CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, setembro 06, 2026

POEMA DOMINICAL (13)

 O poema é de autoria do saudoso poeta Alencar e Silva, e circulou em O Jornal, circulado em 15 de dezembro de 1962. Na véspera, ocorreu um acidente fatídico em Manaus: a queda do Constellation PP-PDE, da Panair do Brasil, matando todos os 52 ocupantes.

  

Recorte de O Jornal, 15 dezembro 1962

NESTE BARCO PASSAGEIRO

                                                                        ALENCAR E SILVA


Neste barco passageiro

mal disposto a viajar

eu me invento rotas novas

rotas de nunca chegar 

marinhando esse meu gosto  

acre e ázimo de mar

vou-me impondo amargas provas

sem com elas me importar 

que este barco de noturnas

solidões vai-se a errar

sob luas e astros doidos 

que os bem sei como inventar

quando embarco e ao barco imprimo

rotas de nunca chegar.

sábado, abril 29, 2023

POEMAS DO SÁBADO

 Compartilho a produção de dois poetas amazonenses - Alencar e Silva e Luiz Bacellar - encontrada no Jornal Cultura, circulado em outubro de 1982. 




segunda-feira, maio 31, 2021

ALMIR DINIZ & O CHÁ DO ARMANDO

Almir Diniz, falecido na semana passada, participou com entusiasmo do Chá do Armando, a extinta entidade etílica-filosófica, que se reunia à cada sexta-feira, para dialogar motivada pelo uísque (chá) e os petiscos fornecidos pelo saudoso Armando de Menezes, daí a pomposa designação.

Morto o fundador e patrocinador, Diniz bem que intentou refazer o grupo e o papo de cada sexta. Foram poucas as novas oportunidades, porém. Desse modo, quero lembrar com a postagem destas fotos os apetitosos encontros chazistas.

Há promessa para um breve  reencontro, para solenizar os dois primeiros membros desta confraria. Descansem em paz!

Confraternização no Ideal Clube (acima e abaixo)


A grande mesa da residência de Anísio Mello

Logo da agremiação

Local de fundação: Academia de Letras


domingo, setembro 20, 2020

FOLHINHA DE SETEMBRO

Notas recolhidas da folhinha de setembro: muito antes, este instrumento cronológico indicava nomes de recém nascidos. Hoje, vou me lembrar desses bem nascidos.
Alencar e Silva

21 de setembro

1916 – Nasce em Waupés, hoje São Gabriel da Cachoeira (AM), Arthur Gabriel Gonçalves, filho de Graciliano Lopes Gonçalves e de Olívia Palheta Gonçalves, e casado c/ Maria da Penha Araújo Gonçalves. Graduado pela Faculdade de Direito do Amazonas, na turma de 1942. Foi desembargador do Tribunal de Justiça do Amazonas, empossado em 20 de abril de 1956, e presidente do TJA em 1960 e 1971.

1916 – Nasce em Manaus (AM), o desembargador Oyama César Ituassú da Silva.

1917 – Reorganizada a Força Policial, atual Polícia Militar do Amazonas, por disposição da Lei 916, subscrita pelo governador Jonathas Pedrosa, com um efetivo de 530 homens.

1930 (há 90 anos) – Nasce em Fonte Boa (AM), o escritor Joaquim Alencar e Silva. Fundador do Clube da Madrugada, tendo dirigido por dez anos a página literária do clube. Foi diretor presidente do Diário Oficial do Amazonas, onde criou o Suplemento Literário. É membro da Academia Amazonense de Letras e de sua obra poética poderiam ser destacados: Painéis (Manaus, 1952), Lunamarga (Manaus. 1965), Território noturno (Rio, 1982). Sob Vésper (Manaus. 1986), Sob o Sol de Deus (Manaus. 1992), Ouro, incenso e mirra (Manaus, 1994) e Solo de outono (Manaus, 2000).  Ainda póstumo: Quadros da Moderna Poesia Amazonense (Manaus, 2011). Faleceu no Rio, em setembro de 2011. 

Um bandolim passeia pela tarde 

Um bandolim passeia pela tarde

de carnaval. No olhar de Colombina,

ao longe, alheia-se um Pierrô. É tarde

para escutar-lhe a música divina.

Tudo ficou naquela antiga tarde.

O som da voz e a música em surdina

se esvaindo. Uma vela que em vão arde

e bruxuleia e, trêmula, se fina.

A mascarada rompe de repente

cindindo a tarde com seus sons quebrados.

E ao ar se eleva com seu ritmo quente

o som pagão dos corpos orquestrados.

