou-me apenas arrumar a mala, despedir-me da família e da namorada, para a minha primeira viagem de avião. Acompanhado do tenente Odacy Okada, embarquei em 28 de fevereiro — dia da implantação da Zona Franca de Manaus —  no quadrimotor Douglas DC-4 da VASP, excessivamente ruidoso, mesmo assim, eu seguia radiante diante das inovações. O voo partiu de Manaus às 8 horas, chegou em Brasília por volta do meio-dia, almocei e embarquei novamente rumo ao Rio de Janeiro. (segue)

domingo, maio 31, 2026

POEMA DE DOMINGO

     O poema deste domingo - Margem do Caminho - é criação do saudoso Álvaro Maia (1893-1969) publicado no jornal A Crítica, em 03 de fevereiro de 1958.

      
Recorte do jornal
 
    

                        — I —

O lutador subiu a estrada tortuosa...

Subiu, andou, pioneiro de horizontes,

cortados de planícies e de montes,

de longes de ouro e rosa,

colorindo a paisagem... 

Chegara extenuado da viagem

e repousava à sombra da vertente,

que amenizava a soalheira ardente... 

                        — II —

Sentou-se. Ergueu as mãos, no recanto risonho,

para agradecer ao Senhor

e o consolo da vida interior... 

Aos ombros carregava o alforje do passado,

que lhe tombou ao lado.

Abriu-o, devagar,

e pedras rolaram pelo chão. 

Brilharam ao sol quebrado,

algumas verdes como o mar,

outras letais como o pecado,

com brilhos de atração e repulsão. 

Acariciou-lhes as pontas entreagudas.

Pensou em gólgotas e judas,

(Jesus, porque foi homem, teve Judas!),

e nos que escondem, num sorriso,

punhais de aço com os gumes entreabertos. 

                        — III — 

Fechou os olhos e sorriu,

imerso no dulçor de um grande rio... 

Sonhos, ilusões, gosto e desgosto,

fluíram das pedras, como flama.

(Passam sempre nos dias de quem ama).

Esta acertou-lhe o rosto,

rasgando carne e derramando sangue,

outra o peito, outra a cabeça,

mas todas pingando sangue.

Surgiram, pela estrada espessa,

carrancas de inimigos

e feições de amigos,

transbordando crueldade

e piedade... 

Vivos e inquietos na tremenda luta,

lembravam vinganças e alvoroços. 

— “Só o lutador errou, pela escalada...

Mostrámos o caminho: errou na caminhada,

embaraçado em dédalo infernal,

em queda estranha e bruta... 

Andámos com razão em apedrejá-lo,

como se faz ao cão danado e ao mau cavalo!” 

                        — IV — 

Ele ouviu, em silêncio, a ameaça fatal

e pediu que o Céu lhe desse um resplendente halo,

que todos, fossem velhos, fossem moços,

fugissem, de uma vez, às vibrações do mal. 

Queria dormir... Pegou as pedras, uma a uma,

e bebeu um verdor de sumaúma... 

Eram duras à fronte fatigada?

Deitou-se. Não! Ganhara um encosto macio,

tecido de paina e espuma,

próprio para o calor e para o frio... 

Sentiu que as pedras se mexiam,

ouviu que as pedras cantavam,

como preces de luz em manhã clara... 

Todas as bordoadas e castigos,

o sangue e o suor que derramara,

transformaram-se em pêndulos dum hino,

em bússola e em coragem nos perigos... 

Renasceu, redimido e pequenino...

Quase lhe saltava o coração,

aureolado em sol aos que o feriram... 

E teve o prêmio da consolação,

agradecido aos que o insultaram,

vilipendiaram

e vergastaram,

saqueando o património de uma vida,

mas lhe deram também, em horas sem concórdia,

a alta conquista da misericórdia,

a sobrevivência

e a resistência,

a humilhação

e a exaltação,

a força espiritual de nova Vida!