CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

6 de novembro de 2012

A PM DO AMAZONAS & CANUDOS (3/5)


No próximo dia 8 de novembro, a Polícia Militar relembra o retorno de sua tropa expedicionária a Canudos (BA), quando esse evento completa 115 anos.
De minha parte, autor de Cândido Mariano & Canudos, a fim de repassar o envolvimento da força estadual amazonense no conflito, reproduzo o terceiro capítulo do trabalho que organizei para o Museu Tiradentes. 

A CAMPANHA DE CANUDOS
Vista parcial de Canudos, foto de Flávio de Barros, 1897
Desde 1893, Antônio Conselheiro ocupava uma fazenda abandonada às margens do rio Vaza-Barris, no sertão baiano. Dá-lhe o nome de Belo Monte, que foi respeitado por seus seguidores. Não eram poucos, e cada dia chegava mais ao povoado que, segundo a lenda, oferecia as melhores benesses. Tudo contribuía para o acolhimento de tantos sem condições. A ampliação do vilarejo reclamava uma nova igreja e, nesse mister, o Conselheiro era mestre. Afinal, edificara algumas nos sertões nordestinos; assim como cuidara igualmente de cemitérios, cujo serviço, com a Constituição de 1891, passara à administração municipal. Dessa maneira, inicia a construção de igreja em tributo a Santo Antônio.

A volumosa presença de seguidores trouxe problemas para as autoridades; alguns de ordem policial, outros de ordem econômica. Os mais destacados: a partir da libertação dos escravos, as fazendas seguiam perdendo a mão de obra. Contra isso, reclamavam ao governo os coronéis, seus proprietários. Desses, o mais distinguido foi o barão de Jeremoabo, cujo latifúndio nas proximidades sofria a concorrência da cidadela de Conselheiro. Reclamações outras eram causadas pela negação do pagamento de impostos, atrevimento atribuído igualmente ao Conselheiro. 


Em 1895, o governador da Bahia recorre à Igreja católica para controlar os seguidores de Conselheiro. Como costumeiro, o bispo diocesano envia dois frades para administrar uma Santa Missão no local. Objetivo primordial: convencer os fiéis a respeitar os preceitos religiosos e temporais, leia-se o governo estadual. Por motivos peculiares, a Missão fracassou razão pela qual os frades, ao abandonar Canudos, sacudiram as sandálias repetindo o gesto do profeta. Tem mais: em Relatório, empurraram o episódio para a esfera policial. E a atribuição foi cumprida.
Necessitando de madeiramento para a construção da igreja de Santo Antônio, Conselheiro adquire-o por intermédio de João Evangelista Pereira e Melo, em Juazeiro (BA). Como demorasse a entrega, o comprador ameaça buscar a partida de madeira empregando seus seguidores. O ultimato causa profundo receio naquela cidade. Na querela, intromete-se o juiz Arlindo Leoni, desafeto do movimento conselheirista, que reclama e insiste por socorro policial ao governador Luís Viana. No final de 1896 era dada partida à empreitada contra Canudos.
 
Página do caricaturista Parlim, em
A Guerra de Canudos
A Primeira Expedição, sob o comando do tenente Manuel da Silva Pires Ferreira, do 9º Batalhão de Infantaria, com mais de uma centena de subordinados, partiu de Salvador (BA) pela Estrada de Ferro Bahia-São Francisco. Marque essa data: 6 de novembro. No dia imediato desembarcou em Juazeiro (BA), na margem do rio São Francisco, a cidade ameaçada. Como a ameaça do Conselheiro não se concretizasse, cinco dias depois, o tenente Pires Ferreira decide atacar, pretendendo surpreender Canudos, distante 200 quilômetros. A expedição marcha a pé, utilizando caminhos ruinosos. E com mais e mais arrochos: pouca água, reduzido provisão de alimentos e seu pessoal recrutado à força.

Uma semana depois, Pires Ferreira e a tropa chegam a Uauá (BA), depois de caminhar cerca de 150 quilômetros. Extenuados, acampam.  Apesar da decisão de surpreender, a tropa permanece em Uauá por dois dias, até o dia 21. Nada de significativo acontece, salvo a retirada de quase toda minúscula população da vila, na noite anterior. As cinco da madrugada de 21, a expedição teve contato com o pessoal de Canudos. No horário, uma procissão, usando toda sua ostentosa liturgia e cantando hinos e ladainhas, aproxima-se do acampamento. Assim descreve Euclides da Cunha:
 
Um coro longínquo esbatia-se na mudez da terra ainda dormida, reboando longamente nos ermos desolados. A multidão guerreira avançava para Uauá, derivando à toada vagarosa dos kyries, rezando. (...) Os combatentes, armados de velhas espingardas, de chuços de vaqueiros, de foices e varapaus, perdiam-se no grosso dos fiéis que alteavam, inermes, vultos e imagens dos santos prediletos, e palmas ressequidas retiradas dos altares. (...) Seguiam para a batalha rezando, cantando – como se procurasse decisiva prova às suas almas religiosas.    