E eis que o verão arrasta, em vivas cores,

Anas, Teresas, Conceições, Dolores.

22 setembro

2001 – Abertura da exposição de fotografias George Huebner – um fotógrafo em Manaus, no Centro Cultural Palácio Rio Negro, patrocinada pela Secretaria de Cultura, com apoio de entidades culturais e particulares. A mostra foi montada pelo Museu de Etnologia de Genebra, na Suíça, e durou até 28.10. Estive presente, representando o IGHA, que foi um dos colaboradores. 

 

domingo, maio 03, 2020

MOMENTO CULTURAL

Alencar e Silva


Após tantas mortes e outro tanto de desavenças, aproveito o domingo para expor o poema Convite, de Alencar e Silva (1930-2011), lembrando-nos o amor conjugal. E mais, temos o poeta no traço do artista Anísio Mello e com apresentação de Arimathea Cavalcanti.


domingo, dezembro 29, 2019

DESPEDIDA DO "CHÁ DO ARMANDO" (2)


Segunda parte do texto que eu li em homenagem póstuma ao acadêmico Armando de Menezes, em 13 de outubro de 2017, na Academia Amazonense de Letras. Dei-lhe o título de Último Chá do Armando.


Duas palavras pessoais
Armando e Ivete, no jantar
dos 80 anos dele, na residência
do Anísio Mello - 2006
Conheci a família Menezes quando frequentei o Seminário de Manaus, por intermédio do padre Jorge Normando, já se passam 60 anos. A frequência à casa da família permitia, diante daquela fartura, aos seminaristas tirar “a barriga da miséria”, ainda que cometendo o pecado da gula. Depois encontrei Dr. Armando espaçadamente no Tribunal de Contas, tendo sido ele quem sacramentou meu processo de aposentadoria. Enfim, o IGHA nos irmanou. E o Chá aprofundou esse convívio, tanto que partiu dele o mais rematado incentivo para que eu me candidatasse à uma vaga na Academia Amazonense de Letras. Convindo declarar que não a conquistei, somente pela minha desídia e meu desajeitamento. Subsistiu outro motivo, contudo, cuja confidência trocada entre mim e ele no Chá idealino, persistirá sob segredo.

Derradeiro Chá
Nesta noite solene, na Casa de Adriano Jorge soleníssima, o Chá do Armando chega ao final. Curiosamente, onde começou. É o momento, caro “presidente” Aguinaldo Figueiredo, de encerrar este ciclo, esta fase, que não se alimentou unicamente de rega-bofes. O Chá soube oferecer estímulo aos seus integrantes, apoio financeiro para publicações, e até pequena produção literária; iniciativas que servem para bem alumiar essa nobre caminhada.
Quando Anísio Mello completou o primeiro ano de morto, o Chá recordou muito bem o velho chazista. Em reunião especial, lembrou dele a cortesia e o anseio em muito produzir, como de fato produziu em vários segmentos de arte. Produção, lamentavelmente, esquecida. Daí o título que lhe cravamos, o de Multiartista. Mesmo sem CNPJ, inauguramos o selo Chá do Armando edições, com o livro – Convite à Poesia (Manaus, 2011), publicado em vassalagem ao Anísio Mello.

Alencar e Silva + Armando,
no Chá, ainda na Academia
(2004)
Depois veio – O Chá do Armando: em prosa e verso, que prestava “um tributo ao sumaúma Armando de Menezes”. Produzido pela “editora” coletando dos frequentadores qualquer produção literária. A terceira obra – Armando de Menezes, com o subtítulo: alegria da sexta-feira, quando amigos se encontram (Manaus, 2012), tem uma pequena história. Nela saudamos os 90 anos do patriarca, porém, como demorou a impressão, a peça foi ampliada para registrar a morte prematura do poeta chazista Sérgio Luiz Pereira. Ainda assim, voltou a emperrar. Então, morto o fundador do Chá, restou a “boneca” desta terceira obra, cujo exemplar passamos às mãos da Dona Ivete Menezes, que saberá promover seu melhor destino.
Encerro, convocando aos detentores desta marca, aos chazistas de carteirinha a retomarmos à mesa-redonda, à salutar reunião de sexta-feira. Revitalizá-la, seja com novo slogan, seja com renovado mote, isso é desafiador. Afinal, devemos caminhar com nossas pernas, amparadas pelo nosso bolso; praticar a cortesia e a elegância como fomos tratados, como fomos incentivados, sem olvidar dos xingados nos bons momentos.

Estrela Armando
Agora, deixemos a estrela do Dr. Armando de Menezes circular pelo espaço sideral. Certamente, sempre às SEXTAS estará nos convocando para o festivo encontro, ocasião em que haverá de nos brindar com um apaideguado olhar estelar.
Seja qual for a galáxia em que estiver.
Até à eternidade!

