CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quinta-feira, outubro 23, 2025

EDUCANDOS: HÁ + DE 50 ANOS

O matutino A Crítica expunha a situação do conhecido bairro de Educandos, expondo a opinião dos moradores sobre a ponte que ligaria o bairro ao centro.

Recorte de A Critica, 20 março 1973

EDUCANDOS, UM BAIRRO SENSACIONAL 

O GRANDE SONHO DOS MORADORES DO BAIRRO DE EDUCANDOS VAI SE REALIZAR. A CONSTRUÇÃO DA PONTE QUE IRÁ LIGÁ-LO AO CENTRO DA CIDADE. UMA COISA, NO ENTANTO, ESTÁ PREOCUPANDO A VÁRIAS DEZENAS DELES. A DENOMINAÇÃO. O VEREADOR FÁBIO LUCENA QUER E SUGERIU O NOME DE RAMAYANA DE CHEVALIER. NOME QUE O POVO DE EDUCANDOS NÃO CONHECE. CENTENAS DE MORADORES DERAM OPINIÃO E QUEREM QUE A PONTE RECEBA O NOME DE "CÔNEGO ANTONIO PLÁCIDO DE SOUSA", O CONHECIDO E DISCUTIDO PADRE ANTONIO, O HOMEM SANTO QUE REVOLUCIONOU O EDUCANDOS. O ATUAL VIGÁRIO, PADRE PINTO DIZ QUE VAI ENVIAR UM OFÍCIO AO PREFEITO FRANKLIN LIMA SOLICITANDO ESSA DENOMINAÇÃO. O BAIRRO DE EDUCANDOS POSSUI ATUALMENTE SUA QUASE INDEPENDÊNCIA ECONÔMICA• COM A PONTE ELA VIRÁ, DIZEM OS MORADORES. NESTA REPORTAGEM ELE ESTA SENDO MOSTRADO DESDE SUA ORIGEM ATÉ OS DIAS ATUAIS. 

quinta-feira, dezembro 26, 2024

MANAUS: IGREJA DE EDUCANDOS

Pe. Antonio na Igreja, 1949
A padroeira desta igreja é Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, cuja primitiva capela ainda de madeira foi erguida pelo saudoso padre Antonio Plácido de Souza nos idos de 1940, na instalação daquela paróquia. Trata-se do primeiro vigário, tendo se mantido naquela igreja até sua morte em 1966. A ele são atribuídos a construção da Matriz; ao lado da ermida fez construir uma sede de assistência social; e, entre outros benefícios para o bairro, fez circular o semanário – O
Maná – a divulgar ensinamentos religiosos; e, para manter a circulação eram inseridos anúncios e informações dos óbolos recebidos. E, ainda, distribuía informes sobre aniversariantes e até um espaço cultural.

Capa do semanário, fundado em 1949

O exemplar aqui postado se deve ao zelo do meu genitor – Manuel Mendonça –, em razão do registro do aniversário de seu primogênito – Roberto Mendonça, o responsável pela postagem.

No Maná, o aniversariante (acima)
e o poema da edição


sexta-feira, agosto 30, 2024

COLÔNIA OLIVEIRA MACHADO

Conheci o bairro Colônia Oliveira Machado levado pelo padre Antonio Plácido para servir de coroinha na igreja de São Francisco, no final da década de 1950. De fato, faz um bom tempo... Dias desses, postei neste Blog uma ligeira referência a este bairro. Ontem, revendo meus arquivos deparei-me com a coluna ÀS TERÇAS..., produção do saudoso mestre Mário Ypiranga Monteiro, circulada no Jornal do Commercio, (3 agosto 1965).

Igreja de São Francisco, na Colônia

Naquele espaço – reproduzido abaixo – seu autor chancela duas importantes advertências: 1) os motivos da homenagem prestada a Oliveira Machado, 29º presidente da província do Amazonas. 2) seu desconcerto à mudança de nomenclatura de logradouros da cidade, alguns já com vida longa. Morto este historiador em 2006, seu nome substituiu ao da rua Recife, de tempos idos de Manaus.

Recorte do matutino JC, 3 ago. 1965

Já se vem tornando absurda a preocupação da mudança de nomenclaturas dos logradouros públicos da cidade. Posto que o mal não seja novo, vamos perdendo, dia após dia, as nossas velhas tradições e o pior é que o fato implica em sério prejuízo administrativo quando não fosse meramente um impacto na história ou uma injustiça aos priscos homenageados. A anarquia reinante no cadastro urbano-suburbano é uma prova da ligeireza com que se deflagra leis contra a tradição ou se ignora o que existe de defeituoso e reclama revisão.

