CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

3 de novembro de 2012

PM DO AMAZONAS & CANUDOS (1/5)



Gravura existente no memorial de
Antônio Conselheiro, em Canudos
Decreto governamental estabelece que a Polícia Militar do Amazonas relembre, em 8 de novembro de cada ano, o retorno de sua tropa expedicionária a Canudos (BA). A determinação vai ser cumprida, na quinta-feira 8, quando esse evento completa 115 anos.

De minha parte, autor de Cândido Mariano & Canudos, a fim de repassar o envolvimento da força estadual amazonense no conflito, vou reproduzir em cinco capítulos o trabalho que organizei para o Museu Tiradentes.


  1. AS ORIGENS DO MOVIMENTO SOCIAL
Episódios bem distintos associaram-se na produção da Campanha de Canudos (BA), apesar de Canudos localizar-se no agreste sertão do estado da Bahia. Aquele arraial não era assim denominado, pois o fundador preferia Belo Monte; por isso, ambas as denominações perpassam a história do conflito armado. Antônio Conselheiro, nascido em Quixeramobim (CE), na metade do século XIX, foi o fundador; a Força Terrestre, o devastador, para isso empregaram quatro expedições, na última das quais conta-se a participação do Amazonas. Além do empenho dessas forças, empenharam-se naquele sítio frades capuchinhos e políticos baianos e, na então Capital Federal, intelectuais e políticos e a imprensa ali sediada. A Justiça igualmente contribuiu para a peleja, quando certo magistrado se intrometeu às avessas.

Algumas dificuldades brasileiras de antão: em 1888, a princesa Isabel extinguiu a escravidão negra no Brasil. Sem qualquer preparativo ou cuidados básicos, os beneficiados se viram desagregados: sem patrões e chibatas, mas sem empregos e moradia. De repente souberam de um acolhimento que, conta a lenda, seria um local de “cuscuz e leite”. Localizava-se às margens do rio Vaza-Barris, favorecido por um entroncamento de caminhos ligando o sertão baiano: o Belo Monte do Conselheiro. O extinto Canudos. 

Ali se achegou respeitável número de negros emancipados. No ano seguinte (1889) desabou o Império e, com isso, a mudança do regime. O regime republicano, contudo, foi consolidado à força.  As Forças Militares, preparadas para se ombrear em defesa da “ordem e progresso”, em alguns episódios estiveram se enfrentando. Por ocasião de Canudos, Prudente de Moraes (1895-99) presidia o País. Fora o primeiro presidente civil; mas, os militares e outros saudosistas do imperialismo destacavam a incompetência deste presidente. 

A religião católica dominava fortemente a crendice da população brasileira, com total prestígio nos brejos e descaminhos do País. Servia tanto para o controle social quanto político. Foi esse prestígio que a Igreja tentou, quando, em 1895, dois emissários do bispo da Bahia abriram as Missões, em Canudos. A pregação religiosa conflitou com a religiosidade prática inerente àquele tempo, com a orientação do Conselheiro.

Bastante conhecido por reformar cemitérios, opondo-se à decisão dos dirigentes da República que retirou este serviço da Igreja e o passou ao encargo do Estado. Mas, a ele também se atribuía a reforma e a construção de igrejas. Outro fato proeminente era sua condição de atrair devotos, que o seguiam, acampando em propriedades de terceiros, em caminhadas por municípios, em território sem estradas ou caminhos, apenas demarcados pela passagem de animais de carga. Como era reconhecido, Antônio, primeiro foi beato, depois, dispondo de barba esbranquiçada e longo traje, e apoiado em bastão, conquistou o topo da hierarquia: Conselheiro. Com essa dignidade, faleceu em Canudos (1897).

* * *

Tal qual o País, também o Exército passava por uma reformulação, que ainda curtia os princípios estratégicos da Guerra do Paraguai (1865). Estava defasado tanto em estratégia quanto em mobilização. Certamente, por esses predicados, foram desperdiçadas tantas vidas e vitalidade em quatro expedições.  E, talvez por isso, tenham os governantes da Bahia, o governador e o comandante do Distrito Militar, disputado o poder sobre a diligência militar. Resultado: a Segunda Expedição foi derrotada muito mais pelos desacertos dessas autoridades. No mesmo sentido, as polícias estaduais que foram apenas consignatárias.

A imprensa sediada no Capital Federal, ou melhor, na Rua do Ouvidor, ampliava o problema, olhando como segue acontecendo de longe. E, de bem distante. Talvez, saudosistas do militarismo dos primeiros dias da República impuseram o comandante da terceira e desastrada expedição: coronel Moreira Cesar. Quase no mesmo quarteirão localizava-se o Poder Legislativo (Senado e Câmara) do Brasil. Local de discussão apregoava o temor do retorno ao poder imperial, atribuindo ao Conselheiro esse poder. 

A derrota de Moreira Cesar, comandante da Terceira Expedição, causou uma comoção no País. Era preciso vingança. Era necessário destruir os conselheiristas ou jagunços, entre tantas alcunhas concebidas. De Norte e do Sul levantaram-se as vozes e forças para a retomada das ações. O Governo Federal toma para si a empreitada e designa um general para o comando. Desafortunado, o Exército cuidou de melhor aparelhar a investida, organizar a campanha. Assim, duas colunas foram organizadas contra Canudos. Naquela, saída de Aracaju (SE), estava presente o major Constantino Nery, nosso conterrâneo e futuro governador do Amazonas (1904-07).
Alguns Estados, especialmente os governados por militares, prontificaram-se em colaborar com recursos humanos e financeiros.  O Governo Federal já denunciava expressivo déficit com as operações executadas contra Canudos. Deste modo, entre tantos oferecimentos, a presidência da República aceitou a cooperação dos estados da Bahia, do Amazonas, do Pará e de São Paulo. A Bahia, porque estava envolvida desde o primeiro instante, afinal a peleja se desenrolava no seu território; os estados do Norte puderam agir dessa maneira coadjuvados pela riqueza que a borracha proporcionava; e São Paulo, que já começara prosperar com a cafeicultura, dava os primeiros passos rumo ao progresso que hoje indiscutivelmente assegura. (segue em 2/5)