PS
Logo do Chá
Devo reconhecer, a memória já me causa dificuldades: estava rebuscando este texto para a impressão final, quando me ocorreu haver esquecido duas paragens onde o Chá fez pouso excepcional. Uma delas, na minha residência, à rua Igarapé de Manaus. (Num falei!). A outra foi na residência do Miguel Angel (Miguelito), simpático peruano, que devido sua inscrição internacionalizou o Chá do Armando. E aconteceu após um desconcerto na Mansão dos Quadros, Miguelito (artista plástico) acolheu o pessoal na rua Frei José dos Inocentes, ao lado do IGHA, onde morava. Aconteceram dois ou três encontros. E eu estive em um deles.
Bom, na minha residência, à rua Igarapé de Manaus, aconteceu uma reunião. Realizada em novembro de 2009, quando abraçamos o Sergio Luiz pelo seu aniversário.
Tá feito o conserto.
Roberto Mendonça

domingo, outubro 27, 2019

FEIRA DE ARTES PLÁSTICAS (2)

Foto de O Jornal, 29 dezembro 1963

Realizada a Feira de Artes Plásticas em 24 de dezembro, o Clube da Madrugada aproveitou o Suplemento com o qual brindava o público aos domingos para agradecer e avaliar seu trabalho. Assim, na edição de O Jornal de 29 de dezembro, pode-se ler o editorial com a gratidão aos colaboradores, e adiante o julgamento elaborado pelos dirigentes da página literária, sob a direção de Aluízio Sampaio e redação de Alencar e Silva, Arthur Engrácio, Elson Farias e Jorge Tufic. 
MANAUS, 29 de dezembro de 1963
 Não obstante o tempo inseguro, com frequente ameaça de chuva, penumbra e chuvisco, levou-se a bom termo a I FEIRA DE ARTES PLÁSTICAS DO AMAZONAS, promovida pelo CLUBE DA MADRUGADA e colaboração da Prefeitura Municipal de Manaus, a título de complementação aos festejos do ciclo natalino deste ano. A feira se estendeu por todo o dia 24, desde as 5 até às primeiras horas do dia 25 do mês em curso, apresentando uma amostra, profundamente significativa, do trabalho a que, um grupo de pintores em Manaus, se vem devotando.
Trabalhos de artistas já conhecidos, pela série de exposições a que têm participado, inclusive fora do nosso Estado, como Getúlio Alho, Moacir Couto de Andrade, Álvaro Páscoa, Afrânio de Castro e Paulo D'Astuto, trabalhos a que se juntaram outros cuja presença é-nos grata registrar, posto ser um sinal do revelação, plena e viva e sobretudo dinâmica dos novíssimos Simão Assayag, Gualter Batista e Jacquemont (sic) Cantanhede.
Vários aspectos podem ser vistos e estudados, após essa amostra. Mas aqui, gostaríamos de ressaltar a força de vontade e o trabalho, até mesmo o braçal podemos dizer, da equipe que rasgou de vencida certa apatia e certas promessas incumpridas em relação à I FEIRA. Todavia, temos certeza, o trabalho foi realizado e realizado nos seus planos mais justos e válidos, como sejam o de ter arrancado o povo de sua rotina para a contemplação, a meditação e a crítica, dos elementos que constituem as preocupações do nosso grupo.
Resta-nos agora pensar em novas feiras. É essa a maneira positiva de viver, agitar as consciências, despertar vocações. Resta-nos também agradecer aos jornais matutinos e vespertinos que não regatearam esforços a fim de dar à Feira uma cobertura noticiosa, sem a qual, vale ressaltar, não teríamos tido a soma volumosa do resultado obtido. Agradecer aos intelectuais, professores, médicos, estudantes que visitaram e comentaram a Feira. Agradecer ao povo que lá acorreu, oferecendo-nos a força e a riqueza do seu prestígio e atenção. Até breve, com a próxima feira de artigos de cultura.

Manchete do Suplemento do CM, circulado no citado jornal

REALIZOU O CLUBE DA MADRUGADA, dia 24 último, encerrando o calendário de suas atividades no corrente ano, a I FEIRA DE ARTES PLÁSTICAS DO AMAZONAS, promoção que se coroou de pleno sucesso, pela receptividade que encontrou em todas as camadas de nossa população. Milhares de pessoas a visitaram. E teve o nosso povo, de modo amplo, oportunidade de tomar conhecimento do trabalho que seus artistas vêm desenvolvendo nos mais diversos gêneros das artes plásticas. Teve a feira, sobretudo, a feliz oportunidade de revelar à nossa sociedade, ao nosso povo, novos e autênticos valores, artistas que pela primeira vez participaram de uma mostra, revelando-se, de pronto, como expressões seguras de talento.
Colaboraram para o êxito dessa promoção, colaboração que muito agradecemos, a Editora Sérgio Cardoso, a imprensa amazonense, a Prefeitura Municipal de Manaus e a secretaria de Educação e Cultura.