Já alertamos várias vezes os responsáveis, para a duplicidade de nomenclaturas existentes em ruas, praças etc. Ontem foi com o aeroporto da Ponta Pelada transformado, sem justificativa, em aeroporto de Ajuricaba, quando já existem várias nomenclaturas deste nome. Outrossim, invés de deixar-se uma avenida comprida com um nome só, retalha-se, divide-se a artéria para satisfazer caprichos e prejudicar os serviços administrativos e a história do futuro, que é o que sucede, por exemplo, com a avenida de Epaminondas. Ninguém sabe, afinal, se ela é e quando é Epaminondas ou Constantino Nery ou João Coelho...

Agora me chega ao conhecimento a notícia de que se pretende mudar o nome da Colônia de Oliveira Machado para bairro de Santos Dumont, quando já existe uma praça de Santos Dumont e um jardim de Santos Dumont. Que encrenca! No entanto, há bairros, como o de São Jorge, que não estão devidamente cadastrados nem se sabe os nomes das ruas!

Há uma injustiça gritante nessa pretendida reformulação. Ao doutor Joaquim de Oliveira Machado, o 29° presidente da Província do Amazonas, exonerado por decreto de 15 de junho de 1889, às portas da Republica, coube instalar a colônia do seu nome no antigo bairro dos Educandos, colônia que visava fomentar a habitalidade daquela região e obter outros resultados sociais e econômicos, e onde foram localizadas as sobras humanas do Nordeste. Só isso já lhe confere um mérito que acena de longe à nossa gratidão e espera de nós o respeito às grandes iniciativas, iniciativas que hoje são bem difíceis de ver-se programadas. Santos Dumont já tem a sua consagração pública naquela praça com a sua herma e uma cabeça a que o povo sensatamente crismou de “cabeça de coco” e honestamente pôs abaixo por constituir um atentado à estética e uma ofensa ao gênio do brasileiro. Foi reposta depois, segunda edição melhorada e ampliada.

Mas enquanto o interesse se volta para nomes estranhos ao nosso meio, à nossa vida atribulada, os amazonenses, os filhos da terra, ou os brasileiros que fizeram do Amazonas seu berço e nos ajudaram a criar este milagre humano que é a cidade, demoram esquecidos. São muitos. Poderíamos citar grande cópia deles: Antonio Brandão de Amorim, Ermano Stradelli, Vicente Reis etc.

Os estrangeiros a quem nada devemos e cujos países de origem nos ignoram, são homenageados frontalmente como se devêssemos homenagear a um estrangeiro... Isto raia ao ridículo! A sistemática ignorância dos indivíduos-símbolos que honraram o nosso passado pela cultura, pelo trabalho, leva-nos a acreditarmo-nos incapazes, povo sem história, povo sem dignidade, povo sem tradição, sem espírito de compreensão, subserviente e impressionável diante de mentalidades arrivistas que nada contribuem, nem contribuíram para a nossa grandeza moral e prática. Que exemplo se pretende oferecer às gerações formadas na anarquia política em que nos debatemos? Onde estão, por exemplo, as placas com os nomes de um frei de Santa Luzia, de um Bararoá, de um Bernardo de Sena, de um Adolpho Lisboa, de um Galdino Ramos, homens que em várias épocas e em vários planos de atividades dignificaram a inteligência e mantiveram alto o nosso nome?

Visto(sic) a insistir na necessidade de uma revisão no cadastro municipal e na confecção de uma planta geral da cidade, uma planta menos vigarista que corrija os numerosos defeitos de outras que foram desenhadas com o intuito, parece, de apenas provar hilaridade. Senhores, pensem bem que a história é uma Themis terrível que nem perdoa e nem esquece!

sexta-feira, dezembro 01, 2017

PARÓQUIA DE EDUCANDOS (II)

Padre Antonio Plácido
Padre Antônio marcou o bairro de Educandos, pela sua capacidade de mestre de obras e produção de longo sermão nas missas dominicais. Fui testemunha e padecente desses prédicas, como seminarista e frequentador da sessão matinal do cine Vitória. Quase sempre perdia ao início do filme. Na condição de seminarista, estive ajudando-o até quando me transferi do bairro, em 1959.