É pouco provável que este confronto tenha acontecido dessa maneira. Basta lembrar que Canudos dista de Uauá próximo de 110 quilômetros. Certo mesmo é que a tropa foi surpreendida e, apesar das explicações do comandante Pires Ferreira, ocorreu o primeiro fracasso. Prontamente o governador da Bahia ordena a Segunda Expedição. Deu-lhe o comando do major Febrônio de Brito, também do 9º Batalhão, com oito oficiais e cem homens do Exército e igual número da Polícia estadual.  O trem de guerra parte da Capital em 25 de novembro, e desembarca em Queimadas, de onde marcha até Monte Santo.

Nesse contexto, os atritos entre o governador do Estado e o comandante do Distrito Militar acentuam-se, cada qual reclamando o controle da expedição. As ordens e as contraordens levaram, inicialmente, à perda de tempo e, enfim, a outro desastre. Enquanto o general pleiteava remeter quatrocentos homens contra o reduto do Vaza-Barris, mas somente arregimentara “cem praças”, assim mesmo recorrendo aos empregados e dispensado seu ordenança; o governador determinou ao juiz Arlindo Leoni, o mesmo que havia estimulado essa repressão, que se deslocasse até Queimadas para auxiliar o major Febrônio a organizar a expedição.

A partir desse ponto os artifícios das autoridades em Salvador desarticulam o comandante da missão, que já se encontrava com a tropa em Cansanção, próxima do objetivo. Enquanto o general Solon determinava o regresso da tropa para Queimadas, alegando aguardar reforço ou inexistência de suprimentos; o governador Viana foi mais adiante, determinou que o contingente policial se desligasse da expedição. Desse modo, com tantos desfalques, como atacar, pondera o major Febrônio ao general Solon. Assim, o impasse prosseguia. No auge da crise, o Governo Federal atendendo à solicitação do governador destituiu do comando do Distrito o general Solon Ribeiro. 

De positivo ocorre que, com a demissão do general, a expedição alcança um efetivo de 600 combatentes, oriundos do Exército e da Polícia Militar da Bahia.  E mais, um grupo de artilharia composto de dois canhões Krupp 7,5mm. Que, pensava o comandante, seria decisivo.  Quase tudo pronto; ainda assim foi preciso superar um crucial impasse: o pagamento de soldo do pessoal do Exército. Até superar os entraves, a expedição permaneceu 17 dias em Monte Santo, inclusive a passagem de ano. Somente na tarde de 18 de janeiro de 1897 a expedição, depois de superar a resistência conselheirista, acampa à cerca de uma légua (seis quilômetros) de Canudos.

Na manhã seguinte, Febrônio inicia o assalto à cidadela de Conselheiro. Eram 6h “quando repentinamente as avançadas e toda a coluna foram envolvidas por cerca de 4 mil bandidos, produzindo indecisão nas fileiras nos primeiros momentos.” Depois de doze horas de combate, o comandante decide pela retirada, “visto a falta de animais e fuga dos tropeiros, no dia anterior; munição esgotada; munição de fuzilaria a extinguir-se, obrigaram-nos a adotar a forma de quadrado para resistir ao ímpeto da agressão por todos os lados”.

Ainda que surrado por todos os lados, o comando contabilizou setecentos mortos do lado contrário. A retirada em marcha de 100 quilômetros terminou em Monte Santo, aonde “a força chega dolorosamente extenuada, maltrapilha, quase nua, incapaz de qualquer trabalho”, reconhece o major Febrônio de Brito. Novo desastre estava consumado.
O comandante da segunda expedição tudo fez para explicar o desastre. Reúne seus oficiais e elabora a interpretação dos fatos, espécie de defesa prévia para o conselho de investigação. Usa a imprensa tentando explicar, e assim se safar da acusação de negligência. Enfim, tudo produz em seu benefício, mas difícil mesmo era esclarecer como “ladrões, canibais, bandidos e assassinos”, segundo a própria descrição, conseguiram vencer uma tropa bem formada e bem apoiada, provida de recursos do governo e de administrações municipais da região.

Diante do novo fracasso, a polêmica entre as autoridades prosperou. Enquanto o governador Viana responsabilizava o major Febrônio pela derrota, este e seus camaradas entendiam que Canudos deveria ser liquidado. Entretanto, era preciso que o Governo Federal chamasse para si o empreendimento, excluindo o estadual. Facílima foi a aceitação dessa tese pela presidência do País, visto que esta já aceitara a tese de um movimento monarquista nos sertões da Bahia, nutrida pela imprensa jacobina do Rio de Janeiro. (segue)