Vale salientar, igualmente, que, objetivando documentar a envergadura e significação dessa iniciativa, o Departamento Cinematográfico do Clube da Madrugada, sob a direção do clubista IVENS LIMA, filmou, em cores, a grande mostra coletiva, podendo adiantarmos que o referido documentário brevemente será exibido num dos cinemas da cidade.
Foi, sem dúvida, uma iniciativa que alcançou plenamente os seus objetivos. Daqui para a frente, outras “Feiras” serão montadas nos diversos pontos da cidade, esperando o CM contar, como desta vez, com o indispensável apoio das mesmas entidades acima referidas.
Do sentido desta promoção diz bem o boletim que distribuímos no local e que reproduzimos a seguir:

Obras expostas
I FEIRA DE ARTES PLÁSTICAS DO AMAZONASEsta FEIRA – primeira no gênero a se realizar em nosso Estado – tem por finalidade maior, entre as muitas que poderíamos apontar, a do estabelecer uma aproximação mais estreita entre o público e a obra de arte, como primeiro passo para o diálogo direto do artista com o povo, com a comunidade em que vive. Trata-se, portanto, de um processo de informação e formação cultural. E é desse processo — eficaz, sem dúvida — que o CLUBE DA MADRUGADA lança mão no seu empenho do promover a culturização das massas, levando diretamente ao povo o trabalho de seus artistas, de seus poetas, de seus escritores. (Agora mesmo, na semana que passou, acabamos de promover, com relativo sucesso, a Semana do Livro Amazonense.) É um trabalho do pioneirismo, sujeito, por isso mesmo, a vicissitudes e incompreensões. Um trabalho, porém, que não nos cansa, por ser ele a forma de atuação que preferimos. Anima-nos, sobretudo, ao levarmos ao povo esta Primeira Feira de Artes Plásticas, a convicção de realizarmos um trabalho válido não só para a plêiade de intelectuais que a lidera, como também para o Povo, expressão legítima dos anseios do progresso espiritual de uma comunidade a todo instante capacitada a
reivindicar seu lugar no processo histórico brasileiro.
Trata-se, em suma, de mais uma semente lançada, ao que esperamos em terra fértil. Uma semente que inaugurará, sem dúvida, uma nova fase, um instante de clara significação para o aplainamento das dificuldades de uma comunicação efetiva entre o público e a criação artística.

CLUBE DA MADRUGADA

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

JORGE TUFIC (1)


A morte de Jorge Tufic prossegue, é compreensível, ressoando. Desse modo, fui em busca de compreender sua importância para a literatura regional, quando se resume sua participação apenas como o autor da letra do Hino do
Jorge Tufic, 2011
Amazonas. Longe disso, sei.
Para chegar mais longe, recorri ao saudoso poeta Alencar e Silva, que produziu uma consistente apreciação sobre o autor de Varanda de Pássaros (1956), e inúmeras obras em prosa e verso. 
Vale recordar, antes de transcrever Alencar, que a Universidade ressurge em Manaus, no meado dos 1960. Que as agremiações estudantis agregavam os jovens poetas e prosadores, cuja atividade desagua, grosso modo, no Clube da Madrugada, estreado em 1954. E mais, que alguns clubistas (Alencar e Tufic, entre esses) ali embarcaram com o afã de romper esses grilhões.

Jorge Tufic viveu essa desconcertante estação da vida manauara, em todos os aspectos. Seu amigo Alencar e Silva resumiu esse estágio no capítulo intitulado “As Tendas do Caminho”, constante de seu Quadros da Moderna Poesia Amazonense. Manaus: Valer, 2011.   
“
Jorge Tufic trouxe, efetivamente, para o meio cultural em que foi transplantado uma contribuição genuína de semente caída em terra fértil. Essa lhe foi, por certo, a circunstância decisiva. Não houvesse uma espécie de determinismo cósmico que, somado ao estado de ebulição e inquietação da juventude, move as gerações contra as estratificações e a ordem estabelecida, fazendo-as avançar sempre mais - é certo que esse estado de coisas se prolongaria e, no caso, o poeta ficaria a ver navios... Mas, não.