Esses primeiros passos da paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro retirei do Suplemento intitulado As festas jubilares (1946), encartado no A Reação (desaparecido jornal católico), e complementa a postagem anterior.


OFICINAS DE SAPATARIA
Revivendo o estabelecimento de ensino profissional que deu o nome àquele bairro, o “Educandos Artífices”, dos dias de 1858, hoje funciona ali uma oficina de sapateiro, que bem poderá ser o núcleo de futuras oficinas profissionais masculinas. Mantida também pela Paróquia, a oficina de Sapataria, apesar de estar em começo, vem despertando o interesse dos jovens do bairro e sob a direção de um mestre habilitado ali estão 15 aprendizes.

ENSINO RELIGIOSO
É o ensino religioso ministrado, semanalmente, pelo Vigário, com a colaboração de 15 catequistas. Para estas, às quintas-feiras, há uma aula especial, onde recebem a orientação para transmitir conhecimentos às crianças.
Em nº de 330 são os alunos de Catecismo, apresentando a frequência semanal de 200.

ESCOLA PAROQUIAL
Vem funcionando com regularidade as aulas da Escola Paroquial. Há o curso diurno para as crianças do bairro e o noturno, para os operários, de ambos os sexos, que não dispõem de tempo para estudar durante o dia.
 
Igreja em construção
DIVISÃO PAROQUIAL 
São seis as zonas em que se acha dividida a Paróquia: 1) bairro de Educandos – Matriz; 2) Terra Nova; 3) Paraná da Eva; 4) Murumurutuba; 5) Tabocal; 6) bairro de Sta. Luzia.
As povoações de Terra Nova, Colônia Oliveira Machado e Tabocal possuem cada uma sua Capela. Está sendo construída uma, no bairro de Santa Luzia.

ASSOCIAÇÕES RELIGIOSAS
Associações Religiosas e número de membros:
Apostolado da Oração, 206; Pia União das Filhas de Maria, 42; Cruzada Eucarística (fem. e masc.), 40; Obra das Vocações Sacerdotais, 81; Amiguinhos do Menino Jesus, 38; Irmandade de N. S. do Perpétuo Socorro, 63; Irmandade do Santíssimo Sacramento, 8.

EM SOCORRO DAS VÍTIMAS DO INCÊNDIO
Teve o Vigário a ideia de construir uma casa, pelo menos, para uma das vítimas do incêndio que devorou grande parte de casebres do seu bairro. Pôs mãos à obra e a casa concluída foi sorteada entre as vítimas e entregue imediatamente. A despesa com a construção foi de Cr$ 9.000.00
Angariaram óbolos para esse fim: Frei Timóteo — Cr$ 3.050,00; Liga de Defesa Popular – Cr$ 1.500,00; Povo do Educandos – Cr$ 800,00; a Diocese contribuiu com Cr$ 1.000,00 e o Vigário, Pe. Plácido, com Cr$ 2.650,00.

CONSULTÓRIO MÉDICO
O Consultório Médico de Educandos, mantido pela paróquia, está sob os cuidados profissionais do Dr. Jorge Abrahim que, gratuitamente, vem assistindo à pobreza do bairro. Dispendeu o Vigário, em remédios e auxílios, a soma de Cr$ 6.000,00.

ESPORTES

Possui a paróquia courts de Volei, de Basquete e de Futebol, além de uma animada turma de Ping-Pong, constituindo esses esportes o mais sadio meio de diversão de que a juventude masculina do Bairro.

quinta-feira, novembro 30, 2017

PARÓQUIA DE EDUCANDOS (I)

Matriz de N. S. Perpétuo Socorro, c1947
Educandos, até então designado de Constantinópolis, tornou-se o primeiro bairro a ser constituído em paróquia, sob a proteção de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Visto que a ocupação católica da cidade partiu do Centro, onde surgiram as primeiras paróquias: Matriz, Remédios e São Sebastião.

Dom João da Mata, bispo do Amazonas entre 1941-47, foi o artífice deste predicado, entre tantas obras bem sucedidas de seu governo. A Casa da Criança é uma dessas que ainda segue aproveitada. Para estabelecer a paróquia educandense, o bispo aproveitou a ordenação do padre Antônio Plácido de Souza, em 1941.

