CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

1 de novembro de 2012

PARÓQUIA DE EDUCANDOS

Pe. Plácido, no palanque, a frente da
igreja de madeira, antes da atual, 1942
Este bairro marcou em diversas oportunidades e formas sua presença na evolução de Manaus: a denominação, proveniente da escola dos educandos artífices; a mudança de nome para Constantinópolis, que não colou; pela “estrada”, hoje avenida Leopoldo Peres, aberta pelos moradores; pela presença do padre Antônio Plácido e suas metáforas, nem sempre religiosas; pela exuberância da Baixa da Égua; pelo cine Vitória e outros canais de diversão, estes pouco condizentes com a tradicional família educandense, os “inferninhos”.
Para lembrar a instalação da paróquia de Educandos, sob a proteção de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e, óbvio, pequeno relato da história do bairro, reproduzo o texto encartado no Suplemento, comemorativo das festas jubilares da Diocese de Manaus, em 1946. Nesse ano e na vizinhança dessa igreja, eu nasci.


Até 1941, o bairro operário de Educandos teve a sua vida religiosa ligada à da paróquia dos Remédios, de que era curato. Estendia-se, então, até ali, a jurisdição daquela paróquia, atravessando o igarapé de Educandos para, do outro lado, atingir a população operosa daquele extenso bairro.


Bispo que criou a paróquia de
Educandos
A 16 de dezembro de 1941, no 1º ano de seu governo, Dom João da Mata Andrade e Amaral, bispo diocesano, decretava a criação da paróquia de N. S. do Perpétuo Socorro. Passava o antigo curato a constituir uma das paróquias da sede episcopal, tendo à frente, por provisão de 24 de dezembro do mesmo ano, como garantia de seu desenvolvimento, o Pe. Antônio Plácido de Souza, sacerdote amazonense que, oriundo de uma família operária, se integraria ao meio para melhor desempenhar a sua tarefa de guia de almas. Fora feliz a escolha, ou antes, melhor e mais acertada não poderia ter sido.

Quem conheceu a pequena capelinha em ruínas e, mais tarde, viu surgir no mesmo local, no alto, a ser divisada pela cidade, a ampla e elegante matriz de N. S. do Perpétuo Socorro, com suas duas torres, toda em madeira, não pode deixar de erguer o seu voto de louvor a quem impulsionou a construção da matriz definitiva.

A casa paroquial espaçosa, alta, descortinando lindo panorama da cidade de Manaus, já está concluída. Os braços da cruz e a capela-mor estão sendo agora erguidos. Ali os operários têm um exemplo no operário chefe da turma: o padre Plácido, o vigário.

O seu esforço é admirável. Auxiliado pela população traz, da “beira do rio”, as pedras que se empregam na construção, fabrica ele próprio tijolos, trepa nos andaimes e, como um pedreiro qualquer, dedica-se ao trabalho de dotar o bairro de uma igreja ampla e moderna, que poderia figurar em qualquer capital. A despesa com a construção sobe a CR$ 280.320,00 (duzentos e oitenta mil e trezentos e vinte cruzeiros).

OBRA SOCIAL
Na Semana da Pátria de 1943, foi aberta a “Casa do Pobre”, em Educandos. Ali funcionam, desde esse tempo, sob a competente direção da senhorita Rosa Castelo Branco de Alencar, aulas regulares de corte e costura, bordado à mão e à máquina e flores. Meninas e moças ali aprendem trabalhos manuais que constituirão um dote, tornando-as jovens prendadas. São as alunas em número de 80. As aulas, inteiramente grátis, e o material, as mais das vezes, fornecido pela diretoria da Sala de Costura.

OFICINA DE SAPATARIA
Revivendo o estabelecimento de ensino profissional que deu o nome àquele bairro, o Educandos Artífices, dos dias de 1858, hoje funciona ali uma oficina de sapateiro, que bem poderá ser o núcleo de futuras oficinas profissionais masculinas. Mantida também pela paróquia, a oficina de sapataria, apesar de estar em começo, vem despertando o interesse dos jovens do bairro e, sob a direção de um mestre habilitado, ali estão 15 aprendizes.

ESCOLA PAROQUIAL
Vem funcionando, com regularidade, as aulas da Escola Paroquial. Há o curso diurno para as crianças e o noturno, para os operários, de ambos os sexos, que não podem estudar durante o dia.

DIVISÃO PAROQUIAL
São seis as zonas em que se acha dividida a paróquia: 1) Educandos (Matriz); 2) Terra Nova; 3) Paraná da Eva; 4) Murumurutuba; 5) Tabocal; e 6) Bairro de Santa Luzia. (É fácil perceber que o vigário atendia algumas comunidades próximas de Manaus. E que a expansão da cidade mal chegara ao bairro de Santa Luzia, ou do Emboca).
As povoações de Terra Nova, Colônia Oliveira Machado (hoje bairro) e Tabocal possuem cada uma sua capela. Está sendo construída uma no bairro de Santa Luzia.

CONSULTÓRIO MÉDICO
Mantido pela paróquia, está sob os cuidados profissionais do Dr. Jorge Abrahim que, gratuitamente, vem assistindo à pobreza do bairro. Dispendeu o vigário, em remédios e auxilios, a soma de CR$ 6.000,00 (seis mil cruzeiros).

Para encerrar, duas palavras deste educandense: conheci parte dessas atividades paroquiais, tendo frequentado a Escola Paroquial; e mais, conheci agora a causa pela qual minha mãe (falecida em 1952) foi medicada pelo Dr. Jorge Abrahim que, pela “gratuidade” do atendimento, foi vereador em algumas legislaturas.
O padre Antônio Plácido (foto acima) exerceu a direção da paróquia até seu falecimento em 1966.