CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

7 de novembro de 2012

A PM DO AMAZONAS & CANUDOS (4/5)


Amanhã, em solenidade às 19h, no quartel do Comando Geral, a Polícia Militar relembra o retorno de sua tropa expedicionária a Canudos (BA). Amanhã, esse evento completa 115 anos.
De minha parte, autor de Cândido Mariano & Canudos, a fim de repassar o envolvimento da força estadual amazonense no conflito, reproduzo o quarto capítulo do trabalho que organizei para o Museu Tiradentes. 

A CAMPANHA DE CANUDOS
Manuel Vitorino, no exercício da presidência da República, nomeia o coronel Antônio Moreira Cesar, do 7º Batalhão de Infantaria, para comandar a Terceira Expedição. Este oficial destacou-se pela forma como enfrentou a repressão à Revolução Federalista, tanto que era alcunhado de corta cabeças. Em 1893, para se safar da acusação pelo assassínio de um jornalista, serviu no 36º de Infantaria, sediado em Manaus.
Arthur Oscar,
general
Açodado, Moreira Cesar tão logo foi nomeado embarcou no Rio para Salvador (BA). Como antecipando o final, tanto na viagem quanto no desembarque aprontou suas excentricidades. Em 7 de fevereiro, partiu para Queimadas. Ali desembarcou no dia seguinte, logo telegrafando para o ministro da Guerra, general Francisco de Paula Argolo. Depois de informar da animada disposição da tropa, encerra preocupado: “Só temo que o fanático Antônio Conselheiro não nos espere”.
 
Apesar da afobação, o comandante teve que esperar nove dias para reunir a força de 1.300 homens e seis canhões Krupp, além de pessoal de apoio. Por isso, chega a Monte Santo em 18, quando sofre um ataque epiléptico.  Uma semana depois passa em Cumbe (hoje Euclides da Cunha), onde se desentende com o vigário. A partir desse vilarejo, a marcha se torna morosa, tanto que a expedição aproxima-se de Canudos (cerca de três léguas, no Rancho do Vigário), em 2 de março. No dia seguinte, por volta do meio-dia, Moreira Cesar muda o plano original: depois de ordenar o bombardeio do arraial, comanda o ataque imediato.


Estima-se que, ao cabo de três horas de forte combate, o comandante foi ferido, atingido por um tiro no ventre, na versão oficial. Mas há outras, inclusive a de que um soldado, chamado Trajano, teria sido o autor do disparo. O comandante ferido é amparado pelo pessoal de saúde, que constata a gravidade da lesão. No início da noite, o subcomandante, coronel Pedro Tamarindo, decide abrigar as tropas em local mais seguro, preocupado com a noite. Na madrugada, morre o coronel Moreira Cesar.

Pela manhã, conhecido o fim do comandante e a decisão dos oficiais de evacuar a tropa, não houve quem pudesse controlar os grupos de praças, que fogem em direção ao Cumbe. Diante desse quadro, os sitiados saem em perseguição aos militares, aprofundando o desastre. Foi um autêntico salve-se quem puder. Não há dados conclusivos sobre o número de mortos e feridos e perdas de material. Para resumir a tragédia: são mortos o coronel Pedro Tamarindo, o capitão Salomão da Rocha, comandante da bateria de Krupp, o tenente Pires Ferreira, comandante da primeira expedição, entre um extraordinário número de expedicionários.  


Página de A Guerra de Canudos, do
caricaturista Parlim
As notícias detalhadas da catástrofe chegam à capital da República, em 7 de março. Logo, monarquistas com ou sem culpa são justiçados. Seus jornais, saqueados. O desastre causa enorme repercussão no País. A cidadela e os fanáticos do Conselheiro são transformados em inimigos da República, apesar de se tratar de problema da esfera regional. Era preciso aniquilá-los, pois a República estava em perigo. É nesse estado de ânimo que se engaja o estado do Amazonas.

Prudente de Moraes reassume a presidência da República e se empenha em encontrar o líder para a Quarta Expedição. Escolhe o general Artur Oscar de Andrade Guimarães, então comandante do 2º Distrito Militar, sediado em Recife. Nomeado, o general desloca-se para a Bahia, alcançando Queimadas (BA) em 21 de março. Diante do quadro calamitoso, estabelece nova linha de ação. O ataque seria efetuado em duas frentes: uma coluna, comandada pelo general João da Silva Barbosa, partindo de Monte Santo (BA); a outra, pelo general Cláudio do Amaral Savaget, saindo de Aracaju (SE).

Não obstante o apoio federal, nada simples foi ultimar os recursos para a campanha. Ante os entraves, o comando da expedição teve que aguardar por cerca de três meses entre Queimadas e Monte Santo. Tanto tempo permitiu a instalação de uma linha telegráfica na região, além da substituição do ministro da Guerra, agora o marechal Carlos Machado Bittencourt.
Enquanto o ataque não acontecia, a ansiedade nacional aumentava. Seja no Governo Federal, porque devia reagir à oposição arraigada, que promovia agitação. Seja na esfera estadual, para travar o crescimento de Canudos que, a despeito da repressão, das investidas, mais crescia, crescendo a aglomeração humana surpreendente. 

Em Aracaju, na segunda coluna, servia o major Antônio Constantino Nery, nascido em Manaus. Oficial de estado maior, com formação em engenharia, assessorou ao comando, tendo acompanhado a coluna até as proximidades de Canudos. Ferido, mesmo sem gravidade, foi retirado do front. Suas observações permitiram-lhe produzir o livro A Quarta Expedição contra Canudos, cem léguas de Aracaju a Queimadas, via Canudos, narrando a preparação e o deslocamento da coluna Savaget. A obre foi publicada em 1898 e, fac-similada, foi reeditada no centenário de Canudos.

Vencida essa perturbação, Artur Oscar ajustou o encontro das forças em Canudos para 27 de junho. O deslocamento de ambas não saiu como esquematizado, porquanto os caminhos tortuosos e os ataques dos jagunços perturbaram os militares. Todavia, à tarde do dia determinado, a Primeira Coluna ou Savaget ocupou o Alto da Favela, assim denominado pela vegetação existente no local. Uma posição estratégica para o bombardeio do arraial. Enquanto isso, a coluna Savaget foi surpreendida na passagem do Cocorobó, a pouco mais de duas léguas de Canudos. A reação militar é surpreendente, mas o número de baixas, inclusive de oficiais, mostra as dificuldades a enfrentar. O próprio comandante da coluna é ferido com gravidade.

A despeito de instalada em posição privilegiada, os conselheiristas tanto fustigaram a primeira coluna que, em ato desesperado, o coronel Thompson Flores investiu com sua tropa contra o reduto do Conselheiro. Pouco conquistou, ao contrário, ali perdeu a vida. A situação então se agrava, todavia, são salvos pela chegada da coluna Savaget. (segue)