Padre Antônio marcou o bairro de Educandos, pela sua capacidade de mestre de obras e produção de longo sermão nas missas dominicais. Capaz de respeitáveis empreendimentos, construiu a igreja que, obviamente modificada, ainda serve à comunidade. 

Dessa maneira, manteve-se à frente do paroquiato até sua morte em 1966, portanto, por exatos 25 anos. Em reconhecimento ao seu lavor, a cidade de Manaus marcou seu nome na ponte que liga o bairro ao Centro.

Um pouco mais dos primeiros passos da paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro retirei do Suplemento intitulado As festas jubilares, encartado em A Reação, extinto jornal católico, (1946).  

PARÓQUIA DE EDUCANDOS
Capa do Suplemento

Até 1941, o bairro operário de Educandos teve a sua vida religiosa ligada a da Paróquia dos Remédios, de que era Curato. Estendia-se, então, até ali, a jurisdição daquela Paróquia, atravessando o Igarapé do Educandos para do outro lado atingir a população operosa daquele extenso bairro.

A 16 de dezembro de 1941, no 1º ano de seu governo, D. João da Matta Andrade e Amaral, Bispo Diocesano, decretava a criação da Paróquia de N. S. do Perpétuo Socorro. Passava o antigo curato a constituir uma das paróquias da sede episcopal, tendo à sua frente, por provisão de 24 de dezembro do mesmo ano, como garantia de seu desenvolvimento, o Pe. Antônio Plácido de Sousa, sacerdote amazonense que, oriundo de família operária, se integraria ao meio para melhor desempenhar a sua tarefa de guia de almas. Fora feliz a escolha, ou antes, melhor e mais acertada não poderia ter sido.

Quem conheceu a pequena capelinha em ruínas e, mais tarde, viu surgir, no mesmo local, no alto, a ser divisada da cidade, a ampla e elegante matriz de N. S. do Perpétuo Socorro, com suas duas torres, toda em madeira, não pode deixar de erguer o seu voto de louvor a quem impulsionou essa transformação.

Hoje já está em andamento a construção da Matriz definitiva. A casa paroquial espaçosa, alta, descortinando lindo panorama da cidade de Manaus, já está concluída. Os braços da cruz e a capela-mor estão sendo agora erguidos.

Ali, os operários têm um exemplo no operário-chefe da turma: o Pe. Plácido, o vigário. O seu esforço é admirável. Auxiliado pela população traz, da “beira do rio”, as pedras que se empregam na construção. Fabrica ele próprio tijolos, trepa nos andaimes e, como um pedreiro qualquer, se dedica ao trabalho de dotar o bairro de Educandos de uma igreja ampla e moderna, que poderia figurar em qualquer capital. A despesa com a construção sobe a Cr$ 280.320,00.

OBRA SOCIAL - "CASA DO POBRE"
Na Semana da Pátria de 1943 foi aberta a “Casa do Pobre”, em Educandos. Ali funcionam, desde este tempo, sob a competente direção da Srta. Rosa Castelo Branco de Alencar, aulas regulares de Corte e Costura, Bordado a mão e à máquina e flores. Meninas e moças ali aprendem trabalhos manuais que constituirão um dote, tornando-as jovens prendadas. Isso muito pode contribuir para a economia de seu lar, sendo-lhes, futuramente, fonte de renda.

São as alunas em nº de 80. As aulas, inteiramente grátis e o material, as mais das vezes, fornecido pela diretoria da Sala de Costura. (segue)

sábado, julho 18, 2015

POLÍTICA EM EDUCANDOS

Pe. Plácido
Em 1950, num comício no bairro de Educandos, então conhecido por Constantinópolis, ocorreu um desentendimento, semelhante a velha piada do bêbado que atazana o candidato. Nessa noite, a polícia interferiu, dando motivação a notícia fantasiosa que segue, sacada do melhor jornal da cidade.

Para melhor entender, nesse ano a disputa pelo governo do Estado era travada por Álvaro Maia, que afinal venceu, e Severiano Nunes. O tabloide, defensor de Maia, como facilmente se pode notar noticiou um episódio inverossímil.