No primeiro a passar ele embarcou. Como bom fenício. Como bom marinheiro. Como descobridor de novas terras.
Foi assim também que, movido pela sede de desconhecido, ele empreendeu as suas primeiras viagens de adulto — eis que, quando infante, já viajara pelo Acre e rios da região e experimentara, de algum modo, o pânico e os dissabores de um naufrágio em que a família perdera tudo.
Foi em 1951 e 1953 que se realizaram aquelas viagens — ou caravanas, como as denomináramos — em que demandamos os brasis sulinos, no afã de superar as angustiosas contingências locais, que a ausência de universidade superlativara, encurralando a juventude entre a debandada e a aceitação pacífica de status quo.”

O poema abaixo, inserido no mesmo capítulo, ilustra a análise de Alencar sobre Tufic.

POSSÍVEL SONETO À DALVA

Dalva, o seu nome. O resto, uma cidade
e nela o meu orgulho. Uma janela
e Dalva no ar de sonho que flutuava
sobre tudo; um vapor, uma agonia!

Deu-se então, como às vezes acontece,
o inevitável: mágoa? Alumbramento?
Foram ver-me no quarto. E que tristeza
havia que eu não via em meu semblante?

(Que balões de mil cores pela noite
pintados pela febre!) O doutor veio
e disse: muito doente. Atrás do vidro

a imagem redourada de uma lua
— igual a um forno — e nele o fogo brando
como Dalva em meu peito, a consumia.

(De Varanda de Pássaros – 1956)

“E aqui se fecha o círculo iniciado a partir daquelas tendas que o poeta vem erguendo pelos caminhos. E onde, enfileiradas ou suspensas no ar, esplendem as preciosidades trazidas do reino”, remata Alencar e Silva.

quarta-feira, dezembro 13, 2017

LUIZ BACELLAR: LEMBRANÇA

Luiz Bacellar, o poeta que abominava tal designação ou título, morreu há cinco anos. Para quase exato: em setembro de 2012. E, segundo se observa, nunca mais se ouviu notícias sobre a Frauta de barro dele. Desse modo, Bacellar morreu.

Luiz Bacellar (1928-2012)
Parece-me coincidência: o desaparecimento da Livraria Valer pouco depois da morte do autor de Sol de feira, onde o mesmo detinha “cadeira” e cantinho cativos, acelerou este esquecimento. Tem mais. De onde também se poderia esperar alguma manifestação, a Academia de Letras não mais se preocupou com os seus mortos. A exemplo de Bacellar, o óbito de Anísio Mello, outro poeta e artista múltiplo, já completou sete anos. Não se registra qualquer manifestação.

Deste modo, ao rebuscar velhos papeis, alcancei este artigo do professor José Seráfico escrito por ocasião da perda do amigo Luiz Bacellar. Cujo lavor, o saudoso poeta Alencar e Silva (em Quadros da Moderna Poesia Amazonense) associava Bacellar “como que à corporação dos artífices auxiliares da Criação”.

Gregoriano canto, que, em precisa
Cadência, vai ecoando em cada peito:
Deixai-nos descansar: tudo está feito.
(Frauta de barro, 1963)

Compartilho o artigo de Seráfico, sacando-o de A Crítica, edição de 11 de setembro de 2012.   




Quem teve a felicidade de conhecer Luís Franco de Sá Bacellar captou a precisão da expressão de um de seus colegas de letras: poetas não morrem, encantam-se. Foi o que aconteceu no último domingo com o jamais suficientemente reverenciado autor de Frauta de barro.  

Era impossível enxergar à primeira vista naquele corpo frágil, a fortaleza dos que trazem consigo a poesia e, como se fosse pouco, acrescentam a ela rara percepção e prática da dignidade em toda sua plenitude. Não bastassem o talento e a entrega à compreensão da arte em suas várias formas de manifestação, a Bacellar ocorria de conduzir-se igualmente com elevado sentido da vida digna. Jamais cortejou os poderosos, antes reservando a para eles a fina ironia, esse atributo próprio dos que têm talento.

Porque a Luís Bacellar coube papel dos mais importantes na história literária do Amazonas e da região, não faltarão homenagens que ele mesmo recusava. Suas exigências não serão respeitadas, porque seu encantamento impedirá que se cumpram as determinações testamentárias que ele se preocupou em deixar registradas.

Importa pouco, eis que, já não estando entre nós, não poderá mais que levar consigo, ligeiro esgar a mover o canto da boca, o corte fino de sua ironia. Falar da poesia de Bacellar torna-se repetitivo. Testemunhos muito mais valiosos, apreciação muito mais acreditada é obra dos que entendem de poesia e poetas.

