CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

5 de novembro de 2012

A PM DO AMAZONAS & CANUDOS (2/5)

Capa do livro
Em 8 de novembro de cada ano, a Polícia Militar relembra o retorno de sua tropa expedicionária a Canudos (BA). Na próxima quinta-feira, esse evento completa 115 anos. E será lembrado.
De minha parte, autor de Cândido Mariano & Canudos, a fim de repassar o envolvimento da força estadual amazonense no conflito, reproduzo o segundo capítulo do trabalho que organizei para o Museu Tiradentes, no Palacete Provincial.

1.     MANAUS DOS PRIMÓRDIOS DA REPÚBLICA

Proclamada a República (1889), sua instalação nos Estados, no entanto, motivou inúmeras escaramuças. Há registros destas tanto na Capital Federal, o Rio de Janeiro, quanto nas capitais dos Estados. O motivo era único: a conquista do poder político. Assim, os grupos que haviam ou não pugnado pelo novo regime digladiavam-se pelo poder regional.

A questão mais emblemática ocorreu no plano central, quando o presidente Deodoro da Fonseca se desentendeu com o vice e sucessor, Floriano Peixoto. No Amazonas, seguiu-se a regra. A intriga federal depõe o governador eleito, Thaumaturgo de Azevedo, e impõe no seu lugar a Eduardo Ribeiro (1892-96). Ainda assim, na capital amazonense, a consolidação da Republica sofreu desdobramentos. Basta lembrar a rebelião político-militar (1892-93), envolvendo o partido dos Nery na tentativa de derrubar ao governador Eduardo Ribeiro. A derradeira manifestação dessa disputa, no meu entender, ocorreu com a renúncia de Fileto Pires (1896-98).

Não foi diferente nos demais Estados, como se registra na Bahia. Ali, a refrega política entre gonçalvistas e vianistas propiciou, ou foi um dos mais destacados agentes, o desfecho de Canudos.  

Fileto Pires, governador do
Amazonas (1896-98)

A província do Amazonas instalada em 1852 suportou por anos a deficiência de recursos financeiros. Dependia da coroa imperial, pois apenas produzia as drogas do sertão. A capital – Manaus, na margem esquerda do Rio Negro, situava-se a enorme distância da capital mais próxima, Belém do Pará. De repente, a Amazônia viu chegar sua redenção com o emprego cada vez mais abundante da seiva da seringueira (hevea brasiliensis). Assim, Manaus se transformou na capital da borracha, atraindo uma população de nacionais e estrangeiros. 

Na década da proclamação da República, Manaus passou a usufruir do superávit comercial instituído pela extração e comercialização da borracha. Mas foi com a instalação do Estado, em especial no governo de Eduardo Ribeiro, que a cidade cresceu e se transformou. Parte deste material arquitetônico, ainda se encontra no Centro Histórico. A arrecadação fazendária acima das previsões, tudo permitia, desde o Teatro Amazonas, passando pela energia e os bondes elétricos e as roupas lavadas na Europa. Para exacerbar a riqueza da época, narra uma lenda que se acendia charuto com cédula de libra esterlina.

Foi, pois, essa riqueza que arrojou o governador Fileto Pires a enviar um batalhão (278 homens) do Regimento Militar do Estado para a Campanha de Canudos. Ao final, o abastecido cofre do governo Pires exonerou o governo central do pagamento das despesas da expedição. 


Conselheiro (caricatura) no
Memorial em Canudos (BA)

Quando da Campanha de Canudos (1896-97), menos de um decênio havia percorrido desde a proclamação da República (1889). O país republicano vivia sua infância, governado por Prudente de Moraes, o primeiro civil a exercer esse poder, seguindo ao de dois militares: Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Era, pois, latente a disputa entre essas classes, reclamando-se pelo retorno dos militares, diante da placidez com que este paulista governava o País. Era Prudente demais, para os momentos tumultuados de Canudos.

De outro lado, o vice-presidente, o baiano Manuel Vitorino, aproveita a oportunidade de substituir o titular (1896-97) e, em golpe mal sucedido, tenta manter-se em definitivo no poder. O episódio, todavia, repercutiu na capital da Bahia e muito contribuiu para o agravamento da tensão nos confins do Vaza-Barris. Tanto que a segunda expedição, comandada pelo major Febrônio de Brito, não teve melhor aproveitamento por motivo da “politicagem escandalosa” travada entre Luís Viana, governador da Bahia, apoiado por Vitorino, e o general Solon Ribeiro, comandante do Distrito Militar. A Segunda Expedição,  tanto quanto a primeira, fracassa. E o desastre alcança a capital do País.

Ainda no governo, Vitorino nomeia ao coronel Moreira César para comandar a expedição seguinte. César tem o privilégio de arregimentar um respeitável número de combatentes e, debaixo de todas as melhores expectativas, assim alcança a fortaleza de Conselheiro. A vitória inequívoca do coronel mudaria a história pátria, porém, ao contrário, suas lambanças acirraram o final sinistro de Canudos.