4 TIROS DE FUZIL CONTRA O PEITO DE UM SACERDOTE (*)
O padre Antonio Plácido vítima dos udenistas

Caso dos mais revoltantes registrou-se à noite de domingo último, no populoso bairro de Constantinopolis, quando ali se realizava um minguado comício da União Democrática Nacional, facção político-partidária que já faliu completamente no seio acertado da opinião popular, pelas atitudes sórdidas e antidemocráticas de seus desenfreados líderes.
Horas tantas da noite daquele dia, o povo daquele laborioso bairro, que acompanha para toda o libertador Alvaro Maia, revoltando-se com os ataques indignos que os udenistas vinham lançando contra a Frente Libertadora, começou a vaiar os oradores da "eterna bandalheira" e a dar vivas estrondosas ao ínclito senador da libertação.
Como costumeiramente acontece, logo foi convocado a Polícia Civil do Estado que, cumprindo ordens absurdas de seus chefes, começou a ameaçar o povo, de baioneta calada, como se o povo ordeiro de Constantinopolis, fosse uma massa de criminosos vis e pestilentos.
Em dado momento, um pobre cidadão, velho já de idade, porém com liberdade de consciência, resolveu dar um viva ao senador Álvaro Maia e bastou isso para que os beleguins da Polícia, assalariado do governo nefando que infelizmente domina o Amazonas e o infelicita às raias do absurdo, desse ordens para que os seus subordinados agissem conte a o referido cidadão, silenciando-o de qualquer maneira.
Naturalmente procurando livrar-se da sanha iniseravel dos algozes da coletividade amazonense, torpes perseguidores e infelizes tripudiadores das liberdades públicas e individuais, o pobre ancião pediu ao socorro à alma boa e caridosa do padre Antonio Plácido, paróco da igreja de Constantinopolis.
Cumprindo um velho mandamento do Divino Mestre, padre Plácido, que nunca negou abrigo aliviador a quem quer que seja, recolheu na casa de Deus o referido cidadão, livrando-o assim da fúria desenfreada dos policiais, principalmente do indigno, nojento, maltrapilho, burro, ofensor da moral alheia, indivíduo que ja bateu em sua própria mãe, portanto, desclassificado, Geraldo Dias. Tudo parecia acalmar-se com a atitude generosa e humana do padre Plácido, quando os beleguins udenistas detonaram por 4 vezes os seus fuzis, sobre o benquisto sacerdote da Igreja de Cristo, num verdadeiro sacrilégio e num virulento ataque à própria Casa de Deus, já que mencionado sacerdote reside ali.
Felizmente nenhuma das balas atingiu o alvo desejado pelos da "eterna bandalheira". Felizmente aconteceu isso e o padre Placido esta para contar a verdade dos fatos, depois que pediu providências às autoridades federais.

(*) O Jornal, 12 de setembro de 1950 

domingo, abril 26, 2015

PONTE DE EDUCANDOS

Em outubro, a ponte que liga este bairro com o Centro de Manaus, intitulada de Padre Antonio Plácido de Souza, completa 40 ANOS (fotos). Trata-se da terceira ponte construída naquele subúrbio, e a denominação contempla o primeiro vigário da paróquia de Educandos.


segunda-feira, junho 17, 2013

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO


Recorte do boletim,
de 19 junho 1949
Certo dia, meu pai me presenteou com um folheto que, descolorido pelo tempo, juro não dei a menor atenção, mas permaneceu aquela curiosidade. Apenas verifiquei que se tratava de um boletim publicado pela paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Educandos, em 1949.

Em outro certo dia, chegou o momento de me dedicar ao conteúdo do folheto. E qual não foi minha surpresa quando em uma das páginas encontrei minha foto (veja as ilustrações), contando do meu aniversário naquele junho. Eu possuía solamente três anos e pousava no estúdio Artístico.

Hoje, 17, completo 67.

Semanário da paróquia de Educandos
 
A igreja de Educandos do padre Antônio Plácido foi meu primeiro porto seguro. O saudoso sacerdote conseguiu-me uma vaga no Seminário São José, ali na rua Emilio Moreira com a avenida Ramos Ferreira, onde hoje a Uninorte ensina os futuros advogados. Consegui completar a metade da caminhada, se pensava em ser padre.

Foi o vigário de Educandos que me ajudou a passar a primeira ponte que ligava o bairro a outro destino: a Cachoeirinha. Depois vieram as minhas conquistas e topadas, as vivas e as lágrimas e tantos outros incidentes. Passei no quartel da Praça da Polícia a vida operativa, meu único emprego. Nestes agoras, à margem do igarapé de Manaus dedico-me a catar papeis e a relembrar histórias. Como esta que meu pai protagonizou.