A este admirador do poeta que preferia ser chamado professor é reservado, sponte mea, o papel de ratificar a admiração e esperar que pelo menos parte de suas disposições em testamento seja finalmente respeitada. Luís Bacellar, a quem jamais poderá ser pago o bem-fazer por Manaus, pelo Amazonas, pela Amazônia, pelo Brasil e pela poesia, tem todo o direito de instalar a barraca de feira sob outros sóis.

terça-feira, outubro 17, 2017

ARMANDO DE MENEZES (2)

Anísio Mello e Armando de Menezes  na
Lanchonete Pina, em 2009
Conclusão da minha exposição feita na Academia Amazonense de Letras, por ocasião da homenagem prestada ao seu falecido associado Armando de Menezes, na sexta-feira 13.

Último Chá do Armando


Duas palavras pessoais

Conheci a família Menezes quando frequentei o Seminário de Manaus, por intermédio do padre Jorge Normando, já se passam 60 anos. A frequência à casa da família permitia, diante daquela fartura, aos seminaristas tirar “a barriga da miséria”, ainda que cometendo o pecado da gula. Depois encontrei Dr. Armando espaçadamente no Tribunal de Contas, tendo sido ele quem sacramentou meu processo de aposentadoria. 

Enfim, o IGHA nos irmanou. E o Chá aprofundou esse convívio, tanto que partiu dele o mais rematado incentivo para que eu me candidatasse à uma vaga nesta Academia. Convindo declarar que não a conquistei, somente pela minha desídia e meu desajeitamento. Subsistiu outro motivo, contudo, cuja confidência trocada entre mim e ele no Chá idealino, persistirá sob segredo.

Alencar e Silva lendo um poema para Armando de Menezes,
no Chá ainda na Academia, em 2004

Derradeiro Chá

Nesta noite solene, nesta Casa soleníssima, o Chá do Armando chega ao final. Exatamente onde começou. É o momento, caro “presidente” Aguinaldo Figueiredo, de encerrar este ciclo, esta etapa, que não se alimentou unicamente de rega-bofes. O Chá soube oferecer estímulo, apoio financeiro para publicações e pequena produção literária, que servem para bem alumiar esta nobre caminhada.

Quando Anísio Mello completou o primeiro ano de morto, o Chá recordou muito bem do velho chazista. Em reunião especial, lembrou dele a cortesia e o anseio em muito produzir, como de fato produziu em vários segmentos de arte. Produção, lamentavelmente, esquecida. Daí o título que lhe cravamos, o de Multiartista. Mesmo sem CNPJ, inauguramos o selo Chá do Armando edições, com o livro – Convite à Poesia (Manaus, 2011), publicado em vassalagem ao Anísio Mello.

Depois veio – O “Chá do Armando”: em prosa e verso, que prestava “um tributo ao samaúma Armando de Menezes”. Produzido pela “editora” coletando dos frequentadores qualquer produção literária. 

A terceira obra – Armando de Menezes, com o subtítulo: alegria da sexta-feira, quando amigos se encontram (Manaus, 2012), tem uma pequena história. Nela saudamos os 90 anos do patriarca, porém, como demorou a impressão, a peça foi ampliada para registrar a morte prematura do poeta chazista Sérgio Luiz Pereira. Ainda assim, voltou a emperrar. Então, morto o fundador do Chá, restou a “boneca” desta terceira obra, cujo exemplar passamos às mãos da Dona Ivete Menezes, que saberá promover seu melhor destino.

Encerro, convocando aos detentores desta marca, aos chazistas de carteirinha à retomarmos à mesa-redonda, à salutar reunião de sexta-feira. Revitalizá-la, seja com novo slogan, seja com renovado mote, isso é desafiador. Afinal, devemos caminhar com nossas pernas, amparadas pelo nosso bolso; praticar a cortesia e a elegância como fomos tratados, como fomos incentivados, sem olvidar dos xingados nos bons momentos.

Estrela Armando

Agora, deixemos a estrela do Dr. Armando de Menezes circular pelo espaço sideral. Certamente, SEMPRE ÀS SEXTAS estará nos convocando para o festivo encontro, ocasião em que haverá de nos brindar com um apaideguado olhar estelar. Seja qual for a galáxia em que estiver. Até à eternidade.  

PS

Devo reconhecer, a memória já me causa dificuldades: estava rebuscando este texto para a impressão final, quando me ocorreu haver esquecido dois locais onde o Chá fez pouso excepcional. Um deles, na minha própria residência. (Num falei). O outro foi na residência do Miguel Angel, um simpático peruano que com sua inscrição internacionalizou o Chá do Armando.