Escrevi isso para agradecer ao velho pai – Manoel Mendoza, que me espia com seus olhinhos cheios de nuvens que a catarata vai consumindo. Me espia de longe, bem longe. Não, ele ainda vive quase centenário, em São Paulo, capital.

Para ele, que soube guardar com carinho e devoção um pedaço história de Educandos saudoso e da Santa padroeira que sei o protege, meus parabéns nesse dia festivo para mim.

quinta-feira, novembro 01, 2012

PARÓQUIA DE EDUCANDOS

Pe. Plácido, no palanque da
igreja de madeira,
antes da atual, 1942
Este bairro marcou em diversas oportunidades e formas sua presença na evolução de Manaus: a denominação, proveniente da escola dos educandos artífices; a mudança de nome para Constantinópolis, que não colou; pela “estrada”, hoje avenida Leopoldo Peres, aberta pelos moradores; pela presença do padre Antônio Plácido e suas metáforas, nem sempre religiosas; pela exuberância da Baixa da Égua; pelo cine Vitória e outros canais de diversão, estes pouco condizentes com a tradicional família educandense, os “inferninhos”.

Dom João da Matta
Para lembrar a instalação da paróquia de Educandos, sob a proteção de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e, óbvio, pequeno relato da história do bairro, reproduzo o texto encartado no Suplemento, comemorativo das festas jubilares da Diocese de Manaus, em 1946. Nesse ano e na vizinhança dessa igreja, eu nasci.

Até 1941, o bairro operário de Educandos teve a sua vida religiosa ligada à da paróquia dos Remédios, de que era curato. Estendia-se, então, até ali, a jurisdição daquela paróquia, atravessando o igarapé de Educandos para, do outro lado, atingir a população operosa daquele extenso bairro.

domingo, setembro 23, 2012

As Catraias e a Ponte de Educandos



As catraias, no primeiro plano, com a cobertura de tecido.
Ao fundo, o bairro de Educandos
 
Morador do bairro de Educandos, cujo subúrbio, por décadas, manteve-se cercado de águas, utilizando catraias para se ligar com o centro da cidade, por essa razão, utilizei bastante esse meio de transporte. Mas, que raios são as catraias? Falo de um pequeno barco, geralmente com duas proas, bem resistente e que pode ser conduzido por uma só pessoa. Usado para transporte e outros serviços em portos, baías, doutrina o dicionário Aulete. Aproveito para acrescentar um detalhe: usado também em igarapés, como o de Educandos e de São Raimundo, em Manaus.  

Em Manaus, quem conheceu esse meio de transporte e melhor traduziu esse sentimento com as catraias foi o saudoso sãoraimundense Áureo Nonato (1921-2004). Vivendo no Rio de Janeiro, gravou parte de suas reminiscências no livro Porto de Catraias: um memorial da adolescência (1987).  

Como se pode observar na ilustração, para dar ligeira proteção do solzão amazônico, havia uma cobertura feita de tecido, sustentada por mastros de madeira. Bancos laterais acolhiam os passageiros, que não dispunham de qualquer outra proteção, como os hoje conhecidos salva-vidas. Enfim, a curta viagem levava o passageiro de um lado ao outro do igarapé (pequeno curso de água que, na Amazônia, aumenta e diminui conforme a enchente). Portanto, durante o período de vazante, esse percurso era irrisório. 

No entanto, o bairro de Educandos que já se ligava ao da Cachoeirinha pelas pontes Efigênio Sales e Juscelino Kubistchek, exigia mais. Queria se ligar diretamente ao centro da cidade por mais uma ponte. Veio então a ponte denominada de Padre Antônio Plácido, falecido vigário daquela do bairro, da paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.  
 
Ponte Padre Antônio Plácido, vista do centro (à esq.), cujo trecho foi
modificado pela Manaus Moderna


A ponte foi inaugurada em 1975 e, logo, as catraias e os valorosos catraieiros fizeram paulatinamente suas despedidas. Registro aqui minha homenagem.

sábado, maio 19, 2012

Mudança de nome de ruas


Mário Ypiranga
Reproduzo artigo muito oportuno do escritor Mario Ypiranga Monteiro (1909-94), no qual, este clamava contra a identificação de nossos logradouros. Nele, recriminava as distintas maneiras utilizadas para a designação de nossos caminhos. Ao tempo, lembrava o articulista, recorriam-se aos santos. Agora, não é novidade, aos políticos de plantão e suas árvores genealógicas. Tanto os ascendentes quanto os descendentes servem para “proteger” os espaços alcançados e dominados.