Creio que, após um desconcerto na Mansão dos Quadros, Miguelito (artista plástico) acolheu o pessoal na rua Frei José dos Inocentes, ao lado do IGHA, onde morava. Aconteceram dois ou três encontros. E eu estive em um deles.

Bom, na minha residência, à rua Igarapé de Manaus, aconteceu uma reunião. Realizada em novembro de 2009, quando abraçamos o Sergio Luiz pelo seu 42º aniversário.

Tá feito o conserto.



sábado, dezembro 10, 2016

APARIÇÃO DO CLOWN: INTÉRPRETE


Alencar e Silva
O poeta Jorge Tufic ajudou-me bastante na publicação da plaqueta Intérpretes de Aparição do Clown, que apreciava o livro-poema de L. Ruas. A publicação ocorreu em 2010. Havia eu organizado os textos de quatro “intérpretes”; eis que surgiu o quinto.

Trata-se do falecido poeta Alencar e Silva, autor de Quadros da Moderna Poesia Amazonense (2011). Este post foi dali retirado.


A primeira amostra da poesia de L. Ruas (Pe. Luiz Augusto de Lima Ruas) foi-nos dada em 1958, ano de grande significação para a poesia amazonense, com o aparecimento da Pequena Antologia Madrugada, em que o poeta Jorge Tufic, seu organizador, nos oferece, nos sete poetas ali reunidos, a primeira visão de conjunto dos novos quadros da poesia amazonense, ou, como se lê em sua apresentação, "uma nítida visão do que tem sido o trabalho deste grupo que, há aproximadamente três anos, se organiza sob a égide do Clube da Madrugada".

L. Ruas está ali representado por quatro poemas — Versos à Margem de Um Poema de Rainer Maria Rilke, Sinos, Possível Noturno em Lá Menor e Evocação da França — aos quais retornei, muitos anos depois para, com brilho nos olhos, constatar quão pura, quão autêntica e definitiva me parece essa pequena amostra de sua poesia! Poesia que conserva inalterado o mesmo primitivo frescor e o mesmo sopro de eternidade que lhe infundem os valores que informam todo o labor intelectual de seu autor.

L. Ruas forma na linha de frente do modernismo amazonense, já em razão da participação no movimento madrugada, desde as primeiras horas, já pela notável contribuição expressa em sua poesia. Como ocorre com todos os verdadeiros artistas, poetas e escritores, L. Ruas deixa impresso, definitivamente, em toda a sua experiência convertida em expressão artística, o selo pessoal da identidade própria, chancela sem a qual ninguém pode aspirar à cidadania universal que as letras e as artes conferem a seus representantes.

Quer isto significar que estamos, efetivamente, diante de um grande poeta e escritor. Diante de um dos temperamentos intelectuais mais notáveis e mais completos/complexos já surgidos entre nós. (...)

Também de 1958 é o livro de estreia de L. Ruas: Aparição do Clown, poema cristão — ou crístico — dos mais belos que já se escreveram e que o autor quer que seja "um ato de adoração ao Cristo quando Herodes o chamar de louco". Poema que considero o seu magnum opus e de cujo foco luminoso ouso aproximar-me agora, dezessete anos depois, e não sem uma ponta de temor.

Não de que se possa trair em exagero e superestima a admiração que voto ao extraordinário texto, mas, sim, de que a tarefa esteja além do meu alcance, dada a realidade estonteante e quase inabarcável desse poema verdadeiramente belo e majestoso, e de brilho arrebatador.

Disse que se trata de um poema crístico. Mas ficou implícito, também, que não se trata de um poema fácil, que logo se entregue à nossa fruição. Ao contrário. Diria mesmo ser este um texto tremendamente difícil e labiríntico em seu maravilhoso hermetismo, visto que os seus vários segmentos luminosos podem, com efeito, confundir-nos (numa leitura menos atenta) e fazer-nos caminhar por seus desvios, afastando-nos, consequentemente, de seu núcleo, de seu tema fundamental, de sua significação humana e divina, assim como se, em vez da estrada real, tomássemos por atalhos que apenas nos deixassem perceber, ao longe, o rumor e as luzes da festa...

E é este o grande desafio que o poema nos propõe. Ou lhe identificamos os símbolos, ou sua chuva não nos molhará.

Começa pela circunstância de que por ele perpassa inominadamente o espírito do Cristo, que é a um tempo sua respiração e seu mistério fundamental.