Lastimoso que as palavras do finado Mário Ypiranga tenham sido lançadas ao vento: em nossos dias, o administrador e outros “puxas” embirram para que seu venerável nome substitua a designação da secular rua Recife, assim como, Calderaro em substituição a rua Paraíba, quando se sabe que cada uma dessas “existe de segres”.



Caveira de Burro

Jornal do Commercio, 15 de junho de 1975

Para quem como eu familiarizou-se com a história pitoresca das ruas de Manaus (Roteiro Histórico de Manaus, 1969), a alusão e a crítica a certas incongruências não mais admira.
Certa feita um matutino trouxe observação oportuna do edil Damião Ribeiro à anarquia reinante na nomenclatura de certas ruas. O fato não é novo, certamente, mas acreditamos que depois de 1930 para cá a confusão se generalizou de tal maneira que ruas de Manaus existem de que não mais se sabe o nome real, à carência de placas elucidativas. As placas modernas sempre foram um problema pela estupidez com que foram organizadas, sem histórico.

Por exemplo, aquele vereador fazia referência às ruas, trechos da de Belém (rua de Marciano Armond); de Leonardo Malcher (de Governador Bacelar); beco da Paciência (rua Universal); bairro da Raiz (de Santo Agostinho); rua de Nhamundá  (de Barbosa Rodrigues) e rua de Japurá (do Professor Rayol).
Ponte Cônego Plácido, que liga Educandos ao centro
O mau vezo de dar-se nome de santos (às vezes cassados) a ruas e bairros é um fenômeno psicológico que foge a nossa preocupação, mas ao mesmo que os diabólicos promotores de transferências de nomes respeitassem a tradição avoenga, quando ela existe de segres. O bairro dos Tocos, onde nasci, foi idiotamente denominado de Aparecida quando com um pouquinho de senso, respeitando a religião, poderia ficar Nossa Senhora Aparecida dos Tocos, a exemplo da Nossa Senhora do Ó (Portugal), Nossa Senhora de Copacabana ou São José de Apipucos, onde reside o meu excelente amigo Gilberto Freyre, e quejandas toponimais. Respeitava-se a tradição e reverenciava-se o patrono ou matavam-se dois coelhos com uma porrada.

Assim, Santo Agostinho da Raiz (ah! o velho igarapé da Raiz onde tomei muito banho) ficaria tão bom como São Geraldo dos Bilhares, sem que ninguém viesse a especular se São Geraldo era dado às caraboias (sic) ou o venerável Santo Agostinho, a quem sempre leio e admiro pela coragem de confessar-se publicamente, tivesse tomado algum banho no local ou tomado chá-de-raiz.

Me assustam esses criadores de situações novas e difíceis para a história da cidade. A bagunça é tal para os lados da Prefeitura e tal a carência de espírito nacionalista, que até estrangeiros a quem nada devemos e que nem sabem se Manaus existe, frequentam a onomástica urbana numa concorrência aos bons filhos da terra ou a brasileiros outros que aqui pelejaram e a quem se vem cometendo injustiças clamorosas com o esquecimento. Cândido é quem chamou de Kennedy e Roosevelt a rua e praça da cidade, apunhalando pelas costas a história nossa.

Quando é que se vai colocar um paradeiro a esse quadro negativo? Quando é que vai aparecer alguém que tome a pelo endireitar essa casa de Orates? Das plantas de Manaus então nem se fala! É aquela garapa! Nomes adulterados, nomes incompletos, nomes ilegíveis, nomes em duplicata, triplicata, quadriplicata, um inferno para o historiador, para o serviço postal, para todo mundo.        

Outro dia houve um desaguisado a respeito do nome a ser dado à ponte nova sobre o igarapé da Cachoeirinha de Manaus, mais conhecido por igarapé dos Educandos. Concorrentes póstumos foram o Cônego Plácido, o meu bom e querido amigo Cônego Plácido, amazonense que dizia haver dinamizado o bairro de Constantinópolis, embora em prejuízo da memória do Dr. Jacques de Sousa Lima, o verdadeiro dinamizador daquele trecho com João Brígido; e o meu caro companheiro de escotismo Ramayana de Chevalier.

Candidatos fortes e bem apadrinhados, não há que ver, e todos merecedores de homenagem dessa natureza. Mas parece que os padrinhos se esqueceram de duas coisas: primeiro que existe na Prefeitura de Manaus um projeto muito antigo para a construção daquela ponte, como também para a ponte sobre o igarapé do Teiu, dito de São Raimundo Nonato; segundo, há uma lei federal não revogada, proibindo em todo o território nacional duplicidade de nomenclaturas, toponímias de caráter público.

Se a coisa for pra-valer, o falecido Rama [Ramayana de Chevalier] perderá, pois já foi contemplado em vida com uma rua. E se a nossa colenda Câmara levar a sério o trabalho de revisão dos nomes de ruas, praças, jardins etc., seu Getúlio [Vargas] e outros nababos vão ficar no singular, dando a vez para a memorização de gente a quem o Amazonas deve e muito.
Isto porque em Manaus o que mais ocorre é essa indisciplina. Apesar de que me estafei para escrever a histórias das ruas e demais logradouros públicos desta minha leal cidade, não há uma simpatia pela ordem neste sujeito.
Rua Paraíba, 1970, em direção ao Parque Dez
Qualquer cidadão dá nome a um beco, um bairro nascente, sem que a Câmara se ajuíze da irregularidade, quando essa confunde com a cumplicidade. Às vezes, nomes ridículos, fesceninos, ou cheirando a novelas, como é o caso do Coroado.
Quando é que se pretende acabar com essa anarquia? Bairro Alvorada existem dois! Mas eu creio que o pior problema é o da avenida de Constantino Nery. Na realidade não deveria existir nem este nem o nome João Coelho. A avenida, estrada antigamente, de Epaminondas, para homenagear aquele presidente dinâmico que a mandou rasgar até para além de Flores, isto é, naquele tempo até o bairro da Cachoeira Grande, chamado também de Flores. Esclarecemos que já existe uma homenagem a Constantino Nery, em Constantinópolis, embora este houvesse mandado ampliar a estrada de Epaminondas.
Avenida Constantino Nery, em 1970 (acima) e 2003.


O fato mais ridículo que se conhece e que diz respeito à carência de cultura de certos administradores aconteceu no governo Arthur Reis [1964-67]: ele exigiu que algumas ruas dos bairros de São Francisco-Petrópolis recebessem nomes de presidentes da província. Foi o suficiente para que a colônia dos “puxas” destrambelhasse e andasse catando nomes aí, atordoada e inepta. O resultado é que um cidadão cujo nome completo já estava honrado, aparece noutra rua com a abreviatura! Duas ruas com um mesmo nome porque o raio do pesquisador não dava às gatas, sem saber como descascar o abacaxi.

E as plantas de Manaus? A melhorzinha dos últimos anos é a traçada pelo meu mano, Dr. Aluizio Brasil, não fosse prejudicada pela má leitura de certas ruas. A última, que se apregoa trabalho aerofotogramétrico deixa muito a desejar. E a coisa não para, não se resolve nada, enquanto muito se fala em projetos de urbanismo, alguns tão velhos que já caducaram pela novidade.

Prega-se a urbanização da cidade e todos os dias registro o vandalismo da canalha contra a paisagem, o fogo devorando árvores de sombras e até de frutos. Não há uma lei proibitiva do corte de árvores! Mete-se o machado à revelia e vem falar-se patrioticamente em Dia da Árvore!

Todos os dias surgem cochichos, numa proliferação de cogumelos. Até em frente do Palácio Rio Negro! Ameaça à saúde pública, ameaça aos nossos foros de civilizados. O historiador que cuida do processo histórico da cidade, vê, anota e arquiva.
Manaus cresce em sentido vertical, mas as plantas residenciais continuam naquele asfixiante três por três; a vidraçaria continua sendo implantada por arquitetos que só entendem de arquitetura e não de climatologia;
trágico desafio ao prolongamento da
existência numa cidade chantada em área de baixa pressão, escassas possibilidades de ventilação, forno do futuro. Os flutuantes começam de aparecer nos igarapés centrais numa imitação suburrana.

Amanhã, quando a história ocupar-se desses maus administradores, aparecerá quem se insurja, esquecidos eles de que os homens públicos devem satisfações ao presente e que seus atos serão julgados pela posteridade.

Nota: agradeço ao colecionador Ed Lincon a cessão deste recorte.