Como identificá-lo, se seu nome não é uma só vez modulado? Na alusão dos signos? Nos símbolos? Na atmosfera prestigiosa do poema? Certamente que sim. Inclusive porque uma tal forma de mostrar-se — a um tempo incógnita e inconfundível — era/é, porventura, a mais consentânea com o feitio e a doce índole do Mestre. Não foi assim, porventura, na antemanhã da ressurreição? E assim também na estrada de Emaus? E no caminho de Roma? E no episódio da pesca milagrosa (E nenhum dos discípulos ousava perguntar: Quem és? sabendo que era o Senhor [João, XXI:12])?

Tenho para mim que é assim também que ele perpassa pelo poema. E que podemos adivinhá-lo na figura do pássaro ferido, vagando antes que surja a madrugada. Na hora em que não é dia nem é noite. No lusco-fusco crepuscular. Na hora da luz azul.

L. Ruas, autor de Aparição do Clown
É bom que se tenha presente, no entanto, que a poesia é também um pássaro, estrela ou fonte. E que o poema é também um hino à poesia. Da mesma forma que é um ato de adoração ao Cristo.

Temos, aí, portanto, as duas intenções, os dois segmentos ou impulsos básicos do poema — polos cuja distinção se impõe à atenção e sensibilidade do leitor interessado na compreensão plena do texto, porquanto uma leitura meramente hedonística, além de ser chuva que não molha, poderá, com efeito, fazer-nos tomar, equivocadamente, aquelas com realidades por uma só.

Dir-se-á que para isso concorrerá a própria complexidade do poema. Sem dúvida. Mas deve-se ver que, no caso, a complexidade e seu teor de mistério são positivamente elementos consubstanciais ao poema, à falta dos quais este não se consumaria, da mesma forma que a impossibilidade do perfume frustraria a perfeição da rosa.

É claro que um poema é o que é, e até o que não é; nunca, porém, o que poderia ser. Assim, no primeiro caso, o poema é (o que é): o que a compreensão plena do seu texto nos revela. No segundo, ele é (o que não é): o que o mistério da leitura nos sugere. No terceiro, ele não é (o que poderia ser): o que não está expresso nem sugerido no seu texto. Ou, ainda: No primeiro caso, teremos mergulhado em sua realidade. No segundo, apenas vivido a ilusão do mergulho. No terceiro, porém, teremos ficado completamente por fora da realidade do poema, circulando-lhe à volta, longe da possibilidade ou da ilusão do mergulho, a tentar impossivelmente captar-lhe uma realidade que não é a sua.

Donde se infere que somente uma leitura eficiente nos possibilitará a compreensão verdadeira do poema de L. Ruas, seguidas as indicações subliminares que ele mesmo nos fornece. Será preciso, por exemplo, atentarmos duplamente para a advertência do poeta, num dos pontos culminante do poema:
“lê de novo o poema. desce. vai ao fundo. / (...) não te afadigues. / o ritmo do meu nome é longo. majestoso. / quando souberes quantas rosas floriram / na paisagem perdida e de novo descobrires / o sonho inquieto e a aurora prateada /alegra-te, então, pois caminhas certo / rumo ao mistério inexprimível do meu nome.”

Quem fala assim é ainda a poesia, por cujos pés misteriosos (de fauno grego ou de arcanjo bizantino) o espírito humano movimenta-se no ritmo apolíneo ou na dança dionisíaca.

Símbolo do Clube da Madrugada
Nesses dois mistérios, o da poesia e o do Cristo, estarão os polos do poema de L. Ruas. E é por ambos que nos virá a salvação: pela condição de cativos do pássaro ferido (ser livre em essência é ser cativo) ou pelo incessante modelar daquela chama que nos queima a alma e as mãos, sem deixar que se perca uma só de suas fagulhas: “pois uma delas pode ser a luz que salvará tua face passageira quando raiar o sempiterno dia.”
A salvação — eis o sentido profundo da aventura do espírito. Eis o supremo anelo da condição humana. Eis o substrato do poema de L. Ruas.

Creio que muito se há de escrever sobre esse grande e torturante poema, cuja extraordinária plasticidade, aliás, não faria senão a fortuna do artista que se decidisse a transpô-la para a linguagem das tintas. Ou recriá-la em seus traços.


A obra de L. Ruas, longe de esgotar-se nesse poema, estende-se pelo ensaio, gênero em que já nos deu os volumes Linha d'água e Os Graus do Poético, e prossegue com Poemeu, coletânea de poemas em que nos reencontramos com a sua grande poesia e de cuja apresentação fomos o privilegiado subscritor e cujo texto transcrevemos a seguir, por refletir com precisão o nosso pensamento acerca do Autor — pássaro de altos remígios silenciado quando ia em pleno voo.